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Hoje deu tudo errado pra mim. E vou ter que abrir mão de alguns sonhos por algum tempo.

(Eu me aproximando de você, a cada passo minha respiração descompassava, o tempo entrava em processo de lentidão. Em câmera lenta o seu abraço não queria soltar. O meu olhar no seu. O seu olhar em mim e silêncio. O silêncio.)

Não havia como ser de outro jeito. Já há algum tempo que não aprendo nada direito, parece.

(Estava frio e passeamos. Não soube como pegar no seu braço, demorei pra isso. Às vezes tenho a impressão de que desaprendi. Você só me faz perceber que apenas não me lembro direito. Me traz pra perto, sem querer.)

E aí fico me perguntando como ser menos dura comigo mesma, mas às vezes não tem muito jeito.

(Você quis fumar e desistiu. Disse que era por minha causa, para não estragar o beijo. Achei aquilo uma bobagem e acabei estragando tudo o quanto antes. Pronto. Pode fumar, agora.)

É provável que eu fique na merda e tenha que adiar alguns planos por no mínimo uns 2 anos por conta de hoje. Bem… Acontece. Vivendo e aprendendo.

(“Eu me sinto tão confortável com você”. Se deitou na minha cama e me puxou para cima de si, como se eu não fosse nada. Se encaixou em mim, como se eu fosse a que restasse. E me deu de presente um ato falho: “meu amor”.)

Eu estou aqui pra aprender.

E aprender significa saber errar.

Ao menor vislumbre da pessoa que eu estou a fim, meu corpo inteiro dá um piso em falso e sinto meu coração em disparada. É sempre vertiginoso. Não sei sentir as coisas de forma menos branda, é sempre assim, com o corpo todo, com todo o meu peso e toda a minha carne. Logo após isto, vem o primeiro grande suspiro, geralmente profundo e seguido de um murmúrio que vai desde “benzadeos” até um sinuoso e sussurrado “ai se sêsse”. Depois disso, depois da pessoa em questão ter interagido de qualquer modo com você e estiver brevemente atentando para algum outro lado para alguma outra coisa, algo esfria na região alta do estômago enquanto suas mãos suam de forma tímida. Essa resfriação pode reverberar na espinha e subir até a cabeça te dando uma sensação meio aérea, ao mesmo tempo em que lentamente desce, se aquecendo, até a região do ventre e serpenteia por entre as suas pernas, te fazendo estremecer discretamente. A sensação é sempre a de um repuxo que você tenta inutilmente conter. Você tenta respirar, mas é difícil. Você observa o outro e esquece de si por alguns segundos. Nada mais importa, o mundo fica em suspenso e só existe o outro, o objeto. Ao final de tudo, fica o coração, pontiagudo, como se batesse repetidamente a mesma tecla. E o nome. Ah, o nome…

Não é a toa que o nome atual disso tudo seja crush. Mesmo.

Esses sintomas permanecem por um tempo indeterminado, até se dissiparem, aos poucos. Até a pessoa ir embora. Até o próximo encontro e próxima interação, mínima que seja. Ah, e é pré requisito fundamental que toda a situação seja essencialmente platônica.

Isso não é algo que eu considero bom de se sentir porque trata-se de uma momentânea e involuntária perda de controle. E eu não gosto de perder o controle. Enfim… Quanto mais involuntária a sua reação, mais na merda você está. Isso é certeza.

A primeira coisa que acontece é o desequilíbrio, para o bem ou para o mal. Eu simplesmente deixo de ser quem eu estava normalmente sendo até então. O pensamento obsessivo persiste e o não relaxamento torna-se permanente, a excitação é continua. É tudo muito incômodo. Minha irritabilidade aumenta. Me sinto fragilizada. Odeio me sentir assim e acredito que a culpa seja minha, quando na verdade não há culpa de ninguém: algo apenas está se desdobrando. E eu estou resistindo à mudança, como sempre. Passo os dias me culpando pela forma que me sinto ao invés de tentar criar qualquer outro tipo de perspectiva para mim, para o que acontece. É alguém, é uma pessoa, é o outro. Fantasiado, na minha mente. E minha cabeça tem o dom das fantasias mais abissais. De todas elas (por isso sei de antemão tantas coisas, o tempo todo). Sinto muito medo. Sei no que isso vai dar. Sei que existem outras lições que devo aprender. Sou uma aluna relapsa. E isso faz com que tudo se frutifique em ilusão e eu me frustre duplamente, em consequência disso, claro. Preciso perceber certas coisas a tempo e mudar de postura, redirecionar isso tudo o que sinto. Preciso me permitir desabrochar e tirar melhor proveito dos ensinamentos. Preciso saber deixar ir, deixar ficar, deixar acontecer. Preciso também e inclusive me permitir essa perda total de controle. Ela é necessária e inevitável. Faz parte de todo o processo. E acima de tudo, preciso estar aqui agora mesmo, apenas. Sempre.

Em um universo paralelo só existe nós dois e a única coisa que fazemos é dançar desesperada e sensualmente ao som dessa música pela eternidade.

(I know you’re up there, somewhere.)

(So very high.)

Ouvi essa música e me lembrei do seu beijo.

(O beijo azul em câmera lenta na hora do rush.)

