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Arquivo da tag: São Paulo

Na Avenida Paulista tem um adesivo que espalharam que pergunta a quem passa “já viveu um amor impossível?”. A pergunta serve justamente pra tirar a pessoa daquele momento de passeio e levar pra outros lugares, tira da avenida e leva pra pequenas ruelas de memórias. Não precisei pensar muito pra chegar na conclusão de que sim, na verdade acho que todos os amores que tive foram impossíveis. Não tenho sorte nesse sentido e parece que vai ser assim, na minha vida. Não me importo, já morri várias vezes e sigo vivendo. Não há muito a ser feito. Atualmente o amor mais impossível que vivo é o que sinto por São Paulo. Ele não é correspondido. Mas né, a gente persiste e tenta ver até onde isso vai, e no que vai dar. E tento, diariamente, relembrar o porquê que amo isso aqui – exatamente como amantes fazem, quando percebem que o relacionamento já se encontra desgastado, tentam lembrar dos melhores momentos, do início de tudo, do frescor que um dia já houve e certamente não existe mais. É sempre um frescor artificial, criado, mas nem por isso é mentiroso. Só não é mais o mesmo. Me acostumei com a cidade, do mesmo modo que nos acostumamos com qualquer outra coisa nessa vida. Me acostumei e aprendi a lidar basicamente com tudo o que é saturniano: as longas distâncias, os planejamentos, a pressa, a vida cronometrada, a falta de tempo, a minha cama, o relógio, os sorrisos, os infinitos dias cinzas de solidão, as pessoas que ainda estão ali pra mim, as oportunidades, as exigências, as recompensas, os mesmos lugares, mesmos passeios, mesmos restaurantes, tudo muito bom, a vida bem precária, as ruas bastante péssimas, a crueldade de tudo, a humanidade de tudo, o reconhecimento. São Paulo é muito. É muito para mim. E me ensinou e me ensina coisas que jamais conseguirei transcrever ou colocar no papel. No entanto, para o momento, essa cidade me cabe. Me sinto do tamanho dela. Sei o que fazer, por onde andar, todos os atalhos, tenho controle sobre tudo (o tempo, os atrasos, as chuvas, o trânsito), tenho todas as informações que preciso na palma da minha mão em segundos sempre, não tenho medo de nada e é quase como se eu não me sentisse sozinha, nunca. Já se foram 5 anos aqui e acho que consigo dizer que não sei se conseguiria morar em nenhum outro lugar no Brasil. Sempre penso nisso. Sempre acredito que existe essa possibilidade, mas meu ritmo agora é outro. Meu ritmo agora é o da cidade. Essa é a música que o meu corpo toca, agora. Inteiro. Ressoa. Sim, mesmo com todos os defeitos de uma cidade tipicamente uraniana. Talvez principalmente por isso. Não me arrependo de absolutamente nada, desde o primeiro dia que pisei aqui pra ficar. Essa cidade me edificou e construiu em mim uma resistência quase que indestrutível em relação às coisas que me colocavam pra baixo e que queriam me deixar pra trás. Me fez impôr limites, às vezes sérios demais a tudo, no entanto estritamente necessários para que eu conseguisse sobreviver, aflorar. Ser quem eu devo ser. Pra que minha identidade fosse minha e não afanada por qualquer outra coisa que fosse. Me testou pra que eu resistisse e, bem, aqui estou. São Paulo não perdoa e me ensinou a me perdoar, por tudo. A erguer o meu queixo, apesar de tudo, e seguir em frente. Me ensinou o meu verdadeiro valor, que não é, nem de longe, o que colocavam ou que colocam em mim, mas o que eu tenho. Nem mais, nem menos. São Paulo é bastante precisa, nesse sentido. São Paulo é a minha personal Mulholland Drive desde 2003. Para dizer o mínimo. “This town is the oldest friend of mine”.

