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Noite passada eu sonhei com você de novo. Foram duas vezes nesta semana já. Não sei o que fazer destes sonhos, entendo que não há nada a ser feito. Não os relaciono de algum modo com o que vivo atualmente, é tudo muito distante. O primeiro sonho foi estranho, um encontro, do nada. Foi tudo muito melancólico. Dizíamos um ao outro em uníssono “uma pena não falarmos a mesma língua” e tudo ficava por isso mesmo. Éramos uma só voz. Acordei reconhecendo o sonho apenas, mas sem sentir nada em especial: nem tristeza, mágoa ou saudade. Eu não conseguia sentir absolutamente nada.

Ontem o sonho foi um pouco mais complexo. Sonhei que estava em alguma outra cidade, existiam ruelas estreitas e era um bairro boêmio. Eu conversava com a garota e por algum motivo éramos amigas – o que não entendi, mas enfim, ok. Ela vestia branco (parecia que estava vestida de noiva, como da primeira vez que sonhei com ela) e estava triste, chorava e me confessava coisas. Ela parecia exausta não física, mas emocionalmente. Parecia estar em seu limite. Eu apenas ouvia mas estava ocupada demais tentando encontrar o lugar em que você estaria. Me senti muito madura no sonho, como se eu fosse mais velha – mas que ao mesmo tempo eu fosse um certo tipo de “novidade” (bem, não deixaria de ser, acredito). Parecia que estava rolando um lançamento de um livro, seu. E estávamos te procurando. Te encontrei e você estava atipicamente eufórico e até mesmo amigável, me contando sobre o livro. Como você fica quando fala de trabalho, em qualquer evento. Achei estranha a forma que você se focou em mim e deixou a garota completamente de escanteio. Isso me deixou desconfortável até. Você me mostrou todo o seu trabalho e, como sempre, queria que eu desse minha pronta opinião o que, contrariamente ao meu costume, aconteceu. Disse minhas primeiras impressões na lata: que o livro estava mal editado, que algumas folhas estavam soltas ou caindo, mas na contra-capa do livro vi um desenho muito impressionante de um barco em aquarela… Eram vários barcos aquarelados em tons de azul, um dentro do outro, como matryoshkas. Fiquei alguns minutos vendo aquilo e tentando extrair significado. Você pareceu não se importar muito com nada do que eu disse, o que também não é costumeiro seu. Pedi uma cachaça, algo me dizia que eu precisava de uma bebida.

A situação toda ali era muito triste, um clima muito esquisito. O tempo todo eu sentia que eu deveria ir embora, que estava atrapalhando algo. A garota-velha vestida de noiva carente e excluída com cara de chorosa, você a ignorando completamente por conta de trabalho (sim, eu já sabia que todo aquele papinho não era sobre mim, em nenhum nível) e eu tentando ser educada. Tudo muito, muito errado. Acordei me sentindo incomodada, irritada mesmo. Que porra de sonho. Esperei que passasse hoje, durante o dia. Não só passou, como me deu insônia agora. Não querer sonhar com você outra vez não adianta. Quanto mais eu resistir, pior é.

Acredito que estes sonhos são algum tipo fino de auto-sabotagem vindos do meu inconsciente justamente pra me fazer titubear. Ou para me fazer repensar no passado, enfim. Quando tudo na minha vida está muito tranquilo e muito bem, meu inconsciente me sabota como se para dizer “ei, tem essa parte aqui que não ficou resolvida então vou esfregar isso na tua cara”. E tudo bem. Vai permanecer não resolvido e, por mim, assim permanecerá. O que não tem resolução, resolvido está. Não vou esquentar, mesmo, com isso. E vou dormir agora.

