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Arquivo da tag: Tudo Sobre Minha Mãe

Ontem eu gritei. Eu gritava ao telefone. “Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo? Você me ouve?”. Dizem que quando duas pessoas que se amam gritam uma com a outra é porque seus corações já estão distantes. Algo assim.. Não percebi na hora, mas percebi depois. O quanto sou mesquinha, egoísta. Quem não ouvia nada era eu, na verdade. Quem era orgulhosa e se recusava a dar o braço a torcer. A aceitar ajuda, cuidado, carinho. Eu sou reativa com quem não merece, com quem me quer bem. Demorei pra perceber isso mas percebi muito mais rapidamente que há alguns anos atrás. Fui meditar. Me senti mal, muito mal. Me senti triste, de verdade. E me aprofundei nessa tristeza, questionei ela de todos os modos possíveis. Por que eu gritei? Qual a necessidade disso? Desse tipo de reação? Por que mesmo reagi assim? E de repente me dei conta de que eu estava na verdade reagindo contra mim mesma. E fiquei profundamente triste. Com o que aconteceu. Comigo mesma. Com tudo. Não precisa ser assim. As coisas, elas não precisam ser assim. Me senti constrangida, com vergonha mesmo. Me senti tentada a me auto-depreciar no mesmo instante. Segurei essa tentação e a afastei. Inspirei, expirei, deixei ir. Mas me lembrei, de tudo. Hoje quando nos encontramos eu pedi desculpas, timidamente. No fim do dia não senti que o que eu disse foi o suficiente. Falei com outras pessoas, fiquei ainda mais consciente do ocorrido, chorei um pouco, fiquei angustiada. E então resolvi pedir desculpas por escrito, me responsabilizando pelo que aconteceu e falando sobre o quanto aquilo me aborreceu e do quanto estava (estou) chateada e constrangida com tudo. Pedi desculpas, pedi perdão, disse que a amava e que era grata, pela preocupação dela comigo. Ela tem razão. E não estou dizendo isso de forma passivo-agressiva, pra terminar uma discussão, nem nada do tipo. Mas estou dizendo genuinamente, com tudo o que eu sinto, de verdade. Eu sou boba às vezes, é verdade. Mas é meu dever me redimir, me perdoar e seguir em frente.

Quando eu era mais nova, eu achava que na vida eu teria tudo o que meus pais não tiveram. Eles, inclusive, me diziam isso. Repetidamente. “Eu vou te dar tudo o que eu nunca pude ter”. O que era mentira, pois eu pedia coisas que EU queria e eles não me davam. Não os culpo: são pais e pais quase sempre fazem o que está ao alcance ou o que podem pros filhos. Mas eu cresci com essa mentalidade de que sempre tive o que meus pais nunca tiveram. E isso é verdade, em vários sentidos. Meus pais falavam disso pendendo mais para o sentido material, claro, pois não nasceram em berço de ouro: nenhum dos dois. Ambos “se fizeram” e se mantiveram ao longo dos anos com muito trabalho – o que também puxei deles. Só que esse aspecto material sempre pegou muito pra mim. Enfim… Hoje, estou velha e praticamente não dependo deles nesse sentido. E a frase “eu tenho tudo o que meus pais nunca tiveram” perdeu a potência e o sentido pra mim, mesmo porque eu NUNCA QUIS o que eles nunca tiveram. O que eles tiveram ou deixaram de ter, não é problema meu. Nunca foi.  Eu tenho outras coisas, coisas minhas e sou diferente – muito diferente, bizarramente diferente – dos meus pais em vários níveis. Eu basicamente não vivo a minha vida como eles imaginariam que eu deveria vivê-la. E hoje consegui observar que cada vez mais se trata menos de ter o que eles nunca tiveram, mas de ter a coragem de ser e principalmente de fazer o que eles nunca fizeram. De romper um padrão. De descontinuar uma herança. E sobre o fazer, eles ainda não fazem certas coisas por N motivos que não tem nada a ver com posses, ou com dinheiro ou com qualquer outro tipo de impossibilidade física, de saúde, etc. Não fazem porque não querem, não valorizam, não entendem, preferem outras coisas, outra vida, uma vida mais cômoda – ou porque também entendem que, na idade deles, “não dá mais tempo”. Dá sim. Sempre dá. Os motivos são outros, que não vou bisbilhotar e nem querer saber pois não é problema íntimo meu. Me lembro de uma vez, quando era mais nova, e saí de São Paulo pra Campinas pra encontrar alguém por quem estava apaixonada na época e minha mãe ficou furiosíssima. Foi uma tolice na época, admito, mas não me arrependo de ter feito. Minha mãe me dizia “você troca coisas boas na sua vida por momentos!”. Que coisas boas são essas, cára-pálida? Boas pra quem? E mesmo que você as conceitue como manda a cartilha: eu troco. Troco mesmo. Sempre troquei. E sempre vou trocar pois estes momentos é tudo o que há. E se eu não tiver isso, eu nunca vou ter nada. Deixo uma vida boa pra quem faz questão de tê-la. Eu quero outras coisas.

