arquivo

Arquivo da tag: Sexo

I

Acabei de ser completamente honesta com alguém e isso está me fazendo sentir adulta. É um sentimento bem bobo na verdade, sei que vai passar. Mas acho interessante analisá-lo enquanto ele ainda acontece. Me aconteceu algo, novamente, que eu (ainda) não sabia se gostava ou não. Quando aconteceu, eu decidi que não gostava, pois me senti mal por algum motivo. Não queria aquilo. Ao invés de ser reativa, apenas me reservei o direito de dizer “bem, eu não esperava por isso”. E esperei um pouco mais de tempo passar e a parada sedimentar. Isso levou apenas alguns minutos a mais. Aí eu realmente comecei a pensar sobre isso e a questionar o que eu estava sentindo, pois não se tratava de raiva, mas de uma inquietação apenas (essas coisas tendem a se confundir com uma frequência impressionante). “Na verdade mesmo, eu gosto disso, mas não  deste modo, desta forma” e comecei a escrever um pequeno script deixando claro de forma bem explícita (pontuando) o porquê da inquietação com a situação. Isso levou segundos: gostaria de deixar as coisas claras entre nós, nada contra o que ocorreu, mas me desagrada a forma como ocorreu pois na verdade eu prefiro esta outra forma aqui (dei um exemplo) e me sinto meio chateada quando as coisas não saem do meu modo. Não se sinta obrigado a nada apenas SAIBA o que eu estou sentindo, o que eu gosto e o que não gosto. Só isso. A minha inquietação se dissipou.

II

A fumaça saindo da sua boca enquanto você fuma, o óculos, o sotaque e os estrangeirismos. Eu queria me pegar menos vezes repousando os olhos delongadamente em quem não deveria. E a esta altura eu simplesmente sei que não deveria. Estou velha e não quero mais problemas pra mim. E você é um problema que eu não vou resolver. Uma frieza que é ora típica, ora protocolar, o estender de mãos ao invés de me beijar o rosto como todos os outros, e a não-despedida. Acho engraçado, mas não rio na sua frente. Jamais tentei te seduzir e jamais tentarei. Não haverá esforço algum da minha parte. As faíscas já são óbvias quando nos aproximamos, em todo caso. Te uso pra me observar. Pra observar como me comporto, o que quero, o que penso, o que desejo. E principalmente COMO, de que forma faço isso tudo. Te uso pra fortalecer minha própria estrutura. Quando você começou a digitar o endereço de um site que deveríamos ver, na barra de endereços apareceu na lista um site de putaria. Vi e não sorri. Seria constrangedor se apenas não fosse interessante demais. Fingi que não vi, obviamente, e de qualquer modo, somos todos adultos aqui, o que há demais? Mas fiquei curiosa e fui visitar o tal do site depois, sim. Eu queria ver. Foi bem frustrante. Um senso estético de pornografia completamente padrão e lugar comum, absolutamente nada do conteúdo me fez brilhar os olhos. Mas aí pensei também que eu não possuo o mindset de putaria. Segundo o digníssimo Louie CK, I’m a tourist in sexual perversion, he’s a prisoner there. Bem, talvez ele esteja certo. Resume bem. Meu tesão é em outras coisas. Meu tesão é em quases. E isso eu já tenho de sobra.

