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Tenho acompanhado meu ciclo menstrual consistentemente há algum tempo. Na verdade acompanho há alguns anos, antes pelo calendário mesmo em papel e desde o fim de 2014 através de um aplicativo. Além deste aplicativo, tenho monitorado também junto com o ciclo menstrual a lunação e também minhas reações físicas e psicológicas durante esse período de 25-30 dias. Antigamente o que mais me preocupava era a minha TPM e o que eu sentia com ela. Isso não foi errado, mas era com o que eu me identificava na época – e olhando pra minha história antes, hoje isso faz todo o sentido. Na TPM o meu ovo está quase morrendo, o ciclo está no fim, sensação de fim de festa, eu sempre fui muito mórbida nesse sentido e não foi a toa que essa foi a parte do ciclo que sempre me chamou mais a atenção. Enxergando sempre a maior sombra, o “pior” lado, etc. É importante, também, mas não é a única coisa, o ciclo não se compõe só disso. Depois que eu comecei a usar o Clue e vi que existia uma “janela de fertilidade” e um dia fértil comecei a perceber o outro lado, outras coisas. E percebi que sou uma pessoa completamente diferente nesse período. Foi um pouco assustador, mas essa descoberta valeu totalmente a pena. Hoje eu sei que no período de um mês eu sou quatro pessoas completamente distintas e saber disso tem me ajudado muito, na minha vida em geral.

Estou começando a basear algumas tomadas de decisões que tenho na minha vida de acordo com cada uma das pessoas que sou durante este ciclo. O desafio é sempre buscar pela sincronicidade das coisas. Sempre achei balela esse papo místico, mas tenho colocado esse papo à prova faz cerca de dois anos e hoje posso dizer com segurança: isso pode ser qualquer coisa, MENOS balela. É bastante sério. E funciona, se você for sábia o suficiente (e control freak o suficiente) pra analisar o contexto de forma holística e saber fazer o tempo das coisas funcionar pra você. Sempre reclamei de timing ruim na minha vida, como se o timing fosse algo completamente externo à mim, como se não fosse um problema meu também. Como se eu não pudesse dominá-lo, controlá-lo mesmo que em parte. É claro que não podemos controlar eventos da vida, como se chove ou não, que dia eu vou sangrar ou não. Mas é interessante manter as previsões e verificar as possibilidades daí em diante. Viver cansa, é cansativo mesmo, mas é pra isso que estamos aqui de qualquer modo, para aprender para melhor servir e para servir e assim aprender. Ninguém, por melhor que seja, foge disso. E isso tudo é bastante significativo pois quando entendemos isso, passamos a nos responsabilizar mais por nós mesmas. Parece fácil num primeiro momento, mas não é. É complexo, é difícil e é, a longo prazo, cada vez mais fascinante.

Os últimos três meses do final do ano passado foram intensos pra mim – e cruciais profissionalmente. Menstruei em luas cheias e as janelas de tempo de horários, datas, provas coincidiram ou com segundas-feiras, ou com luas novas que se deram nas mesmas datas (ou em datas aproximadas) da minha janela de fertilidade e dos meus dias férteis. Ou seja, dias de prosseguimento de ovulação, leia-se: estímulo, hipersensibilidade, pulsão, criação, magnetismo, afetuosidade. É como se eu tivesse superpoderes temporariamente e eles se manifestassem com mais potência e intensidade de acordo com a complexidade da sobreposição de cronogramas. Como filtros sobrepostos, o tecido da vida e dos acontecimentos se tornam mais reforçados, duplicados, a partir de determinadas coordenadas de temporalidade. O grande entendimento disso tudo é saber aproveitar o melhor possível cada uma dessas janelas e saber, também, quando recuar, quando também deixar de agir inclusive, quando não investir força (energia) em algo que não vai vingar, não vai ser frutífero, dificilmente dará retorno. A TPM nunca é o melhor momento pra agir em relação a nada: níveis baixos de vigor, de testosterona, de força de vontade. É tempo pra relaxar, meditar e treat yourself. E sim, já tomei decisões drásticas e bem ruins na TPM. E eu achava que “era assim mesmo”. Bom, eu estava enganada, mas agora já foi e só me arrependo do que não fiz.

No começo deste ano eu fiquei em um impasse mas consegui sobrepôr essas duas informações de tempo (menstrual e lunar) juntamente com outros cronogramas (de trabalho, estudo e prática religiosa) e percebi que numa semana que exigiria muito de mim, física e intelectualmente, eu estaria entre o meu período pré-ovulatório e de janela fértil (que no total dura cerca de 15 dias) e, assim sendo, com níveis de testosterona altos e com muito pique e resistência pra aguentar o tranco de qualquer coisa. Mas né, como sempre sou muito desconfiada e sempre acho que não vou dar conta de nada, que tudo vai dar errado e sempre dramatizo tudo além do necessário, o último recurso foi perguntar pras cartas de tarô o que elas achavam. Adquiri meu primeiro deck ano passado e achei a própria decisão de comprar um deck meio inusitada da minha parte. Nunca me identifiquei com nenhum deck, não achava nenhum esteticamente atraente até ter encontrado este. Temos nos relacionado bem, desde dezembro do ano passado. Sim, pra mim meu deck tem vida própria. Enfim. Sussurrei pra ele: e aí, dou conta se aceitar isso? Tirei uma carta, virei e: A Imperatriz. “Dá conta sim. Dá mais do que conta. Confia e vai!”. Confio. Confiei. E estou indo. E não está sendo, nem de longe, aquela loucura toda que a minha mente insistiu em imaginar. Está sendo puxado, sim. Difícil. Mas não tá impossível não.