Eu quero o que vocês nunca foram. Nem fizeram.

Em setembro estive em Campo Grande e em julho deste ano cortei meu cabelo bem curto, novamente. Não cortava o cabelo assim há cerca de dez anos. Não acho que fico bem com esse corte, mas senti que deveria fazê-lo. Da última vez também foi assim. É um corte com o qual me acostumo, não que gosto. Quando me acostumo completamente a ele, ele já está comprido novamente. Fiquei 2 dias em CG em setembro e, não tendo mais o que falar ou reclamar sobre mim, minha mãe inventou de criticar o meu cabelo. Disse que estava curto demais, que não era feminino, que não ficava bem em mim. Que eu ficava feia com aquele cabelo. O de sempre: minando a minha auto-estima e acabando com o meu espírito sempre que tivesse a mínima oportunidade. E aí veio a derradeira frase: que cortar o cabelo curto assim era radical demais da minha parte.

Apenas perguntei a ela, mãe, escuta aqui: qual é o meu nome?

Silêncio. É Isadora, não? A inspiração para o meu nome e para quem eu sou, foi Isadora Duncan, não foi? Pelo que li dela, ela era uma artista muito pouco convencional, na verdade. Na verdade mesmo foi ela quem levou a disrupção no ballet clássico e foi a matriarca da dança moderna, quebrando uma série de padrões impostos até então, indo contra tudo o que estava estabelecido na dança clássica. Dançou nua, descalça, no frio, nas condições mais precárias, em qualquer condição na verdade. Tinha uma vida pessoal completamente escandalosa. Perdeu dois filhos de forma absurda e trágica. Enlouqueceu totalmente. Teve poucas paixões, curtas e extremamente intensas. Viveu em miséria e histeria. Era absolutamente idealista. E ela foi espetacular até mesmo em seu último momento. Ela se foi dizendo “Adieu, mes amis! Je vais à la gloire!“. Como todo artista de verdade, até o seu fim precisava ser uma afronta, ter um significado, nem que fosse um último riso de escárnio na cara da morte.

Sendo esta pessoa a inspiração para a minha existência, para quem eu sou, para tudo o que faço, para a minha aura, você realmente se preocupa que eu seja “radical”? Que eu seja feia?

Ora, sinceramente mãe… Existem muito mais coisas pra se preocupar comigo, mas esta não é uma delas…

Afinal, Isadora não é um nome. Isadora é um destino. 

Me chame pelo meu verdadeiro nome e o aceite pelo que ele é.

Demorei muito tempo me enchendo de mim mesma pra chegar até aqui.

E nada vai me fazer parar agora.

P.s.: desconfio que a ideia do que é radical para mamãe esteja um tanto quanto ultrapassada.

Ontem eu estive no consultório médico para uma última consulta, antes da cirurgia. Sempre fui nas consultas sozinha e nunca tive grandes problemas com isso, o consultório vive cheio e enfim, as consultas sempre foram bastante objetivas. Mas ontem me chamou atenção o fato de estar lá uma família, com uma mocinha jovem que devia ter uns 20 e poucos anos, e ela estava bem ansiosa, andando pra lá e pra cá enquanto os pais aguardavam e pediam para ela se acalmar. O pai, indiferente. A mãe, talvez até mais ansiosa que a própria menina. E do nada me deu uma sensação ruim, sabe? Fiquei com a impressão de que a menina não queria realmente estar lá. Ou que, no mínimo, sequer sabia o que estava fazendo por lá.

O médico me chamou primeiro, tirei minhas últimas dúvidas, fiz as perguntas que tinha e depois aguardei numa sala próxima, pois tinha que resolver outras coisas e vi quando ele chamou a menina e a família. Foi bem bizarro quando a mãe da menina saiu da sala, com o olhar arregalado, em euforia, e me dizendo “obrigada moça, até mais!” sabe-se-lá bem porque. A menina saiu apressada e indiferente e a mãe em um estado de excitação incomum demais para algo que provavelmente não seria feito com ela. Achei essa cena meio triste. Deprimente mesmo. Me fez lembrar e ter certeza exatamente do porquê que eu quis minha mãe o mais distante possível de todo este processo que agora chega ao fim.