III

Uma das coisas mais difíceis que eu estou aprendendo este ano é: eu posso gostar de uma pessoa, achá-la muito foda e etc., e, ainda assim, não querer trepar com ela. Não querer, não precisar, me recusar. É muito difícil chegar neste ponto, mas eu preciso, por mim mesma. As coisas tendem a se confundir muito pra mim quando eu gosto de alguém, principalmente nesse sentido sexual da coisa, é bastante complicado. Sempre fui mega passiva e sempre achei que tivesse que aceitar tudo. Mas a verdade é que eu entendi homens mais novos não me atraem muito, sexualmente. Não tenho paciência. Não quero aprender a ter. Mas que posso sim me relacionar com eles, conversar, ir em lugares, mostrar a cidade, fazer uma série de coisas que um casal faria… Menos trepar. Essa parte a gente pula. Essa parte não vale a pena. Não vou dizer que jamais farei isso porque é bobo e porque pode acontecer. Acho que o que me desconcerta com este menino novo em questão não é nem a idade, mas a sensação de quase que uma indiferença. A sensação iminente de que não precisava ser eu, sabe? Podia ser qualquer outra. E isso não é exclusividade de homens mais novos, mas é exclusividade de homens que só pensam em meter (ou seja, grande maioria). Não há um encontro, não há um significado, tem somente aquilo, que poderia ser outra coisa também, desde que estivessem metendo. Com jovens isso é mais evidente pois: jovens. Mas todos são assim, em algum ponto, independente de idade – porque são homens. Mas eu posso escolher não querer isso pra mim. Essa falta de envolvimento, de cuidado, de consideração, do que quer que seja. Não tô a fim disso. E acredito que isso vai me fazer permanecer sozinha por muito mais tempo.

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Mês passado eu tive um sonho erótico. Eu não ia escrever sobre ele, mas ele tem me perturbado tanto e ficado de forma tão persistente na minha mente até então que acredito que se eu escrever sobre, talvez ele desapareça. Sonhos eróticos para mim são raros, mas às vezes acontecem, nunca sei bem porquê. Não acho que seja pela falta de sexo ou por algum desejo latente. Talvez seja pela falta do sensual na minha vida, mesmo. E esses sonhos nunca acontecem com pessoas que eu quero que aconteça, mas sim com pessoas completamente aleatórias. Quando acontecem com alguém que quero, o erotismo, no sonho, tende a não fazer sentido algum, simplesmente. E os sonhos eróticos que tenho, geralmente são um tanto quanto esquisitos e raramente envolvem sexo propriamente dito, com penetração, etc.

É sempre mais uma atmosfera mesmo, de que “algo está rolando”.

Com este sonho não foi diferente.

Mas o que mais me perturba nesse sonho foi a pessoa que estava nele. O cara é praticamente um semi-desconhecido. Nunca troquei frase alguma com ele. Só o conheço de internet, por observá-lo – ele escreve e é relativamente famoso. Certa vez, uma amiga disse que uma outra amiga (sim) trepou com ele e que ele trepa mal. Acho que fiquei com este dado na cabeça por algum motivo que desconheço. De qualquer modo, o cara não faz o meu tipo em nenhum sentido. Ele é bonitinho demais. Charmoso demais. Tem toda aquela aura de escritor, pela qual as menininhas ficam loucas. Escreve bem, de fato. É engraçado e parece limpo. Não gosto do cabelo dele. E eu poderia ficar aqui falando sobre todos os high stakes que uma mulher na minha idade bota pra não arrumar caso com cara que não vá dar em nada, mesmo.

Mas eu sonhei com ele. E foi um sonho erótico.

Não é de hoje que eu tenho um pézinho no frotteurismo, embora o meu frotteurismo nunca seja público. Mas tenho essa coisa com tecidos e roupas e um jogo de mostrar e esconder, que acho excitante demais. E esse cara é completamente desprovido de estilo. Ele é completamente plano. Calça e camiseta. Ok, tudo bem. Lá estava eu no meu sonho, não lembro muito bem o que fazia, só me lembro que estava de bruços. Provavelmente estava dormindo assim. E de repente essa criatura se aproxima, como se rastejasse lentamente por cima de mim. Aquilo me incomoda, mas eu não me movo e não o mando sair. Ele está completamente vestido e eu também. Ele, rígido, se encaixa na minha bunda e fica se esfregando muito lentamente em mim enquanto sussurra a leitura de um livro (!!!) no meu ouvido direito. Eu, percebendo que aquilo era sonho, não acreditava e pensava “o que esse paspalho tá fazendo aqui?”

Mas a eu que estava no sonho estava completamente em transe e curtindo à beça. Enfim. Absolutamente nada aconteceu. Nem beijo, nem penetração, nem mucosas. Mas sinceramente, não me lembro da última vez que sonhei algo tão erótico assim.

