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Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

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