arquivo

Arquivo da tag: Tudo Sobre Minha Mãe

Quando você é estúpida com a vida, a vida geralmente é estúpida com você quase que de pronto.

As cobranças são paradoxais: “você precisa saber se virar” e “você precisa de mim” e quase nunca entendo quando preciso fazer um ou outro. A preocupação vem sempre travestida de lição de moral, sempre me dizendo o que eu deveria fazer da vida, como eu deveria ser, como deveria agir, cobrando esses preços que não preciso pagar (nunca precisei). Lições de moral, pra mim devem ser internalizadas de acordo com o modo que eu as observo e percebo, não de acordo com os que terceiros querem que eu viva. Posso bancar isso, hoje em dia.

Me liberei e disse a ela: não se preocupe com isso, agora eu banco essas coisas e está tudo bem. Não apenas disse, eu gritei, fui uma estúpida. “O que mais você poderia querer de mim?”, “O que mais você quer que eu faça e seja?”, “O que está faltando?”. E pela primeira vez em muito tempo a ouvi emudecer. Reclamo: impossível me deixar em paz com meus problemas pois essas malditas preocupações são recorrentes. Como sempre, desligo o telefone me sentindo com raiva e culpada por absolutamente nada.

Ou talvez eu tenha me sentido culpada por algo sim.

Hoje, desligaram um telefone na minha cara quando eu precisava de auxílio. Passei por uma falta de consideração que talvez eu não merecesse ter passado. Não sei quanto aos outros mas, pessoalmente, eu não gosto de ser maltratada a troco de nada, nem por ninguém e em tempo algum. Me acusam de frescura, mas até o meu próprio jeito xucro de ser tem limites de educação e de falta de noção. Sei que não estou bem mas tenho esse costume de acreditar que isso é problema meu. Ser dura demais comigo mesma (sozinha, amargurada, melancólica, problemática, etc.) é – sempre foi – o default. Enfim, não sou uma idiota: eu vou sobreviver. Sempre sobrevivo, não é mesmo? Bom.

Ela tinha me dito do jeito torto, materno e cheio de lições de moral: “você não está bem”. E eu deveria tê-la ouvido e reconhecido isto, simplesmente. Nem mais, nem menos. Eu não tinha motivos para um ataque. E não é a primeira vez que isso ocorre, que ela corre pra me socorrer e eu a escurraço. Não é a primeira vez que ela sabe, que ela prevê e que ela intui. E que ela, principalmente, cuida. Ou ao menos quer e tenta cuidar, pois nunca a deixo, jamais deixei. É sempre esse distanciamento. Mas ela tenta e persiste. E continua tentando e sempre vai continuar. Do jeito errado, da forma errada, com as frases erradas e com intenções completamente absurdas… Enfim.

Tentei ligar pra ela e não consegui. Não a achava em nenhum lugar e então pensei em desistir. Na verdade acho que fiquei constrangida, mas precisava falar com ela. Então liguei pra ele, conversei um pouco e disse “quando você se encontrar com ela mais tarde, mande um recado, por favor: diga que eu pedi desculpas”. Ele disse “Mas eu nem sei do que se trata..”. “Você não precisa saber, a conversa foi entre mim e ela. Apenas diga que eu pedi desculpas. Ela vai entender”. Nunca sou quem eu penso que sou. Nunca vou ser quem quero e muito menos quem ela quer. Sou a soma de fatores e circunstâncias bem maiores e mais fortes do que consigo imaginar.

 

Nasci uma limitação, sou uma limitação viva, um limite para uma mulher. Represento isso. Antes de mim, um homem, uma sociedade inteira, um mundo. Devia ser opressor: dançar é pra putas e você nunca vai fazer isso sob o meu teto. Ela então teve que agir de modos escusos pra ser. Um casamento como fuga, uma fuga para libertação, para ser quem deveria ser, quem queria ser, para crescer, para tornar-se. Impossível culpá-la. Todo um império foi construído, ano após ano, luta após luta, tudo tinha seu tempo e tudo florescia até que surge a provação maior e a prova maior de incapacidade: “você não pode ser mulher”. O primeiro ‘não’ foi do outro, o segundo, da vida. Foi negado, novamente, o poder de ser mulher.

Sou a representação física de provavelmente inúmeras lembranças dolorosas, mais antigas do que eu mesma e que até então desconheço completamente. Gostaria que fosse simples me abster de culpa e tratar do assunto como se não fosse comigo. No entanto arrefeço simplesmente ao pensar no quão doloroso pode ter sido isso tudo, todos estes mundos, todas estas situaçoes que não me dizem respeito em absoluto. Sou empática a este ponto. De qualquer modo, jamais conseguirei deixar de me prestar ao meu papel: ‘você testa meus limites constante e continuamente’. Na mesa de jantar, sou sempre eu a dizer, polidamente, ‘não concordo com você’, ‘você está errada’, ‘não acho que as coisas sejam assim’. Sempre uma desobediência – mas dentro dos limites que me cerceavam.

E os limites que me eram impostos foram os mesmos dos quais se pretendia fugir. Nunca me foi permitido, em vários momentos, um reconhecimento como mulher, da infância até quase a idade adulta. Tudo relativo à isso especificamente, me foi negado, a vida inteira. E me é negado, até hoje na verdade – mas em parte a culpa é minha, busco nos lugares errados, nos relacionamentos errados, nas situações erradas, com as pessoas erradas. Tudo acaba por se justificar nisso: o interesse por pesquisa, por padrões, por aprofundamento, pela conceitualização e formação de uma identidade inexistente, que não é nenhuma, que são várias, que são frutos do acaso. Busco por esta mulher, por estas mulheres, que me foram negadas, constantemente, a vida inteira.

Busco por esta dor, passada de uma geração para a outra.

Busco pelo que nunca tive, pelo que jamais terei e pelo que hoje, suspeito que nem mesmo exista – ou, se existe, simplesmente não é para mim.

Minha mãe me considera radical. Mas também não faz questão nenhuma de evitar problemas quando eles são perfeitamente possíveis de ser evitados. Não entendo os empecilhos que ela insiste em criar, fico achando que é pra ela sentir que ainda tem algum tipo de controle sobre mim, sobre a minha vida. Ok, isso pode ser classificado na série “Coisas que nunca vou entender por que eu não vou ser mãe”, mas acho que isso não é desculpa pra poder me tratar que nem idiota.

