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Hoje no almoço eu estava pensando nos tipos de TPM que eu tenho. E não acho que seja só eu que tenha não, talvez essa carapuça sirva pra um monte de outras coitadas também. TPM é um troço chato, incompreensível. O comportamento muda radicalmente e é chato ter que ficar lidando com isso. Muitas vezes eu desejei não ter TPM, mas acho que pra isso só tirando o útero mesmo, não tem muito jeito.

Tenho tomado pílula faz uns 2 anos e isso diminuiu enormemente todos os efeitos indesejáveis de TPM que eu podia vir a ter.  Eu disse que diminuiram, mas não sumiram totalmente não. Vez e outra aparecem por ali, me deixando confusa acerca de um monte de coisas, principalmente em relação às coisas que eu sinto no momento. O que eu vivo e sinto se confunde com os sintomas da TPM e isso pode ter consequencias chatas.

Acho que é por isso que me preocupo tanto em distinguir bem e classificar os tipos de sintomas de TPM que eu tenho, por que não quero me confundir. Às vezes estes sintomas aparecem juntos, outras separados, às vezes, para o terror da humanidade, aparecem todos ao mesmo tempo (TPM overpower, onde eu me torno praticamente um monstro de outro mundo), mas essa última é bem rara, ainda bem. Eis os sintomas:

Choro: Choro por qualquer coisa, desde comercial na TV ou algo bonitinho que vi na rua. Se alguém é um pouco mais rude comigo, eu choro até secar. Se brigam comigo, fico mal ao invés de enfrentar. Choro se algo é bonito ou alegre. Choro se algo é triste ou feio.  Choro por causa do presente, do passado, do futuro. Choro se não tenho porcaria de motivo nenhum pra estar chorando… Em suma, UM PORRE!

“A fome”: Na real, nunca passei fome na minha vida. Isso não existe. Então, fico imaginando que o estômago simplesmente não manda o sinal de SACIEDADE pro cérebro e que nós, mulheres, somos TODAS danificadas sem exceção. Essa “fome” da TPM é algo que NÃO PASSA. A vontade é de comer o mundo! Achei que essa fosse uma coisa minha mesmo, uma vez que eu já tenho problema com comida mesmo. Mas quando vi uma amiga “normal” com TPM passando pela mesma coisa, notei que não era só comigo. (Dentro d'”A fome” existe também uma fome bastante específica no meu caso que é “A fome de doces”. Particularmente beijinho, brigadeiro (chocolate) e doce de leite. Ah, sorvete também serve pra acalmar a besta fera.)

Androfobia: Já ouvi falar que existem mulheres onde acontece o contrário: ficam taradas quando estão na TPM, como se estivessem no período fértil. Mas comigo o que acontece às vezes é androfobia pura. Fico com nojo, repulsa e ÓDIO MORTAL de homens e de ABSOLUTAMENTE TUDO o que seja relacionado ao universo masculino. Amazona mesmo. Quero que todos, indistintamente, MORRAM. Não suporto nem ouvir a voz, nem nada. Fico achando todos uns nojentos. Depois de uns 3 dias passa e eu volto ao normal, sendo que um desses dias é bastante CRÍTICO. (Mas dentro desta categoria, às vezes eu fico pensando que eu quero mais é que todas as pessoas – independente de sexo – morram mesmo, fico achando que é antropofobia quando na verdade é só…)

Irritabilidade/Ansiedade: o sintoma mais claro como o dia quando estamos na TPM. Tudo é extremamente irritante, até eu mesma. Fico com vontade de morrer alguns dias, de me enterrar a 7 palmos por uns 3 dias e só voltar depois. Não quero sair de casa, nem me olhar no espelho, nem nada. Tenho tendência a ficar mais deprimida/melancólica e a tratar os outros com descaso ou com grosseria (mais do que já trato). Este sintoma é incompatível com o Choro, pois ao invés de chorar, eu enfrento todo mundo, de modo bem irracional e mesmo que não precise.

Enfim, todas as vezes que percebo algum desses traços e dou uma olhada em que dia está a cartela da pílula, começo a entender algumas coisas. Não acho mais que auto-consciência é tudo não, mas certamente pode ajudar a evitar alguns probleminhas mais chatos. É claro que é impossível “controlar” a TPM e fazer com que ela “não exista”, mas não temos muita escolha: somos obrigadas a lidar com ela.

Acredito que nenhum gênio(a) já tenha inventado algum “remédio anti-TPM”. Também não acho que tomaria tal remédio se existisse. Minha experiência com esses remédios “pra cabeça” é medonha. Outro dia escrevo sobre o dia que eu tomei 1 Fluoxetina ‘de brincadeira’. Achei o resultado bom e aterrorizante ao mesmo tempo. :)

Sexta feira agora fui pro norte da ilha. Sábado de madrugada (5 a.m.) meu pai viajaria de volta pra Campo Grande/MS e antes que ele fosse eu queria ir pra lá, fazer uma janta pra ele. Assim como vários outros estudantes de fora que moram em Florianópolis eu dependo do transporte público pra tudo. Mas ainda assim não reclamo muito, pois ter um carro pra mim seria um pesadelo. Não tenho saco pra cuidar de carro e nem de ficar cuidando de manutenção, lavar, etc… Não nasci pra isso. Enfim… Sexta-feira, 17h30 da tarde eu já estava no centro esperando a linha Executiva da Canasvieiras 1120 Canasvieiras Jurerê que é mais cara, mas vale muito a pena.

Quer dizer, vale muito a pena quando o executivo não chega LOTADO de gente e você não tem como ir, né?

A Canasvieiras Transportes bem que podia fazer uns executivos um pouquinho maiores né? Imagina quando for alta temporada então? Infernal.