Espero que depois de ter escrito isso eu consiga tirar esse sonho da minha cabeça de uma vez por todas.

Quando eu te abracei, eu nunca mais quis te soltar. E te apertei, com muita força. Queria exaurir todo o calor do seu abraço. Encostei minha cabeça no seu peito, pra ouvir as batidas do seu coração. Pra saber, entender, que você era vivo e estava ali, para mim. Não queria nunca mais te soltar. Não queria nunca mais sair daquele abraço. Fomos nos soltando aos poucos e você segurou meu rosto com suas mãos, dizendo “eu quero olhar pra você, quero olhar pra você, inteira”. E você olhou pra mim. “Você é perfeita”. Meus olhos brilhavam, não conseguia sequer respirar direito, você olhou nos meus olhos e sorriu, sem palavras. Não queria sair daquele momento e me entristeceu ter de fazê-lo.

(…)

A sensação que tenho é a de que tudo é uma corrida, meio que sem propósito. Estamos juntos, mas nunca estamos efetivamente juntos. Corremos, com a impressão de estarmos indo em direção um ao outro. Com a impressão de que, se corrermos o suficiente, em algum momento, em determinado momento estaremos próximos, estaremos juntos de verdade. Estaremos suficientemente juntos. Entendemos que nada disso é verdade. Não buscamos por um propósito ou propósitos, apenas seguida e repetidamente por significados tão efêmeros quanto essa linha de chegada imaginária, a qual pensamos ter vencido – e que sequer existe. Somos animais e sabemos disso. É uma corrida violenta por sobrevivência, por nutrição, por medo da morte, por medo da vida. E quanto maior for o medo da separação, da falta de conexão, mais violenta. E evidentemente, nos contraímos, nos afastamos. É involuntário. É natural. Bem como o que terminamos por sentir logo após a corrida termina.

(…)

Quando eu era mais nova, eu fugia de casa, dos meus pais, para me encontrar com o meu namorado na época. Até meus 15 anos, meus pais não me deixavam sair de casa e muito menos tomar ônibus sozinha. Era uma vida difícil, de prisão domiciliar mesmo. Com 16, quando comecei a namorar (escondido obviamente), eu fugia. Esperava eles dormirem, pegava a chave e saía andando à noite pela cidade, até chegar na casa do meu namorado que devia ficar cerca de 2,5km de distância da minha casa. Minha casa era, inteira, uma armadilha. Tudo precisava ser calculado e pensado. Meu quarto era em cima do quarto dos meus pais então eles ouviam cada passo meu. Quando eu me levantava da minha cama, a única coisa possível de ouvir em casa era a minha respiração. Tudo, do início ao fim, era um exercício de escuta do ambiente. Minha respiração era a primeira coisa que eu ouvia. A segunda, era o ronco do meu pai. Tirava o pijama, colocava uma roupa, pegava a mochila e o uniforme do colégio para o outro dia – estudávamos na mesma escola. Ía, pé ante pé, até a porta do meu quarto e girava a maçaneta de forma a não fazer barulho algum. Não sei como conseguia isso, mas conseguia. A escada da minha casa era de madeira e sempre, sempre rangia ao longo da noite. Descê-la era complicado, ela ficava próxima ao quarto dos meus pais e eles tinham o sono leve. Eu descia as escadas de meias, com os tênis na mão, para que eu fizesse o mínimo de ruído possível. Mal conseguia respirar ou ouvir minha respiração. Descer as escadas de dia era rápido, mas nas madrugadas durava uma eternidade, provavelmente era a parte mais difícil de tudo. Além disso eu ainda tinha que passar por mais uma porta, trancada, antes de ganhar a rua. Depois de ter descido, precisava girar um molho de chaves e uma maçaneta de forma a não haver ruído algum, o que era quase impossível. Quando eu fechava a última porta, sempre ficava com a impressão de que algum deles acordaria e não me encontraria no quarto. Ou me pegaria no flagra e me questionaria, fazendo algum escândalo. Isso nunca aconteceu. Talvez eles soubessem e percebessem, talvez não. Eu ganhava o portãozinho de casa e a rua, e aí andava com passos apressados até o centro da cidade. Corria, até. De noite. No frio. Em ruas escuras e mal iluminadas. Disso, eu não sentia medo. Nunca senti. Porque tudo fazia sentido assim que eu chegava.

(…)

Cada passo que dou, é como se o chão surgisse sob meus pés naquele exato momento. Como se a realidade fosse sendo criada a partir dos meus passos. Todos os dias, para onde quer que eu vá, uma nova realidade se faz.

A marcha é tudo o que há.

(…)

Não quero sair desse momento. Nunca mais.

Não entendo gente que acorda de bom humor porque trepou. Influencia tanto no humor assim? Não sei. Acho que não tanto quanto acreditam. Ao menos, acredito que não deveria. Mas né, talvez eu não saiba de nada mesmo. Já fui julgada frígida pelos transões, transarínos e transantes. E sei lá, por mim ok. É o que transpareço na superfície. Não me importo. “Até parece que você nem gosta de sexo”, já me disseram. Sim, talvez eu não goste de sexo da mesma forma que você gosta. E nesse caso, a forma como encaramos o sexo importa. Muito. Digo que não me importo com o que pensam que sou porque o que eu sinto na verdade só diz respeito à mim mesma. Minha experiência é única e intransferível. Então não faz muito sentido eu me ofender com isso.

Disse isso tudo porque estou cansada de me posicionar firmemente em relação à algo e alguém falar que preciso de pau. “Vai trepar!”. Como se isso fosse resolver meus problemas. Sem falar que não é uma regra que eu me sinta muitíssimo bem depois de ter trepado (ou me masturbado), pois sexo é algo subjetivo e as pessoas sentem tudo de forma única, não? Sinceramente, acho completamente raso. Ok, que tem aquele papo chato e cheio de psicologismos de a origem do problema e Freud e coisa e tal. Mas a complexidade que resulta do ato sexual, a bem da verdade, tem outros desdobramentos. Não é tão simples: trepou tá ótimo, tudo melhorou. Isso é infantil, uma ilusão. As angústias das pessoas vão além de só não transar. Existe todo um contexto para que elas sejam infelizes.

Me sinto mais satisfeita sendo ouvida e respeitada como eu de fato mereço do que estar trepando loucamente e tendo orgasmos em série, por exemplo. Ser ouvida. Ser compreendida. Ser respeitada. Me sentir à vontade o suficiente para que eu me expresse, sem medo. Inclusive expresse meu afeto. Isso me dá muito mais tesão. Escolha pessoal minha. Podem me julgar. Não me importo.

Quem dera que um pau fosse a grande salvação para todos os problemas do meu mundo. Veja bem: não é. Não existe piroca de ouro que vá resolver objetivamente esse problema que estou te comunicando. Não existe pica das galáxias que vá apaziguar ou ter empatia com essa angústia que estou sentindo. Não é bem assim que funciona, amigo.

Sexo não é – não deveria ser, NUNCA, em nenhuma circunstância – moeda de troca. Já me vi em um jogo onde o sexo era utilizado como moeda de troca para várias coisas – afeto inclusive. Mais tarde acabei descobrindo que esse afeto era, na verdade, inexistente. Uma mentira. Várias, aliás. O que acontece é: eu sei jogar esse jogo. Muito bem, por sinal. Mas ele não me interessa, absolutamente. O acho desestimulante. Individualista. Mesquinho. Mórbido. Impotente.

Meu sexo é muito mais do que isso.

Eu sou plana e generosa.

E, por isso, jogos não me apetecem.

Sexo jamais deveria ser condicionante de nada. Sexo é lúdico. É brincadeira. É consequência. E jamais deve ser a causa de coisa alguma. E enfim, trepar, foder, dar umazinha, procriar não muda caráter de ninguém, não. Esse argumento é ridículo. “Vai trepar!”. Já chegaram a me dizer “você precisa ver mais pornografia, trepar mais, ver mais piroconas pra se motivar”. Acreditar nisso é simplista e reduz a minha experiência de vida a uma só função: trepar.

Sejamos mais né?

Ademais, estimo melhoras pra quem quiser continuar pensando assim.

Chegamos tarde em casa aquele dia. Eu estava cansada e não sabia o que fazer primeiro. Se botava roupas pra lavar, conferia o e-mail ou via se tinha água no filtro. Já tinham se passado oito anos. Ele perguntou que tipo de filme eu gostaria de assistir hoje. Não sabia ao certo o que escolher e aí me foram dadas opções: um filme sobre o bloody sunday que ocorreu na Irlanda e outro sobre a vida pessoal do Stephen Hawking. Escolhi o filme mais bad vibe, o bloody sunday. Não sei bem porque. Fui tomar banho, estava tão cansada. Durante o banho pensei na minha conta negativada, nos meus cartões bloqueados e em como iria resolver aquilo tudo. Na correria que tinha sido aquele dia, por motivo de uma conta. Infernal. Cotidiano. Lembrei também de quando eu cuidava as plantas na janela e ele chegou por trás de mim, apertando a minha bunda, cheirando o meu cabelo e dizendo ‘senti sua falta’. Pensei também em cortar o cabelo, curto. Gosto do meu cabelo comprido, mas ele me dá tanto trabalho. Só de pensar que teria de sair do banho e secá-lo já me dava certa preguiça. Às vezes o deixava molhado mesmo, o que também não era bom. Saí do banho, me sequei e enrolei na toalha e fui até o quarto, onde ele estava do lado dele na cama, vendo qualquer coisa no laptop. Ele fala. Muito. O tempo todo. Eu sou quieta, mas falo. Respondo sempre. Sentei no pé da cama, na frente dele, meio desgrenhada, de toalha e comecei a tortuosa tarefa de secar os cabelos. Em frente de mim tinha um espelho, onde eu podia ver o progresso dos meus cabelos secando. Estava pensando que ia dormir no meio do filme. Já estava com um certo sono. Como meu cabelo tá caindo, meu deus. Como estou horrorosa. Minha pele anda meio seca. O tempo é um tanto cruel. Mas até que meu cabelo é brilhoso. Preciso ir num dermatologista ver essa queda. Pelo menos ele seca rápido. Acho que vou deixar de ir no salão que tenho ido e usar menos química. Meu cabelo tá cheiroso. Como é bom sentir ele secando e ficando bonito ao longo do tempo. Estou tão cansada. Será que o filme já baixou? Olho para trás para perguntar e sou surpreendida, sorrio cabisbaixa e meio atônita. Ele está olhando para mim, com o olhar semicerrado e a boca levemente entreaberta, enquanto se toca muito lentamente. O laptop tinha sido deixado de lado, não sei bem há quanto tempo. Meu cabelo ainda estava meio molhado. Me desconcentrei um pouco, mas como ele não falou nada – ou se falou, não me lembro – voltei a secá-lo. Não me dei conta na hora, mas não me lembrava de ter me sentido e ter visto algo tão sexy já há algum tempo. Aquilo foi pra mim como se nada do que eu pensasse sobre mim mesma importasse muito, no final das contas. E não foi proposital, mesmo porque costumo fracassar em todas as vezes que me empenho muito em seduzir. Foi espontâneo, meio passional. E gosto dessas coisas. E também outras coisas muito específicas e cheias de significado aconteceram no contexto daquele dia. Terminei de secar meus cabelos e engatinhei até ele, para enchê-lo de beijos. Para ser, por um momento, dele. E para estar com ele. Sentia que todos os beijos que eu dessem não seriam suficientes. Hoje. Sempre. Qualquer dia desses. (Meu amado. Meu amante. Meu amigo.)

“Então D., o amor, a cisma, digo que as pessoas não amam, elas cismam. A cisma geralmente é orgulho, não é amor. É sua ignorância, sua infantilidade é você, tão ingênua, é você tão “por favor, me ame!”, que vira um inferno na vida do outro. E você deixa de dar esse amor pra si mesma e aí sofre, de abandono. De auto-abandono. E isso vale para muitas coisas: para uma mãe que perdeu um filho, pra uma morte súbita, pra um rompimento, pra uma impossibilidade. “Sem você, não sobrevivo” e aí você pensa que assim não dá, porra. E esse “não dá” já é uma fagulha de inteligência. Isso chama-se inteligência. Quem tem inteligência de sobrevivência, quem tem essa integridade consigo mesma, não se perde por amor. Não morre de amor.

Isso é Maya, é ilusão. O tamanho da sua dor é o tamanho da sua ilusão. Que ilusão? Que você não vive sem a pessoa. Que ele é tudo pra você. Que sua vida não tem sentido. Que você morre. Que você precisa ter filhos, precisa manter, precisa lutar, precisa se sacrificar, defender… E isso tudo é de um egoísmo e de um orgulho obsceno porque é obsessivo. Não é amor. É o seu lado mimado espiritual. Pequeno. Menor. É a sua infantilidade existencial. Pude entender isso profundamente através do amor que senti pelo pai do meu filho. Porque eu tinha essa infantilidade afetiva. Muito. E eu sentia as dores do amor, dores pelas quais você inclusive se sacrifica das mais variadas formas possíveis. Mas que porra é essa? Que amor é esse que dói tanto? Amor não dói. Orgulho dói.

Hoje em dia, a maioria dos casamentos e relacionamentos que conhecemos não são construídos por amor… Quantos casamentos por amor que você conhece? Hoje mesmo eu ouvi no consultório “ah, mas a gente não consegue chegar num alto patamar de vida hoje sozinho”. Consegue. Mas se você quiser construir um patrimônio, não tiver tanta confiabilidade em si mesma e quiser ser rica, você sabe que precisa unir forças. Natural. Mas o que que é auto-apoio e o que é dependência? Tem uma diferença muito grande aí. Porque se você se pendura no outro, você vai morrer se ele for embora. Então solidão é auto-abandono, mesmo.

Muitos relacionamentos não só estruturam a sua base, bem como principalmente constróem toda a sua a sua fundação efetivamente a partir de um orgulho inconsciente. Por isso é que a gente tem tanto medo do casamento. Sua alma, seu espírito ainda anseia o amor, que a gente tenta, aos poucos, traduzir como companheirismo, parceria e certa cumplicidade.

Não tenho interesse algum pelo mundo dark, pelo que é violento. Como entendi o que é a violência na vida de uma pessoa? Toda pessoa que sofre de amor, que se abre para uma dependência emocional plena, tem um quê de suicída. E em algum momento da história, muitas pessoas morreram por conta desse amor idealizado e isso foi retratado na arte principalmente. As pessoas ficavam tísicas, tuberculosas e morriam de amor. Na verdade a pessoa queria mesmo morrer, ela se entregava por completo à dor do amor. São suicídas em potencial. E o suicídio é a violência sexual, é a energia sexual destrambelhada.

O suicídio, pra mim, não sei se existe alguma literatura mas enfim… O desejo de morrer pra vida porque você não obteve o objeto de desejo, o amor não foi correspondido ou algum outro tipo de desencontro amoroso… E você sofre tanto de amor e é uma dor tão irremediável… Para mim, esse amor não correspondido está interligado com a sua própria ignorância espiritual, o seu próprio orgulho de algo.

E que a maioria das pessoas ainda acredita totalmente no domínio a partir do sexo, essa coisa cafona. As pessoas ainda estão nesse patamarzinho baixo da ilusão de poder. É poder. Sexo não é amor. É um patamar baixo, de um instinto primário. É violência. É crueldade, D. E onde existe crueldade não pode existir inteligência. Só que existem realidades cruéis, né? E o mundo aceita porque é o mundo: engloba a tudo, é uma vastidão. Só que geralmente esses amores iludidos eles são passionais. São cheios de ciúme, de engenhocas, de dramas, de invejas, de posse, de domínio, de escravidão, de… Infantilidades.”

%d blogueiros gostam disto: