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Arquivo da tag: Vida de Merda

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Você nasce sem pedir. Teus pais tentam o melhor, mas eles também ainda não conseguiram saber quem eles realmente são. Então começa a jornada do herói. A ferida, o passado, as inúmeras tentativas, os fracassos, a solidão. Nem todo herói será um vencedor. O que é ser um vencedor?

Ser vencedor para o mundo é ter dinheiro. Não importa os meios, mas sim o dinheiro. O dinheiro compra tudo, amigos, principalmente. Arrume um emprego, mude de vida, seja forte, pense positivo, levante cedo, trabalhe duro, mas no final do dia você nem consegue pagar as próprias contas.

Ser vencedor para o mundo é ter status. Não importa se você é um estuprador, se você é um corrupto, se você usa várias máscaras durante o dia. As pessoas vão te amar sem dúvida alguma. Ninguém vai te questionar absolutamente nada.

Você vai envelhecer vendo seus amigos ficando loucos, miseráveis, doentes. Tenha certeza que é tristeza. Não somos iguais, mas somos incapazes de aceitar os diferentes. Como você muda o que não funciona em você? Faça terapia, yoga, compre uma bicicleta, pare de fumar, pare de beber, pare de se drogar, faça um concurso, mude de vida.

Quem quer consegue, se você tem força de vontade, você transforma, o amor transforma, perdoe, aceite, não questione, tudo passa. Pergunte para quem vive com depressão, se passa. Pergunte para quem está prestes a se matar, se a dor passa. Como faz pra dor parar?

Aceite a derrota, você nasceu sem pedir e agora você sabe, você não se encaixa em lugar nenhum. É a hora da virada. Todos pagam suas contas, todos aceitam pagar os impostos sobre o alimento que nem é mais saudável. Morra, o Estado diz. Você aceita. Não se rebele que as coisas pioram. Por que você tem que ser assim, diferente? Todos aceitam, você não vê?

Agora você é um estorvo para seus amigos e sua família. Agora tudo é uma questão de tempo porque você vai morrer. Só os outros não sabem que eles também vão morrer. Os filmes têm finais felizes. Prefiro aqueles que não têm, tem mais a ver com a vida real. A vida real que eu vejo pixada nos muros das cidades, a vida real que dorme todos os dias sobre o papelão debaixo do viaduto, a vida real de quem não viu outra saída a não ser se drogar e fingir. A gente finge que tudo um dia vai passar.

Se você rezasse, se você trabalhasse mais, se você reclamasse menos, se você tivesse feito o concurso, se você não questionasse tanto, se você não fosse pobre, essa é a verdade. Mas eu conheço muita gente rica que não é feliz. O dinheiro compra carro, faculdade, casa no bairro bacana, compra viagem pra Europa, compra tudo, só não compra a felicidade.

Você descobre que um dia não é igual ao outro. Que não há nada que possa ser feito para a dor, a solidão ou a ansiedade passarem. Então você espera só que esses dias acabem e que um novo possa começar tão logo seja possível.

A verdade é que a dor chega para todos, de um jeito ou de outro, não importa o que você faça ou como viva. Mulheres serão espancadas, crianças estupradas, cidades bombardeadas, latrocínios, atropelamentos enquanto somos todos usados como peças numa engrenagem que visa apenas exercer mais opressão, novas guerras, mais miséria e preconceitos.

Enquanto isso você paga as contas. Enquanto isso você toma vários litros de cerveja. Enquanto isso você cheira mais uma carreira. Enquanto isso você torce pro seu time favorito. Enquanto isso você compra afeto com dinheiro. Enquanto isso você faz de conta que nada acontece ao seu redor. Enquanto isso você acredita que nada dessa desgraça tem a ver com você.

Afinal de contas, você é melhor do que eu ou os outros. No fim das contas, não existe explicação para nada disso. A única coisa que te resta é aceitar as coisas como são, que os dias ruins não vão durar para sempre (ou vão) e que chorar por dois dias seguidos faz parte dessa coisa maravilhosa que as pessoas dizem que é estar vivo.

Num belo dia você compreende que o segredo é a mentira. Tudo depende do quanto você se engana e do tipo de enganação que você conta pra si próprio. A vida é bela. A vida é uma merda. Só existe dois caminhos. A jornada continuará solitária. A dor ainda não vai passar. Mas no momento em que você se dá conta do quanto as pessoas são capazes de mentir e da densidade de hipocrisia que cada um é capaz de arrastar por toda uma vida, a sua desgraça até fica mais suportável.

– Brindemos!

(Cristina Livramento)

 

Eu tive um pesadelo com você, quando era criança.

Algo que ainda não consigo decifrar.

Acordei há alguns anos atrás.

