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Vícios são hábitos ruins. Às vezes estamos pré-dispostos a eles, fisiologicamente. Eu costumava pensar que eu tinha vício em comida, mas na verdade a comida em si não é o meu problema. A relação que eu tenho com a comida é muito mais complexa que um simples vício. A comida só “me causa mal” porque eu engordo e não fico fisicamente atraente,mesmo que em meus últimos exames de sangue os resultados tenham sido excelentes. As pessoas tentam me convencer de N formas a emagrecer, dizendo que é pela saúde, que é porque se preocupam comigo, etc. Mas todos sabemos que eu me tornar um eye candy é muito mais importante do que qualquer exame de sangue excelente que eu tenha. As pessoas se preocupam com o que elas se preocupam e hoje eu sei que eu jamais estarei em primeiro lugar, pra elas. Então me irrito quando dizem “é pela saúde” e aí a minha vontade é fazer justamente o oposto. Ultimamente tenho conseguido quebrar esse padrão. Acredito que um “você não está gostosa” que num primeiro momento pode soar imensamente rude e profundamente machista, às vezes dependendo de como é dito, em seu significado genuinamente contém bem menos desamor do que um “é pela sua saúde” travestido mal e porcamente de preocupação comigo. Ultimamente, não quero me tornar atraente pra ninguém que não seja eu mesma e acreditem: apenas isso já é uma luta e tanto. Ser atraente na minha idade (na vida, no mundo, na existência) não é, e jamais será suficiente de qualquer forma. A adolescência acabou há alguns anos.

Eu realmente não me importo com tipos de comida, com quantidades, com calorias, com nada disso. Como o que tenho vontade, o que sinto que quero, quando tenho vontade. Às vezes tenho desejos, mas eles estão se tornando cada vez mais raros com a idade. Tenho ficado muito enjoada (e muito mais crítica) com comida ultimamente, às vezes passo semanas sem desejo de comer nada em especial (e acho isso triste). Tenho comemorado meus desejos, quando os tenho. Como muitas vezes sem pensar e talvez seja esse o problema. Também tem o problema do meu metabolismo, mas aí já é outra história ainda mais longa. Tenho vários (quase infinitos) hábitos alimentares  arraigados e cultivados por anos a fio e isso não é tão simples de mudar quanto eu gostaria. Afinal, eu como desde que nasci, desde que tomei consciência. Eu gosto, muito, de comida. Demais até, às vezes. Deve ter algum motivo pra isso, mas nunca me esforcei muito em buscar o porquê, talvez porque eu prefira resolver o que acontece agora. A verdade é que eu talvez dê importância demais à comida e não deveria. Dou importância demais as coisas erradas e acho que é isso que faz parecer que seja um simples vício. Tenho tentado às vezes com sucesso me importar cada vez menos com comida, não superestimá-la tanto. Ainda preciso criar alguma metodologia que me ajude, mas aprender a quebrar um padrão já é uma vitória e tanto. “É só comida” eu tento dizer pra mim mesma. E às vezes funciona, eu acredito nisso. Tenho acreditado.

Outras vezes o hábito ruim é adquirido e eu costumo ter dificuldade em entender isso um pouco. Nunca gostei do gosto de cerveja. Não me lembro exatamente em qual momento  da minha vida eu aprendi a gostar de álcool em geral. Imagino que tenha sido assim: fui tomando até gostar. O quão bizarro não é isso? Isso nunca foi algo que partiu de mim, da minha vontade genuína, mas do meio mesmo – adolescentes tomam cerveja. Ok, talvez eu minta. Tenho essa ideia ilusória de que sou uma pessoa correta quando totalmente não sou. Ou ainda: me utilizo de certas regras pra justificar comportamentos completamente abusivos da minha parte. Por exemplo: não bebi até os meus 18 anos. Por que? Porque eu tinha na minha cabeça que só era permitido, por lei, que maiores de 18 anos bebessem. Essa é a lei, essa é a regra. Ok, então. Acatei isso sem maiores problemas. Mas no dia em que fiz 18 anos tomei um porre tão grande que só voltei pra casa, para o desespero dos meus pais, dois dias depois. Já era permitido, não? Algo assim. Mas de fato: isso jamais partiu de uma vontade genuína minha, mas do meio. Se tivesse partido de uma vontade real, acredito que eu não teria esperado até os 18. E o porre foi mais como um rito de passagem mesmo, sei lá, interpreto assim. O porre não me fez, automaticamente, gostar de beber. Só me certificou de um empoderamento que eu imaginava ter (e que é ilusório, enfim, mas isso eu só fui descobrir depois). Hoje ficar bêbada é mais difícil pra mim. Não gosto, não me sinto bem. Não sei.