Pais em geral tem uma ideia (errada) de querer “ensinar” os filhos a “verem a vida como ela é”. Gente… Ninguém ensina ninguém, principalmente depois de uma certa idade. As vezes as medidas não são “educativas” (como eles gostam de pensar), mas punitivas e perversas, que ficam mantendo um circulo vicioso que acaba só quando eles querem, leia-se: nunca. Tá certo que também existe aquela outra desculpa de que “pra minha mãe eu serei sempre um bebê”, etc e tal, mas depois de certa idade,  a última coisa que meus pais podem fazer é me educar. Já não é meio tarde demais pra isso? Essa fase já passou faz alguns anos, convenhamos.

Quando não correspondo às expectativas dela, minha mãe também tem a tendência de fazer uma bela de uma chantagenzinha e dizer que se acha uma “má mãe”, diz muitas vezes que se sente “incompetente” e sente que “falhou”. Acho que é só pra que eu fique com dó dela e me comporte exatamente como ela quer.  Oh, well… Mas acho que esses sentimentos também se devem por uma série de fatores que ela nunca quis parar pra analisar.

Existe também uma dificuldade em aceitar o meu tipo de vida (não só o meu, mas da minha irmã também), em me aceitar como uma outra pessoa independente da vontade dela. Aceitar que eu e minha irmã não somos cópias dela, nem nunca seremos, assim como ela não é, nem nunca foi cópia da minha avó ou meu avô: ela é outra pessoa. Ela tem a vida dela, fez suas escolhas e se fez. Nós, como filhas, estamos fazendo o mesmo. Isso não é mau, nem errado… Só que acho uma barra ela ficar julgando os nossos valores pelos dela. Sacal isso.

E não falo essas coisas só por que ela é minha mãe não…
A mãe de todo mundo é meio assim.

Outra coisa que não gosto que ela faça é que volta e meia ela vem falar das questões de relacionamento – que ela tem com o meu pai – comigo. Acho isso simplesmente errado. Acho que isso não deve ser discutido com amigos e muito menos com filhos, que não merecem receber “o fardo” de lidar com as dificuldades dos relacionamento dos pais. Isso precisa ser analisado com uma pessoa que está fora da situação, um profissional, e não é de hoje que recomendo isso a ela. É muito mais fácil (leia-se, seguro, por que a maioria das pessoas tem  um medo absurdo do que podem descobrir fazendo terapia, análise) ler um livro de auto-ajuda do que pagar caro a um estranho para falar sobre a sua vida e resolver, de fato, seus problemas.

É fácil viver denegando problemas, fingindo que as coisas não existem, fingindo que tudo está bem e não conversar.  Na verdade até iniciar um diálogo é complicado: é sempre uma montanha de desabafos, seguidos de acusações e chantagens emocionais… Justamente por que essa análise das coisas não existe.. Então quando é aberto um espaço pra diálogo, várias coisas (que as vezes nem tem a ver com a situação a ser conversada) são trazidas a tona de uma só vez. Ou seja, raramente é uma conversa, de fato.

Isso de ficar achando que análise “não resolve nada” e de que “você não precisa disso” é uma desculpa das mais esfarrapadas pra não cuidar de si mesmo. As pessoas parecem não se ligar de que, mais cedo ou mais tarde, todas as ações que temos, coisas que sentimos,  falamos, pensamos… Tudo isso uma hora vem a tona e cobra o seu preço. Fico achando que com análise, ao invés dessas coisas acumularem, elas podem ir sendo resolvidas no mesmo passo e aí  tudo não precisa ser difícil o tempo todo. Podemos viver simples, basta querer e fazer um mínimo de esforço pra isso.

Estou cada vez mais me encontrando nas coisas que estudo. Estava meio perdida até então, mas tenho tido alguns questionamentos que tem me mostrado o caminho. Sim, os questionamentos tem me mostrado o caminho, e não as respostas. As respostas aparecem quando o caminho já foi percorrido. É sempre assim. Tenho me divertido percebendo a diferença do significado das palavras e de como elas trabalham no mundo. E isso tem tido um impacto bem grande em mim. Não é ruim,  nem bom… É só curioso mesmo.

Sempre me senti muito burra. Acho que sempre me sentirei. Não sou a pessoa mais brilhante que conheço, bem longe disso… E nem nunca foi minha intenção ser. Não é. Eu só quero fazer o que gosto. Só isso. E descobrir isso é difícil, doloroso… Mas tem sido curioso, tenho me identificado com algumas coisas em específico. Fico pensando nessas coisas… Por exemplo, todas as vezes que me deparo com um texto difícil de ser compreendido. Leio e releio o parágrafo várias vezes e fico me sentindo meio burra e meio louca. E a compreensão daquele parágrafo geralmente ocorre num outro horário do dia, enquanto estou fazendo alguma outra coisa que em nada tem a ver com aquilo que eu lia. E eu deveria soltar um ‘Eureka!’ mas não solto. Não sou genial, nem nunca serei. Sou apenas lerda.

Esse tipo de baixa auto-estima que eu tenho não é de hoje. E também não sou a única que conheço a ser assim. Sempre vão existir pessoas pra te chamar de burra ou pra esfregar na sua cara que sabem mais sobre determinado assunto que você. Sempre vai ter alguém pra te subestimar. A opção de se afetar (com isso e/ou por isso) ou não é inteiramente sua. Se alguém mais inteligente que eu me subestima, acho bobagem. Perda de tempo. Nego vai ganhar o quê discutindo com gente mais idiota que ele? Se alguém mais burro que eu me subestima, acho engraçado. Só acho engraçado… Pra caralho.

Já estou acostumada com essa situação e não me sinto mais diminuída com isso, com o que as pessoas pensam ou não. Nunca fiz o tipo “vítima” por mais que fosse. Na verdade, acho que se sentir diminuída com isso é coisa de gente recalcada. Não sou recalcada, sou, de certa forma, acomodada. Não me importo em não saber. Não me angustio. Se me angustio, busco saber e faço algo acerca disso. Pra mim, as coisas precisam estar em constante mudança pra que eu me sinta motivada, de uma certa forma… E quando tenho curiosidade, vontade mesmo de saber, eu busco… Busco mesmo. E mudo. Mas geralmente se essa busca se torna muito metódica, por muito tempo, ela me ENTEDIA. Profundamente. Então fico meio relaxada mesmo.. E não tenho problemas com isso.