Entendo que nossos pais tenham boas intenções conosco boa parte do tempo, mas a verdade é que às vezes eles ferram a nossa vida – mesmo tendo boas intenções – e isso é uma merda. É claro que a mãe daquela menina não pensa que está fazendo mal a ela. Ela quer que a menina faça isso para poder ficar bem. Por outro lado, a garota acaba passando por um processo emocionalmente complexo e fisicamente estressante de forma completamente inconsciente. E isso é até confortável em certa medida: ela delega tudo para a mãe e não se preocupa com nada, não busca o que vem de dentro, não se ouve, não entende como o próprio corpo funciona, tudo é completamente externo. Tudo é sempre feito pela outra parte. E é como se ela só tivesse que passar por isso meio que por acaso. Como se não fosse diretamente com ela. Acho isso meio assustador.

Não acho que temos que ter controle sobre absolutamente tudo, mesmo porque isso é impossível. Mas pra mim é inadmissível passar por algo assim, delegando uma boa parte da minha vida para outra pessoa. Não se trata de falta de confiança ou não, mas de perda total de autonomia e até certo ponto, identidade mesmo. Em certa medida, considero isso até uma certa violência com a pessoa – ainda mais no caso de uma pessoa jovem e/ou adolescente que não tem o mínimo de discernimento nem poder de decisão com nada. É tudo muito triste. O que resta é apenas se submeter ao que os pais mandam e pronto, acabou. Nada é questionado, nunca. Isso, essa falta de responsabilidade de ambas as partes, só traz mais sofrimento como um todo. A tentativa ao menos deveria ser a de sempre se tornar o mais consciente possível. Fora disso, as coisas parecem muito mais difíceis do que podem ser a princípio.

Acabei de receber uma mensagem de texto me culpabilizando, pela milésima vez, por algo que eu NÃO SOU culpada. Chega. Me recuso a dividir sequer uma parcela de uma culpa que nunca foi minha. Se o outro não tem a capacidade de enxergar que a vida é muito mais do que gira em torno do próprio umbigo, problema dele! Foda-se. Eu é que não vou mais ficar enlouquecendo, definhando, morrendo por isso sozinha. ME RECUSO. Falam atrocidades pra segundos depois me dizer que “não foi por mal”. Ok: não foi por mal mas o mal já está feito né? Você já falou. Já disse! E quando você me diz coisas eu levo em conta todo o contexto de anos a fio de abuso, humilhação, minação da minha auto-estima. Então absolutamente NADA do que você me disser será impune. Ou será “sem querer”. Ou não terá algum tipo de impacto, devido ao nosso histórico. Eu não sou idiota. Não sou mais manipulável pelas suas palavras. Pelo seu bate e assopra. Não vou mais me sentir mal NEM POR UM MINUTO por qualquer merda que você quiser me OBRIGAR A ACEITAR. Pelo seu “falei isso mas foi por amor”. POR AMOR O CARALHO!  Isso é mentira. Não tem NENHUM amor envolvido nisso. Apenas interesses próprios: mesquinhos, escusos. Não caio mais nesse jogo não. Não caio mais nesse papinho. Estou cansada dessa merda. CAN-SA-DA. Não vou mais PASSAR O GRANDE PANO pra você nem por você não. Não vou mais aliviar pra você, nem por um minuto. Poucas coisas nessa vida me deixam mais louca do meu cu do que o tal “não foi isso o que eu disse”. Contudo, porém, entretanto, todavia, foi sim. Foi exatamente isso o que você disse e não venha me tirar de louca não. Aliás: foda-se você se quiser me tirar de louca! Pode fazer isso, inclusive, não ligo. Caso essa frase que você disse aí ainda viesse acompanhada de uma explicação, vá lá. Mas esse nunca parece ser o caso. É sempre um “você não entendeu o que eu disse” e FIM. Cara, na boa: você tá insultando a minha inteligência? Você realmente e efetivamente acha que, se me explicar, COM CLAREZA, eu não serei capaz de te entender? Por que se eu sou tão burra assim e incapaz de entender, por que que então você não se faz mais claro hein? Por que? Por que não fala mais baixo comigo? Por que não fala mais devagar? POR QUE? Como assim “eu não quis dizer isso”? Mas, meu amigo, minha amiga, veja bem: você disse! Eu tenho sido cada vez menos tolerante com a frase “sou responsável apenas pelo que eu digo, não pelo que entendem” simplesmente porque a acho absurda. Acredito que essa frase desconsidera, completamente, o outro. É frase de gente que deveria ser ermitão ou ermitã e se isolar nas montanhas. Afirmar isso é assumir que não existe preocupação NENHUMA em pensar no que se diz e em como se diz. As pessoas não tem cuidado NENHUM com as palavras. NENHUM. É um descaso completo. E ok: caso você tenha falado algo que por algum motivo se arrependeu, custa assumir que falou merda? Custa pensar por um segundo “caralho vai que eu tô errada né?”. Vai cair um braço teu se isso acontecer? Querido, querida: todo mundo fala merda. O tempo todo. E tudo bem. O mundo não acaba por isso. Mas caso você seja do tipo arrogante, prepotente e insuportável e efetivamente sem interesse algum em se preocupar com o outro e com o que ele sente, acredito que seja mais honesto nesse caso dizer então “eu não vou te explicar bosta alguma porque eu não tenho paciência pra quem tá começando”. Assim você já deixa mais claro ao que veio e deixa o outro LIVRE pra te mandar tomar NO MEIO DO SEU CU e NUNCA MAIS te olhar na cara.

