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Arquivo da tag: Hoje Eu Dou Risada

– E o intercom?
– O inter o q?
– Não era isso que ia ter aqui no Rio? Ou era uma parada de biblioteconomia? Bah, tô bêbado, liga não… Devo estar misturando tudo.
– Hahaha, ok. Bem, vai ter ENEBD aí no Rio, que vai ser na Unirio, em julho, do dia 12 ao dia 18.
– Julho? Achei que era em junho… Mas minha memória… heh.
– Junho ainda tá no ano letivo e tal.. Não róla.
– Faz sentido. Bom, quando estiver por aqui, se quiser conversar, sei lá, dá um toque. Fico meio sem graça de falar isso, da vez passada acabei adiando tanto que nem consegui falar nada do tipo. Ainda fico me sentindo meio que pisando em ovos ao falar contigo, já fiz tanta mancada contigo que nem sei como você ainda fala comigo.
– Nem eu sei na verdade. E sei lá, me sinto mais segura conversando com você apenas pela internet mesmo. Sei que isso pode ter soado imensamente idiota, mas é verdade… Sei lá, posso até mudar de idéia um dia, mas prefiro que continue assim.
– Sem problemas… Eu também não sei como eu reagiria.
– Então.. Melhor deixar como está. Você não se incomoda, eu não me incomodo e tudo continua.. erm.. Bem.
– Heh, ok… Anyway, se mudar de idéia… O celular continua o mesmo.
– Erm.. Desculpa mas eu acho que não guardei o número do seu celular em nenhum canto.
– Hehehe… Eu entendo.
– Heh. Deixa pra lá. Você não vai perder nada em não me ver. Não mudei nada.
– Nem posso dizer nada quanto a isso, também quase não mudei nesses últimos anos.
– Então.. Vamos nos poupar, shall we?
Okie dokie. Heh.

Boa parte da minha vida não decidi por nada do que aconteceu comigo, deixava que decidissem por mim. Analisava todos os pontos, todas as circunstâncias, delineava todas as situações e jogava pras mãos das outras pessoas, algumas vezes, inconscientemente, outras muitas vezes, de propósito mesmo. Talvez isso não seja errado e funcione com outras pessoas, mas hoje eu não considero esse tipo de comportamento adequado pra mim. Tomar decisões, sérias e desagradáveis, faz parte da vida adulta. Mas acho que não tinha me tocado disso até esse ano. Ou talvez eu até tenha me tocado disso há alguns anos, mas nunca fiz questão de tomar as rédeas das situações por que talvez eu não me achasse digna de minha própria confiança. Acho que morar num lugar deprimente e ter baixa auto-estima colaborava pra que eu fosse assim também. Mas com certeza existiam outras coisas que faziam de mim uma pessoa insegura.

Hoje acredito que tudo está melhorando aos poucos. Ano passado mesmo, quando perguntavam pra mim o que eu queria, não sabia o que responder. Dizia que era preguiça, mas na verdade era covardia, medo mesmo. Hoje tenho mais respostas sobre o que quero, mas ainda não está bom, sei que posso melhorar um pouquinho mais nesse sentido. Percebo que ainda sou muito, mas muito desonesta comigo mesma quanto ao que eu realmente quero, quanto à todas as coisas que quero. Existem muitos auto-enganos na minha vida e eu tenho uma grande dificuldade em identificá-los pra ao menos poder saber o que fazer com eles: aceitar ou rejeitar. Antigamente eu culpava as pessoas por que claro, é muito mais fácil culpar os outros por erros meus, óbvio. Mas agora presto muito mais atenção no meu suposto discurso, nas coisas que falo, que penso, que aparentemente desejo. Confronto eles diretamente com a realidade pra ver se é isso mesmo, se aguento o tranco, se posso bancar… E sempre perco. E sempre ganho. E isso é tudo muito bom… E completamente devastador e desgastante, emocionalmente falando.

Por isso muitas vezes prefiro calar. There are things that are better left unsaid.