Com muito medo.

 

 

 

(Ele ainda reverbera em mim)

Estou deprimida. Só não estou mais deprimida porque sei que o problema não tem solução. Fica então essa saudade estranha, desproporcional. Preciso aprender a deixar isso de lado. É difícil, não deixo, mando mensagem, pergunto como está, faço proposta que sei exatamente o que se tornará com o tempo, mais tarde, amarguras, rancores, solidão. Me arrependo. Desejo, quero e me arrependo a todo e a cada momento disso. É só o que sei fazer. Me sinto mal, me sinto triste.

Sofro, espero. Olho, olho novamente. Espero mais um pouco. Passo os dias a esperar algo que jamais irá acontecer, a esperar uma ilusão. Sinto essa saudade, mas não a reconheço. Não sei o que significa. Não sei o que já significou algum dia. É como se fosse algo que não me pertencesse e eu devesse simplesmente deixar passar. Penso e me sinto cansada. Apago todas as mensagens como se elas jamais tivessem existido. Finjo que não existem. Como quero fingir que a dor não existe.

Fingir despreocupação. Fingir que vai tudo ficar bem. Que vou me acostumar. Que a vida é assim mesmo. Penso em como era antes. Penso na época em que eu vivia e era como se ele não existisse pra mim, como se fosse um nada. É curioso pensar que já o tornei um nada uma vez. Olhando pra toda a extensão do que sinto hoje, parece que isso jamais aconteceu. Mas aconteceu sim. E coisas boas até aconteceram depois disso, inclusive. Me tornei uma pessoa melhor, em vários os sentidos.
Continuo querendo me tornar uma pessoa melhor. Só não quero que ele, nem ninguém, saiba disso. Nem eu mesma.

É. Sabia que isso iria acontecer… Só queria saber quando isso vai deixar de ser dor e virar outra coisa. Eu não aguento mais. Chega desse martírio… Queria que isso passasse, queria que acabasse. Já não tive o suficiente? Queria poder tomar um remédio tarja preta que me anulasse completamente só pra que eu não tivesse que sentir nada dessa merda e foda-se. Queria mesmo, entrego os pontos, assumo que sou fraca mesmo. Queria qualquer coisa, menos sentir isso que sinto agora… Que merda. Ninguém merece. Essa vai ser a última vez…

Você sabe que a sua vida é uma merda quando: sente-se mais feliz quando está no trabalho do que quando chega o final de semana e não há o que se fazer.

É ruim. Quando não há nada, geralmente a minha tendência é pensar e repensar sobre as merdas que me aconteceram. E me vitimizar. E achar tudo uma merda. Não sei porque isso acontece, só sei que acontece.

É bastante triste e irritante, mas não tenho como evitar. Às vezes até choro, por ficar lembrando de tudo. Mas quando estou ocupada, isso não acontece. Talvez seja por isso que eu fico buscando ficar ocupada o tempo todo e talvez seja por isso que tenha tanta gente com orgulho de ser workaholic (pois aí não precisam pensar sobre as outras coisas, que dóem, que machucam, que assustam).

Talvez seja por isso que eu não saiba dizer não. E eu queria dizer não. Queria dizer não por completo. Quero preencher alguma coisa impreenchível aqui…

Mas isso não vai acontecer, de uma forma ou de outra. Fantasio demais: fantasio o mal totalmente e fantasio o bem totalmente. E isso na verdade não existe: as pessoas são movidas por motivos diferentes de tempos em tempos. Mas esse pensamento é bem persistente, embora eu gostaria muito de que ele fosse banido da minha mente.

Não consigo.

Acredito mesmo que, quem é filho da puta uma vez será um filho da puta pra sempre. E isso, apesar de qualquer outra coisa. Acredito também que a filhadaputice da pessoa em si estenda-se inclusive a outros campos, à tudo mesmo. Difícil pensar diferente. Difícil confiar e acreditar “que ficará tudo bem”, quando já se morreu uma vez por conta de filhadaputagem.

Não ficará tudo bem. E é preciso que isso seja e esteja bem claro. E é preciso que se aceite e que se reconheça isso.

As coisas são o que são e foram o que foram: lamentar não adianta. Ficar com raiva também não. Então de nada adianta eu ficar triste quando não se há o que fazer. E também é muito limitado – e limitante – pensar que o meu passado é só o que me resta. No entanto, ainda acho bobo (ingênuo na verdade) pensar que coisas boas irão acontecer. Ou que algo irá melhorar.

Eu queria mudar. Queria ser e fazer outras coisas. Queria virar a minha vida de cabeça pra baixo. Mas já fiz isso tantas vezes e sei que fazer isso não muda nada, na real. Queria simplesmente deixar estar, mas não deixo: reclamo. Queria poder reclamar menos. Queria poder viver mais. Queria poder viver melhor.

