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Arquivo da tag: Vergonha Alheia

Fui ao Hospital de Caridade pra fazer um ultrassom e conferir se eu tinha mesmo uma pedra na vesícula. O exame tinha sido marcado às 8h e, por causa da fila, só começaram a fazer meu cadastro às 8h20. Como eu estava no norte da ilha tive que acordar às 5h30 pra pegar o primeiro ônibus amarelinho pro centro, que sai do bairro às 6h20, passa perto de casa às 6h45 e chega no centro por volta de 7h15. E descendo no centro eu teria que andar mais um pouco até chegar o hospital, ou seja, antes das 8h eu já estaria lá. Não estou me martirizando, estou apenas relatando. Enfim…

Às 8h20 quando eu já estava sendo atendida, chega na sala uma mulher loira, de voz grave mas ao mesmo tempo irritante, que não consegui identificar se estava grávida ou era gorda mesmo. Pois bem. A primeira reclamação dela foi sobre a porta que estava fechada. “Tá todo mundo gripado e as portas fechadas.. É um absurdo isso! Tem que deixar a porta aberta pro ar poder circular!”. Qualquer enfermeiro que tentasse fechar a porta era reprendido por ela. Ela repetia todo o discurso aumentando um ponto, até começar a falar que temia o contágio por gripe suína. Aí sim a parada começou a ficar ridícula…

Uns 10 minutos depois dela reclamando por causa da porta, ela se tocou de que precisava retirar uma senha pra ser atendida, o que é muito comum em lugares muito burocráticos. Pegou a senha e continuou de cara amarrada e em instantes começou a reclamar da lerdeza no atendimento.

Eram 9h e eu ainda esperava  pacientemente pelo meu ultrassom (marcado pras 8h) quando a mulher começou a falar sozinha, numa tentativa de, acredito, conversar com alguém ali ou no mínimo se fazer ouvir. Começou a resmungar em voz alta, dizendo que tinha muita gente naquela sala, que desde que ela chegou ninguém tinha sido atendido, que ela não tinha o dia todo pra passar no hospital, que tinha que voltar pro trabalho e que se ela não fosse atendida ela não iria pagar o estacionamento pois o exame dela estava marcado pras 8h40.

Uma velhinha que aguardava o exame tentou acalmá-la dizendo que “é assim mesmo” mas a mulher ignorou e continuou reclamando e fazendo ameaças ao hospital e aos funcionários pra que todo mundo ouvisse. Várias pessoas a olhavam. Eu a ignorava. Pra mim, ela só queria chamar atenção. E a minha ela não ia ter.

De repente ela meio que conseguiu o que queria: um funcionário foi conversar com ela e houve bate boca, lógico.. Mas não por parte do funcionário. Foi bem constrangedor ouvir aquilo tudo. O funcionário tentando amenizar a situação e explicar pra mulher como as rotinas e a estrutura do hospital eram complicadas e a mulher com um discursinho sem vergonha de que “não é problema meu, não tenho nada a ver com isso, isso é problema da administração de vocês”. Fim da ópera: ela deve ter sido atendida lá pelas 9h30~10h e fazer barraco não adiantou de muita coisa.

Sempre que acontecem essas situações o impulso que tenho é de me meter e mandar a pessoa tomar no cu ou calar a boca, mas isso é algo que nunca vou fazer. A melhor coisa a fazer, sempre, é permanecer quieta e ignorar.

Última vez que eu passei por uma situação constrangedora assim na qual eu não estava envolvida diretamente, foi em 2001 se não me engano. Eu tinha 18 anos e estava numa viagem de ônibus de Campo Grande/MS pra Santos/SP. A viagem foi de tardezinha e seria a maior parte de noite, ou seja, acordaríamos eu e minha mãe já em Santos. Mas o que aconteceu foi que um senhor com lá seus 60~65 anos resolveu beber pinga em TODAS as paradas que o ônibus fez. E então, quando já era meia noite~uma hora da manhã e todos queriam dormir, o desgraçado começou a cantar.

