arquivo

Arquivo da tag: Espiritualidade

O nome “bênção do útero” sempre me incomodou porque eu basicamente tinha duas visões bem limitadas e limitantes acerca do meu próprio útero:

  1. Como um órgão que serve para me causar dor e sofrimento uma vez ao mês e que me impede de ter praticidade na vida e
  2. Como um órgão que serve para para procriar e parir, exclusivamente.

Essa mentalidade completamente Handmaid’s Tale é bastante recorrente no nosso dia a dia… Quer ver só? “É gorda? Tá grávida. Tá com o buxim xei de hambúrguer? Tá grávida. Tirou foto com a mão na barriga? Tá grávida. Tá enjoada por algum motivo? Tá grávida, óbvio.” Olha só: a gente não é só parideira não tá? Não é assim que funciona a parada.

Às vezes um cachimbo é só um cachimbo? Sim, às vezes é. Mas eu meio que me recuso a ter esse tipo de visão de forma muito sistemática. Um útero é só um útero? O que o meu significa pra mim? O que significa carregá-lo, efetivamente? É só biologia?

Esse pensamento biológico e essa mentalidade Handmaid’s Tale se deve por eu viver numa sociedade completamente imersa em misoginia, machismo e opressão a tudo o que é feminino. Por eu viver numa sociedade onde me odiar e odiar um órgão que faz parte da minha natureza é o que é considerado “normal” e “adequado” para esse sistema de castração e invisibilidade sistematizada ao qual estamos inseridas, onde sequer enxergamos a nós mesmas.

Hoje eu digo que não tenho uma visão romantizada sobre a menstruação. Tenho uma visão realista. São coisas distintas. Eu costumava focar na dor e no sofrimento pois aquele era o meu mundo, o mundo que criei pra mim, no qual eu fazia questão de permanecer imersa, por anos a fio. Quando comecei a enxergar o todo, as coisas começaram a mudar sensivelmente pra mim e na minha vida.

Hoje me perguntaram no curious cat sobre a junção enlouquecedora da lua vermelha. Bom, o ciclo menstrual inteiro é enlouquecedor. E é enlouquecedor porque tratam-se de quatro mulheres, completamente diferentes, ao longo do período de um mês só, ou seja, as quatro fases do nosso ciclo: donzela, mãe, feiticeira e anciã. Cabe a nós otimizar cada um desses arquétipos de acordo com o ritmo de nossa própria vida.

É importante saber otimizar as características expansivas das fases de donzela e mãe e saber lidar com as energias e com a internalização de questões durante as fases feiticeira e anciã. Saber se respeitar e respeitar seus limites em casa uma das fases, ao meu ver, é essencial para extrair o que há de melhor nelas. O nosso ciclo é enlouquecedor sim, mas é fascinante. E inclusive pode ser nossa maior fonte de poder, se entendido com sabedoria.

E nenhum ciclo nosso é igual ao outro. Cabe a nós — e ninguém mais — saber “ler” essas sutis mudanças e observar nossos próprios padrões de vida. Carregamos um micro-cosmo dentro de nós e isso nos dá possibilidades imensas de criação… E isso não necessariamente tem a ver com engravidar ou fazer bebês, mas de criar nosso próprio caminho, nossa própria vida, mesmo.

Esta será minha primeira Bênção do Útero como Moon Mother. Antes de fazer a iniciação, em agosto deste ano, participei de Bençãos por um ano e meio. Fiz a iniciação porque me pareceu importante pra mim e para o meu caminho. Sempre pesquisei sobre o meu próprio ciclo e adoro conversar com outras mulheres sobre isso, porque acredito que isso é algo que nos une.

A quarta Benção do Útero deste ano é sobre a aceitação da nossa sexualidade e desde agosto eu tenho pensado nisso. Pensar na nossa sexualidade é muito importante, como nos relacionamos com ela, como nos sentimos e quais tipos de padrões gostaríamos de quebrar pra ter uma vida melhor e mais saudável nesse sentido. A Bênção, mais do que uma reunião de mulheres, nos proporciona um excelente espaço para este tipo de reflexão.

