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Arquivo da tag: Voyeurismo

E de repente o silêncio, durante o filme. Qualquer coisa que eu dissesse seria tremendamente estúpida. Disse muitas coisas estúpidas essa noite. Não me importei tanto, mas naquele momento eu sabia que era diferente. Olhei pra tela, fria. Movimentos contínuos e repetitivos. Uma vontade que não se alcança. Meu olhar é de admiração e um pouco de tédio. Sempre existe um pouco de tédio nessas situações. No entanto, eu salivo. Espasmos, pavlovianos. Quero isso na minha boca, quero isso em mim. Engulo uma saliva, espessa. Bom filme, penso. Falo. Eu tremia, de frio. Vamos ao próximo. Um bastante específico. Eis que noto uma movimentação diferente, mas nada digo. Observo, entendo o que acontece. Ah, é isso então? Aliás, é isso também? Não ofereço ajuda. Continuo olhando a tela, me sentindo meio boba. Me entedio. E então percebo que o filme não está exatamente ali. Experimento olhá-lo, o outro, brevemente em seus detalhes. Indicador esquerdo na têmpora, um olhar vazio que escaneia a tela, lábios entreabertos. Uma eventual coceira na cabeça. O indicador direito pressionando com todos os outros dedos, um desejo, nada reprimido. Voltei o olhar pra tela. Repetitivo. Desinteressante, pra mim. Eu queria algo que eu não visse todos os dias. Resolvi encarar o outro, dessa vez mais lentamente. Felizmente o fiz exatamente na janela de momento certo, um bom timing. Os seguintes segundos duraram séculos e tudo aconteceu ao mesmo tempo. As nuances azuladas da tela no rosto, enquanto ele corava suave e timidamente. Os olhos se apertando, não fechados, mas semicerrados. Um suspiro, longo e baixo, meio que sem cadência, como que se escapando pela boca seca e entreaberta. A expressão de total desligamento da realidade e os pequenos espasmos do corpo. Uma respiração levemente entrecortada, após o término. O indicador esquerdo, ainda na têmpora, mesmo que não exista mais concentração alguma ali. O filme acaba. Agora eu sei que a sensação de tédio volta mais forte. Aquele desejo, mesmo que breve, de morte. Talvez um ódio meio irracional. Sei disso. A tela desce. Sei também que foi bom poder ver isso. O meu indicador direito, entre meus dentes, contendo os espasmos de saliva. E uma vontade específica. Acho que o outro não notou que eu o observava, muito de perto, o tempo inteiro. Isso torna tudo ainda mais interessante. Eu deveria ir dormir agora, qualquer outra coisa que eu diga será estúpida. Está silencioso por aqui.

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