Coisa de velho bêbado e sem noção mesmo. Enfim.

Uma das passageiras reclamou, pedia pra ele parar… Mas ele não paráva. Foi cinematográfico. A cantoria do velho e o bate boca com a passageira durou até umas 3h~4h da manhã. Ninguém dormiu. A discussão com a passageira foi pesada… Ela reclamava por que queria dormir e o velho sem noção dizia coisas como “Ninguém gosta de mim! Ninguém me respeita por que eu sou preto e pobre.. Aí ficam  me acusando. Eu não tô incomodando ninguém! Ninguém no ônibus tá reclamando, só você”, palavras dele. Tem como discutir com alguém assim? Não sei como aquela passageira aguentou.. E ela não xingou o velho em nenhum momento. Fim da ópera: o ônibus parou em um posto policial e o velho teve que ser detido por que não deixava ninguém dormir.

Mas o ridículo da situação toda me deu nos nervos. Esses tipos de situação sempre me deixam com azia. Quando são coisas que posso resolver, sento e resolvo. Agora quando não róla… É uma merda.

É tão absolutamente bom saber que, perante toda uma situação, se tem controle sobre (quase) tudo. Mesmo que seja um controle efêmero, falso. Mesmo que seja apenas a idéia de controle. Mas a sensação por si só é, de fato, maravilhosa. Saber o que se quer, o que se pretende. Não esperar que os outros saibam por você (geralmente nunca sabem, isso quando não estão se lixando pra isso). Se comportar assim, pra mim, é ter personalidade, é ter segurança de si, é ter força. Mesmo que erre, que erre outra vez, que se engane… A vida é feita disso também.

Ontem a tarde fui uma idiota, uma imbecil. Ok, tudo bem… Ainda me condeno pelas minhas fraquezas, mas não tenho culpa por sentir as coisas que sinto. Sou mulher, me apego fácil, me entristeço mais facilmente ainda, não compreendo as coisas de forma tão objetiva quanto deveria e todas aquelas coisas. Às vezes a honestidade que tenho comigo mesma me incomoda, mas é preciso. Sei que não vou deixar de sentir a impotência que estou sentindo de um dia pro outro, não vai ser assim tão fácil, mas a verdade é que agora, o peso da coisa toda aliviou em muito.

Todos os pesos se aliviam quando a gente toma uma decisão, seja ela acertada ou não. Mas ao menos a decisão EXISTE, está ali, é feita. Quando entendo o controle que tenho (ou ainda, que penso ter, que seja) sob todas as coisas, todas as perversões ao meu redor tornam-se imediatamente profundos poços de candura. Olho pra toda a maldade, comportamentos desviados e más intenções ao meu redor e lhes ofereço o meu mais puro e inocente sorriso. Todas essas coisas já não me importam e não me pertencem mais. A angústia cessa, a dor de cabeça, a azia.

E não há nada melhor nessa existência do que viver sem angústia alguma e seus derivados.

Nada melhor e nada mais importante, pra mim.

E isso tudo acontece por que fui responsável o suficiente por me decidir ter determinado comportamento e assim,  lidar com suas consequencias, sejam quais elas forem. Soube abrir mão de vivências, para saber preservar o que SEI que é bom pra mim. Agora posso me planejar sem mais ficar com aquela sensação de que “há algo me atrasando”, de que “estou sendo deixada pra trás”. Nada disso acontece agora por que nesse momento eu venho em primeiro lugar. E agora sei o que fazer, sei o que pretendo, posso dizer não, posso não querer fazer parte.

Posso achar tudo isso pequeno demais pra mim. Ou talvez simplesmente inadequado.

Hum.. Inadequado. Sim… Essa é uma palavra muito, muito boa.

Perfeita.