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If I get there early, will it be the right time?
Our heaven is just waiting so put your hand into mine
If I get too surly, will you take that in stride?
Our boat is just there waiting so put that little hand in mine

And speak when you’re spoken of
Catch up on your sleep, girl
When you wear that body glove

You’re acting on initiative
You’re spelling out your love
You shouldn’t be alone in there
You could be above ground

All I want is to be the very best for you
And all I want is to be the very best for you
Oh, this time, there’ll be no life of crime

ShivaPasso 1: mantenha a expressão relaxada, sem estar ranzinza o tempo todo. Não precisa estar feliz não, apenas relaxado/a. se puder.

Passo 2: quando te oferecerem algo que seja panfleto ou quiserem roubar 5 minutos do seu tempo (que nunca são 5 minutos), dê um sorriso de lagarto e puxe um pouco os olhos, em expressão amigável.

Passo 3: quando a pessoa estiver bem próxima de você, estenda sua palma direita aberta e desmanchando o sorriso de lagarto diga com voz doce e enfática “obrigada!”, da forma mais graciosa e afável que conseguir, genuinamente.

Passo 4: nesse momento, a pessoa que te ofereceu o que quer que seja, pode até ficar chateada por não ter conseguido o objetivo de seu trabalho, mas ela vai se sentir enxergada. e é isso o que importa afinal.

Passo 5: siga com o seu dia sem passar karma escroto pra frente. fim.

Fumar é um mau hábito. Mas quem disse que eu sou um bom hábito? Não habito em lugar algum e ao menos assumo isso, sem maiores constrangimentos. Habito no fluxo, desço do ônibus, ganho passos apressados, buzinas, esporros e eu penso, gosto de pensar, que eu amo muito tudo isso. Gosto de pensar que amo essa porra. Me apresso pra levar nãos na cara. Levo o não. Trago o não comigo. Trago. Está tudo errado e eu preciso me acalmar. Preciso viajar mais duas horas pra chegar onde preciso, pra chegar num lugar onde me sinto viva, pra chegar num lugar onde existe gente que fale a minha língua. Existem coisas para serem feitas e elas não terminam, o oposto disto, elas parecem não parar de se multiplicar e eu estou em todas elas, tenho que estar. E estou. Para cada não que me é dito, eu digo sim para todas essas coisas. Meu sim é mais forte, é sempre mais forte do que eu posso suportar. Mas se eu ainda suporto é por algum motivo. Suporto, quero, desejo. Preciso. É um grande tumulto mas eu entendo que no final vai valer a pena de um modo ou de outro. Não sei dar bom dia. Não sei me despedir. Eu fluxo. E na conversa do ônibus você surge. E eu falo e falo, falo como se não sentisse, falo de você como se você não fosse comigo. Simplifico, reduzo tudo o que foi tão grande um dia. Falo pra ela que eu sou uma problem solver e que você era um trouble maker. Tenho essa mania insuportável de querer leveza. Falei tudo em que acreditava, que você precisa de alguém assim, que não sou eu, que você precisa de alguém assado, que não sou eu. Que nunca fui eu, pois eu nunca fui nada. Há muito tempo eu simplesmente listei todas as características para você do exato tipo de pessoa que você precisava na sua vida (problem solver) e você, negou tudo o que eu disse e disse que não era isso, que eu era estúpida, reducionista, prática e que o que eu dizia era uma mentira (trouble maker). Mas cedo ou tarde, tarde, agora e já, tudo o que eu disse se tornou mais real do que aparentemente ninguém esperava. Ou esperavam, foda-se, nunca foi sobre eles, nunca foi sobre nós. E tudo bem. Achei ótimo. Achei melhor assim. Achava melhor assim até quando era dolorido demais achar que era melhor assim. E você sempre soube disso e jamais vai admitir. Falei isso tudo, como se nada fosse. Sempre foi algo. Sempre foi (e isso é uma declaração de alguma coisa). Segui um fluxo, abri um mapa, cheguei onde eu precisava chegar. Precisava esclarecer várias coisas e todas foram esclarecidas. Já me decidi sobre o que fazer comigo mesma. Um desvio, uma absorção menor e mais restrita. A mais restrita possível, foda-se. Algum tempo pra continuar existindo desse jeito, mas de outro – gosto de pensar que tudo vai continuar a mesma coisa apesar das mudanças. Enfim. Terei bengalas pro resto da vida, mais do que as que já tenho. Serei privada de alguns prazeres mas hey, não se pode ter tudo mesmo nessa vida. E eu quero que seja restrito. Eu escolho isso, conscientemente. No final da apresentação, algo potencialmente simbólico, um desenho de uma âncora que vai do peito ao baixo ventre. Entendi imediatamente que isso significaria que, em breve, vou navegar para onde eu tiver de navegar, sendo âncora pro resto da minha vida. Meio absurdo, muito real. É uma decisão. É a minha decisão. Quero isso. Escolho isso. Preciso disso. Ganho a rua, a noite está fria e chuvosa. Eu não queria estar em nenhum outro lugar que não aquele. Não queria cantarolar o que cantarolei passando por nenhuma outra rua. Naquele momento eu não tinha mais alma alguma. Tive que esperar e puxei um cigarro, inspirando o máximo que pude e soltando logo em seguida da forma mais consciente e esvaziada que a minha exaustão me permitiu fazer. Me senti completamente dopada logo em seguida. Me fundi na cidade. A companhia do cigarro fez com que a avenida inteira se esvaziasse e só sobrasse ali eu e a fumaça. Eu, a fumaça, o vento a minha falta de alma em toda a sua extensão. Sou um mau hábito. E fiquei pensando nos critérios que definem os hábitos como maus, entre luzes de carros, ônibus e conversas desanimadas de fim de dia. Coisas que não existem. Recostei minha cabeça no vidro e nada mais se passava por ali. Apenas meu cheiro de cigarro, suor de fim de dia e cansaço. Eu fedia à exaustão, você sabe bem como. Queria muito que me arranhassem dos pés à cabeça. Precisava de mais um cigarro. E a próxima coisa na qual pensei foi a de que, depois que eu passar pelo que eu tiver de passar, nunca mais nenhuma escolha minha será impune. E mentalmente tornei essa minha decisão uma oferenda à você. E à ela. Está decidido.

