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Picasso, Mulher em frente ao Espelho (1932)

“O que seriam, então, casos genuínos de ilusão? (O fato é que é difícil ver, em qualquer dos exemplos de Ayer, um caso de ilusão, a não ser que forcemos as coisas). Para começar, existem casos muito claros de ilusão ótica – por exemplo, o que mencionamos anteriormente, no qual, de duas linhas de igual comprimento, uma parece mais comprida que a outra. E há, ainda, as ilusões produzidas pelos “ilusionistas” profissionais, os prestidigitadores – por exemplo, a Mulher sem Cabeça no palco, apresentada de modo a parecer que não tem cabeça, ou o boneco do ventríloquo, que dá a impressão de falar. Bastante diferente, e (em geral) não produzido intencionalmente, é o caso das rodas que giram com grande rapidez numa direção, e podem dar a impressão de girar muito lentamente na direção oposta.

As delusões, por sua vez, são coisa muito diferente. Casos típicos são os delírios persecutórios e as manias de grandeza. Trata-se, basicamente, de crenças (e, portanto, talvez também de comportamento) em profundo estado de desequilíbrio, que provavelmente nada tem a ver com a percepção. Mas penso que também se pode dizer que o paciente que vê ratos cor de rosa sofre de delusões – principalmente, sem dúvida, se, como costuma ser o caso, não tem consciência nítida de que os ratos rosados não são reais.

Aqui, as diferenças mais importantes são que a expressão “uma ilusão” (num contexto perceptivo) não sugere que uma coisa totalmente irreal seja produzida por um passe de mágica – pelo contrário, o que ali está é a disposição de linhas e setas na página, a mulher no palco com a cabeça num saco preto, as rodas giratórias; ao passo que o termo “delusão” realmente sugere algo de totalmente irreal, que não está ali de modo algum. (As convicções da pessoa que tem delírios persecutórios podem ser completamente desprovidas de fundamento). Por esse motivo é que as delusões são um caso muito mais grave – algo que está realmente mal, e, o que é pior, mal quanto à pessoa que os tem. Mas, quando tenho uma ilusão ótica, por mais perfeita que seja, nada há de errado comigo pessoalmente, a ilusão não é uma pequena (ou grande) peculiaridade ou idiossincrasia de minha parte; é completamente pública, todos podem ver, e, em muitos casos, podem estabelecer-se procedimentos clássicos para produzi-la.

Além disso, se não queremos nos deixar levar pela ilusão, devemos estar de sobreaviso; de nada adianta, porém, dizer ao que sofre de delusões que esteja de sobreaviso. O que ele precisa é ser curado.”

AUSTIN, J. L. Sentido e Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 34-36

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