Ontem eu presenciei uma das cenas mais deprimentes do ano, pra mim, até agora. Talvez vocês não achem nada demais, mas pra mim, sei lá, me senti horrível por testemunhar aquilo. Foi bem deprimente. Foi por volta das 8h30 da manhã, eu tinha voltado de um exame médico e estava na cantina do lugar onde eu faço estágio. Por causa do horário, lá estava bem cheio, todo mundo querendo ser atendido, tomar café e eu logo percebi que não ia ser atendida tão cedo, mas por mim tudo bem, eu estava de bom humor e resolvi esperar.

Logo na minha frente tinha uma velhinha, idosa mesmo, cabeça branca e tudo o mais. Aparentemente, ela tinha pedido um café. O cara da cantina que estava atendendo ela perguntou umas três vezes seguidas “A senhora vai querer com açúcar ou adoçante?” e ela não respondia. Primeiro eu pensei que realmente, ela não tivesse ouvido. Mas depois que o atendente quase começou a gritar e ela ainda não respondia, eu suspeitei que a coisa pudésse ser bem pior do que eu imaginava.

Olhei bem pra expressão daquela senhora e ela fitava o atendente com um misto de estranhamento e depois de alguns segundos sorria, como se ainda estivesse esperando o café, que nunca vinha. A cantina estava cheia, as pessoas agitadas e algumas já começavam a olhar feio pra velhinha. Foi bastante constrangedor. E eu odeio cenas constrangedoras, mesmo quando não são comigo. Talvez principalmente quando não são comigo. O momento durou segundos, mas pra mim pareceram horas. Ela realmente parecia não entender o que o atendente falava. Foi bem surreal.

Me identifiquei por que já sonhei / pensei algo similar, do meu isolamento ser tamanho, que algum dia quando sair na rua e for em algum lugar, não vou saber me comunicar com ninguém, vou esquecer palavras, esquecer como me portar, esquecer de tudo mesmo. Mas no caso dessa velhinha eu tenho duas hipóteses: ou ela era bem, mas BEM surda… ou ela tem alzheimer (e talvez não saiba) e esqueceu completamente os significados de “açúcar”, “adoçante”. Sei lá né… Nunca se sabe. Aposto na segunda hipótese, só pela cara que ela fazia.

Outra coisa bastante intrigante foi que ninguém que estava por lá, conversou, ajudou ou teve compaixão com a velhinha. Todo mundo só queria ser atendido o mais rápido possível e ir embora. Foi bem estranho, bem angustiante. Simplesmente não consegui ficar por lá pra ver o desfecho daquela situação, fui embora pro meu estágio e só voltei uma hora depois. Aquela cena me impressionou. Passei com ela na cabeça o resto do dia. Deve ser muito horrível perder o controle sobre si mesmo, sobre o que se quer. Sei lá…

Mais tarde eu contei pra ele sobre a cena e sobre como aquilo deprimiu o meu dia. E ele, sempre querendo me fazer rir e sempre melhorando o meu dia (efetivamente), me disse “Vai ver ela não ‘funciona’ antes de ingerir cafeína, o que é um paradoxo. Aposto que depois do café (sem açúcar) ela foi pro departamento de física discutir o paradigma da interpretação de Heisenberg. Vai ver era isso que tava na cabeça dela o tempo todo enquanto o carinha lá enchia o saco dela sobre coisas triviais e mundanas como ‘açúcar ou adoçante'”…

Heh. Hihi.

Fato indiscutível: ele é doce.

Sei que não sou especialista em porra nenhuma, mas existem 3 condições que me permitem escrever esse post: sou humana, sou mulher e sou observadora. Isso já basta pra chegar em algumas conclusões, mesmo que elas estejam equivocadas. Enfim… Não quero ensinar NADA a NINGUÉM aqui, por que meu blog não existe pra isso. Ele existe POR QUE SIM. Anyway…

Esses dias eu estava pensando de novo sobre esse lance de ter filhos. Ainda acho esquisito quem toma essa decisão. Nada contra as crianças em si, mas sei lá… Ainda existe muita gente nesse mundo que acha que ter filho é, de fato, uma grande coisa. Sei lá. Pra mim se você é uma idiota com meio cérebro, basta você abrir as pernas pra ter filhos. Minha mãe biológica que o diga. Ou seja.. Não é algo digno de nota, ou de sei lá… mérito (for fuck’s sake… literally).

