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Li alguma vez em algum lugar sobre um método de tortura chamado “o quarto branco”. Ele é considerado o pior método de tortura de todos os tempos. Esses dias saí do metrô Liberdade sem conseguir respirar direito. Estou sempre fugindo de alguma coisa, nunca sei ao certo do que é. Minha essência é escapista, desde sempre. Esses dias, antes de viajar pra Campo Grande, contabilizei a quantidade de coisas das quais já consegui fugir com sucesso. Não sei se exatamente me orgulho de todas. Acho que não, não são feitos que brado por aí. Apenas reconheço. Já me falaram que eu pareço uma prisioneira, desde sempre. Ainda me identifico com isso. Nesse dia, subindo as escadas para fora da estação Liberdade, me dei conta do porquê dessa identificação persistente. Morei com meus pais por 23 anos. Por pelo menos 13 anos destes 23, morei num quarto sem janelas.

No quarto branco não fazem nada fisicamente com a pessoa em questão. Apenas a isolam de contato humano em um quarto branco e tudo o que oferecem a ela de comida, roupa, tudo o que for externo, também é branco. Só comecei a sair de casa aos 15 porque eu fugia dos meus pais super protetores. Era tudo muito, muito difícil. Inclusive fisiologicamente, só fui diagnosticada com hipotireoidismo aos 22 e não me tratei por muitos anos. A doença me fazia entrar num quadro ainda mais mórbido e depressivo, me oferecendo entre outros sintomas uma taquicardia repentina, letargia, enfastiamento, etc. Não queria tomar o remédio, aquilo era pra idosos, eu não merecia esse tipo de castigo. Só comecei a tomar o remédio religiosamente aos 27. Saí de casa aos 23 pois não haveria outra alternativa a não ser isso. E todos sabiam. Todos sentiam.

Nunca precisei colocar nada em palavras: jamais duvidavam da minha inconsequência e preferiram evitar qualquer desgraça.

As pessoas que passaram por esse tipo de tortura dizem que mesmo depois de libertadas do quarto branco jamais retornam a se sentir verdadeiramente livres, pois tudo o que é branco lhes remete à prisão. Desde que tive um teto meu, um teto próprio, tenho gosto por ficar em casa. Tudo comigo acontece muito lentamente, as aceitações, as mudanças, qualquer tipo de transformação. Eu demoro. Em Floripa lembro que ficava deitada na cama, olhando pro céu lá fora pela janela, observando as nuvens passarem, vendo o dia se acabar na minha frente, eu, impotente. A impressão que tinha era a de que jamais sairia dali. Até hoje não sei se, secretamente, eu não queria mesmo sair dali. Eu nunca sei. Mas queria e não sabia. Soube sob pressão e vim porque, desta vez, eu tinha alternativa. Mas tudo acaba por me sufocar com o tempo.

Sinto, muitas vezes, que minha estrutura de vida seja um tanto quanto similar ao quarto branco, em certa medida. Subindo as escadas da Liberdade – e morar neste bairro, para mim, hoje é a maior ironia de todas – senti uma grande melancolia, com uma certa ponta de angústia, sem saber o porquê direito. Cada degrau, escada acima, a epifania que abria minha consciência me fazia desfalecer. Confundo meus piores traumas com partes da minha identidade hoje em dia. Sinto repulsa de coisas com as quais sou, na verdade, intimamente familiarizada. Sou feita disso tudo, são partes inegáveis de mim. Me senti presa, novamente. Acho que senti, pela primeira vez, que não tenho, e nem terei, escapatória. Eu não deveria sentir tanto medo. Eu não sinto. Eu só queria que tudo isso passasse. E às vezes até isso é cansativo demais.

Mas talvez eu esteja condenada à isto. Talvez isto faça parte do meu currículo.

E talvez não exista sequer propósito em escapar.