Mas eu deveria ter. Como diria mamãe “fui criada” pra ter, como se eu fosse sei lá, uma máquina a ser programada pra agir de tal forma, um ser completamente sem personalidade e vida própria que fosse uma réplica perfeita dos valores da minha mãe. Depois eu é quem sou louca… Minha mãe sempre me preocupou. Em algumas conversas que tínhamos, todas as vezes que eu desconstruía as coisas que ela dizia, ela tinha reações de ódio e claro, me chamava de maluca. Sempre interpretava minhas respostas como “cinismo” ou “malcriação”, quando na verdade não eram nada disso… E isso acontece também em vários outros campos da minha vida. Não vou fazer comparações aqui por que acho desnecessário, mas eu sei o que quero dizer e isso basta.

Quanto a “querer saber” ou “querer entender melhor”, vou até o meu limite… Não fico extrapolando por motivo x, y ou z. Não discuto, não arrumo argumentos, não brigo, não perco meu tempo, não me descabelo, não me desgasto por nada nesse mundo nem nessa vida.  Sempre dou um real pra não precisar participar ou engajar uma discussão que nunca dá em nada, por que sim, até hoje, eu NUNCA vi uma discussão dar em coisa nenhuma, MUDAR realmente algo. Não me meto em discussões por que sei que nunca vou mudar nada, seja o que for.  E o meu objetivo aqui não é competir com ninguém: é encontrar o meu lugar. Seja ele qual for. Forçar barra não é comigo não.

Descobri minha natureza “mediadora” há pouco tempo. E aprendi que isso é algo que preciso EXPLORAR e não lutar contra. Por muito tempo minha mãe quis encutir na minha cabeça que certas características da minha personalidade eram ERRADAS quando na verdade, eram APENAS características mesmo. E pra isso nem sempre há certo e errado. As coisas apenas são. Tomar partido nunca foi meu forte. Tenho aversão a militâncias de qualquer tipo. Se considero algo importante, tento enxergar algumas possibilidades praquilo, mas a minha tendência é não ser radical. Não ser muito preto no branco, mas tentar enxergar os vários tons de cinza. Ou se for radical, o ser premeditadamente pelo menos, sabendo disso, conscientemente. É difícil explicar. Mas está bom por hoje.

Um dos maiores medos que tenho na vida, antes mesmo que o medo primordial de morrer, é o medo de engravidar. Tenho muito medo mesmo, um verdadeiro pânico só de pensar na situação. Se o medo de morrer é (bem) menor do que o medo de dar a vida a alguém, vocês podem então imaginar o meu medo. Felizmente existe a pílula anti-concepcional e isso faz de mim uma mulher muito feliz e realizada. Com menos medo, com certeza.

Decidi definitivamente por não ter filhos há pouco tempo atrás. Sim, o definitivamente é pra irritar mesmo.. Sei que nada é definitivo, mas… Pra mim, por hora, é. A vida é feita de escolhas e essa é uma das minhas. Tenho vários motivos pra não querer engravidar e irei numerá-los por aqui.

Acho que não possuo o que chamam de “instinto materno”. Não o possuo e não pretendo desenvolvê-lo.

Um dia já me disseram com todas essas palavras “acho que você seria uma boa mãe”. Na verdade eu não sei o que ele quis dizer com aquilo. Quis concordar e acho que por dentro concordei, mas por fora me censurei. E continuo me censurando. Sim, talvez eu fosse uma boa mãe. Talvez.

Mas realmente eu percebo que a minha vida não está rumando pra isso. Já tenho 25 anos, percebo que não vou casar  tão cedo e que também não vou ter espaço na minha vida pra filhos. E mesmo que eu tenha espaço: não quero, não tenho essa vontade. Acho triste por um lado, mas por outro acredito que não se pode ter tudo. E a minha escolha já está feita. E quem quer que apareça terá de se adaptar à ela, se quiser conviver comigo.

“Acho que você seria uma boa mãe”. A frase martela pesadamente no fundo minha cabeça. Olha, sinceramente… Eu não tenho jeito nenhum com crianças. Nunca tive. Nunca soube lidar com elas e nem fiz e nem faço questão. Prefiro ignorá-las na maior parte das vezes. Eu não sei conversar com elas, não sei como tratá-las. Sou um verdadeiro fracasso nesse sentido. Não tenho paciência, nunca tive, nem com minha irmã menor, que sofreu muito nas minhas mãos.

Mas existem outros motivos sim… Motivos que tem a ver comigo.

Devo ter sido uma criança que não deu muitos problemas pra minha mãe, acho. Mas a partir dos meus 12 anos, fui uma  pré-adolescente/adolescente muito “problemática” e lembro muito bem o quanto a minha mãe sofreu por isso. Na minha concepção, e pelo que pude observar, ela mais sofreu do que teve alegrias comigo.

Minha mãe é uma pessoa muito, muito estranha. O objetivo de vida dela é conciliar uma carreira cheia de compromisssos, com uma vida familiar intensa. Duvido que alguma vez ela tenha falhado na primeira, mas quando ela sente que falha na segunda (mesmo que não tenha falhado), ela sofre imensamente. E claro, me culpava (direta e indiretamente) pelos sofrimentos dela. E eu, adolescente que não sabia das coisas, carreguei a culpa por todos os sofrimentos dela por muitos e muitos anos..

Hoje não faço mais isso. Os sofrimentos são dela, não meus. As culpas, idem. Hoje consigo identificar prontamente quando ela quer jogar algum sofrimento ou culpa pra mim.. Chega a ser infantil a forma como ela faz isso, mas na mesma hora eu faço com que ela note e reconheça esse erro de comportamento. E hoje em dia ela se irrita, porque eu detecto as intenções dela de me usar como bode expiatório dos problemas que ela não consegue resolver consigo mesma. Enfim… Histórias dentro de histórias.

