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“Alguém que amei uma vez me deu uma caixa cheia de escuridão.
Levei anos para entender que isto, também, era um presente.”
– Mary Oliver

Desde a primeira vez que li o título “O inventário das coisas ausentes”, sabia que teria que lê-lo algum dia. É um livro curto, de linguagem bastante fluída. A sinopse do livro pode ser a história que o narrador-escritor conta sobre como conheceu Nina, personagem central da trama. Na verdade são várias as histórias que se sobrepõem e se intercalam ao longo das épocas e que, de um modo ou de outro, levam até Nina. Durante a trama não é possível ter muita noção de linearidade e cabe a quem lê tentar encaixar as épocas e fatos.

Em dado momento, Nina abandona o narrador e antes de desaparecer o deixa com 17 diários. O registro, embora aparentemente desprezado pelo narrador, tem um papel importante no livro: a partir deles que as histórias são contadas. No entanto, Nina retorna e depois de anos, um reencontro acontece. A primeira parte do livro tem uma certa vivacidade, que está atrelada à personagem da Nina. Mesmo os acontecimentos mais tristes e dolorosos são transmitidos de maneira leve, com um certo humor.

A segunda parte, trata-se do livro que o narrador escrevia na primeira parte, quando conheceu Nina. É o encontro de um pai com um filho depois de 23 anos de separação. O pai, com uma doença terminal, um sujeito completamente rústico e bronco entrega ao filho 17 diários sobre sua vida. No texto, o filho é sempre referido como “o menino”, mesmo que já se trate de um homem de 46 anos. Ambos os personagens, pai e filho, são analfabetos emocionais que não sabem distinguir nem falar sobre o que sentem.

Embora o perfil deste pai tenha sido delineado de forma a entendermos que trata-se de uma pessoa esclarecida, que lutou por ideais políticos e tem uma casa com biblioteca, não é difícil inferir que trata-se de um sujeito afetivamente enrustido e recalcado. A existência desse pai revela na verdade a gênese do machismo, onde o rito de passagem para “tornar-se homem” necessariamente passa por um processo de desumanização: não sentir dor, nem fome, nem cansaço, nem vontade de ir embora ou chorar.

O “menino” então passa não só a desejar a morte do pai como, mais tarde, o desejo de aniquilar ativamente tudo o que possa lembrá-lo, mesmo que palidamente. E é justamente aí que a ficção confunde-se com a realidade do livro. O narrador descreve o corpo atlético de Nina, sobre como ela gosta de sair diariamente pela manhã para correr 10 quilômetros. Coincidentemente, a mesma quantidade de quilômetros que o pai jogava na cara do “menino” que ia a pé, para a escola, diariamente quando criança.

É possível inferir que de certo modo o narrador-escritor podia enxergar esse odioso pai refletido em Nina, em seus detalhes. E a desprezasse por isso. Pois enxergar isso o fazia sentir ainda mais fragilizado, invalidado e deslegitimado enquanto essa ficção, essa construção, “homem”. E é a partir desse ódio retroalimentável, sustentável até, que o machismo e a misoginia emergiam em alguns parágrafos do livro. Neste sentido, Nina que é aparentemente uma mulher livre, muitas vezes incomoda o narrador, que, ao menos uma vez, pensou em matá-la.

Sobre o final do livro, minha primeira impressão é a de que ele foi primoroso, para só depois eu entendê-lo quase que como uma afronta. Só depois me toquei das linhas e mais linhas, vírgulas e mais vírgulas para só então, e talvez, a história acabar com o derradeiro ponto final. Até o último momento, uma violência.

Ao terminar esse livro, me veio em mente uma imagem que me intriga há algum tempo. Nunca havia parado para pensar de forma consciente sobre violência e o final do livro fez com que essa imagem ficasse ainda mais nítida. Ao ver o que acontece, senti como se eu tivesse arqueado e atirado uma flecha para frente, no alvo, e assim que ela o acertou, me acertou também. Em cheio. No peito. Foi devastador. E não parecia que seria.

Jamais parece.

“Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempe uma outra história. Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. E talvez seja, uma leitura divorciada da emoção, do acontecimento em si. As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.”

 

Minha resenha sobre o livro no Leia Mulheres.

Quando você está no metrô, entra um anão no vagão e pessoalmente isso não faz diferença nenhuma – esse fato sequer chega a ser engraçado – você sabe que o G. R. R. Martin criou o melhor personagem antibullying do século.

Pra mim, literatura só cumpre seu papel quando causa uma ruptura na realidade.

“Quando eu quis me matar, o psiquiatra amigo tomou todas as providências: disse para que eu escondesse o estilete, o canivete automático e minha espada. E principalmente, naturalmente, todas as manifestações de amor verdadeiro.

Mas um suicida sempre acaba sabendo onde está o que quer. Sente o cheiro, deduz as pistas. Pesca, com olhos hipersensíveis, o mal estar indisfarçável dos outros, quando passa ao lado do esconderijo onde estão as coisas escondidas.

O suicida é o viciado de uma dose só.

A mesma estrutura interna e os mesmos labirintos investigativos da insônia.

Então por que não peguei?

Porque eu não quis.

Limpo. Limpeza. Cabeça.

Não quis e pronto.

Não sou infantil.
Não sou infantil.
Não sou infantil.

Não há nenhum palhaço por aqui. Eu não gosto de palhaço. E vocês afinal estão rindo de quê?

Mundo, vocês todos, eu quero, eu exijo, um minuto de silêncio.”

Era meio-dia, antes do rush, e me lembro que lhe perguntei se ela ia trabalhar ali. Ela me disse que sim e que não, que o velho era seu tio, o casal e a mulher mais jovem eram primos, e os pequenos, seus sobrinhos, e que ela tinha vindo para ficar, “I’m here to stay, babe”. Quando tentei começar uma conversa e sugeri que a gente poderia sair uma noite para que eu lhe mostrasse Paris, ela imediatamente respondeu: “You wanna fuck me, babe?”. Neguei, ou melhor, minimizei: “Não, não sei, vamos sair, conversar, nos divertir; não é preciso trepar, não na primeira vez”, disse rindo, ou seja, tentando amenizar o clima. Mas ela não largou o osso: “What is it? You just want sucky sucky?”. Expliquei que o boquete também não era necessário, não na primeira vez.

Mais tarde, quando lhe perguntei se era sempre assim que ela abordava os homens, ela me respondeu que, primeiro, ela não tinha abordado ninguém, eu que a tinha abordado, e, segundo, ela perguntava só porque queria saber, e isso não significava que ela toparia. Acrescentou que todos os seus namorados tinham sido soldados, e os soldados não têm tempo para preliminares. Se é para amar, melhor amar logo. Amanhã nunca se sabe.

Foi o começo de uma amizade e de algo que talvez fosse um namoro. Claro que era um namoro, só que era um namoro com LeeLee. (p. 54)

CALLIGARIS, Contardo. A mulher de vermelho e branco: uma história de Carlo Antonini. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 205 p.

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