Como diria Bill Hicks, engravidar não é nem um pouco melhor do que arrotar, vomitar ou cagar. É algo que acontece. E acontece muito, infelizmente. De qualquer forma, ainda, o post não é sobre engravidar, nem sobre ter filhos, mas sobre como algumas mulheres cuidam de seus bebês/crianças. Algumas mulheres parece que NÃO PERCEBEM que a criança não é mais um bebê, e continuam tratando a criança de forma retardada, ao invés de estimulá-la e tratá-la como gente.

Com a minha prima foi assim. Tanto que a filha dela tinha 3 anos e ainda não sabia falar direito. Com 5 anos ela falava mais ou menos, mas ainda falava meio que em “miguxês”. Nota: minha prima usava o “miguxês” pra conversar com a filha dela. Juro pra vocês. Eu acho isso uma merda. Isso é errado e devia ser proibido. Uma mãe dessas devia ser apedrejada em praça pública. Heh, eu adoro ser exagerada.

Enfim… Falando de casos bons. Há algumas semanas atrás, quando eu ia pegar um ônibus à noite pra viajar pra São Paulo, uma cena na rodoviária chamou bastante a minha atenção. Uma mulher e sua filha estavam esperando a chamada do ônibus. A menininha devia ter uns 4 pra 5 anos. Ela era bem esperta e não parecia uma criança comum, afetada. Crianças geralmente são meio “lesas”.. Sei lá se sou eu que não tenho paciência com elas, mas o “normal” numa criança pra mim é correr, gritar e agir como idiota a maior parte do tempo. Criança pra mim sempre foi sinônimo de incômodo. Mas essa menininha ficou lá, sentadinha, tomando o achocolatado dela e respondendo à mãe dela normalmente (normalmente mesmo, sem falar que nem criança nem nada). Aquilo pra mim foi bastante impressionante. Aquela mãe tá de parabéns.

Mas não que a criança fosse “fria” nem nada… Nada disso. Depois de um tempo chegou o vô dela e foi um grude. Ela abraçava o vô e ficava fazendo carinho nele. Foi uma das cenas mais bonitinhas que eu guardei na minha memória esse ano. Acho que guardei por que nunca tive vô. Deu inveja dela.

Ontem eu vi um outro caso de criança bem educada. Eu estava lanchando no CED aqui da UFSC e enquanto comia percebi que se aproximou uma mulher, negra, com seu filho. Ela me chamou a atenção por ser muito parecida com uma amiga da minha mãe, muito parecida mesmo. Aí eu percebi que ela também conversava com seu filho como se estivesse conversando com um adulto, e explicava as coisas pra ele normalmente. Achei incrível. Depois de um tempo ela começou a ensiná-lo, enquanto lanchavam, que “ele deveria sim obedecer às professoras, mas por livre e espontanea vontade e que professora nenhuma deveria colocá-lo de castigo, nunca. E ela foi bem enfática nessa última afirmação. O filho dela ficou sentadinho na frente dela, ouvindo com atenção ao que ela dizia. Era um garoto comportado, aparentemente de 4 pra 5 anos também. Fiquei imaginando que ela deve estar fazendo mestrado em educação ou coisa do tipo, pedagogia, sei lá… Só pela forma que ela falava. Pelo menos parecia. Coincidentemente, essa amiga da minha mãe com quem ela tanto se parece é doutora em Educação.