(…)

Não conseguia te ver claramente.

Sua pele estava naquele tom de azul bonito,

de fim de tarde, da sua cidade.

De quando o sol se põe.

Eu conseguia ouvir seu coração pulsando pelos poros.

Você me abraçava e não queria me deixar ir.

Não sabíamos o que fazer.

Foi um beijo desproposital.

(…)

O beijo

Foi

Um despropósito.

Despretensioso.

Você, com as mãos na minha cabeça.

Acredito que uma lágrima tenha saído de algum de meus olhos.

Sem história.

Sem passado.

(…)

Em mim

Aquele beijo

Ainda acontece.

[O passeio]

“Você me acha bonito? Por favor, diga que me acha bonito”. Essa foi uma das últimas coisas que eu ouvi e me choquei um pouco. Não esperava esse tipo de pedido. As coisas sempre me chocam mais quando saem da boca de conhecidos de longa data ou de pessoas por quem estou apaixonada. E eu estava apaixonada. Inclusive eu tinha dito, conscientemente, com todas as palavras: “eu estou apaixonada por você”, o que surtiu um certo pânico num primeiro momento. É sempre assim. Mas estava, meus olhos diziam e ele notou. Estou. É bobo, eu sei. Mas ainda não sei direito como isso acontece. Não sei bem como me apaixono. Os desdobramentos nunca são os mesmos. Mas essa frase ficou na minha memória por algum motivo.

Por que me apaixonei? O que me atraiu primeiro? Fico numa tentativa fútil de buscar palavra pra designar algo que não deve ser designado. A primeira sensação que eu tive era de que havia alguém ali. Depois senti um certo conforto com a situação de fantasia recorrente. E então, virou mitologia – algo inatingível. Pronto. Na verdade já havia se tornado mitologia antes de tudo aliás, antes de ter me sido dita essa frase, frente a frente, no restaurante, suas mãos nas minhas. Pra depois não estarem mais, pra depois ser esquecida, em pouco tempo, etc., mais uma, como todas as outras, como você não quis que eu acreditasse. Querendo ou não, eu sabia exatamente o que iria acontecer. E me preparei para isso. E assim se deu. Mas não é bem isso o que me importa.

Eu queria entender o que me inquietou nessa pergunta seguida dessa frase. Não costumo me apaixonar por beleza, mas por improbabilidades. A beleza, na verdade, é banal e me entedia um pouco. Quando ela não é construída, quando ela simplesmente é, ela não chega a ter um significado próprio, pra mim. Ela é o que é. O que pode ter me atraído, nesse caso em específico, foi a sedução que foi deliberada o tempo todo. E claro, a evidente impossibilidade. Eu caio de joelhos por coisas que eu jamais poderei ter. É paradoxal assim. É um desejo ardente de fusão completa e distanciamento, ao mesmo tempo. Essas coisas todas me fazem mal, mas sou uma pessoa que cultiva maus hábitos – nesse sentido, especificamente. Pensei em tentar mudar isso, mas já estou velha então o melhor que posso fazer é tentar conviver com isso de forma menos danosa possível – para mim e para os outros.

As pessoas precisam de coisas. O tempo todo. Nunca sei do que preciso. Ali havia uma necessidade de desejo, de sentir-se desejoso e ao mesmo tempo se sentir desejado. E aqui havia o desejo: mas ele era meu e eu sou egoísta. Ou talvez não demonstre tanto quanto deveria por incompetência, mesmo. Não sei o que falar, não demonstro com palavras, nem com gestos muito óbvios, essa não sou eu. Ao mesmo tempo em que sou prática nesse sentido, obedeço a uma certa lentidão, a um ritmo próprio de demonstrar afeto. Jamais te direi, genuinamente, “sim te acho bonito” simplesmente porque acho isso insuficiente. Fácil. Frágil. E também não sou de ficar me repetindo, dizendo isso todas as vezes, o tempo todo, sempre. A repetição faz com que eventualmente soe falso. Suponho que se eu já estou com você, é porque já te acho foda como um todo. O que me interessa, entre as suas qualidades e defeitos é você e nada mais. Precisar ficar reiterando o que quer que seja me broxa. Acredito sinceramente que as pessoas podiam precisar menos das coisas pra poder precisar das coisas melhor.

Viver pela espontaneidade tem um preço. E o preço é a solitude, mas eu pago de bom grado. Se alimentar de impossibilidades tem suas vantagens. Isso me faz retornar à pergunta do que é suficiente para mim. É uma pergunta difícil, que me fizeram semana passada. Ainda não tenho a resposta. Assim como não tive a resposta, desviei o olhar, gaguejei e respondi, positiva e timidamente à sua pergunta. Sim, é claro que eu te acho bonito. Eu te acho lindo. E foi isso. Achei pouco. Penso que, quando for possível e se assim acontecer, a minha intenção é fazer com que você se sinta a própria Beleza. Se eu te desejar. Se eu estiver apaixonada por você. Genuinamente. Profundamente. Desesperadamente. Um momento-monumento como este tem mais significado e importância pra mim, do que uma rotina banal que qualquer outro tipo de protocolo de vivência possa oferecer.

Desculpe por ser excessiva.
Mas eu prefiro quando as coisas são assim.

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