Passei a vida tentando e me esforçando para ser suficiente para as pessoas que amei. Nunca consegui. Sempre faltou algo. Nunca fui perfeita, nunca fui exatamente como elas queriam que eu fosse. Isso dificultou sempre a criação da minha própria identidade, os outros, essas pessoas, que eu amei. Esperei muito delas, esperei mais ainda de mim mesma. Esperei demais por coisas que nunca vieram, que jamais chegaram a ser. Hoje me vejo tendo que ser o suficiente para mim mesma. Em alguns aspectos tenho me sentido satisfeita. Bastante satisfeita. Mas isso é sempre transitório. A minha satisfação nunca é plena. Continuo querendo mais coisas. Continuo querendo coisas as quais penso que não posso alcançar. E é essa continuidade que me dá a impressão de que eu não me basto, nunca. De que não sou o suficiente, nem para mim mesma. Percorro um caminho e, na verdade, eu não tenho onde chegar. Essa chegada, para mim, não existe. E então eu começo a pensar que talvez o topo não exista. E que talvez o suficiente seja uma miragem que insistimos dizer enxergar. Algo que está a passos de distância, mas nunca chega, nunca se completa, nunca se sacia, pois saciar-se seria um tipo específico de morte. Eu não basto. Eu jamais irei bastar. Para mim mesma. Para quem quer que seja.

