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Arquivo da tag: Psicanálise

Não dá pra dizer que essa é uma decisão bonita, nem fácil. E também é bastante subjetiva porque não vale para todos os psicanalistas e psicólogos, mas vale para aquele que, por algum motivo, você não se identifica ou passou a deixar de se identificar no processo. Ou simplesmente porque você não quer mais, mesmo. É isso. É constrangedor pra caramba assumir, pra si mesma e pros outros, que você abandonou um tratamento. Mas na verdade eu não sei o que é mais constrangedor: abandonar um tratamento ou persistir em um tratamento meia boca e que, até então, não te trouxe nenhum benefício real (mesmo a longo prazo) e só te deixou mais confuso ainda. Assumo: eu sou muito burra pra fazer terapia. Reconheço que isso não é pra mim. Sou burra e pobre. E desinteressada. E sem tempo. Este tipo de tratamento só deve servir pra gente inteligente e rica. O que também pode ser um problema, pois as pessoas muito inteligentes podem acabar dobrando o psicanalista e aí o tratamento todo também se torna uma farsa. Das grandes. Mas até aí tudo bem, algumas pessoas se sentem bem mais seguras assim e isso também não é problema meu.

Ao comunicar que você não faz mais análise, prepare-se: todas as pessoas esclarecidas e analisadas que convivem com você vão falar que na verdade o problema esta com você, ou que você não suportou o desconforto. Aguente firme ou faça como eu: não ligue. A verdade é que: quem sabe das suas consultas (e da sua vida) é você, não eles. É curioso quando falam com espanto “mas como você abandonou?”, como se eu tivesse cometido o pior dos erros, o pior dos pecados. Algo tipo “o que vai ser da sua vida agora?”, “você vai piorar muito!”, “você vai surtar”, etc. A pergunta era mais no sentido de “como você pôde?”, de repreender mesmo, mas ela sempre ficou rondando a minha cabeça “como eu abandonei?”, “como?”. E esse “como?” na verdade é um “por que?”. Pra mim foi mais fácil assumir mesmo: sim, quero ser ignorante. Sim, a culpa é minha mesmo, não aguento o tranco, não quero sentir desconforto, que seja, vocês estão certos, é isso aí mesmo, ótimo. Quero ser/estar confortably numb. É impressionante o quanto se chocam com isso, como se você estivesse ofendendo algo sagrado ao tomar essa decisão. Não se pode nem falar sobre isso direito, é quase um tabu. Mas na verdade não é um tabu: é a sua vida e é uma decisão sua. Só isso.

Começando pelo começo: eu nunca, na minha vida, fiz análise por livre e espontânea vontade. A primeira vez que fiz análise foi com 13 anos e foi uma experiência ruim. Na verdade foi mega subaproveitado, simplesmente porque eu não sabia o que fazer, como agir, o que dizer. Não sabia qual era o propósito da coisa, não sabia nem porque eu estava ali. Pelo amor de deus, eu tinha 13 anos. E eu jamais fui brilhante. Depois fui em algumas consultas quando eu era mais velha e consciente (haha), mas também acho que não soube tirar muito proveito. A verdade é: eu nunca quis. Sempre fiz análise com o único objetivo e propósito de tentar, minimamente, agradar outras pessoas a quem eu amava. Pessoas com quem nunca soube lidar e acho que nunca vou saber, pessoas que queriam me despachar para um consultório, por livre e espontânea pressão, para que assim eu ‘resolvesse minhas questões’ e ‘melhorasse/me descobrisse como pessoa’: a minha mãe e um ex-namorado. Depois de muito tempo eu finalmente compreendi que, não importa o que eu fizesse, eles jamais me amariam. E isso me diz muitas coisas hoje em dia, sobre mim mesma e sobre essas pessoas. Acredito que essas pessoas escolhem, deliberadamente, ignorar quem eu sou e tudo o que eu sou para me impor o que é melhor pra mim de acordo com a visão de mundo delas e, sinceramente, não concordo mais com isso. Continuo com questões não resolvidas e não melhorei, nem me descobri como pessoa (haha) e, na verdade, isso não está fazendo muita diferença. Mesmo.