O modo pessoal que encontrei pra aceitar minha sexualidade foi parando de fazer sexo (sim, de qualquer tipo, até sozinha). E essa decisão não faz muito tempo na verdade, deve ter iniciado em agosto (não marquei data, nem nada). Acho interessante a ideia de dar um reboot no sistema pra ver o que emerge. E também não estou gostando muito das coisas que estão emergindo, e o que estou percebendo em mim mesma… Talvez porque pela primeira vez estou me forçando a olhar pra minha própria sombra.

E falando em sombras, essa minha primeira Bênção, além de falar sobre sexualidade, será na lua cheia em Áries… Então acho que essas questões do chakra base (sexo, agressividade, raiva, ação, energia) estão realmente em evidência pra mim.

Chakra Básico, né mores

A sincronicidade dos temas e questões desta Bênção estão tão claras pra mim que hoje apareceram duas expressões disso “por acaso” nas minhas timelines do twitter e facebook. No facebook, uma prima minha de segundo grau postou o seguinte trecho do Mulheres que Correm com Lobos, da Clarissa Pinkola Estés:

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.

Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.”

O segundo “aviso” foi via twitter, onde um conhecido postou uma música da incrível Diamanda Galás, cantora avant garde que eu desconhecia. Busquei mais informações sobre ela e fiquei absolutamente encantada, ela é completamente selvagem:

Nesse período abstêmio, percebi que sou absolutamente mesquinha sexualmente, de modos muito sutis que antes eu não percebia. Que a forma que sinto atração é completamente torta, que não respeito meu tempo, nem o do outro. E que, muitas vezes, eu não me deixo respeitar — o que é péssimo também. A forma que busco os relacionamentos no geral, que sinto atração, também não lá exatamente muito saudável. A forma que me sinto em relação ao que me é erótico, como me sinto em relação ao que é belo… As coisas que eu gosto e que deixo de gostar. Como lido com minhas infinitas carências.

A tentativa é de observar isso tudo lentamente, como testemunha de mim mesma. E o resultado não é muito bonito, nem nada iluminado. Bem o oposto disso. Parei de trepar e abriu o bueiro de tudo e agora tô vendo direitinho quem eu (penso que) sou. Não é bonito, nem agradável. It’s a dirty job, but someone has to do it. E eu ainda tenho uma série de perguntas não respondidas em relação a minha própria sexualidade. Preciso pensar bem mais em sexo. Bem mais. E não fazer me ajuda muito com isso.

Não lidar pode ser sim uma excelente forma de lidar com as coisas.

Ainda em questões de chakra base, vejo que rólam algumas coisas inclusive com a minha moto (sim, eu ando de moto). A maioria das vezes que me acidentei, foi por não acelerar o suficiente. Não por ter medo de acelerar mais, mas não o suficiente e aí a moto sempre morria e eu caía. Por não querer incomodar os carros do lado com o ronco e o barulho da minha moto (ele é bem alto). Então tem também algumas várias questões que estão interconectadas e nas quais devo pensar mais, tais como: imposição (aceleração), intimidade, simbiose, reivindicação de espaço, ser espaçosa, incomodar, ser inconveniente, fazer barulho… Enfim, basicamente existir. Enfim, basicamente tudo entrelaçado nessa grande teia da minha vida…

Essa Benção do Útero de outubro já foi maravilhosa. Ela nem aconteceu ainda e eu só tenho a agradecer.

Existir nos acomete de demandas. Demandas que não queremos nos apropriar, pois envolvem desconforto, dor, sofrimento. Deslocamentos. Nunca deslizamos efetivamente, a superfície é exposta sempre com granularidades indefiníveis e indefinidas. Pensar em e lembrar desta estrutura que me mantém viva é um difícil exercício que tento fazer com que seja recorrente. É uma prisão isso tudo, sim, seja em maior ou em menor escala. Por isso tenho mais medo do tédio que da morte. E não sei se minha aparente coragem — para o que quer que seja — é só mais uma máscara ou se é, na verdade, só mais um impulso de vida, alguns desses solavancos que acontecem às vezes e me acometem a destinos indeterminados.

