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Vejo muitas pessoas que conheço e que gosto muito sofrerem absurdamente pelo simples fato de serem completamente incapazes de ficarem sozinhas.

E existem várias formas de se estar sozinho.

Por exemplo: em uma sala de espera de uma clínica. Quando falo sozinho, falo sem nenhum tipo de “distração”: sem livros, sem música, sem nada, apenas você e seus pensamentos (ou a ausência deles). ISSO é estar sozinho. As pessoas buscam um entretenimento incessante para que não precisem entrar em contato com suas emoções, com seus pensamentos, com o que pode surgir a partir deles. Quase que para se anestesiarem da realidade. Não as culpo: a realidade é quase sempre uma merda. De qualquer modo, acho meio asfixiante, precisar estar bem o tempo todo, se manter entretida o tempo todo. Mas falo isso porque sou uma deprimida de primeira linha. E porque talvez eu não entenda as coisas como deveria. Enfim..

Sou uma deprimida de primeira linha não porque eu encare a realidade, mas porque encaro a mim mesma o que – às vezes – é bem pior e bem mais dolorido. Mas compensa. E vale a pena. Na maioria absoluta das vezes.

Algumas pessoas também não conseguem ficar sozinhas no sentido de precisarem ter um relacionamento com outra pessoa. Elas precisam desse tipo de validação. Precisa se tornar legítimo o fato de que elas são dignas de afeto, de amor. Ou precisam se sentir aceitos por algum determinado grupo. Precisam trepar, precisam namorar, precisam ter um afeto incondicional, essas coisas. Se aventuram, buscam coisas… Isso pode nem se tornar o objetivo central da vida delas, mas o fato é que elas estão sempre atrás disso. Pessoalmente, acho cansativo. Na verdade acho exaustivo, correr atrás, etc. Não faço isso, é muito desgastante e dolorido – lidar comigo mesma já me causa desgastes o suficiente. Não acho de todo errado, cada vida é diferente e algumas pessoas precisam disso. Às vezes simplesmente acho que eu não nasci pra amar nada nem ninguém. Que eu sou incapaz disso.

Às vezes me questiono um pouco se critico esse tipo de comportamento (o de procurar um alguém) porque falhei miseravelmente e fui extremamente infeliz em qualquer relacionamento que eu tenha levado à sério. Também é possível, sim. Talvez isso simplesmente não seja pra mim. O meu “problema” é que eu evito utilizar relacionamentos como muletas para qualquer coisa em mim. Acho nocivo, mesmo. Ou ainda: acho que enquanto eu não puder me sentir inteira, jamais vou poder bancar outra pessoa na minha vida. O meu gostar é, sempre foi e sempre vai ser, desinteressado.

Eu gosto das pessoas porque eu gosto. Não necessariamente pelo que elas tem a me oferecer.

Dito isso, sou sozinha. Simplemente porque o mundo não funciona desse jeito.

Não tenho muita gente na minha vida que tenha me influenciado absurdamente. As pessoas meio que passam por mim. As pessoas que gosto geralmente também são espelhos. Ou estão distantes de algum modo. Ou fico anos sem vê-las e quando as reencontro, é como se as tivesse visto ontem mesmo. Ninguém é uma ilha e eu também sei disso. As pessoas precisam uma das outras, precisam se relacionar para poder viver melhor. Para que coisas lhes sejam asseguradas. Para, muitas vezes, que a vida e as coisas tenham sentido. Eu acho isso tanto fascinante quanto limitante…

Estou lendo um livro de uma artista que gosto muito chamada Amanda Palmer, e o livro se chama The Art of Asking (A Arte de Pedir, que vai sair pela Intrínseca em março, ao que parece). Ela escreve de uma forma que faz parecer com o que ela faz seja extremamente fácil de se fazer – se comunicar, confiar, conceder, trocar. Para mim, não é tão fácil e nem tão natural. A Amanda tem uma vida bonita – que certamente tem seus altos e baixos – mas ainda assim, uma vida bonita. A forma que ela enxerga as coisas e as pessoas é incrível.. E a forma que ela traduz todas as coisas na vida dela também é fantástica. Não tenho isso de me comunicar e trocar com os outros mesmo porque não sou uma artista. Tenho sérias dificuldades em confiar nas pessoas por motivos meus e às vezes sinto que isso foi perdido, ou talvez não exista – o que é um exagero.

Há algumas semanas tenho me preocupado com isso um pouco. Com essa falta de confiança crônica nos outros. Com o fato de eu ser sozinha e absolutamente reclusa. Com o fato de eu não saber me relacionar com as pessoas. Com o próprio fato de, na maior parte do tempo, eu ter não cara de ‘muitos amigos’. Tenho vários motivos pra ser assim, mas a verdade é que sou assim já há bastante tempo. Fazem 8 anos que eu moro totalmente sozinha. É bastante tempo. Tenho uma penca de conhecidos, mas é isso: são conhecidos, não amigos. Eu não tenho muitas pessoas com quem eu definitivamente possa contar. Não tenho mesmo. Eu não me arrisco a dizer que tenho uma melhor amiga. Digo que existem certas pessoas que persistem em conviver comigo por tempos que considero recordes: 8 anos, 10 anos, etc.