Freud's couchFoi mais ou menos há um ano atrás que decidi parar de vez de fazer análise. Era horrível, estava um verdadeiro inferno pra mim. “Talvez você devesse achar outra pessoa, outro profissional pra te ajudar”. Eu não queria achar ninguém. Eu não queria falar com ninguém. Não queria nada disso, mesmo. Queria me fechar como uma ostra e deixar que o mundo, e a vida e as coisas me atropelassem, me esmagassem. Era sempre às terças e cada vez mais eu sentia como uma obrigação. Como algo totalmente paralelo em relação a minha vida e não intrínseco à ela. Como se fosse um lugar que eu ia para atuar, para encenar. Eu odiava esse sentimento, essa sensação. Tudo era muito falso: eu era falsa, meus sentimentos eram falsos, minha vida, ali, era falsa, não era vida, era uma representação pífia, barata, mesquinha, incompleta, mentirosa até. E eu sabia disso. E eu odiava, muito, tudo isso. Cada minuto. Odiava o antes, o durante e o depois. Odiava, mas não assumia esse ódio. E eu ficava puta porque pra mim tudo aquilo era sacrificante pra caralho, sair do trabalho, correr, pegar metrô, correr mais um pouco, chegar esbaforida, cansada, atrasada (como eu odiava chegar atrasada!), sem saber o que pensar direito, sem saber o que dizer direito. Tudo era ruim pra mim e a pessoa que me atendia parecia não ter o mínimo de empatia. Sempre acho desprezível a forma como eu aguento tanta coisa sem precisar. Enfim…

E aí eu comecei a perceber algo que eu realmente não gostava que acontecesse: eu começava a planejar o que eu ia dizer. Não havia espontaneidade nenhuma. Eu sentia que eu deveria dizer algo, sobre qualquer coisa, sobre alguma coisa que me aconteceu. Era tudo falso, forçado. E a verdade é que eu não queria dizer nada para aquela pessoa. Cada vez menos eu sentia vontade de compartilhar qualquer coisa da minha vida com ela, mesmo as mínimas coisas. Cada vez que eu o fazia, eu sentia como se eu estivesse me traindo. Aquela voz que eu ouvia, uma voz sem rosto, sem expressão, soava cada vez mais macilenta na minha cabeça. Eu não queria ouvi-la, eu estava cansada. Eu estava sempre cansada, de tudo, dela, das conversas, de não ter o que falar, de perder meu tempo de descanso, meu tempo de vida real, de vida burra, de vida não-analisada, de vida ingênua, de vida livre. A sensação era que eu precisava de ar, precisava de muito ar pra respirar, precisava de espaço, precisava de tempo, precisava sair dali correndo. Comecei a me questionar se toda aquela encenação, toda aquela palhaçada valia mesmo à pena e para quem aquilo valia a pena. Para mim, um tratamento é um comprometimento. E ir à análise vez e outra, pra mim, jamais foi e jamais será análise: é necessário que seja constante, para que não existam lacunas, esquecimentos, vácuos, histórias não-contadas. Eu precisava ir uma vez toda a semana. E cada vez mais eu pensava em não ir, me vi dando desculpas para não ir. Eu não estava comprometida: com aquele dia, com aquele horário, com aquele prédio, com aquela sala, com aquela pessoa e muito menos comigo mesma. Eu não estava comprometida. Eu não sou comprometida. Eu não estava nem aí. Fingia que estava.

Eu sempre tento ser honesta acima de todas as coisas e pra mim isso é um deal breaker na maioria dos casos. E isso é tão sério e tão definitivo pra mim, que sempre me faz quebrar vínculos, mesmo os mais fortes. Fui honesta, comigo mesma, com ela: escute, eu não quero mais pensar. Tem frase mais absurda que essa? “Eu não quero mais pensar”. Que tipo de pessoa diz isso? Pois é, não quero. Eu não quero mais pensar sobre a minha vida, ok? Eu não quero mais ter controle sobre nada. Eu não quero ser dona do meu destino. Eu preciso fluir e isso não está acontecendo – e é assim, é isso que eu sou: eu sou fluxo. Quero botar no automático e ir, e é isso. E eu ria enquanto dizia isso tudo. Eu estava em paz dizendo isso tudo porque era a verdade. E aí me chamam de passivo-agressiva, quando na verdade não é nada disso (depois a obcecada por classificações sou eu). Enfim, só acho sempre bom rir quando fechamos algum ciclo: quando nos permitimos rir de algo, significa que o ciclo realmente fechou. Significa plenitude e não loucura. Acho uma pena que o riso seja interpretado como escárnio pela maioria das pessoas. Pra mim, o riso é outra coisa. O riso não disfarça nada, pelo contrário ele só demonstra o que é verdade. Algumas pessoas preferem fechar ciclos silentes, com ódio, espumando por dentro e mantendo a postura de Buda por fora. Eu apenas reconheço o quanto isso é falso. Eu prefiro rir.