Não temer a morte, não (buscar pelo, mas não) temer o enfrentamento, não ter absolutamente nada a perder, viver sem muito apego ao passado e sem obsessão com perspectivas, conseguir ressignificar os acontecimentos — bons e ruins — sem maiores transtornos… Como se eu fosse algo à parte disto aqui. A impressão que tenho é a de que: ou sigo esse impulso de vida e visto essas carapaças, ou me vejo extremamente fragilizada e impedida de continuar em qualquer caminho, não ando, me arrasto. Admito que não dou conta de carregar tudo isso comigo, o tempo todo, para todos os lugares. Não tenho espaço, não tenho como, não posso. E toda essa aparente leveza demanda um peso, uma dívida: tem um custo, que eu devo estar disposta a bancar (com a vida, mesmo).

De qualquer modo, a vida sempre diz: sofrer é bom pra você. Não existe força sem resistência. Existir (resistir? re-existir?) exige uma superação contínua dos dias, de todos os dias, de tudo o que é vivido, sempre. Se não há superação, raramente há existência. E as pessoas adoram uma história de superação, mas sem jamais questionarem-se os porquês disso. Não compreendem que abrir os olhos, descobrir-se, colocar os pés no chão e decidir levantar, todos os dias, é uma superação por si só, de deixar um estado de descanso. Que um estado de descanso por um longo período de tempo, é, na verdade, patológico e que a partir disso muito se perde, muito sentido se perde. Que a superação muitas vezes requer na verdade uma transmutação — elas parecem andar juntas — e que isso auxilia em todo o processo de vivência.

Que, felizmente ou não, a inquietude, a angústia e o sofrimento são condições para que haja existência. E que isso é sim muito perturbador de compreender, mas extremamente necessário, pois é parte do todo. Guerras, sofrimento, violência, peste, preconceito… E o guru nos diz calmamente: “você não vê que tudo é perfeito?”. E do meu entendimento, humano, limitado, me indigno e não vejo e se vejo, é como se não quisesse enxergar. Mas o guru não diz somente isso: “há trabalho a ser feito”. Há a re-existência, a resistência, a superação e a transmutação… Estamos nesta condição. Precisamos abrir os olhos, nos descobrirmos, colocarmos os pés no chão, decidir levantar e decidir o que fazer a partir disso. E essa é uma decisão de vida, e essa é uma decisão diária. É um exercício pra uma vida inteira. E talvez de mais de uma.

Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

Antes de ontem algumas coisas importantes foram ditas. Foi falado sobre pessoas que, estando em um relacionamento, não se completarem pois já estariam completas. Pessoas não completam uma parte faltante: são inteiras e se relacionam a partir disso, a partir de suas potencialidades e lacunas também. Eventualmente podem se complementar, mas isso é completamente diferente de preencher um vácuo, ou uma lacuna. Paradoxalmente em relacionamentos-simbiose, a conta, que aparentemente parece justa na verdade não fecha. Sempre sobra pra alguém, sempre falta pra alguém. E sempre é causa de sofrimento a longo prazo. O medo e a ânsia por intimidade são mais tênues do que se imagina. Falei que tinha dificuldade mesmo em conceber um relacionamento em que pessoas não se complementassem pois me foi ensinado o oposto disso desde que me conheço por gente. Enfim, é difícil, não disse que era impossível, não sou tão inflexível.

Foi falado também sobre como é importante se sentir bem sozinho e estar bem sozinho, pois isso é fundamental para poder estar com o outro. E também sobre os perigos de a solidão e o isolamento nos tornar pessoas completamente intolerantes, que criam critérios absurdos para se relacionar e afastam qualquer tipo de pessoa que tenha algum interesse. Em algum momento falei de solidão, mas foi em outro sentido… Foi num sentido que tem sido recorrente pra mim e tenho visto com frequência em pessoas que conheço. Uma pessoa que tem muitos amigos, é adorada por muitos, sai todos os finais de semana e tem pessoas que a paparicam 24/7: reclama de solidão, de medo que todas as pessoas a abandonem e de uma angústia que parece nunca cessar. Neste caso, a pessoa em questão é solteira. Pensei que o problema poderia ser a falta de um namorado ou coisa do tipo. Mas parece que não. Em outro momento, ouço coisas parecidas de outras 2 pessoas, que estão em relacionamentos estáveis (e felizes) há mais de 5 anos e sentem exatamente as mesmas coisas: solidão, angústia, abandono. Fico sem entender nada.