De qualquer forma, a possibilidade de eu ter uma filha como eu mesma, me irrita bastante só de imaginar. Mesmo tendo me livrado de boa parte das culpas da minha mãe, ainda penso que dei “muito trabalho” pra ela porque vivenciei muitos dos seus sofrimentos, mas a bem da verdade é que eu fui uma adolescente como qualquer outra, com coisas boas e ruins. Não vou entrar no mérito de como foi a minha criação por que senão o post vai ficar mais longo do que já está e esse texto vai sair do foco mais do que já saiu.. Enfim.

Existe uma outra pergunta que me intriga bastante… Quem seria o pai da criança? O pai do meu filho/a?

Bem, atualmente estou solteira. E me vejo solteira por mais uns 5 anos, tranquilamente. A possibilidade de eu engravidar hoje é nula tanto porque estou tomando pílula, quanto por não ter vida sexual ativa. Previsão de estabilidade emocional? ZERO. Previsão de estabilidade financeira? IDEM. Se não tenho previsão dessas duas coisas, se nada nessa vida me dá o mínimo de segurança, porque diabos eu colocaria a vida de uma pessoa que nem existe em risco por isso? Não sei… Isso não me parece justo. Nem certo. Por isso me cuido tanto pra que isso não aconteça, mesmo que “sem querer”.

E aliás, pra mim, não existe isso de “sem querer”, de “acidente”. Existe camisinha, pílula anti-concepcional e pílula de emergência. Não existem “acidentes”. Existiam acidentes, há sei lá… 50 anos atrás. Hoje, não. Hoje a gente se cuida. Vou soar muito escrota no próximo post, mas enfim… “I don’t mean to sound bitter, cold, or cruel, but I am, so that’s how it comes out.”

Quem irá ficar com o corpo todo deformado, quem irá carregar, passar noites sem dormir e sofrer pra parir a criatura sou EU, então a culpa pelo “acidente” é sim toda minha. Homens são homens: irresponsáveis por natureza, ainda mais relativo à essas coisas. Não acho que os homens devam ser responsabilizados pelo que simplesmente não lhes diz respeito… Ainda mais quando eles nem mesmo tem noção de como é isso (estar grávida).

Soando completamente antifeminista mesmo, a responsabilidade é toda da mulher. Isso de “mas nós fizemos isso juntos” é conversa pra boi dormir. Toma pílula, caramba!!! A não ser que você realmente queira agir de má fé, o que eu acho uma cagada igualmente fenomenal.. Mas aí é outra história. Soei machista? Pois bem… Fazer o quê, né?

Mas voltando à questão de não querer ter filhos, pra mim não é tanto uma questão de “ser egoísta” mas acredito que na época que eu realmente começar a curtir minha vida como ela deve ser curtida (lá pelos 35~40 anos) não quero ter impedimento nenhum pra nada: viagens, compras, mudança de cidade, mudança de apartamento, o que for. Quero poder fazer o que quiser sem ter ninguém dependendo de mim pra isso.

Sendo muito otimista (e talvez ingênua, como sempre), a minha previsão é de até os 35 ter “terminado meus estudos” (como se isso fosse possível algum dia na vida…) e depois que atingir uma certa estabilidade, viajar pra lugares diferentes que eu não conheça. Ou ainda, viajar para os mesmos lugares, só que várias vezes seguidas. Afinal, a probabilidade é de que eu continue solteira pro resto da vida e só trabalhe mesmo. Eu sei que esse é o meu destino. Já aceitei isso. Pois bem. Paciência.

Esses dias conversando com um amigo ele me disse que tem gente que pergunta pra ele:  “e quem vai cuidar de você quando você estiver velho?”. Resposta dele: “Essa não cola. Tenho primos e alguns já tem filhos. Seja um ‘tio’ legal e também tá valendo. Na pior das hipóteses, vou pra uma casa de repouso da vida. Bem mais barato do que criar filho”. Pois é. Penso que a minha irmã terá muitos filhos por mim.. Então prefiro me preservar bem pra poder estragar todos os filhos dela.

Voltando a falar da minha mãe, a cobrança por parte dela para que eu tenha filhos é outra coisa que me irrita muito. Acho que se minha mãe quer tanto bebês assim, ela deveria adotar mais alguns e não ficar me importunando com isso.

Um dia eu peguei minha mãe na curva com essa história de “netos”. Ela veio cheia de graça pra mim, como sempre vem, com essa de  “E os meus netinhos? Mimimi… Queria tanto netinhos…” e eu comecei então uma discussão, falando que não quero ter filhos, que não é pra mim, não tenho o perfil, etc. E então ela começou a discutir comigo como se não houvesse amanhã e eu, bem… Eu fiquei quieta né? Fiz cara de Monalisa até ela encher o saco de ficar reclamando a toa…

Aí esperei ela se acalmar,  aquietar… PARAR de falar. Olhei pra ela com o meu olhar mais profundo e falei no tom mais sério que eu consegui fazer:

“Mãe: e se eu te dissesse que eu estou grávida, agora mesmo. Que eu estou esperando um filho, um neto, SEU neto, que vai nascer daqui uns 6 meses… Você iria gostar?”

Aí ela me olhou… olhou… pensou.. e respondeu: “Não”.

Aí eu falei “Ok, mãe. Obrigada”.

Mas é ÓBVIO que ela se borrou quando eu falei que podia estar grávida. Ficou pálida com a possibilidade de ser avó e com a possibilidade de o que eu tinha acabado de dizer ser verdade. Foi engraçado. Mas não, não era verdade… Eu nunca engravidei e nem pretendo. Não sou imbecil nem louca de jogar o que me resta de vida fora. Mas a pressão pra parir no meu caso é muito maior por eu ser mulher. Acho isso ridículo, mas já fiz minha decisão. E a minha decisão consiste em alguns fatos irrevogáveis que vou ter que carregar, pro resto da vida:

Serei a única mulher da minha família que irá “ficar pra titia”.

Meu pai não vai me levar em altar nenhum e eu não irei engravidar.

Minha existência enquanto mulher será seriamente e socialmente comprometida, pela minha decisão (Hahahah).

Eu serei MENOS mulher dentre todas as mulheres (Hahahahahahahahaha).

Não cumprirei meu propósito biológico para com a existência (AHAHAHAHAHAHAH).

