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Arquivo da tag: Melancolia

Já falei aqui sobre nostalgia e sobre como nunca gostei muito deste sentimento. A sensação que tenho é a de que a gente fica tentando, desesperadamente, requentar a história ao invés de vivê-la e isso me irrita em alguns sentidos. Não gosto quando me pego nostálgica de algo. E não sei o que é pior: se pegar nostálgico de coisas, de épocas ou de pessoas. Acho que pessoas é o pior de tudo e tenho me sentindo um pouco assim esses dias. Sabe aquela sensação que a gente insiste em esconder de que não temos mais absolutamente nada a oferecer ao outro? É muito horrível quando ela fica evidente. Quando você se pega não tendo nada a dizer, nada a compartilhar. Quando o abismo fica claro, de realidades, de tempo, de distância. Quando tudo o que você fala parece e soa irrelevante. Quando tudo o que você ouve é ironia e sarcasmo. É cansativo. “Mas antes não era assim”.

Antes não é hoje. E hoje e agora é tudo o que importa.

Tenho feito a minha parte, fico na minha e evito conversa. Sempre tive a tendência em deixar a coisa acabar por si só, em não fazer nada, nunca, por educação. Na vida adulta dá muito trabalho ter que ficar explicando as coisas, todas. O melhor a fazer é não explicar absolutamente nada, nunca. A vida já é muito cheia de troço chato pra lidar e eu escolho conscientemente não ter de lidar com isso, com essas merdas todas. O melhor que eu faço é sair fora e acredito mesmo que toda a malandragem, a grandeza de espírito está em sair fora apenas, sem mágoa. Quando se consegue fazer isso é suficiente, pois nada se perde em definitivo. Apenas pára no tempo. E pode voltar, se tivermos sorte. Se soubermos ressiginificar um ao outro, as situações, a tudo o que houve. Se tivermos esta sorte, mesmo.

No momento, eu não quero e não vou lidar mais com as cuspidas no prato em que foi comido. Com os terríveis cacoetes sociais desgraçados que não são meus e que não reconheço. Com todas as piadas internas que não entendo. Com trivialidades que escondem nas entrelinhas uma arrogância que sequer deveria ser direcionada à mim. Não tenho nem tempo e muito menos disposição pra ter de lidar com essas coisas. E em contrapartida também sinto que eu não tenho absolutamente nada a oferecer nesse sentido. Não é mágoa cabocla. A parada toda simplesmente perdeu o significado. Só isso. Não existe mais troca. E não me permito mais permanecer em ambientes com água parada. Isso nunca me fez bem.

Sou fascinada com gente que diz que eu devo discutir ou até mesmo lutar para manter um relacionamento ou qualquer coisa assim. Isso nunca me pareceu sensato, mesmo na época em que me vi tentada a acreditar nisso. Dizem que, se eu não faço isso, o relacionamento nunca significou nada para mim. E sou eu, sempre, quem deve ter o papel de convencer ao outro de que ele é importante e do quanto me importo. Isso por muitos anos fez com que eu me sentisse que “eu não estava me esforçando o suficiente” ou ainda de que “eu não era digna” de estar com aquela pessoa em questão. Hoje em dia essa tentativa barata de manipulação não me ofende tanto quanto o outro assumir que eu vá passar por cima da sua liberdade de escolha, em qualquer tema que seja. If we don’t vibe, we don’t vibe. No hurt feelings. That is all. Não tenho mais tempo a perder, não posso me dar mais a este luxo.

Não vou ensinar nada a ninguém. Não vou fazer ninguém se sentir bem consigo mesmo em troca de nada. Não vou barganhar nenhum relacionamento. Não preciso disso. Prefiro, mesmo, ficar e ser sozinha.

Tenho uma melhor amiga há cerca de 15 anos e continuamos assim porque nos damos o devido espaço. E tentamos – sim, sempre há um esforço nesse sentido – não ser hostis uma com a outra (nem passivo-agressivamente, sem ironias, sem bullshit alguma). Ela é mega reaça e muito provavelmente jamais seria minha amiga se eu a conhecesse hoje, mas conseguimos conviver e ter um respeito mútuo. Isso tudo tem bem menos a ver com concordância e mais a ver com timing e empatia, mesmo. E é meio horrível se dar conta disso em um modo mais geral mesmo. Não gostamos de reconhecer isso mas a verdade é que tudo muda. As pessoas mudam também, tempos diferentes, realidades diferentes… Etc. Mas os valores pessoais permanecem, às vezes. Quando os valores não permanecem, eu pessoalmente saturo das pessoas. Não me identifico mais. As conversas não fluem mais. E tem coisas que quando se rompem não podem mais ser retomadas. E tudo bem. Só que tudo parece ainda muito mais triste porque somos nostálgicos. Mas a pessoa de quem a gente tem saudade não existe mais. E nem a gente existe mais do modo que era antes.