Fumar é um mau hábito. Mas quem disse que eu sou um bom hábito? Não habito em lugar algum e ao menos assumo isso, sem maiores constrangimentos. Habito no fluxo, desço do ônibus, ganho passos apressados, buzinas, esporros e eu penso, gosto de pensar, que eu amo muito tudo isso. Gosto de pensar que amo essa porra. Me apresso pra levar nãos na cara. Levo o não. Trago o não comigo. Trago. Está tudo errado e eu preciso me acalmar. Preciso viajar mais duas horas pra chegar onde preciso, pra chegar num lugar onde me sinto viva, pra chegar num lugar onde existe gente que fale a minha língua. Existem coisas para serem feitas e elas não terminam, o oposto disto, elas parecem não parar de se multiplicar e eu estou em todas elas, tenho que estar. E estou. Para cada não que me é dito, eu digo sim para todas essas coisas. Meu sim é mais forte, é sempre mais forte do que eu posso suportar. Mas se eu ainda suporto é por algum motivo. Suporto, quero, desejo. Preciso. É um grande tumulto mas eu entendo que no final vai valer a pena de um modo ou de outro. Não sei dar bom dia. Não sei me despedir. Eu fluxo. E na conversa do ônibus você surge. E eu falo e falo, falo como se não sentisse, falo de você como se você não fosse comigo. Simplifico, reduzo tudo o que foi tão grande um dia. Falo pra ela que eu sou uma problem solver e que você era um trouble maker. Tenho essa mania insuportável de querer leveza. Falei tudo em que acreditava, que você precisa de alguém assim, que não sou eu, que você precisa de alguém assado, que não sou eu. Que nunca fui eu, pois eu nunca fui nada. Há muito tempo eu simplesmente listei todas as características para você do exato tipo de pessoa que você precisava na sua vida (problem solver) e você, negou tudo o que eu disse e disse que não era isso, que eu era estúpida, reducionista, prática e que o que eu dizia era uma mentira (trouble maker). Mas cedo ou tarde, tarde, agora e já, tudo o que eu disse se tornou mais real do que aparentemente ninguém esperava. Ou esperavam, foda-se, nunca foi sobre eles, nunca foi sobre nós. E tudo bem. Achei ótimo. Achei melhor assim. Achava melhor assim até quando era dolorido demais achar que era melhor assim. E você sempre soube disso e jamais vai admitir. Falei isso tudo, como se nada fosse. Sempre foi algo. Sempre foi (e isso é uma declaração de alguma coisa). Segui um fluxo, abri um mapa, cheguei onde eu precisava chegar. Precisava esclarecer várias coisas e todas foram esclarecidas. Já me decidi sobre o que fazer comigo mesma. Um desvio, uma absorção menor e mais restrita. A mais restrita possível, foda-se. Algum tempo pra continuar existindo desse jeito, mas de outro – gosto de pensar que tudo vai continuar a mesma coisa apesar das mudanças. Enfim. Terei bengalas pro resto da vida, mais do que as que já tenho. Serei privada de alguns prazeres mas hey, não se pode ter tudo mesmo nessa vida. E eu quero que seja restrito. Eu escolho isso, conscientemente. No final da apresentação, algo potencialmente simbólico, um desenho de uma âncora que vai do peito ao baixo ventre. Entendi imediatamente que isso significaria que, em breve, vou navegar para onde eu tiver de navegar, sendo âncora pro resto da minha vida. Meio absurdo, muito real. É uma decisão. É a minha decisão. Quero isso. Escolho isso. Preciso disso. Ganho a rua, a noite está fria e chuvosa. Eu não queria estar em nenhum outro lugar que não aquele. Não queria cantarolar o que cantarolei passando por nenhuma outra rua. Naquele momento eu não tinha mais alma alguma. Tive que esperar e puxei um cigarro, inspirando o máximo que pude e soltando logo em seguida da forma mais consciente e esvaziada que a minha exaustão me permitiu fazer. Me senti completamente dopada logo em seguida. Me fundi na cidade. A companhia do cigarro fez com que a avenida inteira se esvaziasse e só sobrasse ali eu e a fumaça. Eu, a fumaça, o vento a minha falta de alma em toda a sua extensão. Sou um mau hábito. E fiquei pensando nos critérios que definem os hábitos como maus, entre luzes de carros, ônibus e conversas desanimadas de fim de dia. Coisas que não existem. Recostei minha cabeça no vidro e nada mais se passava por ali. Apenas meu cheiro de cigarro, suor de fim de dia e cansaço. Eu fedia à exaustão, você sabe bem como. Queria muito que me arranhassem dos pés à cabeça. Precisava de mais um cigarro. E a próxima coisa na qual pensei foi a de que, depois que eu passar pelo que eu tiver de passar, nunca mais nenhuma escolha minha será impune. E mentalmente tornei essa minha decisão uma oferenda à você. E à ela. Está decidido.

(…)

Essa cidade não é uma paixão.

Essa cidade é um vício.

E uma mentira.

– Você continua com o espírito rebelde ou matou ele?

– Continuo rebelde, por assim dizer, para o desgosto dela.

– Se a conheço como penso que conheço, tudo que ela queria era que você continuasse com esse espírito rebelde.

Não gosto de natal. Nenhum trauma, simplesmente não me importo com a data. Nesse natal devo passar dois dias com a minha família. Querer passar o natal com eles foi uma desculpa pra viajar, apenas. Ficarei com eles um dia e meio, talvez, não tenho certeza. Obviamente minha mãe vai querer que tudo aconteça nessas poucas horas. Quero que nada aconteça. Mas as coisas irão acontecer independentes das nossas vontades. Às vezes fico pensando nos meus sobrinhos. Eles não conhecem a tia deles e acho que nunca conhecerão de muito perto, nunca será por muito tempo. Será sempre esporádico, sempre rápido. E também não tenho muito jeito com crianças, enfim. Já estou acostumada com o fato de eu ser uma outsider na minha própria família. Não me orgulho, nem me envergonho dessa condição, apenas reconheço isso. Minha irmã me reforça que eles fazem questão de falar sobre mim sempre e J. me reconhece pelo computador quando me vê. É algo. Às vezes eu fico pensando que gostaria de ser mais participativa na vida deles. Outras que, na verdade, prefiro ser uma tia um tanto quanto relapsa, mesmo. Vou acabar sendo mesmo um mistério, uma recordação, um mito, talvez, dependendo das histórias que contarem sobre mim. O distanciamento ensina. Sempre me ensinou muito ao menos. Criação não é pra mim: eu só preciso estar ali, quando for possível. E estar ali não é pouca coisa, uma pena que pouca gente sabe – e se importa – com isso. Isso, na verdade, é tão importante quanto a criação em si. Na verdade é parte da criação. Serei um punhado de poucas memórias, um punhado de histórias contadas por outros, um punhado de letras em alguns livros. E um dia eu posso simplesmente desaparecer, como se eu jamais tivesse existido.