(…)

Essa cidade não é uma paixão.

Essa cidade é um vício.

E uma mentira.

Essa noite eu sonhei que eu sentava na sua cara. Foi um sonho estranho, eu olhava pra um lugar que era como se fosse um espelho. E não me enxergava. Era outra pessoa que estava ali, que me emulava. Além de existir essa pessoa que deveria ser eu e não era, existia uma outra. Uma outra pessoa, que conversava comigo, enquanto eu sentava na sua cara. O que acontece é que a conversa estava mais interessante. Com a outra. Não lembro de uma palavra sequer do que foi dito. Não me lembro mais de você.

Acordei.

Fiz três anos de São Paulo esses dias. A cidade tem me castigado. Bastante. Sou casca grossa. Encostei a cabeça na janela chuvosa do ônibus e fiquei pensando que não preciso ser forte o tempo todo. Que eu podia fraquejar, me cansar. Odeio pensar nisso. Até minhas lágrimas são resistentes. Lágrimas de impotência, de ódio, mas jamais de fraqueza. “Na cidade grande nada machuca”.  Amigas paulistanas se ressentem com a frieza da cidade. Se você chora em público, ninguém te vê. Acho é ótimo.

Não sufoco. Pego a máxima quantidade de ar que consigo. Não me deixo sufocar. Elas tem a ilusão de que em uma cidade pequena e provinciana as pessoas vão ser mais amáveis e se importar mais com você. Pelo contrário: saberão seu nome, sobrenome e terão ainda mais armas pra julgar o que quer que você sinta ou deixe de sentir. Não caio, nunca mais, mais nesse papo. Enquanto isso, permaneço aqui, encosto a cabeça na janela chorosa do ônibus e penso que preciso respirar. Apenas respirar.