Noite passada eu sonhei com você de novo. Foram duas vezes nesta semana já. Não sei o que fazer destes sonhos, entendo que não há nada a ser feito. Não os relaciono de algum modo com o que vivo atualmente, é tudo muito distante. O primeiro sonho foi estranho, um encontro, do nada. Foi tudo muito melancólico. Dizíamos um ao outro em uníssono “uma pena não falarmos a mesma língua” e tudo ficava por isso mesmo. Éramos uma só voz. Acordei reconhecendo o sonho apenas, mas sem sentir nada em especial: nem tristeza, mágoa ou saudade. Eu não conseguia sentir absolutamente nada.

Ontem o sonho foi um pouco mais complexo. Sonhei que estava em alguma outra cidade, existiam ruelas estreitas e era um bairro boêmio. Eu conversava com a garota e por algum motivo éramos amigas – o que não entendi, mas enfim, ok. Ela vestia branco (parecia que estava vestida de noiva, como da primeira vez que sonhei com ela) e estava triste, chorava e me confessava coisas. Ela parecia exausta não física, mas emocionalmente. Parecia estar em seu limite. Eu apenas ouvia mas estava ocupada demais tentando encontrar o lugar em que você estaria. Me senti muito madura no sonho, como se eu fosse mais velha – mas que ao mesmo tempo eu fosse um certo tipo de “novidade” (bem, não deixaria de ser, acredito). Parecia que estava rolando um lançamento de um livro, seu. E estávamos te procurando. Te encontrei e você estava atipicamente eufórico e até mesmo amigável, me contando sobre o livro. Como você fica quando fala de trabalho, em qualquer evento. Achei estranha a forma que você se focou em mim e deixou a garota completamente de escanteio. Isso me deixou desconfortável até. Você me mostrou todo o seu trabalho e, como sempre, queria que eu desse minha pronta opinião o que, contrariamente ao meu costume, aconteceu. Disse minhas primeiras impressões na lata: que o livro estava mal editado, que algumas folhas estavam soltas ou caindo, mas na contra-capa do livro vi um desenho muito impressionante de um barco em aquarela… Eram vários barcos aquarelados em tons de azul, um dentro do outro, como matryoshkas. Fiquei alguns minutos vendo aquilo e tentando extrair significado. Você pareceu não se importar muito com nada do que eu disse, o que também não é costumeiro seu. Pedi uma cachaça, algo me dizia que eu precisava de uma bebida.

A situação toda ali era muito triste, um clima muito esquisito. O tempo todo eu sentia que eu deveria ir embora, que estava atrapalhando algo. A garota-velha vestida de noiva carente e excluída com cara de chorosa, você a ignorando completamente por conta de trabalho (sim, eu já sabia que todo aquele papinho não era sobre mim, em nenhum nível) e eu tentando ser educada. Tudo muito, muito errado. Acordei me sentindo incomodada, irritada mesmo. Que porra de sonho. Esperei que passasse hoje, durante o dia. Não só passou, como me deu insônia agora. Não querer sonhar com você outra vez não adianta. Quanto mais eu resistir, pior é.

Acredito que estes sonhos são algum tipo fino de auto-sabotagem vindos do meu inconsciente justamente pra me fazer titubear. Ou para me fazer repensar no passado, enfim. Quando tudo na minha vida está muito tranquilo e muito bem, meu inconsciente me sabota como se para dizer “ei, tem essa parte aqui que não ficou resolvida então vou esfregar isso na tua cara”. E tudo bem. Vai permanecer não resolvido e, por mim, assim permanecerá. O que não tem resolução, resolvido está. Não vou esquentar, mesmo, com isso. E vou dormir agora.

Hoje deu tudo errado pra mim. E vou ter que abrir mão de alguns sonhos por algum tempo.

(Eu me aproximando de você, a cada passo minha respiração descompassava, o tempo entrava em processo de lentidão. Em câmera lenta o seu abraço não queria soltar. O meu olhar no seu. O seu olhar em mim e silêncio. O silêncio.)

Não havia como ser de outro jeito. Já há algum tempo que não aprendo nada direito, parece.

(Estava frio e passeamos. Não soube como pegar no seu braço, demorei pra isso. Às vezes tenho a impressão de que desaprendi. Você só me faz perceber que apenas não me lembro direito. Me traz pra perto, sem querer.)

E aí fico me perguntando como ser menos dura comigo mesma, mas às vezes não tem muito jeito.

(Você quis fumar e desistiu. Disse que era por minha causa, para não estragar o beijo. Achei aquilo uma bobagem e acabei estragando tudo o quanto antes. Pronto. Pode fumar, agora.)