Bem o negócio foi que eu fiquei das 17h às 19h30 esperando um ônibus destes que viesse com algum lugar vazio.  Passaram dois ônibus: lotados. Eu estava cansada, exausta e queria ir logo pra casa ver meu pai. Cheguei no ponto e estava vazio, só tinha eu lá. Depois chegaram + 2 senhoras e ficaram esperando a mesma linha comigo. Já pressenti que os lugares (se houvessem) teriam que ser disputados no tapa, quem pegar pegou, por que ninguém ali parecia muito a fim de respeitar qualquer tipo de fila, ou sei lá. Ok. Passou um tempinho e apareceu uma senhora com seus sei lá, 55~60 anos e uma mulher mais nova que parecia ser filha dela…

Uns 5 minutos depois apareceu o terceiro ônibus (sim, o terceiro ônibus que eu perderia), o motorista contou e  avisou que só tinha 3 lugares no ônibus. Ok, eu e mais as 2 senhoras – que estavamos esperando mais de hora ali – poderiamos entrar na boa… Mas não… A véia que tinha ACABADO DE CHEGAR simplesmente quis entrar na minha frente. Nessa hora eu nem pensei, mandei a educação pras cucuias, falei “com licença”, afastei a mulher da entrada do ônibus e ENTREI. Foda-se. Entrei no ônibus, suspirei e fiquei me sentindo CULPADA. Me sentindo a pessoa mais escrota da face da Terra.

Cheguei em casa e contei pro meu pai. Ele achou que eu fiz certo. No entanto, isso não é um comportamento comum meu. O meu “normal” seria esperar até às 20h e pegar o último busão… O mais OTÁRIA possível, sempre.

Pedra na Vesícula (25/07/2009)

Campo Grande, novamente (25/08/2009)

Ontem foi o dia que eu passei pelo processo de Laparoscopia, pra tirar a vesícula e as pedras que tinham nela. Fui pro hospital às 6 horas da manhã com o meu pai e toda a papelada, 2039480475348759348 exames entre exames de sangue, exame do anestesista, exame ultrassom, autorização da Unimed pra internação e o caramba. Enfim.. Depois da papelada toda fui pro meu quarto pra esperar o enfermeiro me levar pra sala de cirurgia. Em poucos minutos, entrou um enfermeiro e me mandou tomar um remédinho pequeno e azul e trocar de roupa, colocar a roupa do hospital. Também tive que tirar todos os meus piercings, o que foi chato pois fiquei com medo de perder os furos.. Mas enfim, tirei. Coloquei as roupas do hospital, tomei o remédio. Em poucos minutos o enfermeiro já estava lá de novo pra me levar. Deitei na maca e fui levada pro centro cirúrgico.

No caminho pro centro cirúrgico já fui sentindo uma sonolência leve, mas era por que eu realmente tinha dormido pouco na noite anterior (cerca de 4 horas, só).  Não me lembro direito o que aconteceu quando estive na sala de cirurgia, só lembro de que lá tinham muitas pessoas, enfermeiros e eles conversavam entre si e eu não consegui gravar nem entender nada do que eles diziam. Eu já estava meio grogue. A última coisa que eu me lembro de ter acontecido antes de eu apagar de vez, foi ter visto do Dr. Fernando Delmondes. Ele me deu “oi” e sorriu. Depois disso não vi mais nada… Apaguei mesmo.

[…]

Tive a impressão de ter cochilado por uns 5 minutos. Quando abri os olhos naquela sala, a claridade foi cortante. Meu primeiro pensamento foi “Mas puxa vida, quando vai começar essa cirurgia? Que saco”.

Puxei o ar pela primeira vez depois da cirurgia e aí sim “senti” a minha barriga e percebi os pontos.

“Putz, já foi…” e apaguei de novo.

Fui acordando aos poucos. Devo ter falado um monte de besteira pras enfermeiras. A gente fala muita idiotice depois que volta de uma anestesia geral. Lembro de ter perguntado perguntado pra alguma enfermeira se foi tudo bem e tal e ela respondeu que sim.. Aí eu disse algo tipo “é.. eu sou jovem, sou saudável e mimimi”. Acho que ela riu de mim.. Não lembro. Não lembro de nada. Se eu não lembro, eu não fiz.. rs

Eu acordava e apagava… Acordava e apagava… Perdi a conta de quantas vezes fiz isso. Aí teve uma hora que eu acordei mesmo por que já estava me dando muita vontade de fazer xixi. Olhei pro lado e vi que eu estava numa sala de recuperação de anestesia (isso tava escrito numa placa e tudo). Aí veio uma enfermeira e me disse que ja me levariam de volta pro meu quarto, em cerca de 10 minutos. Não sabia se meu xixi aguentaria por 10 minutos mas disse “ok”. Voltei pro quarto logo e pude ir no banheiro. Meu pai e minha mãe estavam me esperando.

Depois do almoço resolvi recolocar meus piercings que felizmente não fecharam.

Passei o dia todo cochilando e acordando. Acordava sempre que alguém entrava no quarto. Fiquei com soro o dia todo também. De tarde minha irmã ficou comigo até às 15h30. Passei o resto da tarde sozinha, depois meu pai só reapareceu às 18h. Não foi ruim, só dormi mesmo.. Não fiz nada demais. Lá pelas 18h30 recebi alta e fui embora pra casa.

Foi estranho dormir ontem. Deitei na minha cama e meus órgãos parece que se espalharam dentro de mim. É uma sensação de vazio literal. Tem uma parte ausente ali dentro de mim e parece que meus outros órgãos percebem isso e estão tentando se ajustar como podem. É engraçado perceber isso. É uma sensação de ausência estranha.. Mesmo que a vesícula só tenha de 7~10cm.. É complicado explicar.

No mais, está tudo bem. Não sinto dores, sinto incômodos, o que é diferente. Incômodo a gente sabe que passa logo. Dor a gente nunca sabe, por que parece que não termina nunca.  Dor eu sentia quando tinha as pedras e tinha as crises. O que eu sinto agora passará em questão de dias, é tudo uma questão de adaptação e cicatrização. A gente sempre fica nervosa/ansiosa com uma operação, mas quando é pra bem, pra ficar melhor, é melhor fazer de uma vez e não ficar adiando.