Minha mãe me educou bem, acho. Fez o que pode. Sempre conversou normalmente comigo, sempre foi workaholic. Mas se eu não sou drogada e não tenho nenhum outro tipo de desvio de personalidade/caráter muito absurdo, então isso quer dizer que ela cumpriu seu trabalho bem demais pra uma workaholic. Minha mãe gosta muitíssimo de bebês e crianças. Mas quando minha adolescência chegou ela quis morrer. Hoje em dia ela se culpa, acha que foi uma péssima mãe por que eu moro há mil quilometros dela, sou cheia de tatuagens/piercing, ouço músicas esquisitas, leio livros demais, não vejo TV, não tenho namorados, não penso em casar nem em ter filhos. Ela se lamenta MUITO por eu não querer ter filhos. O que ela mais quer na vida são netos, filhos que sejam meus pra ela poder estragar bastante eles. Enfim… Ela não está convencida de que é uma boa mãe e hoje se considera ausente. Pra mim, ela nunca foi ausente o suficiente. Heh.

De qualquer forma, observar mães e crianças como as que eu observei (na rodoviária e ontem) é algo que me conforta momentaneamente. Mas ainda acho que eu nunca vou ter filhos por que não tenho paciência, não teria jeito pra cuidar, nem nada. Falo que me falta instinto maternal. Tem gente que diz que isso vai mudar quando eu trintar ou quarentar. Eu acho que pode até mudar, mas também acredito que as coisas “não são bem assim”. Não quero ter um filho sozinha, não quero que seja algo desestruturado. Se for pra ser, a criança no mínimo vai ter que ter um pai decente. E pra mim tudo teria que ser muito planejado e perfeito, e se for pra pensar assim, melhor nem ter filho.. Mesmo por que não existe nada perfeito.

Eu sou niilista demais pra ter filhos, até mesmo pra pensar em crianças. Eu não acredito em várias coisas. Não acredito em genética. Não acredito na possibilidade de um bom pai. Não acredito na minha capacidade de dedicação a outro ser humano (a não ser que eu esteja trabalhando, num projeto, etc). E o xeque-mate: não acredito num futuro bom, pra quem eu for gerar. Esse mundo é podre e essa existência, escrota. As pessoas são insensíveis, insensatas, gananciosas e o que resta da Terra, está morrendo.

Por que eu traria pra cá alguém que nem existe, mas que eu amo tanto? Por que eu faria isso?

Que tipo de “amor” tão perverso e egoísta é esse?

Por que esse padrão de “crescer, casar, ter filhos” é tão compulsório, tão obrigatório?

Por que uma mulher que não “cresce, casa e tem filhos” é malvista pela sociedade? Por que ela é excluída? Ou ainda: por que ela é considerada “menos mulher” que as outras?

São várias coisas que eu me pergunto, desde que tomei consciência que podia conceber uma outra pessoa (lá pelos meus, sei lá, 15/16 anos). Nunca engravidei, nunca abortei, nunca fiz nada de errado, nem com meu próprio corpo, nem com nada, nem ninguém. Mas esses questionamentos são coisas que eu simplesmente não entendo…

E acho que vou morrer sem entender.

Algumas pessoas são impacientes com as máquinas. Eu, confesso, sou uma delas. Mas ainda assim sou muito mais paciente do que a maioria. Na verdade eu sou mais preguiçosa em relação à modernidade do que impaciente mesmo. Eu simplesmente não me importo. Mas quando falo de máquinas, me refiro às coisas eletrônicas em geral e aos computadores, especificamente. É que algumas vezes a tecnologia vem, mesmo, pra atrapalhar tudo o que pode ser mais simples.

Por exemplo, no lugar onde eu faço estágio temporário (agora, uma sala de ultrassom) existem duas máquinas. Ok, existem três: um ultrassom, uma impressora e um computador (com Linux, mas que não é muito complicado de usar). Esse computador e essa impressora parecem desnecessários por que, no caso o médico, teria 2 trabalhos: o de operar o ultrassom e o de operar o computador (ao mesmo tempo). Não é exatamente funcional… Mas garante o meu estágio de digitadora.