Ainda tive que ouvir um nada sutil “você parece louca”. Acho que esse foi um momento alto da minha vida. Ouvir de uma profissional especializada que eu pareço louca. É bacana porque agora se tornou oficial: ninguém mais precisa me chamar de louca, pois isso já é algo que eu sei que eu sou. Ninguém tem as credenciais para isso, mas a profissional teve. Bem, não deixa de ser uma informação a mais que eu tenho sobre mim mesma, já existem outras tantas, não é mesmo? Ótimo. Excelente, então. Acho que terminamos mesmo por aqui. Quanto lhe devo? É isso? Passar bem. Até nunca mais. Não sou anti-análise nem nada: as pessoas sabem o que é melhor para seus corpos e suas mentes. Só reconfirmei que isso não é, mesmo, pra mim.

Não consigo descrever ao certo a sensação de felicidade, de libertação que senti quando saí daquele consultório escuro e mofado. Eu estava nervosa, meu coração estava disparado e eu tremia: eu estava em fuga. Não sei de quem eu fugia, talvez de mim mesma, mas realmente isso não importava naquele momento. A sensação era a de “eu consegui! me libertei!” e ela perdura até hoje, a sensação de liberdade e de alívio (eu nunca mais vou precisar voltar lá!) era tão grande que eu liguei pra duas amigas pra dizer como eu estava (coisa que nunca fazia). Eu ia voltar pra casa mas resolvi ir para o parque mais próximo, sentei em um banco e respirei profundamente, por algum tempo. Não me lembro a última vez que me senti tão pacificada.

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“Há, na literatura de origem espanhola, dois autores clássicos, que são Santa Tereza de Jesus e San Juan de la Cruz, aos quais Lacan faz referência, especialmente a Santa Tereza, a quem cita com frequência. A ela em particular, porque quer marcar o diálogo dela com Deus. Lacan foi um dos que mais enfatizaram que temos de conhecer as religiões e ver o que ocorre sobre esse bom e velho Deus, como ele o chama, ou seja, é necessário entender esse diálogo tão especial com esse velho Deus e o modo como aparece no corpo – nós o traduzimos como grande Outro -, porém fundamentalmente em sua aparição sexuada. Quer dizer, as leituras dos místicos indicam praticamente momentos orgásticos, que são articulados a momentos de dor, de castigo, de penitência. E também essa maneira de renunciar aos prazeres para articular-se a esse gozo do Outro, que não existe, e tentar escrevê-lo. Aí a importância que tem o Escrito como modo de tentar passar ao Real essas experiências místicas; por isso Lacan lhe dá tanta importância e insiste que se trata de outra dimensão que a psicótica, ou seja, que aí não haveria forclusão do Nome-do-Pai e seria um tipo de gozo mais feminino, mas não da mulher, feminino no sentido de invocar o suplemento fálico. Fazendo uma pequena digressão, diria que a usual ligação entre um neurótico e um perverso acontece justamente porque o perverso vem prometer ou encarnar um gozo adicional a respeito do neurótico. O neurótico quer ser perverso; busca por um suplemento ao gozo fálico. É esse querer transcender que, na fantasmática do neurótico, é inclusive usualmente dirigido como um pedido ao analista: “Como é que ele pode e eu não?”. O perverso é usualmente, como se diz, um gozador, mas Freud mostra que se trata antes de um pobre diabo, mascarado de hiperprazer.”

Fazendo uma pequena digressão, diria que a usual ligação entre um neurótico e um perverso acontece justamente porque o perverso vem prometer ou encarnar um gozo adicional a respeito do neurótico. O neurótico quer ser perverso; busca por um suplemento do gozo fálico. É esse querer transcender que, na fantasmática do neurótico, é inclusive usualmente dirigido como um pedido ao analista: “Como é que ele pode e eu não?”. O perverso é usualmente, como se diz, um gozador, mas Freud mostra que se trata antes de um pobre diabo, mascarado de hiperprazer. (Grifo Nosso)

HARARI, Roberto. Por que não há relação sexual? Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006. p. 29

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