Me sinto bem melhor agora. :)

Ontem eu fiz algo fantástico antes de dormir. Tomei dois cálices de vinho, deitei nos meus lençóis gelados. Virei pra um lado, pra outro e não consegui dormir.

Então eu comecei a falar, em voz alta, das coisas que me angustiavam. E elas, obviamente, tinham a ver com pessoas que eu gosto. Falei tudo. Falei tudo o que tinha pra dizer. PRAS PAREDES. Pra mim mesma.

Me entediei em pouco tempo. Minhas paredes não.

Continuei falando. Falei até a exaustão, como se estivesse numa sessão infinita de psicoterapia.

ESVAZIEI os assuntos, as pessoas, as conexões, as situações. ESVAZIEI ao ponto da exaustão.

Quando fiquei exausta, dormi.

E foi o melhor sono que tive em muito tempo.

Preciso fazer isso mais vezes.

Ontem a tarde vim aqui em casa deixar algumas coisas com meu pai e quando fui ver a minha caixa de correio tinha um pedido/aviso, sem data e sem identificação, escrito à mão por um vizinho/a pedindo pra eu falar mais baixo depois das 22h.

Achei estranho.

Não estou no apto. desde o dia 11/07, voltei pra Florianópolis no dia 19/07 e desde então me encontro no norte da ilha, com meus pais. A reclamação, muito provavelmente, foi escrita quando eu estava ausente, ou fora da região. Sinceramente, não faço idéia de que vozes/barulhos altos sejam esses, uma vez que só eu tenho  a chave do meu apto. e ninguém esteve aqui enquanto eu estava fora.

Vim aqui hoje (24/07) por acaso, pois precisava instalar umas coisas novas e excepcionalmente hoje dormirei aqui.

Uma sugestão:

Ao invés de mandar bilhetinhos sem data por que você não cria coragem e reclama imediatamente assim que se sente incomodado/a? Lhe garanto que é mais efetivo e assim você me poupa de acusações sem sentido. Obrigada.

Passar bem.

Isadora
Apto. 202

Aviso que escrevi em papel e colei do lado da caixa de correio pra TODOS os vizinhos lerem. Cansei. É a segunda vez que saio de férias e justamente nesse período reclamam que eu faço barulho. Eu passo o semestre inteiro ouvindo som alto e nego reclama quando eu VOU EMBORA. Isso é RIDÍCULO! Faz 2 anos que eu moro ali. Vou parar com essa palhaçada de gente que se mudou pra lá ontem JÁ!

Por volta de 2007 e 2008, quando comecei a morar sozinha e fazer a minha própria comida, começaram as dores fortes. Nunca tive uma má alimentação, nesse sentido minha mãe me educou bem. O meu sobrepeso aconteceu mais por questões de ansiedade, um quadro de depressão e quantidade de alimentos ingeridos juntamente com a falta de exercícios físicos, do que somente por má alimentação.

Inicialmente quando comecei a sentir dores na vesícula, eu as suportava sem remédio algum. Depois, por umas duas vezes em 2008 fui pra emergência com dores muito fortes, insuportáveis. Então comecei a suspeitar que eu devia ter problemas com a digestão de pimentão verde, pois eu comia isso em enormes quantidades. Pensei em procurar um gastro, mas simplesmente cortei o pimentão da minha dieta e não fui ao médico.

Por um bom tempo fiquei sem essas dores, até julho deste ano (2009). Quando estive no Rio no início do mês, um pastel de queijo me fez ir pra uma emergência de hospital. Não fui examinada, mas ao menos tomei algo que fez aquela dor horrível parar. Dois dias depois já em Florianópolis, comi um queijo quente e passei igualmente mal.

Fui ao Hospital de Caridade acompanhada pelos meus pais e o plantonista era um cirurgião especializado em aparelho digestivo. Ele me examinou de perto e pressionou minha barriga em vários pontos. Senti dores indescritíveis. Quando ele pressionou o lado direito na altura do estômago, quis morrer. Naquela noite tomei Buscopan na veia, colheram meu sangue pra um hemograma e o médico ainda fez o pedido de um ultrassom para verificar a existência de pedras na vesícula.

Segunda-feira fiz o ultrassom, e acusaram pedras. Só poderei buscar o exame segunda agora, no entanto. O médico do ultrassom me indicou que eu evitasse comer qualquer coisa frita ou muito gordurosa. Esse site também disse que eu devo evitar: carnes gordurosas, queijos amarelos, requeijão, leite integral, biscoitos, pastéis, pães folhados, embutidos (como lingüiça e salames), ovos fritos, manteiga, maionese, amendoim, castanha-do-pará e bebidas alcoólicas.

Ainda estou em busca de um gastrologista. Quero me tratar disso e me curar logo, de preferência sem fazer operação. Liguei pra uma gastro que me indicaram esses dias e ela só tem consulta pra dezembro. Sem chance. Vou continuar procurando por algum médico que me atenda o mais rápido possível, mas não sei se vou achar. Vou apresentar meu exame pra ele e ver se existe algum tipo de tratamento ou se vou ter que me operar de qualquer forma.

De qualquer forma já me sinto meio aliviada só por saber da doença. Pelo menos vou poder saber como agir e me cuidar pra não passar mal de novo e não ter que ficar correndo pra hospital. É ruim passar mal sempre quando se é sozinha. Quaisquer novidades nesse sentido estarei relatando por aqui.