Por isso nunca gostei de pensar nessas coisas: por que elas dão trabalho, cansam, dóem. E quanto mais eu tento  dar uma de “durona”, pra demonstrar que não tenho problema nenhum em lidar com sentimentos ruins, mais eles me aterrorizam e me devoram por dentro. Então é preciso ir com muita calma nesse território. Preciso saber lidar, ter controle, sempre. E me resguardar ao mesmo tempo. É difícil. Muito difícil. Mas não é impossível.

Felizmente percebi também que tenho cada vez mais parado pra pensar, analisar, julgar, escolher e decidir quando já estou com a cabeça completamente fria, quando aparentemente não existem mais sentimentos, ou pelo menos nenhuma agitação aparente causada por paixão, ódio, mágoa, raiva, etc. Na verdade quando esses sentimentos existem, estão atuantes e eu me sinto agitada, tudo o que faço é NÃO pensar em nada disso e me resguardar muito, me preservar. Até (e principalmente) de mim mesma. Notei que é sempre melhor assim, que os danos são bem mais modestos e os resultados são melhores. Bem, funciona pra mim.

Não sei se é a maturidade que me trouxe isso ou o quê, mas a verdade é que de certa forma me eduquei a NÃO PENSAR quando estou com qualquer sentimento que não sei dominar direito, ou que eu não consigo nomear por que “não existe”. E tem sido bem melhor assim. Outra coisa que tenho notado é que cada vez menos tenho PRESERVADO os sentimentos ruins, sejam eles muito intensos ou não. Não preservo mais coisas desagradáveis, não faz mais sentido pra mim isso hoje. Não sei exatamente porquê isso acontece, mas acontece e me sinto bem por isso. Antigamente esses sentimentos pareciam durar por uma eternidade. Hoje, não passam de uma semana.

Mas talvez isso aconteça por que existe uma dor que eu ainda não experimentei.

E ela aparecerá, mais cedo ou mais tarde.

The trick is to keep breathing.

É tão absolutamente bom saber que, perante toda uma situação, se tem controle sobre (quase) tudo. Mesmo que seja um controle efêmero, falso. Mesmo que seja apenas a idéia de controle. Mas a sensação por si só é, de fato, maravilhosa. Saber o que se quer, o que se pretende. Não esperar que os outros saibam por você (geralmente nunca sabem, isso quando não estão se lixando pra isso). Se comportar assim, pra mim, é ter personalidade, é ter segurança de si, é ter força. Mesmo que erre, que erre outra vez, que se engane… A vida é feita disso também.

Ontem a tarde fui uma idiota, uma imbecil. Ok, tudo bem… Ainda me condeno pelas minhas fraquezas, mas não tenho culpa por sentir as coisas que sinto. Sou mulher, me apego fácil, me entristeço mais facilmente ainda, não compreendo as coisas de forma tão objetiva quanto deveria e todas aquelas coisas. Às vezes a honestidade que tenho comigo mesma me incomoda, mas é preciso. Sei que não vou deixar de sentir a impotência que estou sentindo de um dia pro outro, não vai ser assim tão fácil, mas a verdade é que agora, o peso da coisa toda aliviou em muito.

Todos os pesos se aliviam quando a gente toma uma decisão, seja ela acertada ou não. Mas ao menos a decisão EXISTE, está ali, é feita. Quando entendo o controle que tenho (ou ainda, que penso ter, que seja) sob todas as coisas, todas as perversões ao meu redor tornam-se imediatamente profundos poços de candura. Olho pra toda a maldade, comportamentos desviados e más intenções ao meu redor e lhes ofereço o meu mais puro e inocente sorriso. Todas essas coisas já não me importam e não me pertencem mais. A angústia cessa, a dor de cabeça, a azia.

E não há nada melhor nessa existência do que viver sem angústia alguma e seus derivados.

Nada melhor e nada mais importante, pra mim.

E isso tudo acontece por que fui responsável o suficiente por me decidir ter determinado comportamento e assim,  lidar com suas consequencias, sejam quais elas forem. Soube abrir mão de vivências, para saber preservar o que SEI que é bom pra mim. Agora posso me planejar sem mais ficar com aquela sensação de que “há algo me atrasando”, de que “estou sendo deixada pra trás”. Nada disso acontece agora por que nesse momento eu venho em primeiro lugar. E agora sei o que fazer, sei o que pretendo, posso dizer não, posso não querer fazer parte.