De qualquer forma, a máquina de ultrassom pode imprimir as fotos e o médico pode simplesmente imprimir laudos genéricos e então preenchê-los de acordo com cada paciente. Mas isso não acontece e o hospital acha que quanto mais médicos usarem o software de laudos automáticos, o computador e a impressora, melhor vai ser, mais simples, etc. Só que, também, às vezes os programas travam, o sistema trava, a impressora se recusa a imprimir e então temos que voltar aos laudos de papel. Ok, o sistema travar é meio raro, mas já aconteceu. Programa travar acontece às vezes.. E a impressora.. bem.. A impressora é um caso à parte.

Mas felizmente eu sempre tenho a <ironia>brilhante e genial</ironia> idéia de reiniciar tudo. E geralmente funciona, depois que eu reinicio, tudo começa a funcionar normalmente. Só que, o engraçado é que, o usuário comum não se toca dessas coisas. Às vezes, ao que me parece, as pessoas tem uma preguiça, imensa, de pensar. Um “problema na impressora” geralmente é uma questão de uma pecinha mal encaixada, que faz as folhas saírem amassadas ou ainda de reiniciar o computador mesmo. Coisas bem simples, que é questão de notar só, de ter a curiosidade de perceber… Mas a maioria das pessoas não pensa nisso, nem nota, nem liga… Preferem chamar “um técnico”… Por que será?

Hoje, agora a pouco, deu um probleminha na impressora aqui. Ela não quis imprimir. Eu supus ser um problema no software e realmente era o que parecia, mas o médico insistiu que se fizesse um copydesk (meu deus, isso ainda existe…) e chamasse o pessoal da informática pra resolver. Ok.. Feito isso, simplesmente reiniciei a máquina e depois as impressões saíram, como se nada tivesse acontecido. Uns 15 minutos depois chegam 2 carinhas da informática:

– É aqui que tá com problema na impressora?
– Era. Mas eu já reiniciei a máquina e resolvi.
– Que fantástico!!!
– :D
– :D

Fiquei me sentindo o ser mais inteligente do mundo, mas sei que não sou. De qualquer forma, só de pensar na quantidade de chamadas do hospital que esses caras recebem diariamente pra resolver probleminhas pequenos como esses… Fico com certa dó deles, por terem que aturar gente acéfala o dia inteiro, 5 dias da semana.

Parece mesmo que as pessoas e as máquinas nunca vão se dar bem: as máquinas, por que não sabem pensar por si próprias… E as pessoas… Bem…

…Aparentemente pelo mesmo motivo.

Fuçando nos blogs alheios, como sempre, vou lá na Graziela e vejo um post que ela fala que foi num show dos Los Hermanos. Nesse post, há um link pra um vídeo no YouTube onde o Amarante tem uma entrevista atípica (pra não dizer constrangedora) com um jornalista. Segue abaixo a transcrição na íntegra da entrevista com alguns comentários meus.

Jornalista: Vocês são sempre lembrados por Anna Julia né?
Amarante: Nem sempre.
Jornalista: Isso incomoda vocês sempre serem lembrados por Anna Julia?
Amarante: Não por que nem sempre.
Jornalista: Por que sempre quando tem Ana Julia tem referência, Los Hermanos, Anna Julia…
Amarante: Ahn?!
Jornalista: Sempre tem essa relação, Anna Julia, Los Hemanos…
Amarante: É… é uma música nossa né? Por isso que tem a relação… você queria saber o que mesmo?
Jornalista: Não.. essa coisa.. se incomoda vocês, de vocês serem sempre lembrados por Anna Julia.
Amarante: Não por que não é sempre que a gente é lembrado por Anna Julia.. você vai ver, hoje a gente não vai tocar Anna Julia e você vai ver…

[Eu juro que não entendi direito essa parte. Tá. O Amarante é um cara inteligente, que eu sei. Mas… será que ele *realmente* não entendeu o que o jornalista falou ou ele “se fez” de desentendido pra poder pegar um gancho depois?! Pra mim, ao que parece foi a segunda opção. Tática esperta mas… com jornalistas desorientados e sem-noção não funciona, pois eles vão continuar insistindo até que você seja grosso com eles. Tá certo que o jornalista ser assim não é culpa do artista mas.. é complicado, mas é preciso saber lidar. Ficou claro logo de cara que o jornalista que insistia nas mesmas pergunta não conhecia nem Los Hermanos, nem as outras músicas da banda e menos ainda os fãs.]