Essa cidade, ela senta na minha cara.

E finge que não é com ela.

Enquanto me ignora e conversa com algum outro alguém.

E aí sempre aparece aquela coceirinha “Mas e aí… É isso mesmo então? Tem certeza?”. Não, eu não tenho certeza. Há algum tempo acho que não preciso tanto dela assim. Mas por enquanto morar aqui tem funcionado. Meu tempo aqui não acabou e ainda preciso que São Paulo me dê uma lição ou duas: a ter mais agilidade na vida e a ser mais segura com uma coisa ou outra. Sei que é bastante irônico querer cultivar segurança e agilidade numa cidade onde essas duas coisas ou são precárias ou inviáveis, mas parece que vai ser isso mesmo. Na marra, como quase tudo na minha vida. Mas tudo bem, esse vai ser o meu currículo mesmo. Se eu quisesse conforto não estaria aqui.

Tenho uma memória afetiva ou outra por aqui, mas curiosamente nunca me deixei consumir por elas. Convivo com essas memórias pelos lugares da cidade, sem tanta afetação, sem maiores problemas. É como se tudo isso aqui já tivesse sido meu antes dessas memórias, como se eu já tivesse propriedade sobre tudo isso aqui. Então não há tanto drama, não há tanta dor, tanta euforia: existem apenas os lugares onde eu vou, sempre fui, sempre irei. Já fui absurdamente feliz nessa cidade e já me senti profundamente amada aqui. Tive momentos bastante ruins também, de tristeza e acho que a cidade combina com isso também. Me espelho nela quase sempre, acinzentada, melancólica. Me sinto acolhida nessas coisas. Tento extirpar dela através de algumas fotos, suas partes mais coloridas, sua geometria. Não sei se consigo, mas me divirto no processo e é isso o que importa.

Aprendi com uma música ano passado que São Paulo é a minha amiga mais antiga. É meu amor mais platônico de todos que já tive. Tão platônico e tão etéreo que terá que pra sempre ser redescoberto. E isso acontecerá cada vez que eu visitar um novo lugar e cada vez que eu tiver de sair com algum amigo pra fazer um passeio de turismo na cidade. E é um amor tão platônico que, mesmo estando aqui, é como se eu ainda não estivesse de fato. É como se eu flutuasse, como se sonhasse acordada, o tempo todo. Como se a qualquer momento eu tivesse que acordar pra outra realidade mais banal. Aqui acordo todos os dias uma estrangeira e esse é um sentimento brutalmente contraditório. Digo que é contraditório pois acho que no Brasil, até então, esse é o único lugar em que jamais me senti sozinha e jamais me senti desconfortável. Claro que eu sou uma pessoa adaptável e posso criar sentidos em outros lugares, mas não tão naturalmente quanto aqui.

Minha história com essa cidade é longa e eu sempre quis voltar pra cá porque acho que aqui é o meu lugar lógico no mundo: não me vejo, por hora, fazendo muito sentido em nenhum outro lugar.

Espero não parar de conseguir enxergar tanta poesia por aqui, principalmente nas coisas mais insignificantes.