Posso achar tudo isso pequeno demais pra mim. Ou talvez simplesmente inadequado.

Hum.. Inadequado. Sim… Essa é uma palavra muito, muito boa.

Perfeita.

aquela parada de que se você olha pro abismo, o abismo olha de volta pra você é bem verdade, viu?

como se não houvesse nada. é assim que aquilo tudo acontece. é assim que as coisas são, na verdade. as coisas se misturam, os conceitos de tudo. ontem fiz uma pergunta pra ele, esperando uma resposta e ele me respondeu a uma outra pergunta, meio que sem querer. na verdade respondeu algo que eu nunca tive coragem de lhe perguntar. a carapuça serviu. em mim dessa vez. fiquei chocada, mas me senti compreendida. não perguntei mais nada, não falei mais nada e então o sentimento se aquietou dentro de mim, como um bicho acuado se aquieta, sem jeito, com fome, no mato, sem lado nenhum pra ir.

a culpa também é dele, esse maldito, que me faz ficar tendo lembranças saudosas de coisas que não são minhas, não me pertencem e não tem nada a ver. ok, na verdade até têm, mas eu preciso ficar me policiando, me cuidando pra que elas não rumem pra um lado muito errado do meu cérebro. pro lado feminino, sonhador, aquele que deseja, que sonha, que acredita, que quer, que ESPERA e que PRESERVA, acima de tudo, todas as coisas, todas as situações como se fossem únicas, verdadeiras, imutáveis. isso é errado, é muito errado, e muita gente faz isso sem perceber. não me permito mais. não sofro, mas não me permito mais.

e eu me pego na felicidade de um beijo arquitetado. de algo que não era pra ser, sendo, ali, na minha cara, na minha frente, a me segurar o rosto. eu não me contenho, eu nunca mais me contenho. e aquilo é despreparado, desorganizado, bem diferente de mim e eu não me contenho, me sinto meio homem, uma sensação de dane-se, não me importo mais com o que possa acontecer. e eu fico procurando respostas pra perguntas que eu não devia nem sequer formular, pois, na verdade, mesmo, eu mesma tenho as respostas. ah, esses homens… esses homens que me fazem pensar demais, com suas palavras e atos.

gosto quando eles me fazem pensar que posso agir como eles, generalizando bastante, bem a grosso modo. ou ainda, que ajo exatamente como eles. por que faço isso? por que estou fazendo isso? eu fico me perguntando, fica ecoando por dentro do meu corpo, enquanto ele é devidamente e carinhosamente maltratado. e isso acontece em várias situações da minha vida, várias mesmo. a vida é repetição, em todos os sentidos em todos os aspectos e isso é algo bem estranho. respostas concretas de um lado, e outras absurdamente vagas de um outro. e eu não me pergunto mais nada apenas o beijo e digo até mais.

não posso mais ser tão contida. pedir beijos. custe o que custar. encontrar respostas, sentir todas as coisas que preciso, ignorar, levar em frente, ter compaixão, esquecer. todas essas coisas vivas, de seres viventes, que me fazem estar ali, apenas. não levar mais nada em conta, contando vantagem assim sobre todas as coisas. mas hoje em dias as pessoas não pedem, não pedem mais nada. há aquele orgulho – ferido ou lustroso – as impede de qualquer movimentação não costumeira. hoje em dia eu peço mais. a todo custo, a custo nenhum. vou cegar os olhos do meu futuro. e isso me custará caro. e sairá por uma bagatela.

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Estou de TPM e esse post contém muitos palavrões. Se você é sensível, foda-se!

