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Arquivo da tag: Vida Besta

Quando o timing das coisas é muito maravilhosamente bom, não só o santo mas como eu desconfio muitíssimo também…

Bom demais pra ser verdade.

Fico esperando o turbilhão de merda aparecer a qualquer momento porque não é possível…

“Me diga que eu sou sujo”.

Você é sujo. (Mas não pelos motivos que você quer que eu diga que você é sujo).

“Me diga que eu sou bonito”.

Você é bonito. (Mas não pelos motivos que você quer que eu diga que você é bonito).

Fico aqui me perguntando

O que o próximo

Vai querer de mim.

(E não vai ter.)

(Não como ele quer.)

Penso muito nisso. E me distraio facilmente, apesar de teimar em continuar com uma observação infrutífera. A verdade é que não existe mais nada ali. Ou melhor: aqui. Sinto esse impulso, vez e outra. Não deveria. Penso no que pode acontecer. Prevejo acontecimentos, tudo o que já aconteceu vai acontecer novamente. Vou estar em algum saguão de embarque em dez anos e jamais serei reconhecida. Minha respiração vai descompassar, vou deixar de pensar no que estiver pensando. Talvez eu derrube algo e esqueça alguma coisa. Meus olhos vão marejar e ficarei com a voz embargada, caso alguém fale comigo. Olharei. Observarei à distância. Provavelmente irei sorrir, mas não farei nada. Após isso, segue o baile. Antes de qualquer ação sempre pergunto a mim mesma: para quê? Para matar as saudades, seria uma das respostas óbvias. Saudade do quê, exatamente? Do que não existe mais? Saudade do que inclusive sequer chegou a existir. Não posso me permitir ser ingênua. É uma perda de tempo querer viver esse tempo passado. Um mau hábito. Surgem as infelizes comparações. Surge uma angústia desnecessária. Surgem coisas que não fazem mais sentido e muito menos cabem mais no que acontece agora. E o que acontece agora é tão mais proveitoso e interessante. Mais livre. Menos doloroso. Pensar nisso tudo não me deixa mais triste. Me sinto satisfeita com todas essas respostas. Me olho no espelho. Dou um sorriso. Não faço mais nada. Sigo em frente, com o baile e com a minha próxima distração.

Fui a pé para o trabalho hoje. Voltei pra casa pra almoçar, a pé. Passei o dia analisando, compreendendo, interpretando palavras, encontrando sentidos. Conectando. Protegendo. Criando. Voltei pra casa a pé e por alguns instantes, por umas duas quadras de caminhada, acredito, me senti bem. Foi incomum. Me senti muito bem. Me senti quase feliz, realizada mesmo. Parecia que não era eu, mas outra pessoa. Outra pessoa dentro de mim. E eu não queria outra coisa. “Não queria outra coisa”, ficava pensando “Não queria outra coisa, quero exatamente isso“. E tudo pareceu bonito mesmo, por algum tempo. Eram 18h15, ainda estava claro, um pouco de cansaço mental, minha casa a uns 5 minutos daquele pensamento. Fiquei feliz, independente de qualquer coisa. Não pude evitar: simplesmente senti isso (e sentir é mais forte que qualquer outra coisa). Tudo parecia estar em seu lugar, o mundo inteiro parecia estar organizado, equilibrado, todos os planetas pareciam estar alinhados, etc. Tudo parecia estar muito certo. Queria congelar ali, naquela volta pra casa, naquele caminhar despreocupado, naquele momento, naquele que agora sei que era apenas mais um simulacro de felicidade. Penso que queria estender aquele momento. Que queria sentir aquela completude sempre, o tempo todo. Queria poder sentir que nada me falta, mesmo quando tudo está em ruínas. Penso que quero isso, mas na verdade mesmo, não quero. Há o desejo, há sempre o desejo. Mas pra que continue desejo a impossibilidade de realização é sempre essencial. Por isso amores não correspondidos são sempre os mais duradouros. Por isso relacionamentos que não vingaram tornam-se pílulas douradas na mão de quem lembra (e quem ainda ama). Algumas pessoas só amam aquilo que jamais podem ter (não por não conseguirem, mas por não quererem, de fato). Eu não posso ser feliz. Ninguém pode. Mas alguns fazem questão de serem miseráveis. Eu, por mais que não pareça, não. E enfim, tudo isso de bom que eu senti hoje, como sempre, passou. Talvez tenha sido algum tipo de química repentina na minha cabeça, algo assim. Now I am an animal, now I am a fucking chemical. Passou como absolutamente tudo passa na vida (até os amores mais terríveis, doloridos e impossíveis de esquecer) e eu entrei na fila do pão das 18h. E notei de novo que vivo e trabalho em São Paulo.

E aí eu não senti mais nada.

E isso também foi bom.

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