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Arquivo da tag: Sofrimento

Em algum momento da minha vida, me tornei uma contenção de danos para alguém. Imagino que isso tenha ocorrido mais de uma vez, inclusive. É bom saber disso, de certa forma, embora qualquer intenção de proteção sempre tenha sido considerada por mim completamente desnecessária. Na minha memória restam resquícios de comunicação não-verbal em sua maioria. Esse tipo de comunicação era a única forma que eu tinha de extrair qualquer verdade de qualquer situação que fosse. As palavras, sempre superestimadas, jamais me bastaram, tampouco me soavam verdadeiras. Todo tipo de comunicação que precisasse ser pensada para então ser emulada era como uma fraude pra mim. E eu sabia disso. E eu me petrificava com toda reaproximação. Me sentia a pior pessoa do universo. Para mim mesma. Para o outro.

“Suas mãos estão ásperas. Suas mãos não eram ásperas deste jeito”. Houveram infinitas formas sutis de me comparar – descaradamente – com outras pessoas. Outro modo com que isso ficava totalmente claro era quando eu o tocava e absolutamente nenhum som era emitido. Eu observava, na opacidade daquele olhar, que ele estava comigo mas que não estava mais ali há muito tempo. Que por aquela pele já haviam sido traçados outros caminhos, outros desejos realizados, outras vontades escondidas. Os olhos semicerrados me olhavam e não me diziam nada, não me enxergavam. Eu já sabia que não fazia mais diferença alguma nesse momento. Ainda tive que ouvir a frase: “você deveria assistir mais pornografia… vá ver bundas, tetas e pirocas gigantes”. Um pouco mais de sutileza da parte dele e certamente eu ouviria “vá gozar sozinha, não dependa de mim pra isso”.

Como se eu dependesse. Como se eu quisesse depender.

Todas as vezes que havia um hiato, o retorno existia apenas para efeito de demarcação de território – caso alguma outra pessoa me desse algum certo tipo de atenção que jamais poderia me ser dispensada da mesma forma. O sorriso era sempre difícil. O olhar era sempre para baixo enquanto pensava cuidadosamente nas palavras que usaria pra me machucar. Acho que esta foi a primeira pessoa que me odiou tão plenamente ao ponto de escolher, cuidadosamente, palavras que me machucassem, para que eu as aprendesse. E para que eu jamais as esquecesse. E eu jamais resistia àquele hálito. Havia alguns quês de umidade e poeira em tudo o que era seu. O modo como sorria, com os lábios ou com os olhos, toda vez que falava algo que me fazia sentir péssima sobre mim mesma. Ser ditada em relação ao que eu deveria fazer e ao que eu deveria sentir. E em como eu deveria fruir qualquer coisa.

As mentiras que, embora descaradas, eram obrigadas a serem aceitas como verdades. Não existiam acordos, não existiam conversas. Havia uma irritação total com o meu conteúdo (ou a ausência dele), mas em contrapartida sentia uma ofensa profunda caso eu apontasse qualquer mínimo defeito nas suas formas. Sempre havia uma tentativa, pífia, de “me ensinar” alguma coisa e isso geralmente era feito de uma maneira completamente empobrecida, me ignorando, me maltratando, com descaso. Toda e qualquer agressão que eu sofria eu havia “feito por merecer”, independe do que fosse. A força de toda a agressão, como era típico, vinha da ambiguidade, do quase. Do eu quase te odeio, eu quase fiz, quase quebrei qualquer coisa. E como esse quase não se concretizava, jamais existia um problema. O problema na verdade, caso houvesse, era todo o meu. Desde o início. Desde sempre.

“Eu vou destruir você”. Desliguei o telefone e o ouvi rindo, copiosamente, do meu medo do outro lado da linha. Quis pensar na total falta de hombridade e na profunda covardia. Mas mais uma vez eu abria as portas. Abri as portas até que senti que deveria me auto-destruir, mesmo. Que era impossível conviver e continuar sendo massacrada, sempre que possível, todas as vezes, repetidamente. Tudo o que acontecia era totalmente nocivo pra mim. E não havia sinal, nunca, de que um dia haveria fim. Eu estava cansada. Exausta, na verdade. Estávamos. Eu não aguentava mais, tudo, as partes boas, as partes ruins, as mentiras, o total descaso. Desejei sua morte. E desejar isso – acredite ou não – me matava também. Depois de um tempo então desejei que se apaixonasse perdidamente – o que seria quase a mesma coisa. E o segundo desejo foi mais fácil de se conseguir.

Tendo conseguido esse último desejo, hoje, mesmo sem mais resquício algum de fé, eu rezo para que nossos caminhos nunca mais se cruzem, apesar de sua imagem, borrada e falhada, permear pensamentos e sonhos. Por hora minha vida parece uma eterna esconjuração. Cada vez menos constante, mas ainda assim, persistente. Mas sei que um dia isso será como se nunca tivesse acontecido. Ninguém se sente bem com isso. Mas a verdade é que ninguém, nunca, se sentiu bem com coisa alguma que fosse desde o início. Desde sempre. Sinto tudo isso como um livro que se fecha mil vezes, repetidamente. Uma história que se repete e termina, mil vezes, dentro de mim. Para mim é forte a imagem de um livro fechado. E de quantas vezes isso já se repetiu, para mim, para os outros, no mundo, na existência. Fico me questionando quantas vezes mais isso vai se repetir para mim. Espero que nunca mais.

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