Mas talvez isso fique pra alguma outra vida…

O que fazer quando quem se é se encaixa perfeitamente no estereótipo ao qual você combate? É difícil afirmar “eu nao sou assim” quando tudo o que se faz demonstra, por meio de como você é capaz de agir, exatamente o oposto disso. “Ajo assim porque te amo” é a maior mentira do mundo, sempre foi. Todos sem excecao – me incluo na lista – no fundo, por trás de todas suas acoes supostamente amaveis e altruistas, agem sempre em beneficio proprio. “E por que você tenta mudar isso?” ela me pergunta.

E me demonstra toda a extensao do limite, da limitacao.

Mas demonstracoes geralmente nao sao suficientes. Precisamos passar pela experiencia do que é ou do que pode ser o limite.

“Voce nao pode” é o que deveria ser dito e nao é. Mas eu compreendo. Eu resolvo completar o pensamento desta forma: “eu nao posso”, porque é o que me parece mais plausivel, mais palpavel mesmo. Nao posso mesmo. Nao tenho condicoes. E nao me resta nada alem de aceitar isso. E tudo nessa vida sao limitacoes. Imensas. Intrasponiveis. Nao ha cuidado, nem nenhum tipo de altruísmo. Nao há amor. Existe apenas essa vontade de poder, de possessao e controle, apenas. Reconhecer isso é a parte mais difìcil. Tentar parar de acreditar que se pode mudar isso é outra parte ainda mais difícil.

“Gostaria de poder compartilhar isso com ela”, disse. Pois bem, você nao pode. Acho que o grande tom da minha vida é sofrer severas privacoes emocionais e de relacionamento. Essa é só mais uma. Nao posso compartilhar novidades, anseios, desejos, vontades, sonhos pois uma vez compartilhados a chance de que sejam sumariamente arruinados é bastante alta. Talvez possa em alguma outra vida, pois nao será nessa que irao me ouvir e me deixar compartilhar nada referente ao que eu sinto e as minhas mazelas emocionais. A nao ser que eu esteja em uma sala, sob tratamento e que seja pago. É triste, mas isso é realmente tudo o que tenho e acredito fortemente que será tudo o que terei por muito tempo.

Me sinto vazia, destituida de algo que poderia ser importante pra mim. Sinto que jamais serei ouvida de verdade e isso é quase que como se eu nao existisse. Nao me sinto humana. Sinto que me relaciono com outras pessoas por conveniencia, nao por paixao, pois nao sou ouvida. E parece que realmente tudo se resume a isto (conveniencias) e que nao há como ser de outro modo. O resto é fachada: fachada de amor, fachada de interesse… Existem várias.

Nao posso ser como quero. Nao posso me entregar a alguem como quero. Nao posso dizer o que gostaria, nem compartilhar o que gostaria, pois serei ignorada sempre: nas minhas buscas, na minha ignorancia, nos meus questionamentos. Na busca por mim mesma, por quem eu sou, a vida é esse grande empecilho. A vida inteira é um grande fingimento e quase tudo é completamente insincero. Só isso já é o suficiente para me fazer querer ter outra vida que nao essa. Mas este seria um outro isolamento quase que equitativo. Fugir para as montanhas, raspar a cabeca, fingir que nada existe me seduz quase tanto quanto a morte.

Sofro duplamente. Sofro de saudades de algo que jamais tive e por ter de reprimir violentamente tudo o que sinto, tanto em intensidade quanto em frequencia, por se tratar de uma ilusao, de algo nao concreto, irrealizavel, impossivel. E sofro por ter de me obrigar a continuar vivendo tudo isso e passar por sucessivas provacoes que nao me ensinam e muito menos libertam de nada. Minha vida nao poderia ser um pouquinho menos pior? Nao pedi pra estar aqui. Sério.

É a nossa estacao, vamos saltar. Descemos, juntas para o lado errado da saída na estacao central. É o suficiente para uma agressao, para varias agressoes sucessivas, para acusacoes sem sentido, lembrancas de nada que exista mais. Cravei-lhe o meu olhar mais impiedoso e fiz a pergunta que ja me foi feita varias vezes “o que você quer de mim?”. “O que eu preciso te dar para te satisfazer?”. Eu nao gosto de ouvir essa pergunta. Eu nao gosto quando me fazem essa pergunta. Nao ouvi resposta dela porque, na verdade, mesmo, nao há resposta pra isso. Este é o limite.

“Bem… Vamos deixar?”