É provável que eu fique na merda e tenha que adiar alguns planos por no mínimo uns 2 anos por conta de hoje. Bem… Acontece. Vivendo e aprendendo.

(“Eu me sinto tão confortável com você”. Se deitou na minha cama e me puxou para cima de si, como se eu não fosse nada. Se encaixou em mim, como se eu fosse a que restasse. E me deu de presente um ato falho: “meu amor”.)

Eu estou aqui pra aprender.

E aprender significa saber errar.

Hoje me dei conta de que sou qualquer uma. De que posso ser qualquer uma. E que, paradoxalmente, ser qualquer uma não é pra qualquer uma. De que, na verdade mesmo, nada do que eu faça faz mesmo muita ou alguma diferença. Notar isso me deixou meio deprimida por alguns instantes, mas na verdade foi mais libertador do que qualquer outra coisa. Sou irrelevante. Não importo. Não faço a mínima diferença. Esse tipo de pensamento tem o efeito contraditório em mim. Ele não me limita, pelo contrário, me impulsiona a ser o que eu quiser, assim que eu quiser ser. Esta parte ainda não está muito bem esclarecida ainda: não sei o que quero. Em vários sentidos. Só sei o que não quero e isso ao menos já é um começo.

Sabia, por cima, que alguma mudança brusca aconteceria, só não imaginava que fosse tanta. E não imaginava que fosse assim. Me vejo sendo obrigada, forçada na verdade, a dizer mais não do que sim, para algumas coisas. Eu nunca fui assim. Sempre tive medo da escassez, o tempo todo. Sempre tive muito medo do que pudesse me fazer falta. Por isso o sim sim sim o tempo todo. Em um espaço muito curto de tempo, disse não para duas coisas que comumente diria sim. Ontem acordei e disse não, mais uma vez, para algo importante. Ainda não dimensionei muito bem o que esses nãos querem dizer, só os observo ali, espalhando-se aos poucos. Não concordo. Não acho certo. Não quero fazer parte disso. Estou deixando de aceitar coisas em série.

Estou deixando de engolir coisas que não preciso engolir.

Dizer não para coisas que não quero ou não me importo é um tanto quanto fácil. O que me assusta é dizer não, genuinamente, para coisas que amo. Ou que quero muito. Simplesmente reconhecer, de forma não afetada, que estas coisas não me servem, que não são pra mim. A imagem que me vem em mente é a de véus, que estou tirando um a um. Ainda não enxergo o que há por trás deles – e talvez isso jamais aconteça, enfim – mas eles estão sendo retirados. Ou ainda, estou consciente de que eles existem e não estou permitindo mais que perturbem a minha visão. Não sei o que é pior: chegar a dizer o não ou antes disso mesmo me perceber desgostosa com situações que há pouco tempo me entesavam muitíssimo. A partir disso acontece o estranhamento. A partir disso, aconteço.

Tudo o que eu como, desde ontem, está insuportavelmente doce. Acho que todos os meus sentidos estão alterados, de algum modo. E isso não tem nada a ver com TPM, pelo meu calendário que acompanho de perto. É puramente emocional, mesmo. Quando estou emocionalmente mexida de alguma forma, meus sentidos se transformam. É como se eu estivesse me preparando para o que vai acontecer – e, de fato, estou mesmo, de forma cada vez mais consciente. Boto carne na boca e ela parece puro açúcar. É tudo muito horrível, tudo me dá um enjôo, uma náusea muito forte. Sinto vontade de vomitar o mundo. Às vezes tenho a impressão também de que meu corpo está levemente dormente. Meus dedos das mãos, meus braços. Meu rosto. Não consigo sentir mais as coisas, o mundo, direito. É como se eu estivesse temporariamente anulada, mesmo. Em câmera lenta, debaixo d’água, entardecendo. Não enxergo mais as pessoas, derrubo coisas, minha distração fica além do normal. Tudo o que ouço, todas as músicas, ficam como se equalizadas e é como se eu só conseguisse ouvir os sons mais graves, de tudo. Músicas que antes ouvia como se não fossem nada, agora soam completamente diferentes, mais encorpadas, mais profundas, muito, muito mais dramáticas. E isso tudo está na minha cabeça. Dentro da minha cabeça, eu sei. Estou muito cansada e detesto fim de ciclos, mas eles são necessários. Preciso crescer. E crescer sempre dói. Não tenho muita escolha. Vai passar.

Ontem mesmo pensava que tinha esquecido de você. Agora passei na frente da loja de livros de arte onde a gente se beijou pela primeira vez.

Ela foi fechada.

Fiz um minuto de silêncio em memória daquela lembrança e fui embora, pegar o metrô.

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