Jornalista: Mas sempre a galera pede…
Amarante: Não.
Jornalista: Não pede?!
Amarante: Você já foi em algum show dos Los Hermanos?!
Jornalista: Não..
Amarante: Ah… e esse “sempre” vem daonde?!
Jornalista: Não… por que eu li…
Amarante: Aaah….
Jornalista: Mas pelo jeito incomoda!!!

[O que me irrita profundamente nesse jornalista – e deve irritar a maioria das pessoas (com o mínimo de senso crítico), que assistiram a entrevista – é por que ele tenta, desesperadamente e a todo custo colocar palavras dele (que ele “leu”) na boca do artista. Mas é a tal da coisa: basear a sua entrevista no que foi escrito pelos outros é um risco muito grande. É bem melhor ir atrás de fontes oficiais primeiro e depois ler o que outros jornalistas escreveram pra poder fazer alguma comparação.

Disfarçar o despreparo é uma coisa. Fazer com que ele fique completamente evidente pro entrevistado (e pros outros colegas de profissão que estavam no lugar), é ridículo. Mas aí o jornalista ainda poderia me dar “n” desculpas, falta de tempo, correria. Então por que mandaram uma pessoa que não é familiarizada com o assunto pra entrevistar o cara?! Não tinha ninguém mais?! Um estagiário, um maldito foca que fosse, fã de Los Hermanos… provavelmente faria perguntas mais pertinentes.

E ainda tem outra.. se o cara realmente leu o que diz ter lido, e a informação confere, por que ele não foi direto e objetivo e chegou falando assim “Na revista/jornal Tal, número Tal, vocês concederam uma entrevista a Tal jornalista em que diziam não gostar muito da música Anna Julia. Por que?”. Pronto. Lindo! Pra mim isso parece tão simples. Dessa forma, mesmo estando despreparado, o mico não seria tão grande e a pergunta não ficaria rasa, nem vaga e o artista que se virasse pra se ‘desdizer’ ou o que for. Impressionante como gente que não pensa paga mico à toa.]

Amarante: Não.. O que incomoda é um jornalismo.. como é que eu vou dizer… preguiçoso assim de não saber o que perguntar e perguntar qualquer coisa. “Ah, incomoda?” é o jornalismo baseado na polêmica sabe… é muito comum hoje em dia a polêmica ser a tônica do jornalismo, como se o papel do jornalista fosse descobrir um ponto fraco, uma coisa assim.. Eu particularmente acho que o trabalho do jornalismo é um trabalho muito importante, é assim como o trabalho de uma pessoa pública do governo, do estado, tem uma responsabilidade, um papel importante né? As pessoas lêem ou ouvem o que vocês fazem e tomam como verdade, como uma coisa que é feita com um critério e isso influencia a opinião das pessoas por aí então.. esse tipo de pergunta assim leviana.. sem a profundidade… acaba levando as pessoas a ter uma impressão errada que é essa… de que incomoda a gente Anna Julia… pelo contrário! A gente adora a música, temos tocados em muitos festivais e nunca tivemos problemas com isso… só que é comum no Brasil as pessoas acharem que fazer sucesso é uma coisa ruim, negativa, por que “Ah, não.. faz sucesso então não deve ser bom” e isso é uma ingenuidade, tanto da imprensa quanto das pessoas de achar que se tornar público ou ser muito conhecido é uma coisa ruim.. acho que é ruim pra quem é fraco e tem medo de perder isso.. a gente nunca teve isso a gente faz música com coração da forma como a gente sabe fazer… então Anna Julia foi feita da mesma forma, a gente adora a música as pessoas se incomodam é com a gente ter feito sucesso…