Existem alguns dias raros em que eu acordo com a vontade de sentir gosto de cevada na boca. Que eu sinto muita vontade de cerveja. Mas são bem raros mesmo. Álcool em geral, idem. Não posso me dar ao luxo de bancar vícios não tanto pela grana envolvida, mas porque não tenho como bancar isso emocionalmente, mesmo. Às vezes sinto que vícios são muletas. Às vezes desconfio, seriamente, se tem alguma coisa de fato a ver com o que sentimos… Penso que pode ser algo quase que totalmente alheio à isso, mesmo. Nunca gostei de fumar também, nunca busquei por isso. Minha experiência com drogas não lícitas se limitam a maconha e acho curioso como algumas pessoas que fumam tornam isso um estilo de vida. Acho essa veneração toda um exagero, não entendo. Ademais, acredito que eu preciso estar muito, muito no clima pra qualquer experiência que envolva descolamento da realidade. Pra mim, a pior parte de fumar maconha era passar os próximos 2 ou 3 dias completamente retardada e esquecendo de coisas simples. Sim, eu sou sensível assim. Ao fumar maconha meu cérebro se tornava um fractal infinito de perguntas, questionamentos, afirmações e referências cruzadas. Nem sempre era bom, tenho mania de pensar em coisas ruins e tristes sempre e isso influencia. Às vezes eu me sentia enjoada e queria que aquilo tudo simplesmente parasse, mas não parava. E eu odiava muito isso. I’m a worrier, não combina muito com a minha personalidade ficar alheia a tudo o tempo todo. Não gosto.

No final de 2011 eu quase viciei em cigarros. Foi um hábito completamente treinado. E o contexto me empurrou pra isso com muita facilidade: fim de faculdade, tentativa de dois mestrados, medos, ansiedades, pensamentos de mudar de cidade, pensamentos de largar tudo e ir embora para Passárgada, sem saber se casava ou comprava uma bicicleta, etc. Quando menos percebi estava comprando uma carteira de cigarro por dia. Estava quase virando um costume. Eu ia pra faculdade de manhã, tomava café, fumava. Estudava, almoçava, fumava. Passava as tardes me debruçando sobre projetos de pesquisa, pesquisas, artigos, editais de mestrado, trabalho de conclusão de curso, chegava 17h30, meia hora antes da aula, minha cabeça estava explodindo e eu não tinha pra onde correr, basicamente. Não havia ninguém pra me dizer uma palavra de conforto. Queria chorar, queria entrar em desespero, queria desistir de tudo. Mas aí ao invés de fazer qualquer uma dessas coisas, eu descia para o térreo do prédio do meu curso, ia pra um jardim que tinha ali perto e fumava dois cigarros inteiros. E essa era a melhor sensação do mundo. Eu sei, me contento com pouco. Mas era o que restava pra mim no momento. Era como se o meu cérebro estivesse dirigindo muito rápido e de repente aquelas substâncias o invadissem e colocassem o pé no freio. Eu gostava, muito, da sensação de desaceleração e geralmente depois de umas três ou quatro tragadas eu já era uma outra pessoa. Mas eu estava me viciando.