Janeiro. Jurerê. Caminhadas. Black Celebration. Casarão. Mãe. Pai. Fevereiro. Cabeça raspada no zero. Liberdade. Desapego. Paz interior. Meditação. Solidão. Março. Biblioteconomia. 24. Rio de Janeiro. The Fox. Interpol. UFSC. Abril. Introdução a biblioteconomia. Restaurante Universitário. Zé. Dani. Will. CAB. Estágio. Maio. EREBD Sul. Curitiba. Derbi. William. Lilly. São Paulo. The Fox. Liberdade. Parque Ibiapuera. Parada Gay.  Junho. Provas. Anne. Daniela. Cássia. Débora. Fim de semestre. Tatuagem. Tiago. Detrito. Amnésia alcoólica. Julho. Pais. Jurerê. 12º Festival de Música Livre. Thiago. The Fox. Agosto. Tatuagem. CAB. Iniciação Científica. LGTI. Mrs. Schwarz. Thais. Setembro. Catalogação. Fontes de Informação I. Seminário de Arquivologia. Periódicos Científicos Online. Padronização. Outubro. Tatuagem. Porto Alegre. Derbi. Bell’s. Casa de Cultura Mário Quintana. Carla Castilhos. Porão do Beco. Damn Laser Vampires. Fabico. Tatuagem. Fernando. mIRC. Novembro. Erick. Nicolas. Praia Mole. Lagoa. EREBD SE/CO. São Paulo. Titi. Tip Top. Sandro. Lilly. Fernando P. Marlany. Saruana. Dinda Martha e dindo Múcio. Chuva. Sinuelo. Dezembro. Perdão. Notas. Camerata Florianópolis. Confraternização Biblio. Amigo secreto LGTI. Festa da Biblio Latitude.  São Leopoldo. Parentes. Gramado/Canela. Artigos. Pesquisa. Porto Alegre. Lilly. Fernando P. Derbi. Ano novo.

Já caí na porrada – literalmente – com ele uma vez, num dia de fúria qualquer desses que a gente tem. Não me orgulho, nem me envergonho, simplesmente aconteceu. Meu pai não nasceu em berço de ouro, mas sempre teve uma vida de muita correria. Eu sei que ele foi militar e, ao contrário da sádica da minha irmã, me recuso a perguntar pra ele sobre aquela época. Se perguntasse, sei que ele não responderia mesmo, então evito constrangimentos. De qualquer forma, ele só me falava das coisas boas que aprendeu com os militares, questão de ordem, disciplina, etc. Hoje em dia não sou exatamente uma mulher disciplinada, mas sou meio exigente, com as coisas em geral e comigo mesma, de uns tempos pra cá.

Enfim… Às vezes fico tentada a acreditar que o sonho do meu pai era ter filhos homens, que gostassem de futebol e de beber cerveja, que nem ele. Mas a vida lhe deu duas meninas. Fico pensando idiotamente que “se eu fosse homem tudo mudaria de figura”, meu pai me enxergaria de forma diferente, não se importaria com alguns detalhes da minha personalidade e me privilegiaria em outras. Em compensação, exigiria muito mais de mim também, o que não seria exatamente algo positivo, dependendo do caso. Mas não fico pensando muito nisso, pois pode não ser verdade. Nunca vou saber. Eu vejo que ele gostaria de filhos homens pela forma que trata meus primos e os namorados meus e da minha irmã. Mas isso deve ser bobagem mesmo.

Meu pai gosta só de 4 coisas hoje em dia: minha mãe, minha irmã, eu e cerveja. E ele quer se aposentar. E eu acho que já deveria mesmo. Não que ele não preste pra mais nada, mas eu reconheço nele a figura do cansaço em pessoa. A barriga, os cabelos brancos, a impaciência com muitas coisas, o jeito eterno de alemão ranzinza dele. Meu pai fica puto muito fácil, mas de uns anos pra cá ele já melhorou muito, conseguiu abstrair e aceitar muitas coisas e eu reconheço isso. Talvez seja a única que perceba isso e talvez só perceba isso porque agora estou morando longe e só o vejo de 6 em 6 meses. Não reclamo muito de saudades. Acho que, no tempo em que “esteve comigo” meu pai me ensinou (ou ao menos tentou ensinar) muitas coisas, simples e complexas.

Ele já brigou com amigos muito próximos por minha causa. Já tentou me educar a fazer a coisa certa, sem didática alguma, de forma completamente errada e desastrosa. Mas pais, antes de serem perfeitos, são humanos. Demorei, mas aprendi isso. Não que ele me quisesse mal, mas nem sempre as coisas saem do jeito que a gente espera. De qualquer forma sempre me senti segura com ele. Uma vez, num carnaval antigo (eu devia ter uns 3 anos e ele gosta muito de carnaval) subi nos ombros dele e pulamos carnaval. Não lembro disso muito claramente, mas consegui resgatar uma foto dessa época. Se eu não consigo me esquecer deste momento em específico, é porque algo importante deve ter acontecido ali. Deve ter sido divertido. Não vou “colorir” essa lembrança, mesmo porque não me recordo muito. Mas deve ter sido divertido mesmo.

Ele faz o melhor churrasco do mundo, o melhor galeto do mundo e também faz sopa de capelletti todos os domingos à noite, só pelo prazer de fazer. Ele lê os jornais, aprendeu a duras penas a mexer com Internet e com o computador. Tudo que ele quer ele consegue, se minha mãe deixar (pois é…). Mas a coisa é que, meu pai nunca quis demais, a vida toda ele foi muito generoso, mesmo sendo ranzinza. Ele me ensinou a amarrar o tênis quando eu tava na primeira série. Mas nessa época ele ainda era meu “tio”.

Ok. Long short story. Eu tive 3 pais até hoje:

1. Pai biológico: não faço a puta idéia de quem seja. Nem quero saber.
2. Pai do RG: o cara com quem minha mãe tava casada na época em que decidiu me ter. Ela se separou dele quando eu tinha 3 anos e depois ele nunca fez questão de manter contato comigo, então não consegui criar nenhum tipo de sentimento por ele. Nem bom, nem ruim. Minha mãe também nunca me falou nada dele, nada de bom, nem de ruim. Também não tenho muito contato com a família dele, nem nada. Dele, só carrego o sobrenome. Ele faleceu há alguns anos atrás e no dia que minha mãe me comunicou isso eu não consegui me sentir mais indiferente.
3. O meu pai: o cara de quem falo nesse texto. O meu pai, que me educou, me criou, paga minhas contas, se aborrece comigo e se orgulha de mim também às vezes.

