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Quis uma moto. Por anos. Por cerca de 2 anos. Não tinha como. Esse ano teve como. Me planejei desde o início. A burocracia toda, a porra toda. Transferência de CNH, mudança de nome, atualização, renovação, fotos, digitais, caras feias, sorrisos. Tirei férias, peguei todos os dias pra ter aulas de moto. Exercitei minha atenção e coordenação, sempre soube andar de bicicleta, não foi difícil. Tomou todo o meu tempo, toda a minha atenção e parte do meu descanso. Fiz a prova e passei de primeira. O timing foi favorável e agora eu pude comprar uma moto. Pesquisei um pouco antes, escolhi 3. Refinei. Das 3 selecionei uma. Liguei, marquei encontro. Vi ontem, conheci os donos, ou melhor, a dona, ontem.

Conversamos por algum tempo e a dona da moto é gente finíssima. Tinha outra pessoa interessada na moto, um cara, que viu a moto quinta-feira e ficou de dar a resposta até domingo. Até a gente se ver ele não tinha respondido. No desenrolar da conversa, notei que ela também passou por processos de vida impressionantemente semelhantes aos meus e aí a identificação ficou maior, já entendi algumas coisas de cara. Ela também me disse que o nome da moto é “Eudora”, nome grego, que significa “generosa” ou ainda “bom presente”. Bom, nem preciso mencionar que a moto já tem parte do meu nome nela né? Reforcei mais de três vezes que queria a moto e, caso o rapaz não ligasse, que gostaria da preferência na compra.

O rapaz ligou. E ela não quis vender a moto pra ele pra vender pra mim. E agora são vários ritos de passagem, várias últimas vezes, várias caídas de ficha, uma atrás da outra. Cancelamentos, solicitações, cartório, transferência, assinaturas, acordos, pensar em segurança, pensar em proteção e uma caralhada de novas informações que estão sendo absorvidas. Sempre róla a voz interna da auto-sabotagem e da travação, que me diz não. Também rolam vozes externas que conseguem ser ainda piores: morte, atropelamento, pernas amputadas, acidente, decapitações com linhas com cerol, cuidado, você vai cair, você vai se acidentar, numa dessas você pode acabar morrendo.

Bom, eu posso morrer de qualquer jeito.

Andando na rua tarde da noite ou de madrugada, como já cansei de fazer. Posso ser assaltada, sequestrada, estuprada, etc. Posso ser atropelada como pedestre também na rua. Algum maluco pode vir qualquer dia no metrô e me jogar na frente do trem, enquanto ele passa (já aconteceu, eu li no jornal). Posso tropeçar e cair por acidente no chão, bater com a cabeça e também morrer. Morrer eu posso a qualquer hora, por qualquer motivo. Ter uma moto e andar por aí com ela vai ser só mais um deles e isso me aterroriza bem menos que o fato de estar viva e não poder fazer as coisas que eu quero, que eu posso, que eu devo fazer e, last but not least, fazer as coisas do meu jeito. Aprendi já há algum tempo que a vibração do medo me impõe limites justamente para que eu possa ultrapassá-los.

Um a um.

Um de cada vez.

 

Tinha pensado que o ano passado já tinham acontecido mudanças suficientes comigo e para mim. Mudei de nome. Mudei de casa. Mudei no trabalho. Mudei alguns comportamentos. Terminei coisas. Não comecei mais nada. Estava cansada. Só pensava “preciso terminar essas coisas e preciso terminá-las bem”. E cumpri. Pensei “ok, em 2016 agora vai dar uma acalmada nas mudanças e vou ficar bem, vou conseguir descansar”. Aí a minha vida vem hoje pra mim e diz “se você acha que aquilo tudo o que rolou ano passado é mudança é porque você ainda não me conhece direito, mesmo”. Final de fevereiro vai ser um final de ciclo do caralho pra mim. Não estou falando que isso vai ser de todo positivo pra mim, pelo contrário. Mudanças sempre trazem muitas dúvidas. Muitas coisas das quais tinha plena certeza, já não tenho mais. Várias coisas estão em suspenso, pra mim. Vou ter um tempo para descansar sim, mas não vai ser exatamente como eu tinha imaginado. A vida é sorrateira… Ela só nos dá até o limite que aguentamos. Ela sabe os limites e está me sinalizando várias coisas. E estou acatando. Até então, me observei me entregando muito para a vida e vejo que são poucas as vezes que eu tomo, que aceito as coisas dela. Esse ano eu resolvi começar a aceitar, a tomar, a colher sim coisas que são minhas por direito. Eu MEREÇO sim coisas boas. Mereço mais ainda quando é por consequencia de ações minhas. Quando a vida me retorna, em confiança, o que sempre foi meu. O que deve ser meu. Então vou tomar. Vou aceitar. Vou dizer sim. Vou me apropriar do que é meu e do que a vida me oferece sim, sem hesitar. Chega de me sentir culpada. De achar que não mereço. De falsa modéstia, de mesquinharia. Sou abundante: vou aceitar a abundância. Sou generosa: vou aceitar a generosidade. Aceito só o que já é meu. Está tudo muito, muito claro pra mim. A época de ter medo finalmente chegou ao fim.

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