Um dia percebi que estava viciada e não quis isso. Vi que estava passando um colega veterano que fumava a mesma marca que eu e o chamei. A minha carteira de cigarro estava um pouco mais cheia que a metade. Dei a carteira para ele e disse “eu não quero mais fumar”. Ele ficou sem entender, me perguntou se eu tinha certeza. “Leva, pode levar”. E desde então eu só fumo cigarros avulsos, de vez em nunca. Não existe mais o hábito, o jardim, o lavar as mãos, a história, o contexto. Todas essas coisas se dissolveram e só restou eu aqui, ainda. Não gosto muito do cheiro de cigarro hoje, exceto em situações muito, muito específicas, como quando sinto o cheiro da pessoa, de cigarro e perfume ao mesmo tempo. A mistura desses odores me trazem muitas lembranças, mas nunca busco por elas, esse odor é que aparece pra mim, na rua às vezes. Prefiro assim. Isso de ter largado a carteira de cigarros pela metade tem a ver com a quebra de padrões que tenho pensado tanto sobre, apesar desta em específico ter sido inconsciente. A última também foi. Sexo é como um vício em heroína, só que com uma agulha mais grossa. E de todos os vícios este parece ser o mais complexo de todos principalmente porque ele se confunde com o que sentimos no momento. No meu caso não houve vício em sexo em si, se houvesse seria com qualquer pessoa, mas houve vício em uma pessoa, em uma situação que inclusive eu já havia dado como terminada mas da qual eu não desistia, por algum motivo. Isso caracteriza bem um vício, uma obsessão.

Aquela seria a última vez e eu tinha total certeza disso. Eu conseguia sentir isso porque depois de um certo tempo a gente acaba aprendendo que mesmo os vícios, as paixões e as obsessões mais lacerantes e mais virulentas tendem a embotar com o tempo. Aquele não foi nem o melhor, nem o pior sexo que eu já fiz, mas com certeza foi o mais desprovido de significado. Não havia absolutamente nada ali, nada em jogo, nada em questão. Foi um esvaziamento total do que sequer restava. Eu estava apenas seguindo um protocolo, uma formalidade, uma burocracia. Foi o que de menos apaixonante aconteceu comigo, em muito, muito tempo. Foi bastante deprimente, na verdade. Nunca me senti tão íntima de alguém e tão absolutamente sozinha ao mesmo tempo, no mesmo momento. Acreditava que isso fosse impossível, mas é bem possível e bem real. Isso denota vício, não amor ou qualquer outra coisa. “Eu preciso ir ao banheiro”, disse, no meio da coisa toda. Eu não precisava realmente ir, eu apenas precisava me afastar daquela situação por um momento e enxergá-la de fora, pelo que ela realmente era. Levantei, saí, chorei no banheiro, voltei e já não havia mais clima pra nada (não havia clima para nada há meses, de qualquer modo, nunca houve). Acredito que essa foi uma forma inconsciente de enxergar o macro e quebrar o padrão em relação a tudo o que me acontecia. Dormimos, fui embora e desde então desapareci. Já fui esquecida mas de qualquer modo, eu já tinha sido esquecida há muito, muito tempo.

Mas esta é outra história, um pouco mais longa. Às vezes eu penso que vícios deste tipo denotam formas de prazer completamente ocas, desprovidas de significado e meus sentidos acabam sendo subutilizados. A situação como um todo é subaproveitada, no geral, para ambas as partes envolvidas. Em situações assim uma frase geralmente me assombra: “as coisas poderiam ser muito melhores e não são por conta disso”. E eu sabia disso desde o início, mas como temos vontades, desejos, paixões, essas coisas ficam no meio e por entre o que realmente importa, e não conseguimos enxergar a impossibilidade das coisas, as coisas pelo que elas realmente são. Essa separação é dolorida e difícil, mas ela é importante e tenho começado a acreditar que ela é vital em alguns casos para que possamos aproveitar a vida melhor e ao seu máximo. Vícios para que sejam criados e para que tenham uma consistência real parecem demandar um grau maior de complexidade e envolvem histórias, memórias, contextos, situações, coisas que necessariamente são impossíveis que eu tenha qualquer tipo de controle sobre. Parece raso, mas acredito que tenho preferido os pequenos (e múltiplos) significados que os meus sentidos me impõem, no exato momento em que me impõem. Mas me parece que tudo o que não tende ao momento, geralmente torna-se algo que não deveria ser, pra mim. Seria bom que eu aumentasse a minha percepção em relação a coisas que podem não me fazer bem, para diminuir danos ao máximo, já que é tão difícil evitá-los completamente. E eu realmente queria que isso fosse algo mais simples do que parece…

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