Algumas coisas pra mim fazem cada vez menos sentido. Meu trabalho, diário, é fazer sentido e buscar com que as coisas façam sentido de acordo com alguma determinação lógica, imposta ou nem tanto assim. Na verdade é totalmente arbitrário e funcional. Me satisfaz, me satisfaço com isso, ao longo do dia. Passo o dia fazendo arranjos, planejamentos e principalmente organizações. E aceitam ou não. Concordam ou não. Tenho minhas justificativas, minhas pesquisas, o que for. As pessoas tem as razões delas. E assim vou vivendo, vamos. Em princípio, não tenho tempo para mais nada além dessas coisas.

Minha rotina é massacrante, minha vida é solitária e por muitas pessoas eu poderia ser considerada profundamente infeliz. Talvez eu seja e não saiba ao certo. Ela me disse “essa cidade acabou com você, desde que você veio pra cá. você está péssima”. Achei curioso pois penso justamente o contrário disso. Há aproximadamente uns dois anos, tenho tido bastante satisfação na verdade. Me sinto calma, apta a resolver meus próprios problemas, não preciso sair dos meus trilhos por ninguém nem para ninguém. É uma escolha, como qualquer outra. Posso dizer com tranquilidade que há cinco anos eu era profundamente infeliz. E não sabia.

Uma das coisas que planejo aniquilar é o meu ódio a mim mesma. E rancor com as coisas que fiz e que decidi. Isso precisa ser resolvido. Eu me trato muito mal. Perco tempo com coisas que não me são necessárias em absoluto em detrimento a coisas que me são vitais. Me alimento de forma totalmente errática e literalmente me sinto mal o tempo todo, todos os dias. Há uma falta de saciedade recorrente e uma total falta de controle em relação a qualquer coisa que me provenha prazer imediato. Não possuo o mínimo de disciplina. Na verdade estou cagando para disciplina. E em consequencia disso, cagando para mim mesma.

Isso é bastante ruim, sim. Mas pode ser consertado. Tudo ao seu tempo. Meus horários são cronometrados. Há algumas semanas tenho tido hora exata para tudo. Minha rotina nunca foi tão incisiva. Não reclamo, aceito, me adapto e refino essa rotina, cada dia mais. A entendo como um mantra, como algo que deve ser repetido tão conscientemente que eventualmente se perca nessa própria consciência. Bato a porta às 7h30. Dou bom dia às 10. Almoço 11h30. Descanço as 15h30 e 18h30. Às 20h pego a condução e às 21h chego na Paraíso. Às 21h25 estou em casa. Devo dormir às 23h para que seja possível acordar, às 6h sem problemas.

Equilíbrio inexiste, faço o que é possível. Burlo a minha realidade enquanto posso. Leio no ônibus durante a viagem. Volto para casa a pé para mexer o meu corpo de algum modo. Me alimento várias vezes ao longo do dia para que eu engane o fato de que eu não estou com fome o tempo inteiro. Bebo água enquanto ainda há água pra beber. E me sinto profundamente sozinha em toda a extensão em que é possível se sentir sozinha. Nem eu mesma me acompanho, muitas vezes. Me olho no espelho e não me reconheço em absoluto. Não sei quem está ali. É um resquício de alguém que deveria ser eu. Não me lembro quando foi a última vez que sorri, genuinamente.

Mas isso não importa. Essas coisas não importam, sorrisos, felicidade. É preciso que funcione, é preciso fazer sentido. Eu preciso equilibrar o impossível, nas minhas costas, nas minhas coxas, nos meus pés. Não tenho como combater essa tristeza que eu sinto. Ela vai ficar aí até não ficar mais: agora, ela faz sentido em mim. Preciso continuar fazendo o que eu estou fazendo: mais e melhor. Preciso e quero continuar sendo isso. E preciso também me tratar melhor. Eu me trato terrivelmente mal. Sou impiedosa comigo mesma. Não tenho misericórdia. Preciso aprender a me dizer não. E a cortar da minha vida frases nocivas como “eu quero agora” e “eu quero mais”. Preciso entender que passar mal o tempo todo, hoje, não me serve mais e não vai fazer sentido na minha vida a longo prazo.