Me recuso a chamá-lo de padrasto por que simplesmente não parece certo. Nunca pareceu. Ele começou a namorar a minha mãe quando eu realmente era muito pequena, eu devia ter uns 4 anos, por aí. E eles começaram a viver juntos e tudo o mais, e minha mãe nunca me explicou direito o que tava acontecendo. Ela sempre deixava tudo muito solto, pra que eu mesma tirasse minhas próprias conclusões, mesmo que primitivamente. Talvez fosse melhor assim mesmo. E aí ela começou a morar com ele e eu comecei a chamá-lo de “tio”. Ainda não o reconhecia como pai, mas essa conquista se deu aos pouquinhos. E aconteceram muitas coisas boas e engraçadas nessa época de “tio”, mas lembro de pouquíssimas.

Uma marcante foi uma vez que eu era muito pequena e acordei de madrugada, com “fome”. Saí da cama e fui pé-ante-pé até a cozinha, tentando não fazer muito barulho pra não acordar meus pais. Minha irmã ainda não tinha nascido, ou seja, faz muito tempo mesmo. Peguei uma colher (devo ter feito barulho, provavelmente), abri a geladeira e peguei o copo de requeijão. Comi requeijão puro, bem rapidinho. Eu sempre fui assim meio torta, mas não era culpa de ninguém. Só sei que quando eu olhei pra cima, lá estava o rosto do meu pai, iluminado pela luz da geladeira, me olhando com cara de bravo/sonolento. Eu não sabia há quanto tempo ele tava ali me observando, mas não devia ter sido muito. “Já pra cama, menina!”. Acho que foi a primeira vez que senti vergonha na minha vida, mesmo porque, mesmo morando comigo, ele ainda era “um estranho”. Mas voltei a dormir.

Digo e reforço que ele é o meu pai, porque fui eu quem o escolhi pra isso e não o contrário. Não sou filha de sangue e sêmen dele, não tenho nem mesmo o sobrenome dele, mas… Sei lá.. Às vezes acho que papéis, são apenas papéis, coisas pequenas. Burocracia não entende mesmo das coisas humanas, paciência. Um dia ele me contou, bastante emocionado, sobre o dia em que eu resolvi chamá-lo de pai, pela primeira vez. Acho que, como criança, deve ter sido bem difícil pra eu conceber isso, mas eu não via outra forma. Vivia chamando-o de “tio”, sendo que ele fazia coisas que todos os pais faziam. Chegou uma época em que começou a realmente se tornar incômodo, para mim, aquele status eterno de “tio”. Aquilo já não fazia o mínimo de sentido pra mim. Não parecia certo da minha parte ficar chamando ele assim pro resto da vida. Até que um dia eu cheguei pra ele e disse “não quero mais chamar você de tio”. E ele me olhou, achando estranho…

“Vou chamar você de pai de hoje em diante. Posso?”. Eu devia ter uns 5 anos.

Acho que não tinha dimensionado bem a importância da decisão que acabava de tomar, mas tive mais certeza do que medo. A partir daquele momento, quase que magicamente, ele se tornou meu pai. Só hoje percebo o peso e a importância que a minha decisão teve no restante da minha vida, pois hoje sei que ela faz parte de tudo o que sou. Toda vez que conto essa história pra alguém, não consigo deixar de me emocionar. E mesmo com tudo de tosco e ruim que já aconteceu entre a gente, com as brigas, desavenças e tudo, eu posso dizer que sim, que acima de tudo e de qualquer coisa, eu amo muito o meu pai. Do meu jeito meio torto, mas amo. Amo quem ele foi, quem ele é e o que ele representa pra mim. E isso jamais vai poder ser tirado de mim e jamais vai ser esquecido.

E hoje não me restam mais dúvidas disso.

Caminhando pela rua, hoje, indo pra academia, passo por um menino de rua, sentado na frente de um supermercado aqui do bairro que me diz:

– Bmdia com lisënça TÏA…

Ignoro o menino completamente e continuo andando e ele:

– SUA LÖK!!!!!!!!!!!

Fim.

Algumas pessoas são impacientes com as máquinas. Eu, confesso, sou uma delas. Mas ainda assim sou muito mais paciente do que a maioria. Na verdade eu sou mais preguiçosa em relação à modernidade do que impaciente mesmo. Eu simplesmente não me importo. Mas quando falo de máquinas, me refiro às coisas eletrônicas em geral e aos computadores, especificamente. É que algumas vezes a tecnologia vem, mesmo, pra atrapalhar tudo o que pode ser mais simples.

Por exemplo, no lugar onde eu faço estágio temporário (agora, uma sala de ultrassom) existem duas máquinas. Ok, existem três: um ultrassom, uma impressora e um computador (com Linux, mas que não é muito complicado de usar). Esse computador e essa impressora parecem desnecessários por que, no caso o médico, teria 2 trabalhos: o de operar o ultrassom e o de operar o computador (ao mesmo tempo). Não é exatamente funcional… Mas garante o meu estágio de digitadora.

De qualquer forma, a máquina de ultrassom pode imprimir as fotos e o médico pode simplesmente imprimir laudos genéricos e então preenchê-los de acordo com cada paciente. Mas isso não acontece e o hospital acha que quanto mais médicos usarem o software de laudos automáticos, o computador e a impressora, melhor vai ser, mais simples, etc. Só que, também, às vezes os programas travam, o sistema trava, a impressora se recusa a imprimir e então temos que voltar aos laudos de papel. Ok, o sistema travar é meio raro, mas já aconteceu. Programa travar acontece às vezes.. E a impressora.. bem.. A impressora é um caso à parte.