Não saber o que vai ser da minha vida era algo que costumava me angustiar bastante. Na verdade eu sei o que é a minha vida, e ela é muitas coisas e não uma só, então eu consigo ter uma ideia bem simplificada do que pode ser a minha vida. Não é tão ruim quanto eu gostaria que fosse. Mas vez e outra tenho me permitido pensar em realidades paralelas. Hoje pensei em algo muito bonito que jamais irá acontecer. Imaginar e sonhar coisas ainda são tabus pra mim, mas tenho tentado fazer isso, aos poucos. Imagino coisas boas e coisas ruins também. Fazendo isso tento ser mais livre. Tento imaginar as coisas com cuidado, pois pensamentos podem ser perigosos, podem nos consumir. Não quero ser consumida, quero usufruir dos meus pensamentos, não me tornar escrava deles. Enfim… Sonhei acordada, enquanto cozinhava, que minha mãe havia decidido se aposentar e terminar sua carreira de longa data. Pensei que ela sairia de Campo Grande e viria pra São Paulo e investiria em um pequeno bistrô, onde eu a ajudava e teríamos a ajuda de outras poucas pessoas. Imaginei a decoração do bistrô e nela haveria fotos do tempo que minha mãe dançava e a temática geral do lugar seria essa. Seria uma coisa dentro da outra, que nem as matrioshkas. A gente trabalharia bastante, mas a vida seria mais larga, mais ampla, mais livre. Haveriam mais perspectivas. Curiosamente meu pai não estava nessa realidade, não sei dizer o porquê. Minha irmã também não. Mas foi legal imaginar isso, imaginar uns dez anos disso. Alguns anos de convivência pacífica, de tranquilidade, de vivências inteiras, mais genuínas, menos interessadas. Mas isso não vai acontecer. Nunca vai acontecer, a não ser na minha mente. Minha mãe é apegada demais às coisas que ela construiu. É o tipo de pessoa que irá resistir até o final, que jamais irá se aposentar. É a pessoa que irá sorver até a última gota de vida, porque sim. Ter paz, pra minha mãe, é a morte.

Está frio aqui. Não imaginei que estaria tão frio. Na verdade a minha expectativa é que estivesse quente todos os dias que eu estivesse por aqui. Tudo bem, não está quente, trouxe um casaco, deve bastar. Os dias tem passado rápido até. Vi minha madrinha. Acho que vou sentir falta de quem ela era. Fico mal, mas a sensação é a mesma de sempre em relação a tudo: impotência. Não posso fazer nada a não ser continuar mal por isso. Saí com uma amiga que não via há anos. Foi bom perceber o quanto ela mudou, de verdade. É bom perceber um pouco de consciência nos outros. Comi tudo o que não deveria comer, na quantidade que não deveria comer. Me permiti ser totalmente mimada, nos três primeiros dias. Achei que ia conseguir renovar a minha CNH, mas parece que não. Não preciso dela de qualquer jeito, não tenho carro mesmo, nem penso em ter. O primeiro shopping da cidade foi reformado exatamente da mesma forma que eu tinha sonhado anos atrás. Não sei se pretendo conhecer os outros dois novos. Acho que não. Continuo com a certeza de que prefiro morrer a ter que voltar a morar aqui. E isso não é um exagero. Nunca foi. A variedade de sons de pássaros me agrada, no entanto. Eles só se calaram agora, que ficou frio de repente. Eu sentia mais saudades da minha irmã do que eu imaginava. Mesmo. Até dos defeitos dela. Foi bom rever as crianças que ainda são espertas porque são crianças. Rolou uma premiação, socialização forçada com gente que não gosto, teste de paciência. Percebo que insistem em transferir pra mim responsabilidades que não são minhas. Não sou gentil. Sou incivilizada com pessoas que não convivem comigo. Sempre fui, sempre vou ser. Sem problemas: ainda tenho muito mais a perder. Esqueço dessas responsabilidades que me transferem: não faço parte dessa rotina, então nem mesmo me culpo. Me exigem um comprometimento que não tenho há anos (que talvez nunca tenha tido, na realidade). Mas pelo menos desta vez a cobrança não existe. Revisitei lugares que não ia há anos. A sensação é sempre estranha, uma mistura de nostalgia com desgosto. Mais desgosto que nostalgia. Embrulho no estômago mesmo. Não assumo nunca minhas memórias afetivas. Mais fácil assumir que jamais houve afeto e truncar as memórias. Fui a um café com uma amiga da minha mãe. Ela me contou parte de uma história que eu já desconfiava, mas ainda não tinha ouvido da boca de ninguém. Todo mundo me subestima. Inclusive eu mesma. Mas tudo bem. Estava com saudade dos gritos da minha mãe em sala de aula. As coisas permanecem como sempre: leveza a partir do peso, grosseria, etc. Jamais vou entender essas pessoas que pensam que ensinam (e ensinam) sendo agressivas, impondo aos outros tudo o que sabem, o seu vasto conhecimento de forma completamente hostil. Acho que é uma forma de manter as pessoas distanciadas, na verdade, de não ter uma intimidade de verdade, essa necessidade infindável de querer poder colocar todos no seu devido lugar. Conheço esse tipo. Desde que nasci. Talvez conheça desde antes de eu ter nascido. Senti inveja da minha mãe. Sinto, ainda. Quero ter algumas das coisas que ela tem e não estou falando de bens, nem de dinheiro. Queria ter pessoas que quisessem ficar comigo, mesmo eu não sendo boa. Queria ter pessoas que acreditassem em mim, apesar dos meus defeitos. Nunca tive nada disso e talvez eu nunca tenha. Pra mim, isso nunca irá passar de um sonho, mesmo. Falei à amiga dela que gostaria de um dia poder ser generosa como a minha mãe. Não sou e acho que talvez eu jamais seja. Agora já era. Acho que não aprendi a tempo. E agora é que eu não quero aprender mesmo.