Serei pra sempre uma solteirona e daqui alguns anos serei vista como uma leprosa pra sociedade. (Oh, well… :D)

Pois bem… Essas coisas acontecem.

Boa parte das pessoas acredita que as mulheres que não têm filhos são necessariamente amargas. Não diria amargas, mas sim, talvez elas não sejam lá muito amáveis.

E como eu já não sou amável de qualquer forma, não seria um filho que me faria ser.

A verdade é essa.

Tenho pensado sobre isso há alguns dias mas tenho tido medo de escrever sobre. Na verdade não é bem medo, me falta mesmo coragem. Nesse mês de julho que passou eu levei uma (entre várias) bronca da minha mãe, quando nos vimos. Minha mãe sempre me dá broncas imbecis, mas essa ficou na minha cabeça justamente por que eu não consegui discutir sobre isso com ela. Ficava quieta e, por dentro, dava razão a ela. Sei que dizer isso é idiota e infantil mas me sinto incomodada toda vez que dou razão à minha mãe, secretamente. Oh, well…

O motivo da discussão é normal, um dos mesmos motivos de sempre. Ela estranha o fato de eu não estar mais tão motivada (pra fazer exercícios e emagrecer, enfim, cuidar da minha aparência) quanto eu estava no final de 2007. Ok. Minha justificativa: “eu tenho meus motivos”. Ok, isso não é o bastante pra me convencer. Além do que, a grande verdade é que os meus motivos são fajutos até pra mim mesma. No final de 2007 eu tinha algo idealizado. Algo bobo, pequeno e infantil, mas que me movia de uma forma surpreendente.

Pois bem. Acho que isso durou pouco tempo. De novembro de 2007 a outubro de 2008, se não me engano. E então, ao final de 2008, tudo o que eu tinha idealizado tornou-se outra coisa. Não posso dizer que se tornou algo bom ou algo ruim. Simplesmente não era mais o que era de início e essas coisas acontecem, as coisas são assim. Isso não é conformismo, é um fato: todas as coisas são assim, todas as coisas se transformam ou até mesmo tem prazo de validade. O que me deixa chateada é o fato de eu me mover apenas por causa de algo idealizado e não simplesmente por que devo, gosto, ou por causa de mim mesma.

Não quero ser injusta: idealizar algo, ter na minha mente a fantasia de algo bom e perfeito mudou a minha vida de forma muito brusca e profunda. Foi muito bom pra mim, por um tempo. Sei que deveria ser mais delicada com as afirmações que faço pra mim mesma, mas a verdade é que essa “fantasia” me tirou da depressão. Tirou-me de uns oito anos de depressão. Depois disso comecei enxergar as coisas de outro modo, comecei de fato a gostar mais de mim mesma. Ainda não me valorizo tanto quanto devo, mas reconheço claramente que já fiz grandes avanços.

Cuidar da minha aparência foi superficial, mas fez parte da mudança como um todo. O que me fez perceber genuinamente o quanto mudei foi quando voltei a tomar meu remédio (hipotiroidismo) e comecei a ir a todos os especialistas necessários pra manter a minha saúde em dia. Nunca tinha feito isso na minha vida, nunca tinha me interessado, nunca havia cuidado de mim mesma desta forma. Sempre que ia a médicos, era uma chateação, uma obrigação. Não gostava de me preocupar comigo mesma, não me dava valor, por mim eu podia morrer a qualquer hora.

Entendo que hoje eu também posso morrer a qualquer hora, mas a diferença é que hoje eu quero morrer bem e saudável. Eu quero uma morte digna. Enfim… Voltando ao foco: motivações.

Minha mãe chegou pra mim e falou “pois em 2007 pelo menos você tinha uma motivação… E agora, o que você tem? Por que você não faz mais as mesmas coisas? Por que você mudou?”. Sinceramente eu não soube o que responder de imediato. Tudo o que eu respondesse pra ela soaria como uma desculpa fajuta e eu SEI disso. Então eu acho que fazia cara de Monalisa e esperava ela parar de me questionar sobre a minha (falta de) motivação. Mas a grande verdade é que eu broxei mesmo. A grande broxada interna, aquela que ninguém vê mas que eu sinto.

E eu sei também que é apenas uma broxada, não tem nada a ver com depressão. Não estou “de mal comigo mesma”, nem “de mal com a vida”. Não chego nem mesmo a estar desanimada com nada, pelo contrário. Mas a realidade dura e cruel é que: A FANTASIA ACABOU. E a pergunta que eu tenho é: e agora, o que eu faço? Bem, eu sei o que fazer. Sei como agir, como me comportar. Tenho o auxílio de médicos e de pessoas que gostam de mim, mas isso não é o suficiente: preciso do meu próprio auxílio. Eu só preciso FAZER ACONTECER, o que parece muito simples quando a gente lê, mas na prática não é tão fácil.

São muitas as perguntas (idiotas) que eu tenho a fazer pra mim mesma. O que fazer quando a fantasia acaba? O que fazer quando a idealização desaparece? O que fazer quando o tesão termina, ou ainda, é saciado? Esperar que apareça um novo? E se isso não acontece? O que eu devo fazer no meio tempo? O que sobrou de mim nesse processo? Sobrou muita coisa… E muita coisa boa. Eu ainda tenho vontade de viver bem. Ainda tenho planos, desejos e vontades, em vários setores da minha vida. Sinto-me bem comigo mesma (não tanto como gostaria, mas enfim… mulheres).

Sobraram todas essas coisas mas ainda assim, hoje, eu não tenho motivação nenhuma “pra continuar”. Entendam: não é depressão, não é desanimo, não é tristeza ou whatever… É que dessa vez eu simplesmente não terei “um prêmio no final”, me esperando. Não terei recompensa por qualquer coisa que eu faça. Aí fico pensando se a motivação que eu tive foi errada. Fico pensando em prováveis motivações escusas, inconscientes, que me levaram sim pra um caminho bom, por um tempo, mas que depois desapareceram como se nunca tivessem existido.

