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Me perguntaram se eu sentia saudades. Sempre reluto em dizer que sim, apesar do óbvio. Houve uma conversa sobre regras, disciplinas e quais seriam minhas preferências. Disse que tenho tendência a ser mais Caxias sim, que priorizo, que gosto de disciplina até certo ponto. Ter tudo muito bagunçado me desestabiliza e me deprime a longo prazo. Prefiro um ambiente não onde eu me sinta no controle (não é egóico e, mesmo que fosse, ser egóico não é ser egoísta), mas onde eu possa ter controle sobre as coisas, mesmo que elas mudem. Não sou inflexível. Mas existem algumas vezes que me permito – como agora – a não fazer as coisas que preciso fazer e fazer outras coisas – como escrever. Eu me canso das prioridades que existem na minha vida e escrevo. Às vezes eu jogo tudo pra cima e me largo em meus horários. Me torno indisciplinada até para o meu próprio bem. Me falaram que eu posso sentir saudades de outras formas. Que eu poderia ligar e dizer que sinto saudades, etc. Tive de dizer os porquês disso estar fora de cogitação.

(…)

– Acredito que no atual contexto, exista muito mais afinidade por ali…
– Lembre-se que as afinidades podem ser tanto para bem, quanto para mal. 

(…)

“Funciona da seguinte forma: me diga o que você quer, para que assim eu possa saber como machucá-la melhor”. Isso justifica todas as coisas, como acontecem, como aconteceram. E como provavelmente irão acontecer. Ao longo do tempo. Te dou o que você quer, para logo em seguida mudar de idéia – e fingir que não. Não soube o que fazer com aquilo. Me foi falado em aprendizagem, em um bom modelo e que foi extremamente funcional que isso tudo ocorresse. Não deixo de dar razão. Eu só meio que entendi que é isso o que não quero pra mim, efetivamente. E eu disse isso. Até que foi falado em morbidez. “Existe uma certa morbidez em tudo isso, não? Ele é mórbido…”. Me apressei em dizer que “Existe. Existe sim. E foi exatamente isso o que me atraiu nele”. Jamais acreditei que fosse ser capaz de admitir isso com tanta clareza, até para mim mesma. Quis engolir essas palavras logo após tê-las dito. Me toquei do que disse segundos depois de a frase ter terminado. Senti um certo constrangimento, um contrasenso.  Ali eu tinha me revelado. Mas é a verdade. E isso, a verdade, não dói não: só me faz me sentir meio mal e me coloca em lugares onde eu não mereço estar. Inclusive a morbidez nas pessoas é algo que ainda me atrai, fortemente. E isso deve fazer algum sentido. Eu só não sei bem qual. Ainda.

– Preciso ter uma conversa séria com ela. Sério.

– Não vai adiantar. Mas enfim, ignore o que eu disser daqui em diante. Tenho uma profunda descrença nas pessoas em geral e nunca acho que elas tem boas intenções.

– Você não está pensando direito. 

– Não.. Eu não penso muito nisso, mesmo.

– A questão não é se as pessoas são confiáveis ou não. As pessoas são, em geral, fracas. A pergunta correta a se fazer é “o que foi que eu fiz para que essa pessoa achasse que podia me passar a perna?”. Pare de culpar os outros e evolua. 

– Bem, é o seguinte: às vezes, ocorre de você não fazer absolutamente nada de errado pra que resolvam te foder. A vida é assim. Acredite.

– A sua vida talvez. 

– Sim, a minha vida, precisamente.

– Mas existem pessoas que ninguém arriscaria foder. 

– Como eu te falei anteriormente, estou cansada. Não fico em uma situação desconfortável, tendo dor de cabeça a não ser que eu seja obrigada à isso. Se eu não for, lamento: não quero. Estou numa idade em que eu sei que não mereço mais me sentir mal por nada, nem ninguém.

– Então fuja, oras. 

– Tenho feito isso. Claro que existe um preço a ser pago. Mas prefiro bancar morrer sozinha do que ter gente me fodendo a vida gratuitamente.

– E se eu te dissesse que é culpa sua que as pessoas te fodem?

– Sim, é. Logo, me afasto e vivo como uma ermitã social.

– Você poderia mudar o seu comportamento também. Mas isso requer a humildade de tirar algo de si e substituir por outra coisa. 

– É. Eu não sou humilde e sou meio burra. E egoísta, mesquinha e humana. Para mim, está bom.

– Não, não está. Só está confortável. Por agora. 

– Eu não estou sofrendo.

– Se estivesse, seria melhor. 

– Acho que já sofri o suficiente.

– Exatamente porque você não está sofrendo que você não se mexe e não muda o ângulo da perspectiva com a qual você vê as coisas. 

– Estou cansada de mudar de perspectiva toda vez que me fodo. Isso não é pra mim, é pra gente inteligente, iluminada, sei lá.

– Sua auto-comiseração me entedia. 

– Ah… Acontece.

 

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