Em maio desse ano escrevi um texto que foi muito importante e necessário pra mim. Foi um puta desabafo mesmo, e muito mais do que necessário. O texto chama-se “Como fazer para esquecer alguém completamente?”. Eu o escrevi não só pra deixar claro pra mim mesma o que sentia, mas pra também me situar no tempo quando quisesse e poder enxergar e marcar de fato meus esforços. No começo do ano foi foda: mesmo namorando eu ainda sonhava constantemente com o meu ex e aquilo foi me irritando, aos poucos. Como eu mesma dizia, aquilo parecia ser um truque do meu inconsciente pra ver se eu “aguentava mesmo o tranco”. Enfim…

O caso é que eu não o esqueci. E nunca vou esquecê-lo. Ele foi meu primeiro namorado e essas coisas não se esquecem assim de uma hora pra outra. Pelo menos *eu* não esqueço. Só que as coisas que eu sentia por ele foram mudando. Mudaram muito do começo do ano pra cá. Muito mesmo. Até fevereiro eu ainda gostava dele (posso dizer até que o amava, apesar de hoje já não ter tanta certeza assim). Quando descobri que ele mentia pra mim (mentia mesmo, não tem outro nome pro que aconteceu), aí, claro, fiquei muito puta da cara e deixei isso bem claro pra ele, mas dessa vez (felizmente!) a decisão de parar de manter contato comigo foi dele. E querem saber? Acho que foi a primeira vez que ele teve culhão na vida dele, pra tomar uma atitude em relação a qualquer coisa. Não me orgulho de ter sido quem motivou ele a isso, mas enfim… Fora isso o que aconteceu, na vida dele, ele nunca teve coragem (e vontade) pra nada. Mesmo. Não tô falando mal: isso é um fato. Quem o conhece, sabe.

queen-spades1.jpgSei que não posso falar bosta nenhuma mesmo por que minha vida também não é nenhuma perfeição, mas enfim.. Foda-se isso de “Antes de falar dos outros olhe seu próprio rabo” ok? Eu sei dos meus problemas, caralho.. Então não me venha com esse nhénhénhé ridículo e infantil. A bem da verdade hoje eu sou mesmo é grata por ele ter parado de falar comigo. O único foda disso tudo é que, de uns tempos pra cá, o inevitável aconteceu: a fina linha entre o (que era) amor e o (que é) ódio, se rompeu. Hoje, por ele, só sinto o mais profundo desgosto. Mesmo. Por mais que me esforce, não consigo mais lembrar das coisas boas, só das ruins. De tudo o que ele fazia de mal pra si mesmo, do jeito irritantemente apático que ele encarava algumas situações, dos medos e das fraquezas dele, da fragilidade, da carência.. Hoje sinto raiva e repulsa. Algum dia ainda acho que vou sentir apenas indiferença por ele, mas por enquanto isso não está acontecendo.

Tudo veio a tona na minha cara e eu olhei e disse “Porra! Quanto tempo da minha vida eu perdi caída por esse filho da puta!?”. Nada contra a mãe dele, mas enfim… Vocês entenderam. E pior que é verdade… A mais pura verdade. Mas o grande lance disso tudo é que o fato de eu ter continuado a gostar dele por tanto tempo envolve vários fatores. Entre eles: ele tirou minha virgindade, eu morava numa cidade cu onde não tinha homem decente e os que tinham ou tavam namorando ou não me queriam, ele era o meu único melhor amigo até então, uma das poucas pessoas que eu achava (ingenuamente) que eu podia confiar e por que porra… A gente já tinha passado por tanta coisa junto… Eu realmente gostava daquele desgraçado. Mas ele decidiu que era melhor me tratar como lixo, como “mais uma”, então assim foi… E foi por que eu deixei. E por que também minha auto-estima não existia.

jack-spades1.jpgO próprio cretino até me dizia que eu tinha problema de auto-estima (isso quando não me tirava de louca na minha cara mesmo com uns “vai se tratar”, que eu tinha que ouvir). E eu naquela época não conseguia enxergar que eu realmente tinha problema: e não era um, eram vários! Minha cidade, minha família, meu estilo de vida, as pessoas com quem convivia: tudo! Tudo era um problema pra mim e precisava ser mudado. Urgentemente. Mas, tirando isso, o foda era que eu ouvia o cara. Podia até não concordar com ele, mas ouvia e fazia cara de nada. Bah, mas que imbecil! Porra… E eu não sou mulher de engolir sapo, mas por ele eu engolia. Até hoje eu me pergunto COMO eu aturei esse moleque por tanto tempo, deus meu?