Houve um dia em que, minha mãe em um de seus ‘acessos de raiva’, disse para o meu pai que quando ele morresse não haveria ninguém no enterro para segurar o seu caixão. Provavelmente ela disse isso por algum motivo estúpido, ele não quis (ou não pode) fazer algo que ela pediu. Algo não saiu exatamente como ela queria. Coisa assim. (A diferença entre minha mãe e eu é que ela tem acessos de raiva impulsivos e impensados, como quase todo mundo de capricórnio. Eu não). Ele jamais se esqueceu desta frase. E chora ao se lembrar dela até hoje. Ela jamais o quis bem, de verdade. O único sentido da existência do meu pai na vida dela é ceder aos seus caprichos, apenas. E ele cede, a todos, até hoje. Infelizmente, acredito. A única diferença é que, na realidade, meu pai tem amigos de verdade. Poucos, mas tem. Dá pra levar o caixão. Minha mãe, não. Minha mãe tem contatos profissionais… Que, por isso, calham de ser suas ‘amigas’.

Agora a pouco ele estava assistindo um filme, “Ghost in the shell”. Gosto desse filme, mas não quis assistir. Fui pra cozinha, cozinhar. Estava com fome. Sei que cozinhar com fome é ruim então antes de começar a cozinhar fiz um lanche rápido. Agora não estou mais com tanta fome e é possível que amanhã eu coma o que fiz no almoço ou na janta. Mas aí fiquei pensando que abri mão de rever um filme que gosto pra… Cozinhar. Por que? Porque sim. Por que eu gosto de cozinhar. Às vezes, mais do que ver um filme.

Nos dias de hoje – onde todo mundo come merda pronta da rua e nem liga pra nada – as pessoas muitas vezes não conseguem conceber que uma pessoa simplesmente GOSTE de cozinhar e não o faça por obrigação. Acho isso muito estranho. Pra mim sempre foi um prazer não só comer como também cozinhar – e cozinhar bem. Mas por algum motivo, o fato de eu deixar de ver um filme pra fazer algo que os outros acham “chato”, “trabalhoso” ou “desnecessário” me levou a considerar o que EU acho.

Quando eu era criança, me dava bem com cores. Gostava muito de pintar e até uma certa idade, gostava muito de desenhar. Eu inclusive ganhei prêmios por saber desenhar bem, enquanto, obviamente, ouvia de minha mãe que eu era “pé quente” demais pra ganhar todas as premiações. Talentosa? Jamais. Pé quente. Fato é que eu era uma menina muito criativa, mas isso foi assassinado hediondamente em algum momento. Em algum momento não: em vários momentos. Repetidamente.