Em um primeiro momento, isso me deixava com raiva: como pode alguém estar num relacionamento estável e feliz sentir isso ao mesmo tempo? Sim, pois não tem nada a ver com o parceiro em questão (às vezes, pode ter. no caso, não tem), mas com a própria pessoa e com isso que ela sente. Mas não se trata apenas de uma questão técnica de depressão, sensação de inadequação ou baixa auto-estima. É mais que isso: o que essa pessoa busca não está fora dela, mas já está dentro dela. Todas as tentativas (muitas vezes desesperadas) de buscarmos por alguma confirmação externa só nos deixa exauridos e são sempre insuficientes, não nos preenchem de modo algum. Isso ocorre não só com relacionamentos, mas até mesmo com outras coisas na vida em geral. Alguém que almeja “chegar lá” algum dia, ter sucesso e aí quando a pessoa “chega lá”, simplesmente não há nenhum lá, lá. São miragens. O caminho, a fonte, são sempre internos, abertos, fluídos. Está aqui, em silêncio, o tempo todo. Basta que estejamos atentos à este silêncio ensurdecedor. E vem de nós mesmos. Isso é o que estou tentando buscar timidamente com meditação diária há alguns anos. Acho paz interior um conceito meio bobo, não sei qual termo usar. É uma busca, mas não sei pelo quê.

Talvez eu nunca descubra, mas de qualquer modo, vou continuar buscando. 

“Pessoas nunca podem ser felizes juntas”.

“Impossível ser feliz trabalhando”.

“Odeio crianças”.

“Eu nunca vou ser capaz de amar nada”.

A assim vida se encarrega, um passo de cada vez, de eliminar todas as minhas certezas.

Ainda bem.

[32:48] Most of us think we’re really free when we break out of forms, but as long as you’re in an incarnation there’s no way out of form. You are in form. The question is: can you be free in form? For a lot of us we thought freedom was being able to, not work, for example. Freedom had to do with external freedom. It had to do with political systems, it had to do with economics, it had to do with how do you spent your time. But if you’re around affluent people at all you begin to see that that kind of freedom is not free. That those people are as trapped in their minds as people who have very considerable economic hardships. And that when we’re talking about real freedom, we’re talking about the freedom of awareness from identification with thought. That’s the deepest kind of freedom that Buddha talks about. And so the exercise becomes “How do you live in form, how do you live your life and do everything you do every day without getting lost in it? So that you are in it but not of it?”, so that there is all the feelings, and emotions and the play but it has the quality of play, or is as like Herman Hesse talks about: as a game. Or a dance, as it is talked about in the world of Shiva. The dance of life. The play or the dance. And how do you live your life in such a way that it is dance or play or sweet life? Rather than its all so heavy and serious and “I’m so important” and “whether I live or die is very relevant”.

“Nosso mundo está ferido, fraturado, quebrado e queimado. Nós somos produtos deste lugar e é nosso trabalho curar o mundo através da cura de nós mesmos. Às vezes, isso parece como um esforço sem fim. Às vezes parece demais para suportarmos.

E, no entanto, as feridas que circundam à nossa volta são, de certo modo, um território sagrado. Sagrado, porque tocam o núcleo de nossas vidas. São nossas. Fazem parte da nossa viagem. Eles são parte da grande história de amor que é nossa experiência aqui na Terra.

Nós não somos o nosso sofrimento, mas com o que sofremos nos informa da nossa capacidade de manter nossas vidas com grande ternura, em todas as suas pontas e complexidades. Nós não somos o que temos sofrido ao longo do tempo, mas por convivermos com isso, somos transformados.