E se estivesse impossível, eu demoraria um pouco mais de tempo pra fazer, mas faria igual porque eu sou dessas.

Work hard, play harder. Eu achava que ser mulher era um suplício, um infortúnio, algo muito chato, que a menstruação era um fardo pesadíssimo que tínhamos que carregar, sempre um martírio e que seria muito melhor e “mais fácil” se eu tivesse nascido homem e me livrasse de todas essas intempéries. Mas a verdade é que eu estava profundamente enganada. Legal mesmo é ser mulher, compreender todas essas coisas, saber tirar proveito de cada uma dessas coisas e ter o prazer de ir ultrapassando, uma a uma, mesmo que lentamente, todas as barreiras que um sistema patriarcal nos impõe. Sou mulher e compreendi, depois de muito tempo, que posso criar e recriar a minha realidade e o meu timing a partir do meu ciclo e das conexões que faço entre o tempo das coisas. Analisando por esse lado de planejamento estratégico com viés místico, ser mulher é um tanto quanto incrível, sim. E poderoso. O que eu julgava ser a minha pior fraqueza é sim na realidade a minha maior fonte de força, de energia e de criação. O desafio está em saber fazer a composição do tempo, alinhando diferentes cronogramas com uma gama determinada de informações e em programar estratégias de acordo com todas as possibilidades que me aparecem no horizonte. E me satisfaz enormemente poder ser analítica deste modo, me estimula continuamente e eu me sinto auto-motivada a isto.

Fazer isso é fazer com que as coisas, na medida do possível, fiquem em meu favorecimento. E isso não é necessariamente mau, nem errado. Pelo contrário. Desde o ano passado, quando fiquei ainda mais consciente disso tudo, algumas coisas se engendraram e encaixaram de uma forma estranhamente harmoniosa, como eu não via há muito, muito tempo. E isso precisa ser reconhecido, por mim. Pode ter sido um combo de coincidências? Claro que pode. É uma possibilidade. É uma forma de ver o mundo, também. Mas não sei se é mais a minha forma.

Ou se foi algum dia.  

Acho curioso quando tentam te convencer de que você é uma pessoa “única e especial”. Não que essas coisas sejam mentiras, mas com certeza são grandes bobagens. E, às vezes, essas bobagens tem um propósito bastante claro (incutir ciúme, manipular, diferenciar, etc.). Tem coisas as quais gostamos muito de acreditar porque amaciam o ego. Tem coisas que realmente são “tudo o que a gente sempre queria ouvir”… E todo cuidado é muito pouco perto de “tudo o que a gente sempre quis ouvir”.

Tenho sim minhas dificuldades com o termo sororidade, mesmo porque acredito que vivemos numa sociedade extremamente competitiva e é impossível ignorar isso. Mas algumas coisas não são sobre se adaptar ao meio, mas justamente remar contra ele, por um bem maior.

Eu sou só outra pessoa. Mais uma pessoa. Nem melhor. Nem pior.

Diferente.

Só isso.

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“Nunca me elogie insultando outras mulheres. Não é elogio, é uma competição na qual nenhuma de nós decidiu participar”.

“Você não é como as outras garotas”.

“Você é especial”.

A primeira frase foi dita por uma feminista, claro. As outras duas, já ouvi algumas vezes e pertencem ao senso comum. Este não é apenas um papo: este é o papo. A conversa das pessoas que se apaixonam, mesmo que brevemente. “Ela é especial”. A conversa de alguém que se convence enamorado. Hoje entendo a paixão como nociva. Certamente ela é o combustível pelo qual muita gente sobrevive, mas para mim não funciona assim. Observando e pensando agora, nunca funcionou. Eu era severamente questionada há alguns anos: “mas vocês nunca andavam de mãos dadas, nem pareciam que estavam tendo nada… é assim mesmo?”. Sim, era. E o carinho era (foi, é) imenso. Apenas nunca sentimos que precisávamos provar isso para quem quer que fosse. Era algo mais nosso, que do mundo. O convívio, apesar de tudo, permanece.