Peguei metrô hoje às 18h30. Linha vermelha, lata de sardinha, amanhã levo tênis, etc. Geralmente presto atenção mais nas pessoas imediatamente próximas pois é inevitável, mas hoje descansei meus olhos sobre uma pessoa que estava a duas pessoas de distância de mim. Levando em consideração o contexto, isso não é muito distante. Um homem, o rosto dele estava virado, de lado. O lado do olho bom. Ele era muito, muito bonito e atraente. Parecia cansado, como todo mundo por ali. O achei lindo e fiquei tentando observá-lo discretamente quando ele virou o rosto. O outro olho, o olho ruim, era todo branco. Não sei qual foi a minha expressão no momento mas, por algum motivo, quando vi que ele era meio-cego o achei mais bonito ainda. Por algum motivo eu não quis mais tirar os meus dois olhos bons do olho branco ruim dele. Eu queria olhá-lo, de verdade. Eu queria demorar, mais ainda, o meu olhar sobre ele. Mas não podia, tenho vergonha, enfim. O chato dessa situação toda é que ele deve ter pensado que eu estava olhando pra ele por causa do seu olho ruim. O curioso é que: era e não era. O conjunto era agradável: o olho bom, o olho ruim, as imperfeições da pele, as cicatrizes no rosto, o cabelo por lavar, o cavanhaque por fazer… Todas as imperfeições do outro, que suspirava, cansado. E meio que olhava de volta e meio que não. Não sei se constrangido ou se contrariado. Eu não estava olhando pra ele porque ele era cego, mas por quem ele era, ou por quem aparentava ser. Fiquei com vontade de chegar pra ele e dizer: estou te admirando, acho você um cara atraente e é isso. Não se preocupe. Não estou com pena de você, nem com medo, nem nojo. Mas ele jamais vai saber disso porque eu não falei nada. Só continuei olhando pra ele, em todo o limite da minha timidez até seguir o meu fluxo na Sé, perdendo de vista pra sempre aquele olho branco e ruim.

Há algum tempo comecei a usar o foursquare. É um aplicativo que se assemelha à um jogo e te indica lugares pra ir, etc. Ainda não sei mexer nele direito, mas apesar de toda a jogabilidade dele, ele é interessante. Não me importo com o jogo na real, desbloquear medalhas, prefeituras e essas merdas todas, mas acho interessante e possivelmente úteis algumas das informações que vejo compartilhadas por lá. Esses dias estava procurando indicações de lugares pra ir por aqui. Na verdade estou procurando isso há algum tempo. Aparentemente, segundo o aplicativo, eu já fui na maioria dos lugares que são interessantes pra mim (shoppings não são tão interessantes, enfim). “É isso? Zerei a cidade?”. Claro que não, idiota, aqui é uma megalópole e existem trocentos lugares que você ainda não foi e mais alguns vários que você nunca poderá ir ou porque você não tem dinheiro suficiente ou porque você é mulher e sozinha e pode ser perigoso.

Mas aquela sensação de vazio apareceu e de repente se instalou de tal forma, que me deixou um pouco inquieta. Aquela sensação que te diz de modo um tanto quanto malicioso “Mas e aí… Então é isso? É isso mesmo? Tem certeza?”. E vocês sabem exatamente do que eu estou falando. Me atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa voz fazendo essa pergunta de tempos em tempos. Essa voz que vem do fundo da cabeça, sempre com um tom de deboche, com um tom de desprezo. Pra muita gente essa voz é gatilho pra ambição, pois é a tal da “síndrome dos dois anos” pra qualquer coisa: namoro, emprego, cidade. É meio ridículo. Bateu dois anos, essa voz aparece, com os questionamentos e com os consequentes “mas e se…?”. Algumas pessoas ficam inquietas. Outras são inquietas (e essas são hopeless: não sossegarão nem aqui, nem no Japão, nem em lugar algum, nunca). Dia 31 agora vai fazer dois anos que vim passar o ano novo aqui e até hoje não voltei pra onde estava.