Profanamos nossas almas quando nos recusamos esse rito de passagem. Abandonamos nosso próprio crescimento, quando nos abandonamos ao longo da estrada que a dor pavimenta através de nossas vidas. Transformamos nossas vidas em terrenos baldios quando fingimos que aprendemos as lições da vida.”

Publicado originalmente no site Chani Nicholas, 14/09/2016, título original: Sacred Territory: The Lunar Eclipse in Pisces.

Eu queria gostar mais de budismo, mas acho que não consigo. Semana passada fui num templo zazen que tem aqui do lado de casa, há uns 200m daqui. Foi interessante a experiência, gostei do ambiente, do ritual, da meditação. Mas de modo geral, não me identifico com aquilo. Acredito que não me adequaria totalmente na disciplina mega estrita deles. Além de ter medo de entrar numa paranóia ainda maior de controfreakness por conta da exatidão dos rituais, eu não me identifico com toda a austeridade que o ambiente impõe à quem se dispõe à prática. Mas embora eu não curta essa sensação, sou capaz de refleti-la perfeitamente (pois sou esponjosa). Depois da prática, quando voltei pra casa me toquei de algo que aconteceu que denuncia essa minha esponjosidade em tempo recorde.

Normalmente, na minha vida, toda vez que vejo alguém cair ou se acidentar na rua, eu fico rindo ao invés de ajudar a pessoa. Fico rindo, não ajudo, não consigo me controlar. Enfim, sou uma idiota. O ambiente para a meditação zazen é uma sala à meia luz, quase escura. Existe todo um ritual de reverência e posicionamento e no total são duas seções hardcore de meditação de 40 minutos. Durante a meditação, minha perna direita dormiu completamente. Me desconcentrei e enfim, foi uma empreitada. Mas teve um exercício entre as duas seções. Quando o monge falou para levantarmos para o exercício pensei “eu vou cair aqui, minha perna tá dormente, vou cair e estragar tudo”. Levantei o mais lentamente que pude, estiquei a minha perna direita para melhorar a dormência e felizmente não caí.

No entanto, uma mulher que estava na minha frente caiu e eu automaticamente estiquei o braço para ajudá-la a se levantar, em silêncio. Na hora não pensei no protocolo, nem no ritual, mas na verdade não foi bem isso o que me causou estranhamento. Horas depois, já em casa, me liguei que eu não ri da mulher na hora em que ela caiu. Nem em pensamento. Nem de modo algum. Só aí me dei conta do quão rapidamente consegui incorporar e refletir de volta um ambiente extremamente austero. Eu só consegui rir de tudo em casa, depois, quando me tornei consciente do que aconteceu. Acho que realmente não sirvo para o budismo, embora tudo me encante na ritualística deles e eu considere a meditação algo importante pra mim desde já. Mas posso voltar ali outras vezes né, por que não?

Quando Silvia me falou pela primeira vez em morbidez eu estranhei um pouco. Achei que soubesse o que significava, mas a verdade é que eu não fazia muita ideia não. Pra mim era algo com o qual já estava acostumada, já tinha naturalizado em mim e para mim. “Sou assim, gosto disso” pensava, sem jamais me questionar o porquê. Disse pra ela que me sentia atraída especificamente pela morbidez de algumas coisas, de algumas pessoas e até de algumas situações. Lembro que quando eu disse que o que me atraía nele era justamente a morbidez, ela se assustou e disse “puta merda!”. Tive uma sensação estranha de ter me arrependido um pouco do que disse, mas enfim, já estava dito.

Silvia tem batido em mesmas teclas pra mim já há algum tempo e tem confirmado pra mim algumas coisas sobre relacionamentos que, em meu íntimo eu já sabia, mas que precisavam vir à tona de algum modo. Ela ainda não sabe a importância que tem pra mim, por simplesmente ter entrado na minha vida. Depois de quase um ano e meio, eu ainda a ouço. Ou ainda: eu a ouço mais do que nunca. E isso é difícil. Mas a verdade é que tudo o que ela diz ressoa em várias coisas que vivencio e observo. A verdade que eu não gosto de admitir é que de certa forma eu glamourizei a morbidez, em vários sentidos. Isso funcionou pra mim por vários anos, pra lidar com uma série de questões minhas. Mas isso me serve ainda? É o que realmente quero? É o que cabe na minha vida nesse momento? É algo que desejo arrastar?