Mas felizmente eu sempre tenho a <ironia>brilhante e genial</ironia> idéia de reiniciar tudo. E geralmente funciona, depois que eu reinicio, tudo começa a funcionar normalmente. Só que, o engraçado é que, o usuário comum não se toca dessas coisas. Às vezes, ao que me parece, as pessoas tem uma preguiça, imensa, de pensar. Um “problema na impressora” geralmente é uma questão de uma pecinha mal encaixada, que faz as folhas saírem amassadas ou ainda de reiniciar o computador mesmo. Coisas bem simples, que é questão de notar só, de ter a curiosidade de perceber… Mas a maioria das pessoas não pensa nisso, nem nota, nem liga… Preferem chamar “um técnico”… Por que será?

Hoje, agora a pouco, deu um probleminha na impressora aqui. Ela não quis imprimir. Eu supus ser um problema no software e realmente era o que parecia, mas o médico insistiu que se fizesse um copydesk (meu deus, isso ainda existe…) e chamasse o pessoal da informática pra resolver. Ok.. Feito isso, simplesmente reiniciei a máquina e depois as impressões saíram, como se nada tivesse acontecido. Uns 15 minutos depois chegam 2 carinhas da informática:

– É aqui que tá com problema na impressora?
– Era. Mas eu já reiniciei a máquina e resolvi.
– Que fantástico!!!
– :D
– :D

Fiquei me sentindo o ser mais inteligente do mundo, mas sei que não sou. De qualquer forma, só de pensar na quantidade de chamadas do hospital que esses caras recebem diariamente pra resolver probleminhas pequenos como esses… Fico com certa dó deles, por terem que aturar gente acéfala o dia inteiro, 5 dias da semana.

Parece mesmo que as pessoas e as máquinas nunca vão se dar bem: as máquinas, por que não sabem pensar por si próprias… E as pessoas… Bem…

…Aparentemente pelo mesmo motivo.

Inegável que eu esteja um tanto quanto nostálgica por esses dias. Não gosto muito de nostalgia, mas não me importo tanto em lembrar das coisas. Na verdade até gosto. Mas muito mais do que lembrá-las, eu gosto mesmo é de registrá-las. E faço isso aqui. Agora a pouco conversava com um amigo sobre um sonho que tive essa noite. Um sonho violento que envolvia eu, mais duas amigas minhas e uma mulher barbeira. E que por barbeira leia-se: que dirige terrívelmente. A explicação se deve por que no sonhos tudo é possível: desde uma mulher que faça a barba até uma metade mulher, metade barbeiro (bicho). Enfim. O sonho foi violento por assim dizer, por que enquanto eu e essas duas amigas minhas corríamos pra fazer exercício, a mulher barbeira, que era uma perua num carro possante e num celular, quase nos atropelou “sem querer”. Xinguei a mulher horrores, tirei ela do carro pelos cabelos e dei uma surra nela, sem medo de ser feliz. No sonho, claro.

Sempre acordo querendo brigar quando tenho esses sonhos. Mas a verdade é que eu nunca brigo. Sou uma pessoa pacífica, na maior parte do tempo. Juro que não me lembro a última vez que caí na porrada com alguém. E esse alguém provavelmente deve ter sido a minha irmã menor, mesmo por que, eu bati nela durante toda a infância. Ela merecia, aquela cretina. Ela era um porre. Ainda é. Mas agora que ela tem 17, eu não bato mais nela, mesmo por que, não cai bem na minha idade uma coisa dessas. E mesmo por que ela nunca mais deu motivo, aparentemente. Enfim. Nunca bati em pessoas que não fossem da minha família (Rá!). Por que família é família: a gente reconsidera, esquece, finge que nada aconteceu e fica por isso mesmo. Aí durante essa conversa com o meu amigo fiquei tentando me lembrar da última vez que eu bati numa pessoa que não era da minha família. E então eu voltei pros meus 9 anos de idade.

Com 9 anos, eu já estava na terceira série e tinha começado a ir na igreja a ponto de obter a minha “formação católica” através da eucaristia. Eu nunca gostei, e nem tive muito saco pra ir na igreja toda vez, e pra ter aquelas aulas chatas, com aquelas “tias” chatas e aprender coisas bobas sobre a bíblia, que nunca tive muito interesse em ler de qualquer forma. Por dentro eu achava o cristianismo e o catolicismo uma palhaçada, só não tinha muita certeza disso por que eu ainda não lia o suficiente e não pensava sozinha. Eu sempre ia pela cabeça dos meus pais mesmo, da minha mãe principalmente. E também não gostava de acordar aos domingos pra ir nas missas. Nem mesmo minha mãe, que é católica e me colocou nessa fria, tinha muito saco pra isso e eu percebia isso. Mas fiz minha eucaristia me arrastando, nas coxas, de qualquer jeito mesmo.

Num belo dia, estava quente e eu estava usando um vestidinho lilás que eu tinha, com flores brancas. Acho que tinha ganhado de alguém, não lembro, só lembro que o vestido era novo. Fui com esse vestido na igreja, numa das malditas “aulas” que a gente tinha, na parte da tarde (as aulas eram sempre de tarde). Começava a 13h30 e terminava lá pelas 15h, se não me engano. O fato foi que, os professores já tinham ido embora, e alguns alunos como de costume ficavam lá, matando o tempo, fazendo qualquer coisa. E eu estava saindo de uma das salas e percebi que estava acontecendo uma briga, na frente da igreja. Uma briga entre os garotos que estudavam lá comigo. Me aproximei e vi que um dos garotos que estava na briga (eram 2 apenas) era o meu primo.

