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O sino que é utilizado para chamar os meditadores para as atividades.

I

Cheguei ao Dhamma Sarana doente. Antes de sair de casa olhei minha garganta no espelho e estava inflamada, meus ouvidos também estavam entupidos e dentro da minha cabeça soava um “piiiiiiii” incessante. “Preciso passar na farmácia e comprar um antibiótico antes de ir”. Mas eu estava tão agitada e com pressa que não quis ir na farmácia. “Vou melhorar ao longo dos dias”. Cheguei lá por volta das 13h, larguei minha mochila na recepção, ali mesmo já confiscaram o meu celular (a ser devolvido só no último dia) e resolvi dar uma volta pelo local. Entrei numa trilha sem querer e encontrei uma cachoeira escondida. Me emocionei, achei lindo: “vou voltar aqui no último dia”. Voltei pra recepção e depois do check-in aguardei pelas primeiras instruções. No primeiro dia todo mundo fica meio desorientado mesmo, mas o Nobre Silêncio começa ao final da tarde, já antes da primeira seção de meditação. Dividi quarto com mais 9 mulheres, estávamos em 5 beliches. A ala das mulheres era separada da dos homens.

II

Como eu estava muito doente, a primeira coisa que fiz foi beber muita água para ir desintoxicando o corpo aos poucos. Bebi muita água mesmo, levei minha garrafa de 500ml e não deixava ela esvaziar em nenhum momento. Os primeiros 3 dias serviram pra eu me curar da garganta inflamada e fiz de tudo para que isso ocorresse naturalmente (chás, sucos de limão, laranja e maçã). Foram dias bastante regrados com relação aos horários e em como devíamos fazer as coisas. Ainda assim, saía pouco do quarto e da cama nos horários de descanso. Estava acabada, exausta do mundo exterior ainda e me recuperando de uma garganta inflamada, não queria muita agitação: queria só conseguir respirar direito. Não consegui fazer nada que não fosse meditar nesses três primeiros dias e felizmente eles foram bem nublados e chuvosos. Nesses dias aprendemos a meditação Ānāpāna e todo o meu esforço era pra curar minha garganta e para não tossir desesperadamente durante as seções para não atrapalhar os outros.

III

No quarto dia, eu já estava bem melhor da garganta, não sentia dores para engolir, nem nada. Lembrei que estava na minha TPM e que estava ficando cansada e com dores na lombar por conta disso. Lembrei também que eu queria fazer esse curso por pelo menos há uns 3 anos já, mas nunca rolava: ou não encaixava horários, férias ou tinha compromisso ou viagem e outras coisas da vida pra fazer. Nunca dava. Ou talvez eu não estivesse pronta pra ir, mesmo, pra ter este tipo de experiência. Mas neste ano o timing foi perfeito e eu consegui fazer a inscrição bem no meio das minhas férias, com antecedência e planejamento. Nesse ano deu certo e bem, há 3 anos atrás eu não tinha toda experiência com meditação que tenho hoje, por exemplo (isso porque ainda me considero bem leiga). Mas eu nunca tinha tido até então uma experiência de imersão em meditação, algo mais profundo mesmo, praticando diariamente, com horários regrados e em ambiente controlado. E no quarto dia só é que aprendemos a técnica de meditação Vipassana.

IV

A partir do quarto dia, durante os intervalos, eu já não ficava mais tão isolada no quarto, como estava melhor. Nesse dia fez sol e lembro que consegui passear pelo bosque, observar o riacho que passava por ali e finalmente comecei a ver os rostos das mulheres e tentar entender quem era quem por ali. Mas era difícil. A não-comunicação não se limitava apenas a fala, mas também a olhares, gestos e expressões. Nunca cheguei a ter problemas com mosquitos e/ou pernilongos porque aparentemente eu tenho o sangue muito ruim pra esses bichos. Uma das minhas atividades favoritas era pegar um pedaço de pau, sentar em um toco na frente da árvore e ficar derrubando as formigas do caule e rindo sozinha, muito satisfeita por perturbar as formigas. Acho que no dia 5 foi a primeira vez que pensei “mas que saco isso aqui!”. Assim que terminei esse pensamento, me perguntei: “você gostaria de estar em outro lugar agora?” ao que eu respondi, timidamente, “não”. “Então fique aqui e faça o que tem que ser feito. Você não é mais nenhuma criança”. 

V

Do dia 5 ao dia 7 foram os dias mais mágicos pra mim. Um mundo de coisas aconteciam internamente ao mesmo tempo em mim: nada acontecia e tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu estava me adaptando àquele lugar e àquela rotina diária de meditação, enquanto aprendia uma técnica nova. Eu estava terminando de me curar de uma garganta inflamada, com sucesso (depois de litros de água e litros de chás e com uma alimentação vegetariana muito bem regrada). Tentava observar o ambiente e agir de acordo e conforme as regras. E aí, no sexto dia eu menstruei e eu previ isso, obviamente. Só que não é permitido o uso de medicamentos durante o curso. Tive cólicas bem intensas no início, que me incomodaram numa meditação pela manhã mas agi rapidamente. Plantei minha lua numa árvore bem alta e bonita que tinha por lá e também deitei de barriga no bosque, pois felizmente fez sol nesses dias também. Essas duas ações bastante simples fizeram minhas cólicas desaparecerem por completo, sem a utilização de nenhum tipo de remédio.