Superficialmente, estou pronta pra dizer que sim, que é. É minha resposta-espasmo, de bate-pronto. É a minha primeira resposta, imediata, não pensada. Eu sequer defini exatamente o que é essa morbidez, na verdade. Não entrei verdadeiramente em contato com ela, de forma mais consciente. E tenho uma ideia distorcida e extremamente romantizada do que ela pode ser. Mas eu não sabia disso, eu mesma me engano. Muito. Repetidamente. Enfim… Algumas coincidências que aconteceram no último final de semana me fizeram entender esse conceito de morbidez um pouco melhor. Tenho dificuldade em perceber quando isso acontece, porque é um vício nessa repetição de comportamento, que hoje acredito que não me serve mais.

Mas nos últimos dias eu percebi isso de forma um pouco drástica. Tenho a sorte de ter ao meu lado pessoas que estão ajudando a iluminar um pouco mais esse meu caminho de uma maior consciência. Algumas coisas eu preciso ter em mente: a morbidez é necessariamente sensual. E ela envolve geralmente instintos que são os mais primitivos possíveis: medo, fome, sexo. Eles nunca aparecem juntos, sempre alternadamente. Esses são os gatilhos para o estado de morbidez. Quando alguma dessas coisas acontece – muito comumente de forma excessiva e saturada, seja propositalmente ou não – o estado de morbidez se expande. Às vezes por dias, às vezes por semanas. Nunca parei pra tentar perceber. Só sei que é bastante real pois me lembro dessas coisas acontecerem comigo. E é foda, pois elas podem ser facilmente confundidas com qualquer outra coisa: depressão, ansiedade, amor. Quando não se trata de NADA disso.

O estado de morbidez faz com que a água fique parada. Com que as coisas apodreçam e adoeçam. Com que a casa fique permanentemente suja. É um tanto quanto literal: com que tudo fique sem vida. Nada de bom, funcional ou belo pode surgir de um estado de morbidez. Na verdade existe apenas uma sobrevida, que serve apenas pra retroalimentar este estado. E é pesado. É sempre pesado e arrastado. Algo que nos impede de viver, de tentar pensar melhor nas coisas, de dizer “chega, foi o suficiente”, de levantar da cama pra ir fazer outras coisas. Só consegui me ligar disso porque algumas pessoas me disseram. E porque neste fim de semana percebi os resultados imediatos disso tudo. Inclusive resultados sensoriais e corporais. Coisas que sempre achei que não eram “nada demais”, ou que não estavam ligadas a este estado, ficaram claras pra mim.

Vou ficar de olho nisso de hoje em diante. E algumas coisas vão mudar por aqui.

por Charlie Ambler, do Daily Zen.

Quando você digita “ateísmo” (atheism) no Google, você acha centenas de memes criados por adolescentes que não fazem nada para compreender as nuances de sua contradição. Não sou uma pessoa religiosa, mas sim, eu vou rezar por você.

Escrevo o Daily Zen desde os 14 anos. Quando estava no ensino médio, eu era viciado em várias introduções à novas ideias. Conheci o que poderia se chamar de obstinação intelectual. Seria algo ao qual eu seria repetidamente exposto durante a faculdade, em ambos os lados dos espectros político e religioso, e em comunicações com leitores do meu site. Resumindo, é uma satisfação do tipo emocionalmente imersa de usar a linguagem de modo artístico para elucidar conceitos crus. Ideias unidimensionais (até violentas) expressadas de forma bela. É um tanto quanto sedutor.

