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I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

Dias atrás me liguei de que tive dois sonhos sobre o mesmo tema, por duas noites seguidas. Não notei de imediato, pois o sentimento foi muito sutil no sonho e demorei pra desenvolvê-los enquanto acordava e me recobrava. Preciso desdobrar os sonhos assim que acordo e é sempre difícil decifrá-los, entender seu contexto na minha vida e entender porque os tenho. Dissociar o que sinto enquanto ser atuante no sonho e enquanto ser que sonha. Mas toda tentativa é válida.

Sonho I

Sonhei que estava em alguma manifestação na universidade. Tinha gritos, correrias, bombas de gás lacrimogêneo. Eu estava confusa e com medo, claro. Lembro-me que saí correndo não em direção de fugir da confusão, mas ao encontro dela. E de alguma forma muito estranha e totalmente não proposital eu soquei alguém importante lá. Quase que no mesmo momento em que fiz isso eu já sabia que estava fodida. Sabia que ia ser pega e que iam me infernizar. Mas não fiz nada com intenção, com propósito, foi sem querer mesmo, não foi na maldade. Machucou? Bom, lamento, tá na chuva é pra se molhar, vida que segue. Fui pega na mesma hora e tudo aconteceu de forma muito rápida no sonho: fui levada para uma sala pra ser interrogada. Fui insistentemente acuada por uma mesa com 5 pessoas, 2 mulheres e 3 homens que tentavam me fazer “confessar” o que eu tinha feito e principalmente como tinha feito. Pessoas que nunca tinham me visto na vida e me julgavam com base em nada, sem sequer me conhecer. No começo não queria responder a pergunta alguma, neguei todas as acusações, falei que se tratava apenas de um acidente e era isso. Mas obviamente eles foram insistentes na história em que eles preferiam acreditar e que queriam que eu verbalizasse e aquilo foi aos poucos me irritando muitíssimo. Em dado momento fiquei muito puta mesmo e revidei dizendo que soquei sim e que foi de propósito, e que socaria de novo se preciso. E que foi sim na maldade mesmo. E que tudo o que eu mais queria naquele exato momento era socar a cara dos cinco que estavam ali até desfigurá-los. Quis dar o que os satisfizesse, mesmo que momentaneamente, mesmo que isso fosse me foder depois. Só queria que parassem de me acusar falsamente. Depois que estourei no sonho e disse essas coisas, acordei sentindo muita raiva, uma raiva que subia do estômago até a área central do peito e depois pra cabeça.

Sonho II

Sonhei que estava em um mercado fazendo algumas compras para casa. Nesse mercado havia uma seção em que tinham algumas pedras que pareciam não ter preço algum, estavam simplesmente dispostas ali. Não pareciam a venda, não pareciam ser de alguém, não eram preciosas: simplesmente estavam ali, dispostas. Tive um episódio de cleptomania e peguei as duas pedras e coloquei-as entre meus seios, como se quisesse roubá-las do mercado. Estava quase chegando no caixa quando um segurança começou a me sondar e ele tentava, discretamente e sem sucesso, me revistar e me impedir de sair do mercado. Notei isso na hora e fiquei muito, muito puta. E no sonho considerei que agi como normalmente NÃO ajo: dei um puta de um piti do caralho, gritei pra todos os presentes que quisessem ouvir que aquele segurança estava me ameaçando, que ele me achava uma ladra e, sim, as pedras estavam no meio dos meus peitos. E eu estava profundamente ofendida com tudo. Só sei que fiquei tão puta no sonho que larguei o meu carrinho de compras onde estava, saí esbravejando do mercado e correndo, como se estivesse fugindo mesmo. Depois comecei a voar e em dado momento era como se eu estivesse subindo para algum lugar com o auxílio de uma corda. Aí eu acordei, sentindo um misto de raiva e medo, medo de ser pega fazendo algo errado realmente.


No Sonho I considero que enquanto estou acordada normalmente tenho este tipo de reação mesmo. Não me defendo quando preciso, pelo contrário: deponho contra mim mesma. Além disso não distribuo a minha raiva equitativamente, eu a acumulo ao ponto dela voltar-se contra mim mesma, sempre. Não sei porque ainda ajo assim, mas é o que acontece, é bastante comum. Nesse sentido não tenho nenhum senso de auto-preservação e meu comportamento tende a ser puramente auto-destrutivo mesmo, ainda mais em lidando com pessoas que efetivamente querem e torcem por me ver muito mal. Até este sonho, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas tudo isso o que escrevi acima é muito real. É um padrão que gostaria de quebrar. Isso de “não sentir raiva” não existe. Raiva é essencial pra funcionarmos enquanto humanos. No entanto preciso saber equalizá-la de modo que eu não seja irascível e não acabe me prejudicando sem necessidade alguma disso. Já tomei decisões bastante imbecis em momentos de raiva. E sim, geralmente odeio me sentir acuada e quando isso acontece eu me torno uma camicase mesmo: ao invés de manter minha auto-preservação, deixo-a em suspenso por questão de minutos e simplesmente ataco (ao outro, à mim mesma, enfim, tudo a mesma coisa), por mais que me arrependa disso depois. Geralmente depois disso não há para onde retornar. Acredito que terei um longo caminho até mudar esse tipo de comportamento, mas já é interessante me saber consciente dele. Provavelmente me sentirei acuada mais vezes ao longo da vida e vou me ver obrigada a lidar com isso de modo razoável.

