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Arquivo da tag: Violência

Ontem eu estive no consultório médico para uma última consulta, antes da cirurgia. Sempre fui nas consultas sozinha e nunca tive grandes problemas com isso, o consultório vive cheio e enfim, as consultas sempre foram bastante objetivas. Mas ontem me chamou atenção o fato de estar lá uma família, com uma mocinha jovem que devia ter uns 20 e poucos anos, e ela estava bem ansiosa, andando pra lá e pra cá enquanto os pais aguardavam e pediam para ela se acalmar. O pai, indiferente. A mãe, talvez até mais ansiosa que a própria menina. E do nada me deu uma sensação ruim, sabe? Fiquei com a impressão de que a menina não queria realmente estar lá. Ou que, no mínimo, sequer sabia o que estava fazendo por lá.

O médico me chamou primeiro, tirei minhas últimas dúvidas, fiz as perguntas que tinha e depois aguardei numa sala próxima, pois tinha que resolver outras coisas e vi quando ele chamou a menina e a família. Foi bem bizarro quando a mãe da menina saiu da sala, com o olhar arregalado, em euforia, e me dizendo “obrigada moça, até mais!” sabe-se-lá bem porque. A menina saiu apressada e indiferente e a mãe em um estado de excitação incomum demais para algo que provavelmente não seria feito com ela. Achei essa cena meio triste. Deprimente mesmo. Me fez lembrar e ter certeza exatamente do porquê que eu quis minha mãe o mais distante possível de todo este processo que agora chega ao fim.

Entendo que nossos pais tenham boas intenções conosco boa parte do tempo, mas a verdade é que às vezes eles ferram a nossa vida – mesmo tendo boas intenções – e isso é uma merda. É claro que a mãe daquela menina não pensa que está fazendo mal a ela. Ela quer que a menina faça isso para poder ficar bem. Por outro lado, a garota acaba passando por um processo emocionalmente complexo e fisicamente estressante de forma completamente inconsciente. E isso é até confortável em certa medida: ela delega tudo para a mãe e não se preocupa com nada, não busca o que vem de dentro, não se ouve, não entende como o próprio corpo funciona, tudo é completamente externo. Tudo é sempre feito pela outra parte. E é como se ela só tivesse que passar por isso meio que por acaso. Como se não fosse diretamente com ela. Acho isso meio assustador.

Não acho que temos que ter controle sobre absolutamente tudo, mesmo porque isso é impossível. Mas pra mim é inadmissível passar por algo assim, delegando uma boa parte da minha vida para outra pessoa. Não se trata de falta de confiança ou não, mas de perda total de autonomia e até certo ponto, identidade mesmo. Em certa medida, considero isso até uma certa violência com a pessoa – ainda mais no caso de uma pessoa jovem e/ou adolescente que não tem o mínimo de discernimento nem poder de decisão com nada. É tudo muito triste. O que resta é apenas se submeter ao que os pais mandam e pronto, acabou. Nada é questionado, nunca. Isso, essa falta de responsabilidade de ambas as partes, só traz mais sofrimento como um todo. A tentativa ao menos deveria ser a de sempre se tornar o mais consciente possível. Fora disso, as coisas parecem muito mais difíceis do que podem ser a princípio.

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