Explico como: esperança. Por mais que a gente diga que não, nós mulheres nos alimentamos de esperança. Esperança de que tudo pode “dar certo de novo”, de que “tudo seja de novo como antes”. Esperança de que um dia o babaca pule na sua frente e diga “RÁ! Pegadinha do Mallandro!” ou coisa do tipo. Puta que me pariu minha gente: isso não vai acontecer! Ainda mais com tipos como ele: que não querem nada com a vida, que não se comprometem com nada, não assumem nada, que não levam nada até o fim e por aí vai. Antigamente eu ficava triste pelo fato da minha melhor amiga (da onça, claro) ter agarrado ele planejada e deliberadamente na minha frente… A cretina ainda teve a cara de pau de vir dizer que “sufocar uma paixão é negar o que a alma pede”. Pau no seu cu! “Paixão” e “amor” de cu é rola. Uma coisa é o lance acontecer naturalmente e ser recíproco, dos dois lados, das pessoas realmente se gostarem… Aí eu ainda ficaria puta, mas seria mais compreensiva. Mas a menina praticamente fez o que foi possível pra agarrar ele, se esfregou e se jogou em cima do panaca. E conseguiu, claro. E ainda tem o despautério de me vir com essa de “alma”? Bah.. Eu vou ser canonizada cara, puta que pariu…

Enfim, apesar de ainda achá-la uma vadia escrota e querer que ela morra de câncer no cu, hoje não fico mais triste por saber que eles estão tendo “algo”. Chamo de “algo” por que realmente, o troço que eles têm não tem nome mesmo. Nem eles mesmos sabem o que é. Mas enfim,… Ele deve só usar ela pra não precisar gastar a palma da mão e ela, deve estar apaixonadinha pelo jeitinho todo blasé dele com a vida. Que nojo! Sou incapaz de ficar triste por uma coisa desse tipo hoje em dia. Tenho um pouco de pena só. E também acho que ela tem um gosto bastante duvidoso pra homens. Hahahaha… Mas tudo bem, eu também tive, então nessa questão estamos quites. Hoje eu só consigo achar engraçado. Na verdade, acho nada, mesmo por que da última vez que fui pra Campo Grande e entrei em contato com os amigos mútuos que eu tenho com ele, a única coisa que sabiam fazer era falar mal. De ambos, mas mais dela. E eu não precisava nem me esforçar, eu só ouvia. E achava engraçadinho. Bem, cada um vive a vida como pode né…? Só lamentos, tanto pra ela quanto pra ele. Então hoje em dia eu digo que essa história pra mim está acabada. Ele pra mim virou uma pessoa que não conheço mais e que não sei se estaria a fim de reconhecer. É provável que um dia nos esbarremos por aí, mas acho que vou fingir que não vi. Sei lá. Não quero nem pensar nisso… Pensar nessas coisas me incomoda. Pensar nele me incomoda hoje em dia. Minha vida tá tão boa do jeito que tá. Conheci tanta gente maravilhosa esse ano, tantos caras incríveis… Não perco mais meu tempo pensando no que só me deu desgosto.

De qualquer forma, só quis retomar esse assunto pra me posicionar pra mim mesma hoje em dia. E também por que quero tentar responder os comentários que foram feitos no primeiro post sobre esse tópico. Aviso desde já que não sou nenhuma psicóloga e não tenho fórmula mágica pra resolver problema de ninguém: apenas tive um problema que, pelo visto, outras meninas também tiveram. Então, o máximo que posso fazer, de verdade, é dizer o que eu faria no lugar delas, com base no que já fiz/tentei fazer. É isso.

Inegável que eu esteja um tanto quanto nostálgica por esses dias. Não gosto muito de nostalgia, mas não me importo tanto em lembrar das coisas. Na verdade até gosto. Mas muito mais do que lembrá-las, eu gosto mesmo é de registrá-las. E faço isso aqui. Agora a pouco conversava com um amigo sobre um sonho que tive essa noite. Um sonho violento que envolvia eu, mais duas amigas minhas e uma mulher barbeira. E que por barbeira leia-se: que dirige terrívelmente. A explicação se deve por que no sonhos tudo é possível: desde uma mulher que faça a barba até uma metade mulher, metade barbeiro (bicho). Enfim. O sonho foi violento por assim dizer, por que enquanto eu e essas duas amigas minhas corríamos pra fazer exercício, a mulher barbeira, que era uma perua num carro possante e num celular, quase nos atropelou “sem querer”. Xinguei a mulher horrores, tirei ela do carro pelos cabelos e dei uma surra nela, sem medo de ser feliz. No sonho, claro.