Não parece que faz dois anos que vivo aqui. Semana passada decidi passar o ano novo por aqui pra comemorar a data, devo voltar de Porto Alegre correndo só pra isso. É sempre reconfortante voltar pra cá. Não me vejo morando em nenhum outro lugar do Brasil tão cedo. Acredito que tive sorte por aqui, para um início está sendo muito bom. Tenho conseguido sobreviver relativamente bem e com o mínimo de dignidade, mesmo sendo mulher e sozinha. Ainda me acho lenta demais pra morar aqui, talvez essa seja a lição da cidade pra mim (ela já me ensinou tantas). Algumas coisas são completamente novas pra mim, outras, nem tanto. Outras inclusive parecem que eu já vi antes, parece que conheço desde sempre, cada calçada, cada fluxo, cada nuance. Às vezes eu sinto como se eu tivesse me apropriado daqui bem antes de fazer parte disso. Talvez tenha sido isso mesmo: morei por nove meses dentro de alguém que morava aqui, em 1983 e 1984. É interessante pensar que isso pode ter tido alguma influência.

Vim pra cá depois, a passeio, com a minha mãe, várias vezes, várias lembranças. São Paulo pra mim não é perene, é como se fosse uma cidade movediça. Como se tudo que eu passasse aqui fosse um sonho. Difícil explicar. Tenho uma memória afetiva ou outra por aqui, mas nunca me deixei consumir por elas: convivo com elas pelos lugares da cidade, sem tanta afetação, sem maiores problemas. É como se tudo isso aqui já tivesse sido meu antes mesmo dessas memórias, como se eu já tivesse propriedade sobre tudo isso.. Então não há tanto drama, não há tanta dor, tanta euforia: existem apenas os lugares onde eu vou, sempre fui, sempre irei.  Já fui absurdamente feliz nessa cidade e já me senti profundamente amada aqui (e ninguém pode tirar ou vetar essas memórias de mim). Tive momentos ruins também, de tristeza e acho que a cidade combina com isso também. Me espelho na cidade acinzentada, melancólica. Me sinto acolhida nisso tudo. Tento extirpar dela através de algumas fotos, suas partes mais coloridas, sua geometria. Não sei se consigo, mas me divirto.

Eu aprendi com uma música esse ano que São Paulo é a minha amiga mais antiga. É meu amor mais platônico de todos que já tive. Tão platônico e tão etéreo que terá que pra sempre ser redescoberto. E isso acontecerá cada vez que eu visitar um novo lugar agradável e cada vez que eu tiver de sair com algum amigo pra fazer turismo na cidade. Espero não parar de ver tanta poesia por aqui, principalmente nas coisas insignificantes. E é um amor tão platônico que, mesmo estando aqui, é como se eu ainda não estivesse de fato. É como se eu flutuasse, como se sonhasse acordada, o tempo todo. Como se a qualquer momento eu tivesse que acordar, pra outra realidade mais banal. Aqui acordo todos os dias uma estrangeira e esse é um sentimento brutalmente contraditório. Digo que é contraditório pois acho que no Brasil, até então, esse é o único lugar em que jamais me senti sozinha e jamais me senti desconfortável. Claro que eu sou uma pessoa adaptável e posso criar sentidos em outros lugares, mas não tão naturalmente quanto aqui. Eu sempre quis voltar pra cá porque acho que aqui é o meu lugar lógico no Brasil: não me vejo, por hora, fazendo muito sentido em nenhum outro lugar.

Real life

Waking dream

Waking life

Mesmo lugar

Mesma história

Mesmas conversas

Tudo diferente

Tudo novo e de novo

Tudo outra vez

Mais uma vez

E de novo e de novo e de novo.

(eu não me canso)

mystique

urbe

Saudade

Saudade

Saudade de São Paulo.

Saudade da minha vida.

Saudade de quem eu sou.

Saudade.