Quando eu era mais novo, passei por fases de obstinação intelectual. Recusei reconhecer qualquer ideia que não fosse provada cientificamente. Em dado momento, graças a minha prática de meditação, eu comecei a questionar a ciência da mesma forma que questionava a religião. O Zen nos ensina a questionar tudo e também a questionar nossos questionamentos. O lado reverso também tem um lado reverso.

A ciência trata de fenômenos observáveis. É, por definição, materialismo. Apenas faz sentido no século XXI que o capitalismo ame a ciência. A ciência nos trouxe a Internet! A ciência nos trouxe a viagem no tempo! A ciência dá grana pra caramba! Pessoas como Neil deGrasse Tyson e Richard Dawkins vendem milhões de livros porque eles reasseguram às pessoas que seus modos materialisticos de existência estão, na verdade, corretos. A ciência o dualismo definitivo. Ou você está certo, ou você está muito errado. Esses pensadores reconfortam as pessoas no sentido de que sim, eles estão certos, a forma que vocês enxergam o mundo é a forma correta. Parece bem religioso para mim.

Cientistas famosos do ocidente frequentemente simplesmente servem como pregadores unidimensionais para pessoas modernas espiritualmente falidas e adoradoras de tecnologia. Eles refletem o mundo em que vivemos, um mundo que prospera em complexidade desnecessária e estimulação constante, ao invés de paz ou contentamento.

Frequentemente me pergunto se um ateísmo convicto é diferente de qualquer fundamentalismo religioso. Sinceramente, não acredito que seja. Ambos baseiam-se em um grandioso apego à verdade objetiva. Ambos causam violência em oposição a dissidentes. Ambos tem descuidadamente uma visão de mundo singular. Qualquer coisa levada ao seu extremo se torna seu oposto. Anti-religião extrema se torna sua própria religião.

Zen é tão anti-científico quanto anti-religioso. Não meditamos porque existem benefícios neurológicos, ou porque isso nos coloca em contato com “Deus”. Meditamos para meditar, assim como comemos para comer, mijamos para mijar. Não acreditamos em conceitos; acreditamos em vivências diárias. Experiências pessoais. Se você passa pela experiência de Deus pessoalmente, bom pra você. Isso não é mais nem menos válido do que a experiência pessoal de gravidade ou termodinâmica. Quem pode te validar ou desvalidar?

“Prova” se torna algo obsoleto aos olhos do Zen. Simplesmente não importa.

A lição? Guarde suas crenças para si mesmo. Questione-as. Retrabalhe-as.Ateísmo pop se tornou a religião do consumismo capitalista. Ele nos encoraja a servir um sistema materialista com um sentido de falsa superioridade egóica. Não questiona. É similar ao libertarianismo. Reflete o humano enquanto objeto, uma entidade materialística. Não há preocupação alguma com o espírito ou com a não-materialidade. Não há preocupação alguma com a experiência pessoal, prática ou reflexão. Não fornece crédito a qualquer fenômeno não-observável e especialmente aqueles que não podem ser concebidos usando sistemas simbólicos. É extremamente básico.

Espero que a sua prática Zen o encoraje a permanecer com a mente aberta e a boca fechada. Venho de longe desde que comecei a meditar e espero que a sua jornada não pare na obstinação intelectual. Acredito que há um mundo aí fora que não precisamos ser capazes de ver para passarmos pela experiência. Não precisamos criar dogmas ao redor disso. Não precisamos criar guerras por isso. Não precisamos sequer mesmo acreditar nisso. Mas podemos passar pela experiência. Podemos sentar. Podemos observar. Ao invés de ficarmos obcecados com a materialidade, produtividade e metodologia, podemos simplesmente estarmos conscientes e termos compaixão. Podemos aprender o valor da paz, o valor de observar o nada.

Eu venho do vazio à luz,
Eu sou o sopro que nutre a vida,
Eu sou aquele vazio, o oco além de todas as consciências,
O Eu, o Id, o Todo.
Eu reteso meu arco dos arco-íris atravessando as águas,
O continuum de mentes com matéria.

Eu sou a inspiração e a expiração do sopro,

A invisível, intocável brisa,

O indefinível átomo da criação.

Eu sou o Eu.

%d blogueiros gostam disto: