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Arquivo da tag: Luto

“Nem todas as pessoas tóxicas são cruéis e indiferentes. Algumas delas nos amam muito. Muitas delas tem boas intenções. A maioria é tóxica para nós simplesmente porque suas necessidades e sua forma de existir no mundo nos força à comprometermos a nós mesmos e a nossa felicidade. Eles não são pessoas inerentemente ruins, mas não são as pessoas certas para nós. E por mais difícil que seja, precisamos deixá-los ir. A vida já é difícil o suficiente sem termos à nossa volta pessoas que nos põem pra baixo, e por mais que você se importe, você não pode destruir-se para o bem de outra pessoa. Você tem que fazer com que seu bem estar seja uma prioridade. Se isso significa romper com alguém com quem se importa, amar uma pessoa da família à distância, deixar com que um amigo se vá ou remover-se de uma situação que parece dolorosa – você tem todo o direito de ir embora e criar um espaço mais seguro para si mesmo”.

Nunca passei por uma situação real de luto. Quando eu falo real, eu quero dizer sem volta, uma morte mesmo, de alguém muito próximo. Tudo o que eu passei que se assemelhou à um luto foi, antes de qualquer coisa, uma escolha, minha, do outro. Ninguém morreu, nada grave aconteceu, sempre há a nova chance e o novo retorno, mas mais que isso existem os limites. Enquanto pessoas, somos limitados. O mais próximo que eu senti de um luto foi a vontade de morrer. Senti isso duas vezes. Existirão outras, sei disso. Toda vez que eu digo isso saboreio um certo amargor diferente do qual eu já estou acostumada. Não gostaria que fosse assim, mas realmente a vida não é e nem nunca vai ser do jeito que eu gostaria. Isso tudo ocorrerá, independente da minha vontade. Não sei das vezes que fui forte até hoje. Não sei ser forte e acredito que não há como me preparar pra esse tipo de situação pois cada dor é diferente. Estar preparado ou se sentir preparado para algo do tipo é um tanto quanto ilusório. Nunca fui forte e acho que por isso ainda estou por aqui. Sempre sucumbi, de uma forma ou de outra, a uma série de comportamentos auto-destrutivos (é um padrão, no meu caso) e quando estou sentindo muita dor, levo a minha vida da pior maneira possível, sofrendo, reclamando, me punindo. Faço o possível para estender esse período ao máximo, até que eu perceba que ele não faz mais sentido algum. Cada pessoa tem sua forma, tem gente que prefere se dopar com remédios tarja preta e com a ajuda deles acreditar que está ‘tudo bem’. Cada um escolhe a ilusão que prefere pra suportar o que ocorre. Comecei a pensar nesse tema pois ontem o pai de alguns conhecidos faleceu. Fiquei um pouco impressionada com a quantidade de pessoas que falou “Força” pra eles. Força… O que essa palavra quer dizer, exatamente? Acredito que as pessoas usem esta palavra com a melhor das intenções, mas esse me parece um pedido tão insensível… Dizer “seja forte” num momento de total impotência me soa como chacota. Quando se é humano, é difícil ser forte. Mas isso me levou a pensar que existem diferentes formas de lidar com a morte. Essas formas geralmente estão condicionadas ao apego que se tem pelo que existe e não pela ideia do que existe. Ficamos tristes quando alguém morre, é fato, pois a ideia do que é aquela pessoa cessará de se repetir. Mas se essa ideia vive em nós, ainda permaneceremos tristes, somos humanos, claro – mas nos trataremos de forma muito mais amável, pois o que acontece será um pouco menos entendido como perda, como término e mais como uma passagem, um acontecimento. E isso pode parecer insensível pra maioria das pessoas e de difícil compreensão, porque a única linguagem compreendida entre as pessoas é o drama. E eu gosto do drama, mas sei que por trás dele existem outras coisas. Tenho verdadeiro fascínio pelo que é etéreo. Por ideias que não desaparecem, que apaziguam, que me tornam mais generosa, que me fazem querer amar mais. Ideias que não nos fazem sentir separados de todo o resto, que nos integram à tudo, que nos fazem acreditar que algumas coisas são possíveis. Pessoas, cidades, situações de vida são apenas veículos, fazem parte de todo o drama “bom dia”, “quero você”, “eu te amo”, “estou com saudade” e blablabla. A maior parte das pessoas vai querer te convencer de que tudo isso é real, mais saiba, lembre, relembre-se sempre: não é. O que permanece mesmo é o significado, é a conexão, é estar ali. É nos reconhecermos profundamente e podermos dizer “olá” pra alma do outro. “Se pudermos dançar, dançaremos, se não pudermos dançar, então não dançaremos e tudo bem”. E isso existe e isso pode ser feito e isso fez de mim uma pessoa melhor, pra mim mesma, pra outros. Pra sempre. Enquanto eu estiver por aqui.