São Paulo é a cidade do exagero. Aqui tudo é grande, tudo é longe, tudo é demorado, tudo é muito caro. Não fosse, não seria São Paulo. Mas agora falo de comida. Aqui não tem só comida como em qualquer outro lugar do Brasil. Aqui tem MUITA comida. Tem comida PRA CARALHO. E tudo é um exagero. Sanduíche de mortadela com 10cm de mortadela gordurenta. Pratadas e pratadas de macarronada com molhos fartos. Beirutes do tamanho do universo. O curioso é que é nas lanchonetes ‘de pobre’, ou ‘de mortais’ ou de gente comum (as lanchonetes não-gourmet) é onde os lanches são ainda maiores para aplacar a fome do paulistano. Quanto mais gourmet é o lugar, menos comida vem no prato, mas isso não é exclusividade daqui, é no mundo todo. Hoje eu estava pensando sobre esse exagero, de tudo, mas principalmente de comida. Tem uma lanchonete perto do meu trabalho na Alameda Santos onde sempre vou, mesmo sabendo que o sanduíche é imenso e que não consigo dar conta. Sempre vou e sempre peço um com fritas. As fritas sempre sobram, em quantidade. O sanduíche, dependendo do meu dia, sobra a metade. Isso porque eu sou uma glutona que sempre come pra caramba. Mas simplesmente não consigo vencer. E nunca deixo a comida lá, acho meio criminoso mesmo (neura desenvolvida por anos a fio). Enfim, sempre levo a comida comigo, afinal, eu paguei, não quero que vá pro lixo simplesmente. O lance foi que eu aprendi que, mesmo levando a comida, eu jamais vou comê-la depois. Não tem como comer batata frita DEPOIS. Ninguém faz isso, é ruim, não gosto de coisas que não são frescas. Claro que São Paulo, por hora, me deixou mais gorda: é muita novidade, muitos restaurantes, muito de tudo. Mas ao mesmo tempo me deixou mais comedida também: não me obrigo mais a comer TUDO o que vem no prato. Sou mais seletiva nos pedidos. Tento ser menos exagerada em vários campos da minha vida: o exagero da cidade compensa o meu. E, principalmente, o que mais gostei até agora: o exagero da cidade agravou a minha generosidade. Apesar de sempre levar uma quentinha da comida comigo, o que acontece é que eu sempre dou essa comida pra mendigos ou trabalhadores de rua, jamais deixo pra mim mesma porque detesto deixar a comida “para depois”. O que está fresco deve ser comido no momento e acho este um imediatismo bem positivo. Já fiz isso de dar comida para pessoas na rua várias vezes esse ano. Ter o privilégio de doar comida fresca a desconhecidos que precisam e ver a expressão de gratidão deles alimenta a minha alma.

Andando na rua treze de maio a uma quadra do shopping pátio paulista, me pára um playboyzinho e me pergunta se eu sei falar inglês, em inglês. Suspeito que ele quis me constranger, caso eu não soubesse responder. Ou queria ver a reação de praxe baba ovo de gringo, o que não ocorrreu também. Faz horas que isso aconteceu, mas eu ainda não me decidi por quem foi mais imbecil: ele por vir de caô querer tirar onda comigo com um inglês tupinambá-tabajara ou eu, por ter respondido as três perguntas ridículas que ele me fez.

Acho que os dois.

Fui à Casa das Rosas ver uma apresentação de música aleatória. Cheguei bem antes do previsto. Aqui não existe isso de dar uma passadinha em casa antes de ir para qualquer outro programa, você sai do trabalho e vai direto. Uma hora antes do início, peguei o melhor lugar, vi a passagem de som. Havia uma criança, filha do cara que estava organizando tudo. Acho que tinha uns 8 anos, não parava, enfim, criança. Músicos tocavam uma passagem e me sentia privilegiada, ouvindo antes. O diretor depois deu instruções aos músicos, sobre como eles deveriam sentir a música e interpretá-la. A criança continuava distraída fazendo qualquer outra coisa. “Vocês precisam pensar nessa música como algo que parte do pequeno para o grande, como algo que vai se expandindo, mas de modo sensual.. Se expande e em algum momento explode, ocorre essa explosão, mesmo sendo mínima.. É como sexo”. Um riso de criança. Vários risos de criança. “Você não ouviu papai falar isso! Esquece o que eu falei”.

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