Ouço: “a maioria, na verdade, nem me parece chegar a seus pés”. Não é um disparate? Um exagero? O quanto de irrealidade não cabe nessa frase? Pode nem ser para desmerecer ninguém, mas para mim essa frase não significa absolutamente nada. Não passa de uma sequencia de palavras. Falando assim parece desprezo, rancor, amargura, desamor. Mas não é. Não é mesmo. Eu só não preciso que essa frase seja dita pra mim. Não preciso acreditar nela para entender que o outro gosta de mim. Essa frase não  me prova absolutamente nada. Quanto às outras são apenas isso para mim: outras. Com tantos atributos e defeitos quanto eu. São apenas pessoas que não são eu: não possuem o meu conjunto de atributos, não possuem o meu conjunto de defeitos (que julgo, rígida, serem muitíssimos).

“Mas se eu tiver que achar todas igualmente especiais, então ninguém é de fato especial. Há pessoas escrotas e você não é escrota. Há gente vazia e você não é vazia. Por que eu deveria achar você exatamente igual a outras pessoas?”. Igual não, diferente apenas. Não melhor, não pior: outra. Eu sou a outra. Eu sou aquela. A que você vê. A que os outros vêem. A que é vista, também. Estou longe, bem longe, de ser fêmea alfa. De ser a “mulher prêmio” para ser exibida em sociedade. Aqui ou em qualquer outro lugar ou contexto. E acho isso ótimo, acho bom ser underrated (para não dizer dissimuladamente desprezada). Isso me mantém estimulada. Fato é que acontece muito sim o tal do “você é especial” por motivos escusos. Assim como o “você foi importante pra mim”. Sabemos que se tratam de mentiras deslavadas, em ambos os casos.

“Róla até ‘eu te amo’ por motivos torpes. Mas daí a reprovar o ‘eu te amo’ é um longo caminho”. Sim, ele é longo mas deve e pode ser tomado. E é sim, eventualmente, passível de reprovação. Não apenas reprovado como negado. E aqui não é a amargura em pessoa falando. Acredito, sinceramente, que persistir em uma situação que te machuca, sucessivamente, “por amor” depende diretamente do quanto se está disposto a bancar isso e por quanto tempo. Não sei se, no momento, é o que desejo pra mim, sinceramente. Não estou disposta. As pessoas são diferentes, cada tem seus limites. Em uma situação é possível se prolongar o que for, em outras, mesmo com todos os ventos a favor, é simplesmente insustentável. Mas cada caso é um caso e é preciso saber separar o que é desamor do que não é. Distinguir as coisas.

Isso de eu não me achar especial é coisa minha também. Eu não acho nada, são as pessoas que me acham (ou não, geralmente). E aí as coisas acabam acontecendo. Gosto disso. Prefiro assim. Gosto de quando as coisas se permitem ser sustentáveis, ter continuidade. Gosto de quando as coisas não precisam acabar, de quando elas apenas acontecem e se ajustam na nossa vida, vão se modelando, aos poucos, ao que acontece. De quando apenas podemos nos permitir observar e entender o que acontece. Se pudermos, demos oi. Se não, então não. O importante é que sempre exista a possibilidade… E é exatamente isso – esse conjunto de possibilidades –  que faz com que as coisas se movimentem, com que a vida se movimente, com que o relacionamento, qualquer que seja, possa ser minimamente espontâneo, flexível.

“Eu sou melhor que a maioria dos homens que você conhece?”. Eu não sei. Não gosto de comparações, cada pessoa é única, cada experiência única também. Eu já preciso quantificar e qualificar muitas coisas na minha vida, mas relacionamentos eu juro que não gostaria que fosse uma dessas coisas. É complexo demais pra ser quantificável. O simples fato de você estar na minha vida e pertencer ao meu convívio por si só já diz muito sobre o que eu acho de você. Eu não preciso provar, nem dizer nada. O fato de existir um convívio, uma troca, não importando o tamanho dos hiatos e da frequencia, já diz muito. É difícil conhecer alguém em sua totalidade. É mais difícil ainda eu ficar tentando me convencer sobre o melhor de todos e o pior de todos. O melhor que eu conheci certamente tem um pior lado que por algum motivo não cheguei a conhecer.

O pior, deve ter qualidades que estejam funcionando muito bem para outras pessoas e que jamais funcionariam comigo. Reclamam de que, comigo, não se sentem valorizados. É uma pena, então talvez algo não esteja bom mesmo e deva ser observado. Me atento ao que ocorre agora, observo o convívio. E o fato de eu não ficar demonstrando o tempo todo que estou apaixonada ou que sou louca pela pessoa de quem gosto não é desamor. É que eu realmente não gosto e não sei lidar com a afetação da coisa toda. Quem gosta (ou algum dia já gostou de mim, de verdade) não vai me dizer nada, nunca. Jamais vai confessar. Paixão não é convívio, é delírio, doença. Priorizo um bom convívio em detrimento de qualquer paixão ou afetação. De preferência o convívio irresponsável, porque ser irresponsável é mais divertido do que ser autônomo.

Mas esta sou eu. E eu mantenho meus relacionamentos assim porque é o que tem funcionado, ao longo dos anos. Talvez em algum momento deixe de funcionar, eu não sei. E muito provavemente eu devo estar errada nisso tudo. Mas enfim, a vida vai se encarregar de me ensinar isso em algum momento. Ou não.

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