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Arquivo da tag: Morte

Cheguei atrasada, sentei na mesa do café e ela estava sentada, já chorando. Minha cara também não era a de melhores amigos. ‘Ela se enforcou’, ela disse, meio chorosa. Não sei como até agora não chorei, talvez ainda esteja em choque. Sei que existe toda uma história, que existem N possibilidades e probabilidades, mas nada disso parece ter muita importância no momento. Só sei que dói, na altura do estômago e que essa dor me deixou letárgica para o resto do dia. Sento, tento arrumar palavras dentro da minha cabeça para dizer algo e nada vem. Nada aparece. Fazia muito tempo que eu não possuía um silêncio tão pesado, tão cheio, inevitável e ensurdecedor. Minha boca ficava entreaberta e eu não conseguia articular palavra. Pensava, e sequer conseguia olhá-la nos olhos. Olhava para o chão, para a parede, para as mesas ao redor, como se olhar pra outro lugar me fizesse suportar melhor o que não queria encarar de frente. Sou uma covarde. Sempre fui. Naquele momento não tinha mais firmeza de nada. Imaginava os vetores, as mãos invisíveis que a levaram à falta de saída, à angústia total, ao desespero completo. Sei que essas mãos existem e sei mais ainda do que elas são capazes (elas já tentaram me tocar, várias vezes). Cheguei ao café me arrastando com uma dor que sequer consigo descrever direito. Levantei da mesa com uma sensação estranha, como se parte de mim fosse permanecer ali, ancorada, para todo o sempre. Naquela mesa, naquele momento, naquele pranto contido, evitado. De hoje em diante, mais uma ausência. Vou continuar achando absurdo. Estúpido. Triste. Vou continuar sem respostas. Agora as respostas não importam mais. É assim que funciona, parece.

“Então D., o amor, a cisma, digo que as pessoas não amam, elas cismam. A cisma geralmente é orgulho, não é amor. É sua ignorância, sua infantilidade é você, tão ingênua, é você tão “por favor, me ame!”, que vira um inferno na vida do outro. E você deixa de dar esse amor pra si mesma e aí sofre, de abandono. De auto-abandono. E isso vale para muitas coisas: para uma mãe que perdeu um filho, pra uma morte súbita, pra um rompimento, pra uma impossibilidade. “Sem você, não sobrevivo” e aí você pensa que assim não dá, porra. E esse “não dá” já é uma fagulha de inteligência. Isso chama-se inteligência. Quem tem inteligência de sobrevivência, quem tem essa integridade consigo mesma, não se perde por amor. Não morre de amor.

Isso é Maya, é ilusão. O tamanho da sua dor é o tamanho da sua ilusão. Que ilusão? Que você não vive sem a pessoa. Que ele é tudo pra você. Que sua vida não tem sentido. Que você morre. Que você precisa ter filhos, precisa manter, precisa lutar, precisa se sacrificar, defender… E isso tudo é de um egoísmo e de um orgulho obsceno porque é obsessivo. Não é amor. É o seu lado mimado espiritual. Pequeno. Menor. É a sua infantilidade existencial. Pude entender isso profundamente através do amor que senti pelo pai do meu filho. Porque eu tinha essa infantilidade afetiva. Muito. E eu sentia as dores do amor, dores pelas quais você inclusive se sacrifica das mais variadas formas possíveis. Mas que porra é essa? Que amor é esse que dói tanto? Amor não dói. Orgulho dói.

Hoje em dia, a maioria dos casamentos e relacionamentos que conhecemos não são construídos por amor… Quantos casamentos por amor que você conhece? Hoje mesmo eu ouvi no consultório “ah, mas a gente não consegue chegar num alto patamar de vida hoje sozinho”. Consegue. Mas se você quiser construir um patrimônio, não tiver tanta confiabilidade em si mesma e quiser ser rica, você sabe que precisa unir forças. Natural. Mas o que que é auto-apoio e o que é dependência? Tem uma diferença muito grande aí. Porque se você se pendura no outro, você vai morrer se ele for embora. Então solidão é auto-abandono, mesmo.

Muitos relacionamentos não só estruturam a sua base, bem como principalmente constróem toda a sua a sua fundação efetivamente a partir de um orgulho inconsciente. Por isso é que a gente tem tanto medo do casamento. Sua alma, seu espírito ainda anseia o amor, que a gente tenta, aos poucos, traduzir como companheirismo, parceria e certa cumplicidade.