Sempre acordo querendo brigar quando tenho esses sonhos. Mas a verdade é que eu nunca brigo. Sou uma pessoa pacífica, na maior parte do tempo. Juro que não me lembro a última vez que caí na porrada com alguém. E esse alguém provavelmente deve ter sido a minha irmã menor, mesmo por que, eu bati nela durante toda a infância. Ela merecia, aquela cretina. Ela era um porre. Ainda é. Mas agora que ela tem 17, eu não bato mais nela, mesmo por que, não cai bem na minha idade uma coisa dessas. E mesmo por que ela nunca mais deu motivo, aparentemente. Enfim. Nunca bati em pessoas que não fossem da minha família (Rá!). Por que família é família: a gente reconsidera, esquece, finge que nada aconteceu e fica por isso mesmo. Aí durante essa conversa com o meu amigo fiquei tentando me lembrar da última vez que eu bati numa pessoa que não era da minha família. E então eu voltei pros meus 9 anos de idade.

Com 9 anos, eu já estava na terceira série e tinha começado a ir na igreja a ponto de obter a minha “formação católica” através da eucaristia. Eu nunca gostei, e nem tive muito saco pra ir na igreja toda vez, e pra ter aquelas aulas chatas, com aquelas “tias” chatas e aprender coisas bobas sobre a bíblia, que nunca tive muito interesse em ler de qualquer forma. Por dentro eu achava o cristianismo e o catolicismo uma palhaçada, só não tinha muita certeza disso por que eu ainda não lia o suficiente e não pensava sozinha. Eu sempre ia pela cabeça dos meus pais mesmo, da minha mãe principalmente. E também não gostava de acordar aos domingos pra ir nas missas. Nem mesmo minha mãe, que é católica e me colocou nessa fria, tinha muito saco pra isso e eu percebia isso. Mas fiz minha eucaristia me arrastando, nas coxas, de qualquer jeito mesmo.

Num belo dia, estava quente e eu estava usando um vestidinho lilás que eu tinha, com flores brancas. Acho que tinha ganhado de alguém, não lembro, só lembro que o vestido era novo. Fui com esse vestido na igreja, numa das malditas “aulas” que a gente tinha, na parte da tarde (as aulas eram sempre de tarde). Começava a 13h30 e terminava lá pelas 15h, se não me engano. O fato foi que, os professores já tinham ido embora, e alguns alunos como de costume ficavam lá, matando o tempo, fazendo qualquer coisa. E eu estava saindo de uma das salas e percebi que estava acontecendo uma briga, na frente da igreja. Uma briga entre os garotos que estudavam lá comigo. Me aproximei e vi que um dos garotos que estava na briga (eram 2 apenas) era o meu primo.

A frente da igreja é (pelo menos na época era) cercada de árvores imensas de eucalipto. Era muito comum essas árvores “soltarem” pedaços de pau e de madeira, e muitos gravetos grossos caíam delas quase que semanalmente. Sem contar o cheiro que sempre foi muito forte e eu sempre gostei muito, pois a minha cabeça toda a vida associou à limpeza. A minha reação ao ver a briga de meninos foi pegar o graveto mais grosso de eucalipto que vi por perto e dizer, firme e sem medo, “Solte o meu primo”. O garoto não me ouviu e nem sequer olhou pra mim. Acho que me subestimou. Dei mais um tempo e eles continuavam segurando um na gola do outro, se olhando com ódio. E eu, serena, repeti “Solte o meu primo”. Não pedi “por favor”, por que não ia me rebaixar pra moleque nenhum. Naquela época eu já era assim. Mas a bem da verdade é que eu só queria evitar o pior pro garoto, mesmo. Eu estava sendo boa.