Já o Sonho II tem várias interpretações. Quando eu faço coisas erradas, para mim em algum nível, elas não são consideradas moralmente erradas, mas sim um desvio apenas, uma doença (cleptomania). É sempre como se não fosse nada demais, quando na verdade é. E eu sempre assumo o risco, mesmo sabendo que posso ser pega. O que achei curioso no sonho foi o fato de eu ter dado um piti quando o segurança desconfiou de mim. Na vida real faço bem o oposto disso: quando me acusam de algo que fiz de errado, tento primeiro assumir o erro mesmo e depois pedir desculpas por tê-lo feito e prometer melhorar da próxima vez. Não dou piti porque acho realmente exaustivo, perda de tempo e acredito que não me leve a lugar algum, realmente. Novamente: eu evito o embate, reprimo raiva entre ouras coisas, etc. E o fato de eu ter fugido no sonho denota algo que é recorrente comigo: o escapismo. Ao invés de encarar e resolver o problema de fato, eu vou embora, fujo, mesmo que lidar com essa fuga seja mais frustrante e ainda mais desgastante que lidar com o problema. Parece um contra-senso, mas é bem real. E acontece com frequência comigo.

Os dois sonhos tratam sobre a raiva que eu sinto e sobre como eu lido com ela (ou não né). Preciso rever tudo isso, ver o que permanece e o que vai precisar ser mudado. Preciso evoluir a partir deste ponto que estou, pois nenhum dos dois exemplos me pareceu muito bom – e estão intimamente relacionados com o que sou e quem sou hoje. Hora de mudar.

Há alguns dias já uma frase tem me assombrado. Ela foi escrita por uma ex-colega de ensino médio no instagram, com quem nem tenho mais contato direito. Sabe aquelas pessoas que você nem lembra mais que existe e reaparecem do nada e você aceita por educação, mesmo porque vocês não tem mais NADA em comum hoje em dia? Então. Ela cresceu, casou, leva uma vida pacada, bancária, casinha, maridinho, vidinha, etc., um tédio, tudo como manda o figurino. No instagram dela, várias fotos de viagens pela Europa. Que bom, né? Sei lá. Aquelas fotos não me diziam muita coisa sobre ela. Em uma das fotos, que parecia mais simples, uma selfie em casa ou qualquer coisa do tipo, a frase: “todo mundo vê as foto que eu tiro na Europa, mas ninguém vê as marmita que eu como”. A frase me chocou um pouco e, a longo prazo, me deixou com raiva. Com muita raiva.

Achei que pudesse ser inveja – porque nunca estive na Europa e este é um dos meus sonhos mais antigos de todos – mas a verdade é que eu tenho vários amigos próximos que vivem viajando e vivem tirando fotos por lá e não sinto inveja deles, então descartei isso. O que me inquietava e continuava me incomodando era outra coisa. Pensei muito nessa frase até que me veio uma resposta: “filha, ninguém tá te impedindo de tirar foto das suas marmita… pode tirar foto delas também, sabe? tá liberado”. Tem aquela coisa também de dizerem que tudo o que te incomoda nos outros é o que te incomoda, na verdade, em você mesmo. E isso é verdade. Bem verdade. Quando eu era mais nova, com uma resposta como essa eu já daria “o problema como resolvido”. Mas a verdade é que não é bem assim que algumas coisas funcionam. Algumas coisas só se simplificam ficando ainda mais complexas, por mais contraditório que isso pareça.

Tudo bem dizer que é um fudido. Muita gente é. Mas porque que a gente não fala do quanto é fudido diariamente? Tipo: o tempo todo? Ok, na verdade existem pessoas que fazem isso de fato e suas vidas são verdadeiros e imponentes muros das lamentações… Algumas pessoas realmente gostam de se vangloriar do quanto são miseráveis (eu mesma inclusa, já fiz muito disso e hoje me esforço para não fazer mais). E eu tenho uma teoria de que isso se trata pura e simplesmente de vaidade, carência e um profundo egocentrismo. Sinceramente não sei como essas pessoas não enjoam de si mesmas em algum momento, porque né… Enfim. Mas nós não costumamos falar destas coisas porque não produz efeito algum ficar falando só de privações, de tudo o que é difícil. Ninguém quer falar muito disso, ninguém gosta de mensurar o tamanho da merda toda, de expôr suas limitações genuínas – e não só por vaidade e atenção.