“Você tem feito coisas muito legais”

(…)

Come
As you are
As you were
As I want you to be
As a friend
As a friend
As an old enemy
Take your time
Hurry up
The choice is yours
Don’t be late
Take a rest
As a friend
As an old memoria
Memoria
Memoria
Memoria

Come
Dowsed in mud
Soaked in bleach
As I want you to be
As a trend
As a friend
As an old memoria
Memoria
Memoria
Memoria

And I swear
That I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don’t have a gun
Memoria
Memoria
Memoria {don’t have a gun}

And I swear
That I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don’t have a gun

Memoria
Memoria

(…)

“Não chora não moça… Você é muito bonita, não tem motivo pra chorar”.

 

“Own your own feelings. Nobody else does.
Accept that you don’t own the other person’s feelings: they do.”

Falei sobre meu desconcerto. Sobre toda a crueldade dissimulada, quase que displicente, como se nada fosse nada demais, quando tudo é tudo demais, quando se é ciente disso. É ciente pois sabem dos meus sonhos, dos meus desejos, de minhas vontades, do que sinto, do quanto permaneço a sofrer. Encontram na minha fraqueza sentimental solo fértil para o plantio dos egoísmos mais insidiosos. Peguei em sua mão e houve um afastamento, “não quero isso”. Esbarra-se, quase sempre, na ausência não apenas física, não apenas espiritual, mas na própria ausência de afeto. “Não quero isso com você. Vejo de outro modo, quero outras coisas. Tenho outros planos para você (para mim)”.  Na verdade, é tudo um grande mal-entendido, a relação como um todo, mentes contrárias, vontades distantes, abismos cada vez mais profundos, cada vez mais evidentes. É um jogo persistente, uma brincadeira, um passatempo, um treinamento que julgo ser ao longo dos anos, um modo um tanto quanto seguro de especializar-se no requinte da crueldade. Conforto, segurança, retornar para onde sempre é possível retornar sem nenhum contratempo. A disparidade é evidente, a distância, a separação. “Apenas tenha em mente o seguinte: isto não é sobre você“. Sobre o que você sente, sobre o que você quer e muito menos sobre quem você é. Tenho profundo desgosto em relembrar que sou alguém distante, fora, ausente, ‘com muito potencial para ser alguém feliz’. Preferia estar morta. Sou excelente e totalmente opcional. Me volta em mente o objeto que sou, que devo ser, que serei. Objetos, objetos, objetos.. Um uso, uma função, uma temporalidade. E um desgaste. Preciso prezar meu papel.

 

“Essas coisas são só pretextos” ele me disse. Um crápula. Um maldito. Sem tempo a perder. Hoje vejo o lado positivo de nunca ter me deixado tapear por promessas vazias de significado. Hoje a expressão promessa vazia nada mais é do que uma grande redundância.

Foi a última vez..

São pré-textos (agora você tem mais um motivo ainda para me odiar).

Essa comida. Penne ao molho gorgonzola, feito com calma, com paciência. Feito cantarolando, com carinho. Feito por quem queria que fosse especial, ao menos. Não era. Nunca foi. Era mais uma refeição, mais um alimento, mais um prato de massa. Qualquer. Foi uma solidão especial.

A música a ser cantada, tocada, memorizada. Cantava os versos como se para contar uma história. Ria e sorria, se divertia. Tinha o ouvido bom, sentia as notas, embora fosse uma ingênua. E nunca vai deixar de ser. Pior defeito, melhor virtude, bênção e maldição.

Um filme. Qualquer filme. Um livro. Qualquer livro. Não faz mesmo diferença alguma. As mesmas coisas, pra ambos. Nada precisa ser importante, interessante. Não é nem especial, é só mais uma tentativa. “Pra ver se cola”. E às vezes cola. Por muito tempo, por tempo demais. Por alguns dias. Por duas semanas.

Nada é compartilhado, tudo é inventado, criado, construído… Aos poucos. Com conversas. Ao longo dos anos. Em meses. Minutos. Em cinco dias toma-se o primeiro ônibus pra cidade ver o outro.

A linguagem é pretexto muito do malfeito, não é mesmo? Um pretexto insuficiente, eu diria.

Essa saudade que se diz existir. Saudade de algo que não existe mais, talvez sequer tenha existido, tenha sido ilusão desde o princípio até o final. É hoje, enfim, uma ilusão convicta, teatral e real. “Sinto saudades”. Uma ilusão consciente de si e bastante atuante. Enfim, acredita-se: é pra isso que pretextos servem.

Esse eu te amo que você tão bem veste quanto despe…

“Fragmentos de um discurso amoroso” que nada mais é que falacioso, apenas.

Do início ao fim.. Todos pretextos..

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Pra foder com você.

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(o crápula sempre teve razão…)

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