O menino fez que não me ouviu de novo e continuou agarrado na gola do meu primo, sem soltar. Ficou aquela tensãozinha besta de pré-briga de moleques que ficam com medo de se porrar de uma vez por todas e ficam só nas ameaças covardes. Pedi, pela terceira e última vez, “solte o meu primo” pro garoto, com medo de ele avançar em mim, ou de ficar com raiva e me xingar, qualquer coisa. Mas não, nada. Me ignorou, completamente. Depois de ser ignorada por três vezes consecutivas, eu tive que fazer alguma coisa pra acabar com aquela palhaçada né? Não queria ver meu primo apanhando. Então eu simplesmente juntei toda a força (que não sabia que tinha) no meu braço direito e taquei o graveto de eucalipto com tudo na cabeça do moleque. Achei que só ia assustá-lo e que ele partiria pra cima de mim. Eu o assustei, claro. E ele agora sim, soltou o meu primo, imediatamente.

Havia um corte imenso na testa dele por onde jorrava sangue sem parar, como naqueles filmes de terror que a gente vê na TV. O sangue era tanto, que ele não conseguia enxergar mais nada, por isso soltou meu primo.

Eu gritei.

Meu primo correu.

Eu corri depois.

O garoto ficou lá, chorando e sangrando.

Nunca tinha visto e muito menos tirado sangue de ninguém na minha vida. Na época, no dia, eu fiquei horrorizada, apesar da sensação de “dever cumprido”. Cheguei em casa chorando, com medo, achando que meus pais iam me bater, que eu ia ser expulsa da igreja, que deus ia me castigar ou qualquer merda do tipo, eu era uma criança cheinha de neuras. Nenhuma dessas coisas aconteceu, só levei uma advertência, mas fiquei realmente muito assustada. Sei lá, achei que podia ter matado o moleque. Mas não matei não, só o fiz tomar alguns pontos na testa (ui…) e andar com uma faixa ridícula em volta da cabeça por algum tempo. Depois eu tive que me confessar com o padre lá e pedir perdão que tudo tava resolvido: eu poderia espancar outra pessoa quando quisesse e bem entendesse. Nunca entendi o catolicismo.

Hoje fico pensando que talvez eu tenha traumatizado o garoto. Será que ele virou um misógino? Será que ele apanhou de novo do pai dele quando chegou em casa? Será que ele foi zuado por ter apanhado de menina? (Ok, essa pergunta agora foi irônica). Será que ele deve bater na mulher/namorada/esposa dele hoje em dia? Ou será mesmo que ele passou a ter mais medo das mulheres e a “ficar esperto” quando uma diz que vai bater nele? Será que ele parou de subestimar quem ou o quê aparentemente é mais frágil? Não sei e nem nunca vou saber. Nunca mais ouvi falar dele. Hoje essa cena na minha cabeça serve pra definir pra mim mesma quem eu sou, quem eu sempre fui, independente de qualquer coisa: uma guerreira. Eu quero é sangue, mesmo. Sempre quis. Só que nunca tive coragem pra assumir isso. Hoje tenho.

Eu não tenho medo das coisas (e isso é bom e ruim). Na época eu chorei, até mesmo há uns 2 anos atrás eu chorava (não por esse exato motivo, mas por vários outros “garotos brigões” com quem tive que lidar na minha vida e que representavam ameaça pra mim e pros meus). Não temer e ser corajosa só tem me feito bem, aparentemente. Também não subestimo mais meus inimigos, opositores, ou “insira algo que possa ser ameaçador aqui”. E as minhas táticas e estratégias agressivas são outras, que não físicas. Entendo as coisas de outras formas, tenho menos fantasmas, menos neuras e penso por mim mesma, o que é bom também. Tá certo que não sou mais aquela garotinha de vestidinho lilás, com cara de entediada/paciente, balançando um graveto de eucalipto na mão, e que hoje eu não choro mais, mas… Querendo ou não aquela menina ainda vive em mim, nas minhas ações, em tudo o que é meu e principalmente no meu olhar. A única diferença é que alguns anos se passaram.

E o tempo?

Continuo achando que o tempo é uma ilusão. Uma das ilusões mais bem feitas criadas pelo homem.

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