Privação e sacrifício geralmente são facas de dois gumes: todo mundo acha FODA quem se priva e se sacrifica em prol de alguma coisa ou algo maior, mas absolutamente NINGUÉM quer falar sobre isso quando efetivamente faz isso – ou porque não o faz nunca e acha ok ser medíocre ou porque sente vergonha nisso. E a princípio não é muito claro o porquê disso ser uma vergonha, mas eu vou chegar lá nos próximos parágrafos. Privação e sacrifício são sempre um orgulho quando se tratam do outro (que obviamente está tomando no cu) e uma vergonha absurda quando é com a gente (porque, enfim, sabemos que estamos tomando muito no cu). E todo mundo passa por isso em algum momento da vida. Todo mundo. A diferença é que algumas pessoas escondem bem e outras não fazem tanta questão assim de esconder e não há julgamento moral aqui: ninguém é melhor ou pior por mostrar ou esconder qualquer coisa, todo mundo sabe onde aperta o próprio calo.

E toda a questão de mérito é uma palhaçada pois está necessariamente (perversamente, talvez) vinculado a privações e sacrifícios. A Patrulha da Virtude™ sempre se apressa pra me dizer “você é guerreira”, “você é foda”, “você é esforçada” como se essas coisas fossem elogios quando na verdade mesmo, não são. Isso tudo só corrobora com tudo de violento que eu sofro pra apenas ser. Claro: eu tenho mérito porque eu pago o preço de TUDO o que quero com SANGUE porque eu simplesmente não tenho outra alternativa. Eu não tenho opção. Eu não posso me dar ao luxo de escolher e isso é a minha vida. “Viu só? Você conseguiu!”. Consegui a que custo, cara-pálida? De quais coisas tive que abrir mão, mesmo que temporariamente? O quanto de energia tive que gastar, quantas noites não tive que dormir, o que que eu tive que sacrificar? Não se fala disso. Ninguém quer falar disso.

Eu sinto muita raiva pois eu frequentemente tenho a impressão de que a Patrulha da Virtude™: 1. acha que é fácil ou é vantagem quando totalmente não é; 2. quer me usar de exemplo pra outros “como eu” ou “parecidos comigo”; 3. quer, de forma bastante sutil, tirar uma da minha cara pois eles mesmos nunca ou jamais se prestaram a sacrifício real algum.

“Mas, Dora, as pessoas não falam isso por mal”. Não, não falam por mal. Porque o mal já está naturalizado, nesse sentido. A errada sou eu por questionar isso tudo. Claro.

É que até hoje eu nunca tinha experimentado a sensação de ser invejada por ser uma fudida. Mas ela existe e eu não sinto absolutamente orgulho nenhum disso. Eu me recuso, terminantemente, a honrar qualquer mérito. Estou numa cidade de proporções bizarras e não tenho como me deslocar por aqui sem depender completamente de transporte público. Semana que vem entrarei numa maratona de duas semanas acordando às 4 da manhã, passando 5 horas diárias no trânsito, trabalhando 10 horas por dia e tendo, todos os dias, 3 horas de aula à noite. Não sei quando, como e nem se vou dormir direito, vou tentar fazer isso nas horas que sobrarem. E aí está, se você acha que algum dia eu vou colher louros, ou que vou ter vantagem alguma sobre qualquer coisa: esta é a minha marmita.

E me fode a vida inteira vir gente falando “nossa, como vc é guerreira”… Meu foda-se eu ser guerreira, sabe? Essa não é a questão. Ou ao menos não deveria ser, mais. Eu só tomo no cu nessa porra pra conseguir sobreviver. Então enfia o mérito e os “elogios” no cu, com fritas. Não quero ele, não. Valeu. O meu nível de desgraçamento mental já tá bem alto por aqui. Grande bosta eu ter passado num mestrado se a minha estrutura pra realizar isso é completamente precária e absurda. Grande bosta eu conseguir coisas boas se pra desfrutá-las eu sou obrigada a viver em uma existência que é naturalmente violenta e abusiva – e, agora, cada vez mais. E eu me submeto a isso e resisto a isso por n motivos e n variáveis: por sobrevivência, por querer ver beleza, verdade e significado nas coisas, por construção de identidade, mas principalmente e infelizmente por afeto. Afeto, sim.

Eu sou uma fudida. Todos somos. E não é mérito algum ser uma fudida. Também não tenho orgulho nenhum em ser uma. E nem das coisas que aparentemente “ganho” no processo todo.