A frente da igreja é (pelo menos na época era) cercada de árvores imensas de eucalipto. Era muito comum essas árvores “soltarem” pedaços de pau e de madeira, e muitos gravetos grossos caíam delas quase que semanalmente. Sem contar o cheiro que sempre foi muito forte e eu sempre gostei muito, pois a minha cabeça toda a vida associou à limpeza. A minha reação ao ver a briga de meninos foi pegar o graveto mais grosso de eucalipto que vi por perto e dizer, firme e sem medo, “Solte o meu primo”. O garoto não me ouviu e nem sequer olhou pra mim. Acho que me subestimou. Dei mais um tempo e eles continuavam segurando um na gola do outro, se olhando com ódio. E eu, serena, repeti “Solte o meu primo”. Não pedi “por favor”, por que não ia me rebaixar pra moleque nenhum. Naquela época eu já era assim. Mas a bem da verdade é que eu só queria evitar o pior pro garoto, mesmo. Eu estava sendo boa.

O menino fez que não me ouviu de novo e continuou agarrado na gola do meu primo, sem soltar. Ficou aquela tensãozinha besta de pré-briga de moleques que ficam com medo de se porrar de uma vez por todas e ficam só nas ameaças covardes. Pedi, pela terceira e última vez, “solte o meu primo” pro garoto, com medo de ele avançar em mim, ou de ficar com raiva e me xingar, qualquer coisa. Mas não, nada. Me ignorou, completamente. Depois de ser ignorada por três vezes consecutivas, eu tive que fazer alguma coisa pra acabar com aquela palhaçada né? Não queria ver meu primo apanhando. Então eu simplesmente juntei toda a força (que não sabia que tinha) no meu braço direito e taquei o graveto de eucalipto com tudo na cabeça do moleque. Achei que só ia assustá-lo e que ele partiria pra cima de mim. Eu o assustei, claro. E ele agora sim, soltou o meu primo, imediatamente.

Havia um corte imenso na testa dele por onde jorrava sangue sem parar, como naqueles filmes de terror que a gente vê na TV. O sangue era tanto, que ele não conseguia enxergar mais nada, por isso soltou meu primo.

Eu gritei.

Meu primo correu.

Eu corri depois.

O garoto ficou lá, chorando e sangrando.

Nunca tinha visto e muito menos tirado sangue de ninguém na minha vida. Na época, no dia, eu fiquei horrorizada, apesar da sensação de “dever cumprido”. Cheguei em casa chorando, com medo, achando que meus pais iam me bater, que eu ia ser expulsa da igreja, que deus ia me castigar ou qualquer merda do tipo, eu era uma criança cheinha de neuras. Nenhuma dessas coisas aconteceu, só levei uma advertência, mas fiquei realmente muito assustada. Sei lá, achei que podia ter matado o moleque. Mas não matei não, só o fiz tomar alguns pontos na testa (ui…) e andar com uma faixa ridícula em volta da cabeça por algum tempo. Depois eu tive que me confessar com o padre lá e pedir perdão que tudo tava resolvido: eu poderia espancar outra pessoa quando quisesse e bem entendesse. Nunca entendi o catolicismo.

Hoje fico pensando que talvez eu tenha traumatizado o garoto. Será que ele virou um misógino? Será que ele apanhou de novo do pai dele quando chegou em casa? Será que ele foi zuado por ter apanhado de menina? (Ok, essa pergunta agora foi irônica). Será que ele deve bater na mulher/namorada/esposa dele hoje em dia? Ou será mesmo que ele passou a ter mais medo das mulheres e a “ficar esperto” quando uma diz que vai bater nele? Será que ele parou de subestimar quem ou o quê aparentemente é mais frágil? Não sei e nem nunca vou saber. Nunca mais ouvi falar dele. Hoje essa cena na minha cabeça serve pra definir pra mim mesma quem eu sou, quem eu sempre fui, independente de qualquer coisa: uma guerreira. Eu quero é sangue, mesmo. Sempre quis. Só que nunca tive coragem pra assumir isso. Hoje tenho.

Eu não tenho medo das coisas (e isso é bom e ruim). Na época eu chorei, até mesmo há uns 2 anos atrás eu chorava (não por esse exato motivo, mas por vários outros “garotos brigões” com quem tive que lidar na minha vida e que representavam ameaça pra mim e pros meus). Não temer e ser corajosa só tem me feito bem, aparentemente. Também não subestimo mais meus inimigos, opositores, ou “insira algo que possa ser ameaçador aqui”. E as minhas táticas e estratégias agressivas são outras, que não físicas. Entendo as coisas de outras formas, tenho menos fantasmas, menos neuras e penso por mim mesma, o que é bom também. Tá certo que não sou mais aquela garotinha de vestidinho lilás, com cara de entediada/paciente, balançando um graveto de eucalipto na mão, e que hoje eu não choro mais, mas… Querendo ou não aquela menina ainda vive em mim, nas minhas ações, em tudo o que é meu e principalmente no meu olhar. A única diferença é que alguns anos se passaram.

E o tempo?

Continuo achando que o tempo é uma ilusão. Uma das ilusões mais bem feitas criadas pelo homem.

Três horas da manhã. Há uns 3 anos atrás. As coisas mais doidas do mundo sempre acontecem nesse horário mágico. Não lembro de que balada estava saindo, só sei que eu estava muito entediada. Morrendo de tédio, mesmo. Isso por que eu estava bêbada. Muito bêbada. E com uma amiga. Ou alguém que eu pensava ser uma amiga, mas não passava de uma pessoa vazia, seca, sem sentimento algum e que não queria ficar sozinha, apenas isso.

Eu estava dirigindo. Não lembro se ia pra alguma lanchonete, se ia levá-la em casa ou se iríamos pra minha casa. Não lembro. Só sei que chegou numa altura da avenida em que eu estava dirigindo, que o tédio foi TANTO, que eu entrei na contra-mão, numa das avenidas mais movimentadas da cidade. Tá certo que quase não tinha movimento, mas cheguei a ver uns 2 ou 3 carros no caminho.

Andei praticamente uma quadra, às três horas da manhã, bêbada, na contra-mão, e ainda fiz uma conversão errada pra ir pra outra pista. E corri, corri pra caralho. Meti o pé no acelerador o quanto pude e o meu carro voou. Ela eu não lembro, acho que ria, me chamava de louca ou qualquer coisa idiota e óbvia do tipo. E eu tinha um misto muito intenso de ódio, tédio, tesão e vontade de morrer mesmo, acabar com aquela porra toda. Nenhum amor pela minha vida, e nem por nada mesmo.