É bastante confuso, mas não adianta nada eu ficar buscando por “culpados” nessa história toda quando na verdade a única culpada sou eu mesma e minha cabeça. E ao mesmo tempo em que sei que sou “a culpada” disso tudo, paradoxalmente eu não SINTO a culpa. É como se fosse algo que não fosse meu, mas que eu apenas observasse de fora. É estranho, difícil explicar. Hoje eu observo essas coisas, mas não me revolto mais com elas. É preciso entender e compreender, antes de julgar. É preciso ter MUITA paciência e mais além: é preciso PERSISTIR nas coisas boas. O que é muito, muito, MUITO difícil de fazer.

É preciso sempre ver além das coisas boas e ruins. Enxergar as coisas com dualidade e pensar de forma maniqueísta nunca é muito saudável. Se as coisas estão “ruins” pra mim hoje, preciso modificá-las pra que tudo melhore, ou ao menos, pra que não me afetem tanto ou me afetem o mínimo possível. Reclamar apenas não resolve muito. Entendo que não tenho motivações pra me cuidar por esses dias. Me cuidar pra mim mesma não me parece uma recompensa boa o suficiente. Entendam: não é baixa auto estima, é preguiça de mim mesma. Mesmo.

Mas eu também preciso entender mais ainda é que talvez, apenas talvez, eu não precise de motivações, nem de recompensas, mas sim de HÁBITOS. E é claro que eu falo de bons hábitos. De virtudes. Isso pra mim, devido a minha personalidade não deveria ser algo tão difícil de entender, mesmo por que, no geral, eu nunca espero nada em troca de ninguém, observando os relacionamentos que tenho. Mas é.. Sempre me engano comigo mesma.

Enfim, preciso entender que preciso fazer bem, fazer o melhor pra mim mesma, por que eu mereço, “por que sim”, por que é assim que tem que ser, etc… E não ficar me apoiando em fantasias, em realizações, em recompensas ou motivações.

Também não estou falando que “nada disso é importante”. Claro que é. Mas em outros contextos. Neste, não funcionou direito comigo.

Agora é hora de tentar o plano B.

De uns tempos pra cá meus pais estão aprendendo a ser pessoas modernas e hoje eu tive minha primeira conversa com a minha família (mãe, pai, irmã) pelo Skype. Pessoalmente, ainda não consigo chamar o Skype de Skype, me refiro a ele como telefone mesmo. Pois bem. Conversamos por algum tempo e minha mãe me falou várias coisas e me perguntou várias coisas também. Achei legal até, uma conversa pausada, sem pressa de desligar. Ela me perguntou se eu estava namorando. Disse que não e que não estava exatamente preocupada com isso.

Minha mãe ainda acha que eu tenho que arrumar “um companheiro” (heh). Eu também acho, mas a coisa toda não é tão simples quanto parece.  Pois bem, o que me levou a escrever esse post foi que minha mãe ligou pra minha avó paterna esses dias. Short long story: tenho 2 pais, um da carteira de identidade (Paulo) e outro que me criou (Stenio), que é meu pai mesmo. Os pais do Stenio já faleceram, mas a minha avó, mãe do Paulo, ainda está viva. Na verdade minha mãe me disse que ligou pra ela esses dias, pra parabenizá-la por que tinha sido aniversário dela.

Tipo… Eu não converso com essa minha avó faz anos. A única coisa que sei muito por cima dela é que ela é meio bruxa, no bom sentido. Enfim, ela conversou com a minha mãe e perguntou como eu estava. Ela sempre pergunta de mim. E minha mãe, claro, falou o que sabia. Minha avó perguntou a minha mãe se eu estava namorando e minha mãe disse que não. “Ah, mas não se preocupe Neide.. A Isadora vai casar sim. Vai casar com alguém de fora e vai acabar se mudando pra fora do Brasil com ele. O destino dela não é ficar aqui não”.

Fiquei com medo disso. E claro, não acreditei. A probabilidade de eu casar com um gringo é bem, mas bem baixa. Mal saio de casa, não tenho muitos amigos. Tenho muitos conhecidos, mas não saio de casa por nada nesse mundo. Meu inglês tá capenga, mas dá pro gasto ainda. Limitei-me a achar engraçado apenas. E então minha mãe me perguntou “Ok, pode não estar namorando ninguém.. Mas você está gostando de alguém, não está?”. Estou mãe, mas ele mora longe, pra variar, e nós não temos muitas chances. Ela quis saber quem é. Eu também quero saber quem é, ainda estou descobrindo.

Pra que ter pressa, não é mesmo?

Ontem, antes de ir embora de volta pro estado onde mora, minha mãe me deixou uma cartinha. Ela sempre me deixa cartinhas longas, dizendo várias coisas amorosas, coisas de mãe. Essas cartinhas dela nunca são surpresas pra mim, na verdade são até mesmo bem previsíveis. Ontem ela me deixou um envelope mais modesto. Guardei na minha bolsa, entre as minhas coisas e esqueci dele lá. Sempre esqueço. Agora a pouco estava arrumando algumas coisas e acho o envelope. Resolvo abri-lo e está escrito assim:

Isadora!

Viva!
Crie! Sorria!
Realize! Ouse!
Arrependa-se!
Mas jamais desista!
Beijos de
amor incondicional
Neide

(grifo meu)

A objetividade me surpreendeu bastante. Mas particularmente a palavra “arrependa-se” mexeu muito comigo. Acredito que era uma palavra que eu estava precisando ler. Acho que finalmente a minha mãe aprendeu algo de valioso comigo. Que a vida não é só feita de proteção e de coisas boas e que as filhas dela também podem e devem errar.. Querendo ela ou não, a gente sempre sofre de algum jeito ou outro, independente de qualquer proteção maior que ela possa oferecer. E que nem todo arrependimento é triste ou prejudicial, e que sim, podem ser entendido como lição… Mesmo que demoremos anos pra entendê-lo como tal.

Outro detalhe que me chamou muito a atenção: desta vez ela não colocou data nem hora no cartão em que escreveu. Muito interessante. Bom saber que ela se importa um pouco menos com a temporalidade. Só espero que não seja apenas com as coisas que escreve..