 

Tive um pesadelo horrível essa noite. Quero saber até quando esses pesadelos vão continuar acontecendo. Foi ridículo. É ridículo. Sonhei que estava indo embora de um lugar às pressas e vieram me importunar. Vieram me xingar, me destratar, tirar o meu chão. Me desestabilizar de algum modo. Me senti a pior pessoa do universo. Não soube reagir de imediato. Deixei que toda a grosseria possível tomasse conta por uns três minutos e aí perguntei “é sério que você veio atrás de mim só pra me xingar? por que você não procura a tua turma e não me torra a porra do saco? você não tem mais o que fazer da vida não? você não entendeu o meu recado? meu recado é: VÁ EMBORA. Eu não quero você aqui. Eu só quero que você vá embora”. Mas parece que as coisas não vão embora até que elas nos ensinem a lição que precisam nos ensinar. E, aparentemente, eu ainda não aprendi o que preciso. Infelizmente.

Acabei de receber uma mensagem de texto me culpabilizando, pela milésima vez, por algo que eu NÃO SOU culpada. Chega. Me recuso a dividir sequer uma parcela de uma culpa que nunca foi minha. Se o outro não tem a capacidade de enxergar que a vida é muito mais do que gira em torno do próprio umbigo, problema dele! Foda-se. Eu é que não vou mais ficar enlouquecendo, definhando, morrendo por isso sozinha. ME RECUSO. Falam atrocidades pra segundos depois me dizer que “não foi por mal”. Ok: não foi por mal mas o mal já está feito né? Você já falou. Já disse! E quando você me diz coisas eu levo em conta todo o contexto de anos a fio de abuso, humilhação, minação da minha auto-estima. Então absolutamente NADA do que você me disser será impune. Ou será “sem querer”. Ou não terá algum tipo de impacto, devido ao nosso histórico. Eu não sou idiota. Não sou mais manipulável pelas suas palavras. Pelo seu bate e assopra. Não vou mais me sentir mal NEM POR UM MINUTO por qualquer merda que você quiser me OBRIGAR A ACEITAR. Pelo seu “falei isso mas foi por amor”. POR AMOR O CARALHO!  Isso é mentira. Não tem NENHUM amor envolvido nisso. Apenas interesses próprios: mesquinhos, escusos. Não caio mais nesse jogo não. Não caio mais nesse papinho. Estou cansada dessa merda. CAN-SA-DA. Não vou mais PASSAR O GRANDE PANO pra você nem por você não. Não vou mais aliviar pra você, nem por um minuto. Poucas coisas nessa vida me deixam mais louca do meu cu do que o tal “não foi isso o que eu disse”. Contudo, porém, entretanto, todavia, foi sim. Foi exatamente isso o que você disse e não venha me tirar de louca não. Aliás: foda-se você se quiser me tirar de louca! Pode fazer isso, inclusive, não ligo. Caso essa frase que você disse aí ainda viesse acompanhada de uma explicação, vá lá. Mas esse nunca parece ser o caso. É sempre um “você não entendeu o que eu disse” e FIM. Cara, na boa: você tá insultando a minha inteligência? Você realmente e efetivamente acha que, se me explicar, COM CLAREZA, eu não serei capaz de te entender? Por que se eu sou tão burra assim e incapaz de entender, por que que então você não se faz mais claro hein? Por que? Por que não fala mais baixo comigo? Por que não fala mais devagar? POR QUE? Como assim “eu não quis dizer isso”? Mas, meu amigo, minha amiga, veja bem: você disse! Eu tenho sido cada vez menos tolerante com a frase “sou responsável apenas pelo que eu digo, não pelo que entendem” simplesmente porque a acho absurda. Acredito que essa frase desconsidera, completamente, o outro. É frase de gente que deveria ser ermitão ou ermitã e se isolar nas montanhas. Afirmar isso é assumir que não existe preocupação NENHUMA em pensar no que se diz e em como se diz. As pessoas não tem cuidado NENHUM com as palavras. NENHUM. É um descaso completo. E ok: caso você tenha falado algo que por algum motivo se arrependeu, custa assumir que falou merda? Custa pensar por um segundo “caralho vai que eu tô errada né?”. Vai cair um braço teu se isso acontecer? Querido, querida: todo mundo fala merda. O tempo todo. E tudo bem. O mundo não acaba por isso. Mas caso você seja do tipo arrogante, prepotente e insuportável e efetivamente sem interesse algum em se preocupar com o outro e com o que ele sente, acredito que seja mais honesto nesse caso dizer então “eu não vou te explicar bosta alguma porque eu não tenho paciência pra quem tá começando”. Assim você já deixa mais claro ao que veio e deixa o outro LIVRE pra te mandar tomar NO MEIO DO SEU CU e NUNCA MAIS te olhar na cara.

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