Pessoas que me aturam. Que me toleram. Que me conhecem, por inteiro, as partes boas e as partes péssimas. Que sabem como eu sou, o que eu provavelmente vou pedir e o que pode ser oferecido em troca. Essas pessoas estão sempre por ali. E eu estou sempre por aqui e é isso.

Não sou, de todo, uma má companhia pra mim mesma. Tenho meus defeitos, me saboto e me maltrato algumas vezes, mas nada que com o tempo não vá melhorando, aos poucos. Algumas coisas são mais difíceis de curar que outras. Considero o fato de eu ser sozinha mais uma habilidade que um defeito. Claro que isso também traz coisas bem ruins como a total e completa falta de tato social e falta de habilidade com pessoas no geral – são preços, caros, que pago toda vez por essas deficiências. Mas acho positivo tendo em vista que a maioria das pessoas que eu conheço tem verdadeiro pavor de ficarem sozinhas: precisam de livros, música, festas, drogas, amantes, bichos de estimação, coisas que possam preenchê-las de algum modo que elas jamais poderiam… Não sei… Acho todas essas coisas importantes sim, muito, mas elas não me preenchem, nem me complementam em absoluto. Elas não passam por mim. Elas falam e tem vida através de mim. Me confundo com elas… E eu não sou um entretenimento.

Acho que é mais nesse sentido que me identifico com a Amanda Palmer. Tudo o que ela faz também não é entretenimento: é a vida dela. É uma forma de vida. E não há como ela ser de outro modo.

No geral, as pessoas gostam de mim. Mas ninguém se envolve comigo. Talvez porque eu não seja do tipo envolvente. Ao menos não por muito tempo. Talvez porque a ideia que as pessoas têm de mim seja mais interessante (e convincente) do que eu mesma. Não reclamo. Me acostumei a ficar sozinha. Algumas pessoas vão continuar convivendo comigo por pura persistência e teimosia. Outras, vão continuar indo e vindo, como já é o que acontece. Eu vou permanecer sempre aqui.

“Se eu a banir de mim agora, será uma condenação assustadora de todo o meu ser… Você causou dano, você causou malefício, e não apenas a mim, mas a todas as pessoas que me amaram: essa espada pende sobre você”.

Fazendo uma pequena digressão, diria que a usual ligação entre um neurótico e um perverso acontece justamente porque o perverso vem prometer ou encarnar um gozo adicional a respeito do neurótico. O neurótico quer ser perverso; busca por um suplemento do gozo fálico. É esse querer transcender que, na fantasmática do neurótico, é inclusive usualmente dirigido como um pedido ao analista: “Como é que ele pode e eu não?”. O perverso é usualmente, como se diz, um gozador, mas Freud mostra que se trata antes de um pobre diabo, mascarado de hiperprazer. (Grifo Nosso)

HARARI, Roberto. Por que não há relação sexual? Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006. p. 29

Picasso, Mulher em frente ao Espelho (1932)

“O que seriam, então, casos genuínos de ilusão? (O fato é que é difícil ver, em qualquer dos exemplos de Ayer, um caso de ilusão, a não ser que forcemos as coisas). Para começar, existem casos muito claros de ilusão ótica – por exemplo, o que mencionamos anteriormente, no qual, de duas linhas de igual comprimento, uma parece mais comprida que a outra. E há, ainda, as ilusões produzidas pelos “ilusionistas” profissionais, os prestidigitadores – por exemplo, a Mulher sem Cabeça no palco, apresentada de modo a parecer que não tem cabeça, ou o boneco do ventríloquo, que dá a impressão de falar. Bastante diferente, e (em geral) não produzido intencionalmente, é o caso das rodas que giram com grande rapidez numa direção, e podem dar a impressão de girar muito lentamente na direção oposta.

As delusões, por sua vez, são coisa muito diferente. Casos típicos são os delírios persecutórios e as manias de grandeza. Trata-se, basicamente, de crenças (e, portanto, talvez também de comportamento) em profundo estado de desequilíbrio, que provavelmente nada tem a ver com a percepção. Mas penso que também se pode dizer que o paciente que vê ratos cor de rosa sofre de delusões – principalmente, sem dúvida, se, como costuma ser o caso, não tem consciência nítida de que os ratos rosados não são reais.

Aqui, as diferenças mais importantes são que a expressão “uma ilusão” (num contexto perceptivo) não sugere que uma coisa totalmente irreal seja produzida por um passe de mágica – pelo contrário, o que ali está é a disposição de linhas e setas na página, a mulher no palco com a cabeça num saco preto, as rodas giratórias; ao passo que o termo “delusão” realmente sugere algo de totalmente irreal, que não está ali de modo algum. (As convicções da pessoa que tem delírios persecutórios podem ser completamente desprovidas de fundamento). Por esse motivo é que as delusões são um caso muito mais grave – algo que está realmente mal, e, o que é pior, mal quanto à pessoa que os tem. Mas, quando tenho uma ilusão ótica, por mais perfeita que seja, nada há de errado comigo pessoalmente, a ilusão não é uma pequena (ou grande) peculiaridade ou idiossincrasia de minha parte; é completamente pública, todos podem ver, e, em muitos casos, podem estabelecer-se procedimentos clássicos para produzi-la.

Além disso, se não queremos nos deixar levar pela ilusão, devemos estar de sobreaviso; de nada adianta, porém, dizer ao que sofre de delusões que esteja de sobreaviso. O que ele precisa é ser curado.”

AUSTIN, J. L. Sentido e Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 34-36

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