Quando Silvia me falou pela primeira vez em morbidez eu estranhei um pouco. Achei que soubesse o que significava, mas a verdade é que eu não fazia muita ideia não. Pra mim era algo com o qual já estava acostumada, já tinha naturalizado em mim e para mim. “Sou assim, gosto disso” pensava, sem jamais me questionar o porquê. Disse pra ela que me sentia atraída especificamente pela morbidez de algumas coisas, de algumas pessoas e até de algumas situações. Lembro que quando eu disse que o que me atraía nele era justamente a morbidez, ela se assustou e disse “puta merda!”. Tive uma sensação estranha de ter me arrependido um pouco do que disse, mas enfim, já estava dito.

Silvia tem batido em mesmas teclas pra mim já há algum tempo e tem confirmado pra mim algumas coisas sobre relacionamentos que, em meu íntimo eu já sabia, mas que precisavam vir à tona de algum modo. Ela ainda não sabe a importância que tem pra mim, por simplesmente ter entrado na minha vida. Depois de quase um ano e meio, eu ainda a ouço. Ou ainda: eu a ouço mais do que nunca. E isso é difícil. Mas a verdade é que tudo o que ela diz ressoa em várias coisas que vivencio e observo. A verdade que eu não gosto de admitir é que de certa forma eu glamourizei a morbidez, em vários sentidos. Isso funcionou pra mim por vários anos, pra lidar com uma série de questões minhas. Mas isso me serve ainda? É o que realmente quero? É o que cabe na minha vida nesse momento? É algo que desejo arrastar?

Superficialmente, estou pronta pra dizer que sim, que é. É minha resposta-espasmo, de bate-pronto. É a minha primeira resposta, imediata, não pensada. Eu sequer defini exatamente o que é essa morbidez, na verdade. Não entrei verdadeiramente em contato com ela, de forma mais consciente. E tenho uma ideia distorcida e extremamente romantizada do que ela pode ser. Mas eu não sabia disso, eu mesma me engano. Muito. Repetidamente. Enfim… Algumas coincidências que aconteceram no último final de semana me fizeram entender esse conceito de morbidez um pouco melhor. Tenho dificuldade em perceber quando isso acontece, porque é um vício nessa repetição de comportamento, que hoje acredito que não me serve mais.

Mas nos últimos dias eu percebi isso de forma um pouco drástica. Tenho a sorte de ter ao meu lado pessoas que estão ajudando a iluminar um pouco mais esse meu caminho de uma maior consciência. Algumas coisas eu preciso ter em mente: a morbidez é necessariamente sensual. E ela envolve geralmente instintos que são os mais primitivos possíveis: medo, fome, sexo. Eles nunca aparecem juntos, sempre alternadamente. Esses são os gatilhos para o estado de morbidez. Quando alguma dessas coisas acontece – muito comumente de forma excessiva e saturada, seja propositalmente ou não – o estado de morbidez se expande. Às vezes por dias, às vezes por semanas. Nunca parei pra tentar perceber. Só sei que é bastante real pois me lembro dessas coisas acontecerem comigo. E é foda, pois elas podem ser facilmente confundidas com qualquer outra coisa: depressão, ansiedade, amor. Quando não se trata de NADA disso.

O estado de morbidez faz com que a água fique parada. Com que as coisas apodreçam e adoeçam. Com que a casa fique permanentemente suja. É um tanto quanto literal: com que tudo fique sem vida. Nada de bom, funcional ou belo pode surgir de um estado de morbidez. Na verdade existe apenas uma sobrevida, que serve apenas pra retroalimentar este estado. E é pesado. É sempre pesado e arrastado. Algo que nos impede de viver, de tentar pensar melhor nas coisas, de dizer “chega, foi o suficiente”, de levantar da cama pra ir fazer outras coisas. Só consegui me ligar disso porque algumas pessoas me disseram. E porque neste fim de semana percebi os resultados imediatos disso tudo. Inclusive resultados sensoriais e corporais. Coisas que sempre achei que não eram “nada demais”, ou que não estavam ligadas a este estado, ficaram claras pra mim.

Vou ficar de olho nisso de hoje em diante. E algumas coisas vão mudar por aqui.

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