[Depois de ter ouvido esse belo puxão de orelha eu fico pensando.. será que esse discurso todo foi *realmente* necessário? E a resposta é sim e não. Desnecessário por que o jornalista deveria ter ‘desconfiômetro’, se tocar que, assim como ele, haviam outros jornalistas ali trabalhando, que ele estava sendo inconveniente e tinha que se colocar no seu lugar, exercer a sua função, de fato. E necessária por que… que artista faz isso hoje em dia?! Que artista tem os culhões de “educar” os jornalistas e colocá-los no seu devido lugar?! Como expectadora, em nenhum momento achei que o Amarante foi desagradável / inconveniente, nem nada mas (in)felizmente ele teve que falar do “jornalismo preguiçoso” e da “pergunta leviana, sem a profundidade” pra se fazer claro e se fazer ouvido. Acho que se ele não tivesse usado essas expressões, muito provavelmente o jornalista não entenderia a mensagem. Aí às vezes acontece do artista desabafar, como foi esse caso, e as “criaturas” escreverem horrores, que artista tal é “mal humorado”, ou “estava nervoso” quando não é questão nem de mau humor, muito menos de nervosismo. É pura e simples ação e reação.

No entanto, esse longo discurso do Amarante, pra mim, se divide em 3 partes. A primeira em que ele fala sobre jornalismo, a segunda onde ele finalmente fala o que o jornalista não quer ouvir e a terceira onde ele fala sobre sucesso. Concordei com as duas primeiras partes, mas a última.. me pareceu um tanto confusa e talvez ambígua. Ficou parecendo que o Amarante não sabia ao certo quem estava atacando. Algumas bandas de fato não gostam de ser lembradas apenas por uma música, como foi o caso do Nirvana, com Smells Like Teen Spirit, tanto que eles nem tocavam essas músicas nos shows. A música que fez com que os Los Hermanos se tornasse uma banda conhecida, foi de fato Anna Julia. Mas quem não gosta e considera essa música ‘comercial’ demais, são os próprios fãs da banda. Ou pelo menos uma parte, ou a maioria deles. Quem ‘não gosta’ dessa música em específico, na verdade são os fãs e não a banda. Pros fãs é realmente indiferente se eles tocam essa música ou não.

A coisa não é nem ‘das pessoas’ se incomodarem com o sucesso da banda, pois quem se incomoda com o sucesso da banda – ao que parece, às vezes – são os próprios fãs. Quem tem esse pensamento pequeno de “Ah, não… faz sucesso então não deve ser bom”, são os fãs mesmo.. é só perguntar pra qualquer fã xiita de Los Hermanos. E quando eles saíram na Globo então? No Fantástico?! Aquilo foi o fim… pros fãs. “Ah não… se venderam!!!” seria a frase a ser ouvida. Dos fãs. Não “das pessoas”, de qualquer pessoa. Essa última parte, eu interpretei como se o Amarante estivesse puxando as orelhas dos próprios fãs xiitas e não do público em geral. Bom, mas pra isso, eu teria que entrevistar alguns fãs da banda pra ter uma prova concreta. Provas eu já tenho aos montes, amigos que são fãs da banda e tudo. Eu mesma sou fã, mas não sou xiita, nem nada. Só gosto do som mesmo. Enfim..]

Jornalista: Minha pergunta assim… não é nada contra, nunca assisti o show.. é pelo fato de eu já ter lido sobre isso…
Amarante: Eu acho que você leu pouco… desculpa a sinceridade.

[Não sei se esse foi um desabafo final (é provável) ou o quê, mas.. achei desnecessário falar isso “acho que você leu pouco”. Um “Aaah tá..” ficaria menos feio, mas é só a minha opinião. Mas o Amarante foi sincero mesmo.. além do cara ter se expressado muito mal com a sua pergunta, ficou evidente que ele “leu pouco” mesmo. Só lamentos..]

Texto escrito em 20/10/2006.

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