Eu não sei tomar decisões difíceis racionalmente. Mas a verdade é que eu desconfio que ninguém saiba. Tomar uma decisão difícil é ir até o seu limite, o limite do seu mundo. Às vezes me ocorrem pensamentos sobre limites e limitações, isso tem acontecido por esses dias. Basicamente é quando a gente se depara com algo que não queremos, não sabemos ou não podemos lidar. As reações são sempre variadas, mas sempre as mesmas: as pessoas despirocam, para bem ou para mal. Lidar com uma decisão difícil ou com alguma limitação é o mesmo que recebemos uma carta e demoramos dias pra abri-la e ver o seu conteúdo (mesmo – e ainda mais – se já sabemos do que se trata… e quase sempre já sabemos do que se trata). Abrimos esta carta e não entendemos o significado dela (ou nos recusamos a compreender). Os dias se passam e tudo vai se movimentando. Abandonamos nossa casa, abandonamos o convívio com quem quer que seja. Lidar com limitação é lidar com aceitação. E aceitar (que acabou, que começou, que agora é pra valer, que agora é de verdade, que tudo era mentira, etc.) é difícil pra caralho. O que acontece quando vamos de um ponto ao outro é o que transforma as coisas. Mesmo o trivial, passar pela mesma estação de metrô, ir aos mesmos lugares, comer da mesma comida, beber da mesma bebida, quando há algo em jogo, nada disso mais é trivial. Tudo se torna diferente, no caso, mais escuro, as pessoas desaparecem, pouca coisa faz algum sentido porque você não quer mais que nada faça muito sentido. Você precisa disso.

mario-estação-liberdade03O escapismo é pra fracos, mas negar que isso seja um tipo de potência é uma burrice, simplesmente. Quando tudo na nossa vida atinge uma perspectiva onírica, podemos fazer absolutamente tudo o que queremos, sem restrições. É uma loucura permitida, damos um desconto, uma abertura à nós mesmos, por todas as merdas que tivemos que aturar por muito tempo. Escapamos, sonhamos e principalmente: agimos em relação a isso. Isso é perigoso e excitante. E se isso não é potência, eu não sei o que é. O mundo real, as contas a pagar, a família, aparecem insistentemente, brilhando na tela do celular e as palavras “casa” e “amor” nunca tiveram tão pouca importância como agora. A sensação de olhar para aquela tela é a de completo estranhamento. Não reconhecemos nada ali. Quem são essas pessoas e por que estão tentando me ligar? O que eu teria a dizer à elas? Que realidade é essa? Não pertencemos mais, é a destruição total da identidade, do afeto, dos valores, das memórias. Não entendem que essa destruição é na verdade a mais completa imersão e construção, e que faz parte do todo, dos resultados. Abandonar a casa e a família (ou o que o valha). Ir morar no Hotel Glória. Beber, perder a direção e o senso de qualquer coisa. Passar por entretenimento vazio. Comer a recepcionista do Hotel Glória. Fumar ópio. Ir até o fundo do poço. Eu já passei por tudo isso e um pouco mais e por muito menos. Não da forma como vi na tela, mas enfim, ao meu próprio modo, por isso a identificação. Só quando realmente não há mais escapatória é que finalmente lemos – ou no caso pedimos para que alguém leia e traduza – a maldita carta. E só aí talvez passamos a entenda-la. Pra só aí aos poucos começarmos a aceitá-la. Vez e outra eu também recebo uma carta dessas. Às vezes me devasta mais, outras nem tanto. Nunca é difícil o suficiente para me destruir, mas é sempre o bastante para me refazer por inteira.

mario-estação-liberdade01Descobri essa noite que, quando tenho a possibilidade, me colocar em direção à uma situação mais extrema me faz ter uma decisão mais acertada. Acredito que se eu me sentisse menos sozinha, mais amada, mais amparada, provavelmente tomaria uma decisão que seria bem menos pensada. A verdade é que eu não gosto de decisões fáceis ou simples. Mudo de cidade. Mudo de vida. Compro passagem só de ida. Dispenso oportunidades que algumas pessoas dariam tudo para ter. E nada disso vem fácil, pra mim. Noite passada eu sofri bastante. Me obriguei a não dormir até estar com uma decisão bastante clara na minha mente. É curioso… Sofro tanto com meus relacionamentos pessoais que não deram certo, mas quando se trata de algo que é minha inteira responsabilidade – meu trabalho, por exemplo – o sofrimento se modifica, toma outra forma, outra dimensão. É um sofrimento seco, áspero… E muito, muito pior. Mil vezes pior do que qualquer dor de amor. É a hora em que percebo que estou realmente sozinha nisso tudo. Pessoas vêm e vão, mas eu estou sempre aqui, comigo mesma, sob minha própria responsabilidade. É diferente. Preciso ser dura. Preciso criar uma postura (palavra que tem me perseguido há alguns dias). Não dormi, fiquei acordada e no final, tomei uma decisão com as minhas entranhas e jamais tinha me sentido tão certa sobre alguma coisa na minha vida. Nunca acreditei na minha intuição. Nunca. Nunca dei ouvidos à ela com tanta convicção. Mas desta vez estou indo contra tudo o que é racional e apostando nela. Posso me foder, mas vou fazer isso. Posso me foder, mas estou aqui pra isso. E vou fazer isso agora. All in.

mario-estação-liberdade02

Palavras caem, esculhambadas. Sem nenhum requinte, nem um pensamento.

Um orgulho inútil de pontualidade, tentativas erradas de fazer o que é certo e o que é bom.

Eu me esqueço…

O frio se enterra em meus ossos. Aguardo, paciente, jogos, leituras…

Certezas.

Olho o quadro que me diz que ali não há um cachimbo.

Espero por uma hora e sinto

de tempos em tempos

aos poucos,

sua mão pesar em meu ombro.

“Você foi muito importante pra mim”.

Não acredito em passado, nem em valores (ou ausência deles).

Acredito no frio que se crava em mim e na azia que se acelera.

Sinto ódio por não ter um casaco.

Sinto ódio por ter me esquecido: a culpa da espera é minha.

Este abandono é meu, bem como todos os outros, como todos que já existiram.

Internalizo o não. O aceito, finalmente.

Reconheço que sou escolhida, algumas vezes. Apenas desconheço os motivos.

“Faça isso”. Nenhum significado.

Apenas faça isso pra mim. Qualquer outra o faria.

Este é, estritamente, meu papel: ser substituida e substituível.

A qualquer momento. Em todo momento. Quase sempre.

Aceite.

.

O que era intimidade

(e

na verdade

jamais foi)

foi sabia e corretamente

substituito por

assepsia & análise.

.

Não se conhece nada. Não se deve conhecer.

Não se deve querer saber. Não se sabe.

Deixe estar.

.

Há: algo a ser cumprido. Um trabalho a ser finalizado.

.

.

Finalize.

.

.

(The world is harsh. Be harsh-her.)

I

Era um hotel cinco estrelas, daqueles que só vemos em filmes. Um lugar alto, com andares intermináveis. Um encontro estava marcado. Era pra ser um encontro casual, mas antes de qualquer coisa, era um encontro. Me sentia como se estivesse em um filme, é um sentimento recorrente ver o que vivencio como se estivesse por fora de tudo, como se fosse uma terceira pessoa, como num sonho, sempre. Ele apareceu, bem apessoado, trataríamos de negócios. O quarto tinha vista para toda a cidade e estava decorado como se fosse pra uma lua de mel. Mesmo sendo de ‘alto nível’, sempre acho esses tipos de decoração cafonas. O quarto continha clichês reparáveis mas não quis me estender e perguntei sobre o dinheiro. O cara me enrolou e então falei que iria até o saguão da recepção resolver algum tipo de contratempo imaginário. Lembro que desci e subi por vários elevadores diferentes e o saguão nunca chegava. Fugia com cada vez mais pressa. Usei escadas. Ao longo do tempo eu ia envelhecendo e ficando suja, desgrenhada. Fugia com cada vez mais horror estampado na minha cara. As pessoas do hotel já reparavam que eu era uma fugitiva, mas nada faziam a não ser me olhar com repulsa e acharem que eu era louca. Lembrei do cara me esperando no quarto, impaciente, lembrei do dinheiro, lembrei do encontro, mas nada disso importava mais. Eu só precisava sair daquele lugar o mais rápido possível. Mas o rápido parecia nunca chegar e a saída parecia nunca existir. Acordei meio dia.