Para isso existem procedimentos cabíveis: auto-intervenção, intervenção assistida e intervenção direta. E eu vou me utilizar das três em diferentes momentos ainda este ano. Eu simplesmente me cansei de viver de um modo que não mereço. Quero não precisar ser escrava de nada. Sempre tive isso comigo e agora tenho mais do que nunca. Todo tipo de dependência me causa asco. Apesar de tudo, da tristeza, da melancolia, eu estou bem. Me satisfaço em vários sentidos. Continuo querendo coisas. Apenas reconheço que poderia estar melhor e que isso depende de mim mesma e das decisões que pretendo tomar. E elas já estão sendo tomadas. Uma de cada vez.

Quando eu penso nas palavras e nas estruturas do que preciso dizer, tudo sai absolutamente perfeito. Quando tenho tempo para escrevê-las, elas já me escaparam, não sei mais o que fazer. No momento, estou com sono. E cansada. E tenho feito muita coisa. E esperado muitas coisas. Esperarei coisas pra sempre. É o que faço. Mas algumas coisas estão mudando, sensivelmente. Ainda não sei o quanto, nem em que passo, só sei que estão. Algo parece se transpôr, dentro de mim. Algumas coisas não combinam mais com o que eu sou, nem com o que eu quero. Com as coisas que quero. Sejamos objetivos, não? Reviro os olhos, não penso no futuro. Sei que tenho que parar qualquer dia desses pra pensar no longo prazo. Eu apenas queria que as coisas me deixassem fazer isso. É difícil, não dou conta do tempo. Não sei se quero dar conta do tempo. Acho que quero deixá-lo correr ao seu próprio passo. Algumas mudanças bastante bruscas estão pra acontecer e eu sinto isso daqui. Não sei se boas ou ruins, mas bastante bruscas. Comigo, com quem eu penso que sou, com quem penso que sempre fui. Algumas mudanças, grandes, vão acontecer. E eu quero mais é que aconteçam. Acho que já as adiei por muito tempo, já as adiei por tempo demais. Não estou com medo, não estou apreensiva. Sinto que eu esteja correndo em direção a elas, planejando-as por baixo dos panos de certa forma. É como se não fosse comigo. Como se eu fosse testemunha dessa transformação íntima. Não há absolutamente nada a ser assumido aqui. Não há mais tempo para se assumir nada, planejar nada, querer nada. Apenas há o tempo de as coisas serem. Acontecerem. Se tornarem. Não há mais tempo para introduções agora que metade do caminho já está andado. A diferença é que, mesmo que eu mude absurdamente de rumo, a impressão que eu tenho é que apesar de tudo, eu vou permanecer aqui. Apesar de tudo.

Tenho mania de, sempre quando faço algo que considero “errado”, me punir severamente por isso. Isso não me serve mais, pois simplesmente não me ensina nada. Só me ensina a nutrir um ódio por mim mesma que não mereço. Não tenho mais nenhuma desculpa para me tratar deste modo. É banal. Infantil. Meio raso. Para questões pontuais, possuo um bom auto-controle. Mas, às vezes, eu falho. E falho porque alguma parte de mim ainda é humana, por mais resistente que seja. E eu falhei sim. Falhei várias vezes e falhei novamente hoje. Sei que existirão inúmeras represálias do meu inconsciente por conta disso, nas próximas semanas. E estou atenta, esperando a punição de cada uma delas. Já será sofrimento suficiente. Mas conscientemente eu preciso ser capaz de me perdoar simplesmente. E dizer “ei, isso não é nada: apenas volte a fazer o que você estava fazendo antes”. Eu errei hoje, vou errar pior outros dias, sei disso. Mas entre esse erro ruim de hoje e o pior erro que irá acontecer daqui algum tempo, eu vou continuar tentando fazer o que eu estava fazendo nesse meio tempo.

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