Mas aí fui chegando no centro da cidade e esses sentimentos foram passando. A chance de ter policial por lá é maior também, então não continuei com o pé no acelerador. Estacionei o carro numa lanchonete e um playboyzinho metido a justiceiro (sempre tem um otário metido a besta a vir nos encher as patavinas) veio no vidro do meu carro com um papinho de “Documentos, por favor?” pra “me assustar”. Não funcionou muito, por que não me assustei. Estava completamente anestesiada naquela altura do campeonato. Dei meus documentos pra ele, completamente bêbada, na maior festa e alegria do mundo.

“Você sabe que você entrou na contra-mão por uma quadra, fez uma conversão na contra-mão e tudo isso numa velocidade acima do limite?” O filho da puta tinha até me seguido. Esse tava com mais tédio que eu.

“Sei, se não soubesse, não teria feito.” disse, sem medo.

“Você sabe o que poderia acontecer com você por isso?”, a idiota que estava no carro comigo, se calou e eu senti o medo dela. Eu ainda ria.

“Cara… O que tu vai fazer o que comigo? Me prender?” com a maior cara de deboche alcoólatra filha da puta insolente do mundo.

E bad girl meu cu. Eu era uma depressiva com baixa auto-estima e nenhum amor próprio mesmo. O cara podia ter me socado ali mesmo, de graça, só pela minha insolência. Mas ele não fez nada. Só continuou puto e me devolveu meus documentos. Eu comi alguma coisa bem gordurosa pra passar a bebedeira e ela continuou com medo. Depois acabou como o mesmo de sempre: ela indo pra casa e eu pra minha.

Nunca mais fiz isso. Sei que podia ter morrido. Sei que podia ter matado minha amiga e talvez matado pedestres e também matado outras pessoas de outro carro. Mesmo sendo três horas da manhã e não tendo ninguém nas ruas quase. Mas eu simplesmente não me importava com isso, mesmo. E assumo isso, sem problema nenhum ao escrever isso hoje, completamente sóbria. Não sou louca, nem perturbada, nem tomo tarja preta. Eu apenas moro no Brasil. Só isso, meus amigos.

E bem como qualquer outra pessoa normal no mundo, não tenho orgulho de todos os momentos da minha vida, nem de todas as coisas que fiz. Não sou uma assassina, nem psicopata, nem nada do tipo. Eu era na época apenas uma garota imatura e profundamente entediada, e achei mesmo que não poderia acontecer nada, bem como não aconteceu (e bem como poderia ter acontecido). Eu poderia sofrer as conseqüências disso pro resto da minha vida, mas não sofri, por que elas não existiram.

Eu sofri conseqüências bem piores, por outros comportamentos socialmente aceitáveis que tive, e não fui presa, nem condenada, nem julgada por isso, então tudo bem. A diferença está entre despirocar todos os dias da semana e não funcionar direito enquanto ser humano e despirocar uma vez por ano por que sim. Não é todos os dias que você pode ter sorte por si só, e a sorte também de não ter um guarda ou qualquer outro “representante oficial das leis e regras” por perto. Não me arrependo do que fiz, não acho errado, não achei o cúmulo, não fico remoendo. Aconteceu. Já foi.

Cada um aproveita a vida (ou a falta dela) como pode.

Tinha 8 anos quando comecei a escrever as tarefas escritas errado pra casa. Sentava lá no fundão por que era a mais alta da sala quando tava na segunda série. Falei pra minha mãe que eu não estava enxergando e ela disse que era frescura. Insisti em trazer as tarefas escrito tudo errado e ela, muito brava, disse que ia me levar no oftalmo. Ela detestava ter de deixar de trabalhar pra se ocupar de coisas que julgava serem “frescuras” de criança. Nisso, me ameaçou diretamente, dizendo que se eu chegasse lá e não tivesse nada, ela ia me dar uma SURRA na frente do médico.

Talvez ela não tivesse tido um bom dia e quis mesmo descontar em mim. Fiquei cerca de uma semana dormindo e chorando, com muito medo. Por dentro eu ficava me culpando “eu devo ser burra mesmo”, “eu não sou como as outras crianças”, “estou atrapalhando a vida da minha mãe”, etc. E com um pavor absurdo mais ainda de não ter nada mesmo e passar vergonha, apanhando na frente do médico (eu realmente achava que ela fosse me bater). O exame foi marcado bem no fim de tarde, lá pelas 19h, e eu estava ansiosa, mas quando cheguei lá, fiquei com menos medo.

Eu tinha 8 anos de idade e estava na segunda série. Segundo o médico, eu tinha quase 2 graus de miopia em cada olho. Minha mãe saiu do consultório comigo, chorando. Na hora eu não sabia dizer se ela estava com raiva ou com dó de mim, mas é bem provável que estivesse com dó. Pais tem certa dificuldade de aceitar que os filhos possam ter defeitos, eles querem acreditar que seus filhos são sempre perfeitos. Ano passado, 15 anos depois de ter descoberto sobre a minha miopia, eu já estava com 7 graus. Mamãe me ofereceu pra que eu fizesse a cirurgia.

Como estava com baixa auto-estima (e medo), recusei. Disse que não precisava dessas coisas e que era melhor que ela guardasse o dinheiro pra gastar com outras coisas mais úteis. Esse ano mudei de idéia. Falei pra ela que quero sim fazer essa cirurgia e talvez ficar com a visão normal. O talvez se dá por que acontece com algumas pessoas de a miopia voltar, mas não passando dos 2 graus, se não me engano. Enfim… Esse ano procurarei um oftalmologista e verei quais são as providências a serem tomadas em relação a isso. Quero ficar boa. Quero ficar melhor pra mim mesma.

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