Apesar desse abuso que aconteceu comigo (com a minha auto-estima, especificamente), fui capaz de me adaptar. Acho que parei de acreditar que podia ser uma artista criativa para não decepcionar meus pais e também pra “entrar no mercado de trabalho”. Algo assim. Hoje eu não sei desenhar mais, meio que desaprendi. Nem pintar sei direito também, perdi muito a noção de cores. Morro de preguiça de ter aulas disso e de ter que gastar uma grana que não tenho com um material caro e que tem vida curta.

Sim, enxergo como gasto, não como investimento porque afinal não vivo disso, então esse meu pensamento não é errado. Acho um erro escolher mal certos passatempos: tornam-se gastos desnecessários e buscas infrutíferas, frustrantes e pouco prazerosas de verdade. Enfim… Claro que quero continuar visitando exposições, ainda tenho muita curiosidade sobre história da arte e temas relacionados. Mas a verdade é que eu não gostaria de ter aulas de pintura, nem desenho. Não quero e não estou a fim. Mesmo.

Mas gosto de cozinhar. Era o que minha mãe sempre me permitiu fazer. E muito provavelmente é o que sempre foi permitido que ela fizesse, até certa idade. Felizmente ela jamais me enxotou da cozinha, pelo contrário: neste ambiente ela sempre me acolheu (e minha avó materna sempre me enxotou, só para que conste). E eu sempre gostei muito de comer, mas isso nunca foi suficiente. Eu precisava ficar por perto, olhando, entendendo como se faz, ajudando. E isso tudo aconteceu por muitos anos.

Aconteceu por tanto tempo que pude errar várias vezes e me treinar para cozinhar muito bem. Ou fui meio que treinada nesse sentido para fisgar algum pretendente pelo estômago, pois era assim que ‘se conseguia homem’ antigamente (ahaha). Enfim. Já cozinhei tantas e repetidas vezes que hoje consigo fazer receitas mais elaboradas e até consideradas difíceis, sozinha, com perfeição. O melhor elogio que já recebi nesse sentido foi quando um dia meu pai me falou “você está cozinhando igual a sua mãe”. Soou espontâneo, fiquei feliz.

Cozinhar é a minha arte. Foi a arte que me restou. Então tento ser realmente boa nisso.

Não que eu me contente com isso: eu realmente gosto de cozinhar e sempre espero que reconheçam isso em mim e lembrem de mim por isso (alguns amigos lembram). Digamos que isso seja o meu passatempo menos espontâneo e mais proveitoso de todos. É o equilíbrio mais próximo da perfeição que consegui chegar entre desejo e disciplina. Pude treinar essa minha habilidade por anos a fio, então hoje sei de muitas coisas. Não apenas sei, mas sou apaixonada por isso de fato, tenho curiosidade, quero aprender mais coisas, quero comprar coisas pra cozinha, etc.

Às vezes não sinto que gasto dinheiro com comida simplesmente porque não me importo de comprar ingredientes caros pra treinar uma receita nova. Não é um gasto, é um investimento pra mim, pra algo que me faz sentir bem. Gosto de sentar à mesa, às vezes com cansaço até e me surpreender com o que fiz de bom. É uma arte meio efêmera, mas até isso está ao meu gosto. Então fico aqui pensando: por que eu deveria investir meu tempo e dinheiro começando do zero, desenhando e pintando, quando eu praticamente já me sinto uma artista cozinhando?

Cozinhar não só envolve cores e sabores, mas também formas e texturas. Envolve a excelente administração do tempo. Posso me permitir fazer receitas de olho, se quiser. Posso improvisar. A forma com que certos alimentos são picados ou preparados faz toda a diferença. Nada é “tanto faz” quando se trata de comida. Há diferença entre fritar, cozinhar, escaldar, assar e existe uma série de outras pequenas técnicas dentro destas macro-técnicas. Às vezes há diferença entre colocar um tempero antes ou depois, entre colocar óleo ou azeite, em usar molho pronto e fazer seu próprio molho.

E cozinhar, de verdade, também não é só saber preparar uma receita, simplesmente. É bom também ter conhecimento sobre diferentes tipos de materiais pra cozinhar, sobre aquecimento, calor, fogo e principalmente, bom conhecimento sobre modos de conservação e modos de reaproveitamento. Tudo isso satisfaz em um nível bem alto meu desejo de produzir o que eu posso chamar de arte (comida). Estou satisfeita. No dia em que eu achar que preciso aprender alguma outra coisa que eu goste ou que eu queira de verdade, vejo como vou poder organizar isso. Por enquanto, não.

:)

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