Ontem minha irmã me ligou, brevemente. Meu pai está bravo comigo, então ele manda ela ligar, pra saber como estou. Acho divertido. Fazia muito tempo que não ouvia a voz dela, que não conversávamos. Ela disse que está bem e eu acredito. Ela também falou de mamãe, disse que ela ligou várias vezes e sempre perguntava de mim, só que dessa vez diferente: dessa vez ela sabia/sentia que eu estava bem, ao invés de ficar  choramingando e imaginando, sei lá, qualquer outra coisa, que eu estou triste, sozinha, num perrengue (apesar de todas essas coisas serem verdade, mas o fato é que eu PRECISO delas pra aprender a viver e ela PRECISA aceitar isso como parte da existência e tudo o mais, etc). A primeira coisa que imaginei foi “finalmente!” e depois fiquei feliz. Mas ainda não vou cantar vitória não, talvez ela não tenha mudado muito. Pensei que ela já tivesse voltado, mas ela só volta dia 7. Pois bem.. De qualquer forma só a verei final do ano mesmo.

Fazem alguns dias que tenho pensado na minha mãe e em como ela deve estar. Não sei se ela leu a carta que eu escrevi, espero que tenha lido. Não só espero que tenha lido, mas também espero que ela tenha mudado, mesmo que minimamente. Pelo que eu me lembro, dia 5/10 agora ela deve voltar pra casa. Acho que pela primeira vez na minha vida eu senti falta da minha mãe, de verdade. Queria saber como ela está, o que sentiu, o que viveu, o que fez, mas sei que de tudo o que ela irá me contar vou absorver só a superfície e isso meio que me frustra um pouco, mas sem me chatear. Na pior das hipóteses imagino que ela me dirá que “foi bom” e ficará por isso mesmo, bem como um café poderia ter sido bom, um passeio, ou um dia. Não sei se ela irá cair em si e criar noção sobre o que fez, o que realizou.

Minha mãe sempre foi contra “momentos” bons da vida. Ela é uma mulher que gosta das coisas PERENES, planejadíssimas. A vida dela, inteira, foi planejada. O trabalho dela foi planejado e ela alcançou TUDO o que quis. A família dela, as duas filhas, planejadas… O marido certo, um cara decente, que a ama e é completamente INSANO por ela. Mas essa viagem, assim, do nada… Essa viagem assim TÃO diferente dela (pelo menos eu considero), que até ME deixou surpresa… Como ela deve ter recebido, processado isso? Em que parte da vida dela ela deve ter colocado essa viagem? Qual terá sido a importância disso tudo pra ela? Veja bem, eu digo isso por que minha mãe é uma WORKAHOLIC que NUNCA viaja à lazer, muito menos SOZINHA (leia-se: sem meu pai, eu e minha irmã) e, num dado momento da vida, decide fazer uma viagem difícil como essa. É difícil de entender.

Eu sinto saudades dela, às vezes, por alguns momentos. Sei lá, só espero que ela volte mais compreensiva. Isso já seria muito bom. Em dezembro a verei novamente.

Meu pai está organizando um envelope onde vai ter mensagens dele, da minha irmã e minha, pra que minha mãe leia quando estiver na metade da viagem. Não sei se ela vai entender o que eu escrevi, mas enfim… Boa intenção eu tive.

Oi mãe!!!

Como estão as coisas por aí? Espero que bem. Não imagino como possa estar sendo essa sua “empreitada” aí no interior da Espanha. Espero que você aprenda muitas coisas. Sei que você é forte e conseguirá terminar o caminho numa boa, mas ainda mais e melhor do que isso, espero que volte mais relaxada, mais tranquila e principalmente com uma outra visão de mundo. O mundo é muito grande mesmo, existem muitas coisas que duvidamos que existam e existe muita, mas muita gente diferente por aí, com hábitos diferentes… etc.

Quando a gente enxerga o mundo de verdade, como ele é, paramos de nos preocupar com as coisas pequenas, que não nos adicionam nada na vida pois percebemos que isso é perda de tempo útil, onde poderíamos estar nos preocupando com outras coisas, produzindo, melhorando a nós mesmos. Paramos de nos preocupar com as superficialidades, nos desgastamos menos e encontramos formas melhores de aproveitar o nosso tempo de vida (que é curto, curtíssimo) o melhor que pudermos. Enxergamos as pessoas pelo que elas são de verdade, por dentro e não pelo que elas têm, nem as julgamos pelos seus possíveis defeitos, pois nós, também, muitas vezes erramos.

E isso tudo, mãe, não é uma questão de “fé”. E também não é uma questão de “humildade”. Nada disso. É pura e simples reconhecimento e aceitação da existência como um todo e de como ela funciona. Não é algo que podemos ter controle sobre. É algo que é, que existe (independente da nossa vontade) e que devemos lidar da melhor forma possível. Não devemos carregar nunca o que não é, nunca foi e nunca vai ser, nosso. A vida foi feita pra ser vivida com leveza, sem angústias, sem martírizações desnecessárias. Ainda mais quando não precisamos disso.

Enfim.. Aprenda o máximo que puder com o interior da Espanha e depois volte pra me contar como foi. Tenho certeza de que será uma experiência única. Espero que essa viagem te esclaresça em vários sentidos. Às vezes algumas viagens nos proporcionam isso… Minha viagem ano passado pra Porto Alegre abriu meus olhos pra muitas coisas e, olha só, eu nem precisei ir muito longe.

Te amo! Um beijo!
Sua filha,
Dora.

Ontem tava olhando na minha agenda capenga da faculdade… Digo que ela é capenga pq ela tá quase nos finalmentes, mesmo ainda faltando 3 meses pro ano acabar. Ainda tem muita coisa pra acontecer nesses pequenos 3 meses. Tantas expectativas, estou tão animada! Tem tanta coisa pra fazer! E eu não tô falando da minha vida pessoal, tô falando da faculdade mesmo. Não sei. Minha vida pessoal anda chatinha, sem nada muito emocionante/interessante. Acho que, a bem da verdade mesmo, eu não tenho mais vida pessoal. Só de vez em nunca. Ou ainda, eu busco por não ter, o que seria erm… bem: pior. Acho que é por isso que tenho escrito bem menos por aqui, como se pode notar.