Não tenho interesse algum pelo mundo dark, pelo que é violento. Como entendi o que é a violência na vida de uma pessoa? Toda pessoa que sofre de amor, que se abre para uma dependência emocional plena, tem um quê de suicída. E em algum momento da história, muitas pessoas morreram por conta desse amor idealizado e isso foi retratado na arte principalmente. As pessoas ficavam tísicas, tuberculosas e morriam de amor. Na verdade a pessoa queria mesmo morrer, ela se entregava por completo à dor do amor. São suicídas em potencial. E o suicídio é a violência sexual, é a energia sexual destrambelhada.

O suicídio, pra mim, não sei se existe alguma literatura mas enfim… O desejo de morrer pra vida porque você não obteve o objeto de desejo, o amor não foi correspondido ou algum outro tipo de desencontro amoroso… E você sofre tanto de amor e é uma dor tão irremediável… Para mim, esse amor não correspondido está interligado com a sua própria ignorância espiritual, o seu próprio orgulho de algo.

E que a maioria das pessoas ainda acredita totalmente no domínio a partir do sexo, essa coisa cafona. As pessoas ainda estão nesse patamarzinho baixo da ilusão de poder. É poder. Sexo não é amor. É um patamar baixo, de um instinto primário. É violência. É crueldade, D. E onde existe crueldade não pode existir inteligência. Só que existem realidades cruéis, né? E o mundo aceita porque é o mundo: engloba a tudo, é uma vastidão. Só que geralmente esses amores iludidos eles são passionais. São cheios de ciúme, de engenhocas, de dramas, de invejas, de posse, de domínio, de escravidão, de… Infantilidades.”

Não quero doar meus órgãos quando eu morrer. Se vocês fizerem isso, amaldiçoarei e tornarei um inferno a vida das pessoas que ficarem com os meus órgãos. Não sei se rogar praga funciona, mas ela já está rogada. Se posso decidir sobre o meu corpo então decido: nenhum órgão sairá de mim para nenhuma outra pessoa. Morrerei com tudo o que me pertence.

Por outro lado, doem todas as minhas poucas (e gastas) coisas materiais: minhas roupas, sapatos, livros. Leiam (guardem, ou sei lá, taquem fogo) minhas agendas e meus diários mais íntimos e secretos e divirtam-se com a vidinha que levei. Não quero nada disso de ficar mantendo quarto e coisas de morto. Livrem-se de tudo o que possa trazer lembranças muito vívidas. As lembranças menos nítidas são sempre melhores e talvez mais justas.

Fico imaginando o que aconteceria caso eu tivesse o azar de ter morte cerebral algum dia. Pessoalmente, gostaria muito que me fizessem o favor de desligar os aparelhos e que simplesmente me deixassem ir em paz (embora já saiba que isso é proibido no Brasil, o que lamento). Aquilo que restará ali em cima da cama será qualquer coisa, menos eu. Não quero viver em estado vegetativo: já fiz isso por 28 anos em vida. Se eu pudesse escolher, gostaria de não precisar continuar fazendo isso até definhar, impondo um sofrimento desnecessário às pessoas mais próximas (e ao que restou de mim).

Fico imaginando se eu pedisse para alguém próximo, que gosta muito de mim e me ama, se a pessoa teria a coragem necessária para fazer isso. Acho que este não seria um pedido fácil de fazer a quem se ama: me mate, por favor, porque eu não aguento mais isso. Afinal, eu ainda estaria clinicamente viva, por assim dizer. Não seria então mais fácil fazer esse pedido para quem não gosta de mim? Pedir para um desafeto entrar furtivamente no meu quarto e me matar silenciosamente? Seria. Mas… Por que um desafeto verdadeiro desligaria os aparelhos? Acho que talvez ele me deixasse ali, vegetando e impondo sofrimento a todos que gostam de mim (e também porque não, ao que restou de mim).

Parece que não há como vencer. Nem na vida, nem na morte.

Então o jeito é continuar… Como quer que seja.

(E sim, eu gosto de fantasiar. Fantasiar é o meu fazer. E é quase que um propósito.)

E quando eu morrer, por favor, não me enterrem. Não acho também que será necessário um “funeral apropriado”, não me considero católica. Só quero ser cremada. E as cinzas poderão ser jogadas em qualquer lugar que vente muito, para que se dissipem o mais rápido possível. Não tenho nenhum lugar preferido ou específico em mente.

Talvez em volta de uma árvore bem grande, com raízes fortes.

E deve ter música, violinos talvez. Flores amarelas e boas conversas.

Seria muito bonito e agradável.

Obrigada.

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