II

O nome dela é Lia.

III

Penso em tudo o que preciso fazer, em tudo o que preciso reler, em compromissos marcados, em projetos pessoais. Ocupo a minha mente com o máximo que posso de vida. Preparo pastéis, recepciono pessoas, conheço gente, dou risada, lavo louças, visito lugares, assisto filmes. Me vejo passar pelo tempo. Tento esconder o que é evidente, o que está marcado em mim, todos os dias, cada vez mais, cada dia mais um pouco. Projetos de tradução, projetos de transcrição, boas perspectivas, coisas se concretizando finalmente. Quero acreditar que tudo isso é suficiente, que pode ser suficiente, que tudo isso é o que posso ter. Acredito verdadeiramente, em vários momentos. Transcrevo e sou detalhista, tento sempre fazer o melhor e dizem que o que eu faço é bom. Acredito. Sinto fome e não faço mais almoço pra mim mesma, mas pra com quem convivo. Gosto e isso me dá um certo tipo de conforto. E então em algum momento também percebo que vivo de migalhas. Vivo me adaptando não ao que é bom (nem comigo, nem pra mim), mas ao que é apenas suficiente. Que por mais que eu queira mais e faça o meu melhor, jamais vou ser como eu deveria ser ou como quero ser. Que nunca serei boa o suficiente. Aos poucos, tudo vai se tornando muito opressor. O nó sobe a garganta e resisto “está tudo bem, estou bem”. Mas quando menos percebi, cozinhava o arroz com lágrimas acreditando que “tudo vai ficar bem”. Pode até ficar, eventualmente, talvez, quem sabe. Mas agora mesmo eu devo sucumbir. Mas não sucumbir no sentido estético de “hoje é um sábado chuvoso, estou sozinha em casa, como é bom estar mal”. Sucumbir ao ponto de perder todos os sentidos, de enfraquecer repentinamente, do almoço não ter mais propósito, de tudo o que se faz não ter mais o mínimo se sentido. De querer desaparecer da face da Terra, de querer não existir mais e de querer além: que ninguém jamais sinta a minha falta ou sequer lembre da minha existência. É um ódio e uma impotência muito intensos. Vou ao abismo em um minuto: gostaria muito de que tudo isso terminasse, de verdade. Eu só queria essa paz. Sucumbo largando a colher à mesa, sentando no chão da cozinha e secando as lágrimas com um pano de prato sujo. É e está tudo tão emaranhado em mim que já é difícil explicar os porquês pra mim mesma, tentar explicar aos outros então é simplesmente obsceno, inapropriado e só me deixaria ainda mais constrangida uma vez que eu não sei conversar (leia-se, sou uma incivilizada que tem dificuldade em escamotear seus sentimentos para outras pessoas). Algumas pessoas sentem um certo alívio em não resistir. Pra mim é apenas uma bola de neve que me faz continuar sendo e me sentindo a pior pessoa que já existiu. Além dos danos espirituais (por falta de termo melhor), estas crises também causam danos bem reais: esqueço a chaleira sem água no fogo e quase incendeio a casa inteira com isso. Por isso resisto ao nó na maioria das vezes, pra evitar o caos. Depois, apenas fico triste. Me lembro que eu não era mais assim. Há alguns anos havia superado algo parecido e estava quase voltando à vida novamente quando tudo ocorre de novo. Uma repetição idêntica e então, a minha desistência, de tudo. O nó permanece indefinidamente na garganta e simplesmente não se desfaz. Na maioria das vezes o ignoro, finjo que não está ali pra não enlouquecer de vez, tento “ser melhor que isso” e acreditar que “tudo vai ficar bem” o que são imaturidades, puras e simples. Na maioria das vezes resisto às tensões do nó, caso contrário, teria crises de choro mais frequentes, na rua, nos lugares, quase sempre. Algumas vezes o nó se afrouxa como se não existisse e estes são os raros dias em que tento ser feliz, embora nunca sejam dias plenos (tenho plena certeza de que jamais serão novamente). Talvez esse nó jamais se desfaça. Mas isso já compreendi que talvez eu jamais possa resolver.

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