VI

Antes de ir, confesso que fiquei com certo receio pela alimentação ser vegetariana. Talvez me faltasse algum nutriente e eu me sentisse fraca, mas isso nunca ocorreu, em nenhum dia. Todas as dores e incômodos que sentia eram por causa da menstruação (dores leves na lombar) e por causa da posição de meditação (dores nas coxas principalmente). A comida era simples e a mesa era sempre farta. Comida feita com afeto, com capricho, com tempero – eu sempre percebo essas coisas, sempre. Todo dia algo diferente no almoço, só no café da manhã e no lanche das 17h que era sempre a mesma coisa. No entanto, não senti fome em nenhum dia. E nenhum dia, nada que eu comi foi insuficiente, nunca. Sempre era o bastante. E também foi por volta do sexto ou sétimo dia que me lembrei que eu estava a quase uma semana sem tomar café puro. Isso porque antes de ir eu dizia pra mim mesma “mas será que eu vou conseguir sobreviver sem café por dez dias?”. Descobri que sobrevivo sem muitas outras coisas por dez dias, aliás. O café foi o de menos.

VII

O banheiro era coletivo e a lavanderia também. Os quartos também eram divididos e eu aproveitava o menor uso do banheiro a noite para tomar banho. Certa noite, voltando bem tranquila do banho, vejo a porta do meu quarto aberta. Era o oitavo dia, ainda não tinha finalizado o Nobre Silêncio. Uma das moças do meu quarto está na frente da porta do quarto, sem entrar, assustada. Pensei “ué”. Ela pegou no meu braço e apontou pro rodapé da porta. Não enxerguei nada. Ela pegou uma lanterna e apontou para o rodapé da porta onde tinha uma aranha enorme. Dei risada, entrei no quarto e peguei o pote salva-inseto que nós tínhamos lá e retirei a aranha do quarto, sem emitir palavra. Essa não tinha sido a primeira vez que tinha tirado uma aranha do quarto, mas da outra vez eu estava sozinha e acho que ninguém viu. E ninguém ficou sabendo também porque eu não contei. Acho meio bobo se gabar desse tipo de coisa.

VIII

Os últimos dias (8, 9 e 10) foram os mais difíceis, mas acho que é porque todo processo é assim mesmo. Quando chega no final é sempre mais difícil. Para mim, foram os mais difíceis porque ao mesmo tempo em que eu (achava que) estava me aprofundando na técnica, eu também já estava bem cansada da rotina – embora continuasse levando tudo a risca. Mas bem achei chato que algumas pessoas voltaram a falar no dia 8, sendo que o fim do Nobre Silêncio só deveria ocorrer as 10h do dia 9. Acredito que se você se propõe e se compromete com isso, sabendo que existem regras, é meio infantil quebrá-las só porque pode. Sempre que eu ouvia alguém falando ou conversando eu saia de perto o mais rápido possível e me isolava. No dia 9 socializei, claro, mas não muito porque eu não sou muito de socializar mesmo, queria ficar mais na minha. No entanto fiquei sabendo de várias coisas que sequer percebi durante os outros dias: das várias pessoas que desistiram e dos dramas pessoais das pessoas, etc. Mas aquilo me cansava também.

IX

Entendi rapidamente porque Vipassana precisou estar na minha vida e o que ela me ensinou. A questão do sofrimento é algo que me aflige desde que eu me conheço por gente. Desde a primeira vez que eu ralei meu joelho e ele sangrou e eu chorei, chorei e chorei e de repente parei de chorar e me questionei pela primeira vez “por que eu ainda estou chorando?”, quando o sangue já tinha estancado. São coisas muito, muito básicas e que só são passíveis de entendimento a partir da experiência, da vivência. Coisas que até uma criança de 5 anos com o joelho ralado questiona e entende. O meu joelho ralado de adulta, hoje com 34 anos, tem mais a ver com paixões e com desejo do que com sofrimento, ódio ou rancor. Com esses últimos eu já sei lidar. Mas jamais me ocorreu que minhas paixões, meus desejos e principalmente minha impulsividade pudessem me trazer tanto sofrimento. E Vipassana jogou uma luz, imensa, incomensurável, sobre esse aspecto da minha vida que eu deneguei por tantos anos.

X

Até agora os cânticos do N. S. Goenka estão ecoando na minha cabeça. Principalmente a frase que encerrava todas as seções de meditação “Bhavatu Sabba Mangelam”, que significa “que todos os seres possam ser felizes”. Também me lembro dele falando sempre nas meditações para nos lembrarmos de “Anicca, anicca, anicca!” (impermanência, impermanência, impermanência!). Na manhã do último dia, depois da última meditação e do check-out de todo mundo, voltei à cachoeira que tinha ido no primeiro dia. Aquela era uma outra cachoeira e eu era uma outra mulher. O primeiro pensamento que tive foi “eu não quero ir embora daqui”. Meu segundo pensamento foi “ir embora de onde, Dora?”. O terceiro foi “Você já está aqui. Você está sempre aqui. Você já está em casa… E aqui, você é sempre bem vinda”. Me senti acolhida, me senti aceita, me senti profundamente amada… E senti que estava exatamente onde deveria estar. Foi uma sensação maravilhosa de contentamento tão forte, como nunca senti antes. Sentei, chorei e agradeci. Por tudo.

E depois fui embora.

“Anicca, anicca, anicca!”

 

Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

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