Liguei pra minha mãe nesse final de semana e disse à ela que eu estava “me acostumando com a solidão”. Ela sempre fica brava quando eu falo pra ela que estou me acostumando a ficar sozinha, diz que não pode, que a vida não é assim e que ninguém nasce pra ser sozinho, etc. Eu até concordo com ela. Só que a coisa é que ninguém (pelo menos que more por aqui) quer ficar comigo (estou falando de relacionamentos). E também não tenho ninguém em vista. E falando sobre amizades, tenho minhas colegas de faculdade e tudo mais, adoro elas, mas a gente sai pouco pois todas têm mais o que fazer, acho. Sem falar que desde 2005 eu ando muito, mas muito cabreira mesmo com amizades no geral. E sim, é trauma. Sei lá.. Só acho que agora eu tenho coisas mais interessantes da vida pra fazer do que ficar me socializando por aí. Se socializar demais chega um ponto que é meio sacal.

Estou dando mais prioridades pras coisas de ordem prática, voltada pro profissional mesmo,  por assim dizer. Projetos, o que quero fazer, o que não quero fazer, etc. Usando o cérebro um pouquinho, coisa que sempre tive preguiça de fazer. Aprendi a duras penas que ouvir a todos é o mesmo que ouvir ninguém. Logo, eu devo ouvir a mim mesma, só e somente, pra tomar as minhas decisões e ser sensata, sempre. Mesmo que eu leve em muito consideração as opiniões de pessoas que eu realmente admiro e compreendo como “inteligentes”, também devo entender que tenho vida própria, interesses e vontades próprias não que sejam “erradas”, mas sim, diferentes. Tenho minha própria estrutura e devo levá-la em conta sempre em primeiro lugar, antes de entrar em conflito com os outros, comigo mesma, etc.

Acho mesmo impossível compreender as coisas de forma completamente neutra, mas ando tendo cada vez menos paciência com discursos muito idealistas/ideológicos também. Sejam eles quais forem. Simplesmente me nego ao diálogo. Tento me afastar das pessoas que são muito ideológicas ou idealistas, por entender que isso não é lá muito saudável. Talvez eu esteja errada, mas ainda prefiro pensar assim, enfim. Voltando à minha vidinha, antigamente eu tinha uma vontade absurda de me entregar a um relacionamento. Mas agora essa vontade – de verdade – é de me entregar ao meu projeto de vida, a um projeto qualquer, a algo que vou poder falar que eu fiz, eu colaborei, eu estava lá quando tudo aconteceu.  E isso é totalmente possível. Mas claro: algo que, de preferência, funcione. Não quero me dedicar a algo que vai nascer morto. De novo, não.

Acho que isso vai preencher o meu vazio existencial mais do que qualquer outra coisa. Relacionamentos, família.. Isso tudo não deve ser mesmo pra mim. Nunca vai ser. Meu destino não está rumando pra esses lados ao que tudo indica. A não ser que tudo mude muito e inesperadamente. O que eu duvido que aconteça.

No entanto, posso me considerar relativamente satisfeita, mesmo por que, já estou num projeto de pesquisa, gosto do tema com que estou trabalhando, então tudo bem. É isso mesmo que eu quero, eu sei disso, eu sinto isso, pois me sinto feliz, me sinto satisfeita, me divirto. Ontem foi bem engraçado. A professora veio meio que envergonhada me pedir ajuda com um projeto dela, coisa à toa, tabulação de alguns (muitos) dados e eu esperei ela me dizer tudo o que tinha pra dizer pra no final ela só me dar aquele olhar do tipo “e aí, róla?!”. Aí, claro, eu fui bem sincera com ela: “pode contar comigo sempre professora: eu não tenho vida”. E é verdade. E não é contação de vantagem não. É fato. Simples assim.

Ainda bem que setembro chegou… E que venham os outros meses.

Fim da semana chegando, fim do semestre chegando e ao contrário de sentir desespero eu só consigo sentir serenidade. Será que só eu sou assim? Mudei de apartamento. Agora estou em um que tem uma janela grande bem do lado da minha cama e a varanda é aberta. Sinto-me melhor lá, é mais quentinho e iluminado.

Acho que semana que vem acaba tudo de vez.

Das duas uma: ou estou tão desesperada que não consigo mais me desesperar, ou estou realmente tranquila e segura comigo mesma em relação a tudo isso. É… Acho que está mais pra segunda opção mesmo.

Acredito que uma pessoa precisa ter prioridades na vida e a minha prioridade agora é terminar bem esse semestre da faculdade. Sei que isso pode parecer bobo pra quem tá de fora, mas só eu sei o quanto eu quis esse curso que faço agora. Nada mais justo então que eu me dedique o suficiente. Atualmente estou fazendo isso em detrimento de outras coisas, a exemplo, meus exercícios físicos. O que me chateia um pouco, mas eu sei que é temporário.

No mais, tudo vai muito bem. Minha nova tatuagem nas costas já está cicatrizando. Acho que essa tatuagem foi a que melhor cuidei de todas que já fiz. Acho que isso deve ser por que estou cuidando melhor de mim mesma em vários outros sentidos. Estou bonita e melhor do que isso: me sinto bonita. Meu cabelo continua crescendo. Dia 06/07 ele completará 5 meses de idade. Agora ele está com uma baby-franja na frente e atrás está querendo enrolar, pois já está crescendo e “fazendo curvinhas”. Tem sido divertido acompanhar o crescimento. Não tenho pintado, nem feito nada nele desde o dia em que raspei. Enfim…

Dia 07/07 minha mãe chega em Florianópolis e pela tarde iremos pra Jurerê. Tenho saudades dela, como não tinha em muito tempo. É estranho, mas estou bem com isso. Estou ansiosa pra saber o que ela vai achar de mim. Ando preocupada com isso ultimamente, e não sei bem por que. Ela quis morrer quando soube que raspei a cabeça no zero, mas acho que agora, com quase 5 meses de crescimento, ela já está conformada. Ela sabe como estou. Ela vê minhas fotos. Vê que estou feliz, então isso deve ser o suficiente.

No entanto fazem 5 meses que eu não a vejo.. E confesso estar com saudades. Tenho até uma certa expectativa em revê-la, ver o que ela vai achar de mim dessa vez, etc. Estou me repetindo. Estou animada. Estou tranquila. Essa semana corrida acaba hoje e a outra vai passar mais rápido ainda do que essa.

E o próximo final de semana será simplesmente perfeito… Oh well…

It’s been fun.

.

.

.

%d blogueiros gostam disto: