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Arquivo da tag: Espiritualidade

O sino que é utilizado para chamar os meditadores para as atividades.

I

Cheguei ao Dhamma Sarana doente. Antes de sair de casa olhei minha garganta no espelho e estava inflamada, meus ouvidos também estavam entupidos e dentro da minha cabeça soava um “piiiiiiii” incessante. “Preciso passar na farmácia e comprar um antibiótico antes de ir”. Mas eu estava tão agitada e com pressa que não quis ir na farmácia. “Vou melhorar ao longo dos dias”. Cheguei lá por volta das 13h, larguei minha mochila na recepção, ali mesmo já confiscaram o meu celular (a ser devolvido só no último dia) e resolvi dar uma volta pelo local. Entrei numa trilha sem querer e encontrei uma cachoeira escondida. Me emocionei, achei lindo: “vou voltar aqui no último dia”. Voltei pra recepção e depois do check-in aguardei pelas primeiras instruções. No primeiro dia todo mundo fica meio desorientado mesmo, mas o Nobre Silêncio começa ao final da tarde, já antes da primeira seção de meditação. Dividi quarto com mais 9 mulheres, estávamos em 5 beliches. A ala das mulheres era separada da dos homens.

II

Como eu estava muito doente, a primeira coisa que fiz foi beber muita água para ir desintoxicando o corpo aos poucos. Bebi muita água mesmo, levei minha garrafa de 500ml e não deixava ela esvaziar em nenhum momento. Os primeiros 3 dias serviram pra eu me curar da garganta inflamada e fiz de tudo para que isso ocorresse naturalmente (chás, sucos de limão, laranja e maçã). Foram dias bastante regrados com relação aos horários e em como devíamos fazer as coisas. Ainda assim, saía pouco do quarto e da cama nos horários de descanso. Estava acabada, exausta do mundo exterior ainda e me recuperando de uma garganta inflamada, não queria muita agitação: queria só conseguir respirar direito. Não consegui fazer nada que não fosse meditar nesses três primeiros dias e felizmente eles foram bem nublados e chuvosos. Nesses dias aprendemos a meditação Ānāpāna e todo o meu esforço era pra curar minha garganta e para não tossir desesperadamente durante as seções para não atrapalhar os outros.

III

No quarto dia, eu já estava bem melhor da garganta, não sentia dores para engolir, nem nada. Lembrei que estava na minha TPM e que estava ficando cansada e com dores na lombar por conta disso. Lembrei também que eu queria fazer esse curso por pelo menos há uns 3 anos já, mas nunca rolava: ou não encaixava horários, férias ou tinha compromisso ou viagem e outras coisas da vida pra fazer. Nunca dava. Ou talvez eu não estivesse pronta pra ir, mesmo, pra ter este tipo de experiência. Mas neste ano o timing foi perfeito e eu consegui fazer a inscrição bem no meio das minhas férias, com antecedência e planejamento. Nesse ano deu certo e bem, há 3 anos atrás eu não tinha toda experiência com meditação que tenho hoje, por exemplo (isso porque ainda me considero bem leiga). Mas eu nunca tinha tido até então uma experiência de imersão em meditação, algo mais profundo mesmo, praticando diariamente, com horários regrados e em ambiente controlado. E no quarto dia só é que aprendemos a técnica de meditação Vipassana.

IV

A partir do quarto dia, durante os intervalos, eu já não ficava mais tão isolada no quarto, como estava melhor. Nesse dia fez sol e lembro que consegui passear pelo bosque, observar o riacho que passava por ali e finalmente comecei a ver os rostos das mulheres e tentar entender quem era quem por ali. Mas era difícil. A não-comunicação não se limitava apenas a fala, mas também a olhares, gestos e expressões. Nunca cheguei a ter problemas com mosquitos e/ou pernilongos porque aparentemente eu tenho o sangue muito ruim pra esses bichos. Uma das minhas atividades favoritas era pegar um pedaço de pau, sentar em um toco na frente da árvore e ficar derrubando as formigas do caule e rindo sozinha, muito satisfeita por perturbar as formigas. Acho que no dia 5 foi a primeira vez que pensei “mas que saco isso aqui!”. Assim que terminei esse pensamento, me perguntei: “você gostaria de estar em outro lugar agora?” ao que eu respondi, timidamente, “não”. “Então fique aqui e faça o que tem que ser feito. Você não é mais nenhuma criança”. 

V

Do dia 5 ao dia 7 foram os dias mais mágicos pra mim. Um mundo de coisas aconteciam internamente ao mesmo tempo em mim: nada acontecia e tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu estava me adaptando àquele lugar e àquela rotina diária de meditação, enquanto aprendia uma técnica nova. Eu estava terminando de me curar de uma garganta inflamada, com sucesso (depois de litros de água e litros de chás e com uma alimentação vegetariana muito bem regrada). Tentava observar o ambiente e agir de acordo e conforme as regras. E aí, no sexto dia eu menstruei e eu previ isso, obviamente. Só que não é permitido o uso de medicamentos durante o curso. Tive cólicas bem intensas no início, que me incomodaram numa meditação pela manhã mas agi rapidamente. Plantei minha lua numa árvore bem alta e bonita que tinha por lá e também deitei de barriga no bosque, pois felizmente fez sol nesses dias também. Essas duas ações bastante simples fizeram minhas cólicas desaparecerem por completo, sem a utilização de nenhum tipo de remédio.

VI

Antes de ir, confesso que fiquei com certo receio pela alimentação ser vegetariana. Talvez me faltasse algum nutriente e eu me sentisse fraca, mas isso nunca ocorreu, em nenhum dia. Todas as dores e incômodos que sentia eram por causa da menstruação (dores leves na lombar) e por causa da posição de meditação (dores nas coxas principalmente). A comida era simples e a mesa era sempre farta. Comida feita com afeto, com capricho, com tempero – eu sempre percebo essas coisas, sempre. Todo dia algo diferente no almoço, só no café da manhã e no lanche das 17h que era sempre a mesma coisa. No entanto, não senti fome em nenhum dia. E nenhum dia, nada que eu comi foi insuficiente, nunca. Sempre era o bastante. E também foi por volta do sexto ou sétimo dia que me lembrei que eu estava a quase uma semana sem tomar café puro. Isso porque antes de ir eu dizia pra mim mesma “mas será que eu vou conseguir sobreviver sem café por dez dias?”. Descobri que sobrevivo sem muitas outras coisas por dez dias, aliás. O café foi o de menos.

VII

O banheiro era coletivo e a lavanderia também. Os quartos também eram divididos e eu aproveitava o menor uso do banheiro a noite para tomar banho. Certa noite, voltando bem tranquila do banho, vejo a porta do meu quarto aberta. Era o oitavo dia, ainda não tinha finalizado o Nobre Silêncio. Uma das moças do meu quarto está na frente da porta do quarto, sem entrar, assustada. Pensei “ué”. Ela pegou no meu braço e apontou pro rodapé da porta. Não enxerguei nada. Ela pegou uma lanterna e apontou para o rodapé da porta onde tinha uma aranha enorme. Dei risada, entrei no quarto e peguei o pote salva-inseto que nós tínhamos lá e retirei a aranha do quarto, sem emitir palavra. Essa não tinha sido a primeira vez que tinha tirado uma aranha do quarto, mas da outra vez eu estava sozinha e acho que ninguém viu. E ninguém ficou sabendo também porque eu não contei. Acho meio bobo se gabar desse tipo de coisa.

VIII

Os últimos dias (8, 9 e 10) foram os mais difíceis, mas acho que é porque todo processo é assim mesmo. Quando chega no final é sempre mais difícil. Para mim, foram os mais difíceis porque ao mesmo tempo em que eu (achava que) estava me aprofundando na técnica, eu também já estava bem cansada da rotina – embora continuasse levando tudo a risca. Mas bem achei chato que algumas pessoas voltaram a falar no dia 8, sendo que o fim do Nobre Silêncio só deveria ocorrer as 10h do dia 9. Acredito que se você se propõe e se compromete com isso, sabendo que existem regras, é meio infantil quebrá-las só porque pode. Sempre que eu ouvia alguém falando ou conversando eu saia de perto o mais rápido possível e me isolava. No dia 9 socializei, claro, mas não muito porque eu não sou muito de socializar mesmo, queria ficar mais na minha. No entanto fiquei sabendo de várias coisas que sequer percebi durante os outros dias: das várias pessoas que desistiram e dos dramas pessoais das pessoas, etc. Mas aquilo me cansava também.

IX

Entendi rapidamente porque Vipassana precisou estar na minha vida e o que ela me ensinou. A questão do sofrimento é algo que me aflige desde que eu me conheço por gente. Desde a primeira vez que eu ralei meu joelho e ele sangrou e eu chorei, chorei e chorei e de repente parei de chorar e me questionei pela primeira vez “por que eu ainda estou chorando?”, quando o sangue já tinha estancado. São coisas muito, muito básicas e que só são passíveis de entendimento a partir da experiência, da vivência. Coisas que até uma criança de 5 anos com o joelho ralado questiona e entende. O meu joelho ralado de adulta, hoje com 34 anos, tem mais a ver com paixões e com desejo do que com sofrimento, ódio ou rancor. Com esses últimos eu já sei lidar. Mas jamais me ocorreu que minhas paixões, meus desejos e principalmente minha impulsividade pudessem me trazer tanto sofrimento. E Vipassana jogou uma luz, imensa, incomensurável, sobre esse aspecto da minha vida que eu deneguei por tantos anos.

X

Até agora os cânticos do N. S. Goenka estão ecoando na minha cabeça. Principalmente a frase que encerrava todas as seções de meditação “Bhavatu Sabba Mangelam”, que significa “que todos os seres possam ser felizes”. Também me lembro dele falando sempre nas meditações para nos lembrarmos de “Anicca, anicca, anicca!” (impermanência, impermanência, impermanência!). Na manhã do último dia, depois da última meditação e do check-out de todo mundo, voltei à cachoeira que tinha ido no primeiro dia. Aquela era uma outra cachoeira e eu era uma outra mulher. O primeiro pensamento que tive foi “eu não quero ir embora daqui”. Meu segundo pensamento foi “ir embora de onde, Dora?”. O terceiro foi “Você já está aqui. Você está sempre aqui. Você já está em casa… E aqui, você é sempre bem vinda”. Me senti acolhida, me senti aceita, me senti profundamente amada… E senti que estava exatamente onde deveria estar. Foi uma sensação maravilhosa de contentamento tão forte, como nunca senti antes. Sentei, chorei e agradeci. Por tudo.

E depois fui embora.

“Anicca, anicca, anicca!”

 

Plantando a Lua do Sagrado Feminino

Já a mulher pertencente ao Ciclo da Lua Vermelha é a mulher que possui o ciclo ao inverso das fases lunares, sendo assim, a mulher tem a sua menstruação na Lua Cheia e a sua fertilidade se dá na fase escura da lua (Lua Negra ou Lua Nova). Como o auge da fertilidade ocorre durante a fase escura da lua, há um desvio das energias criativas, que são direcionadas ao desenvolvimento interior, em vez do mundo material. Diferente do tipo Lua Branca, que é considerada a boa mãe, a mulher do Ciclo Lua Vermelha é bruxa, maga ou feiticeira, que sabe usar sua energia sexual para fins mágicos e não somente procriativos. (Curandeiras de Si)

Se menstruamos na fase da lua cheia isto indica que quando atingimos o auge fértil estaremos na lua nova. A energia da lua cheia de recomeço acontece banhada não pela nossa criatividade senão pela limpeza do nosso corpo. Simbolicamente, isto pode significar que a mulher está a curar-se interiormente, ou seja, a energia da lua nova, da criatividade, ficará voltada para o nosso interior, indicando que a mulher está mais voltado para o seu auto conhecimento. Diz-me que a mulher que está no ciclo da lua vermelha é a bruxa, a feiticeira, a maga, porque está na busca e conquista do seu poder. (Viver o Feminino)

Por outro lado, a mulher que ovula na lua negra e menstrua na lua cheia pertence ao ciclo da lua vermelha. Nesse caso, como o auge da fertilidade acontece na fase escura da lua, as energias criativas são direcionadas ao desenvolvimento interior e a energia sexual é usada para fins mágicos, relacionando-se com o arquétipo da bruxamaga ou feiticeira – aspecto do feminino costumeiramente negligenciado e temido pelo patriarcado. (Obscura Realidade)

 

O nome “bênção do útero” sempre me incomodou porque eu basicamente tinha duas visões bem limitadas e limitantes acerca do meu próprio útero:

  1. Como um órgão que serve para me causar dor e sofrimento uma vez ao mês e que me impede de ter praticidade na vida e
  2. Como um órgão que serve para para procriar e parir, exclusivamente.

Essa mentalidade completamente Handmaid’s Tale é bastante recorrente no nosso dia a dia… Quer ver só? “É gorda? Tá grávida. Tá com o buxim xei de hambúrguer? Tá grávida. Tirou foto com a mão na barriga? Tá grávida. Tá enjoada por algum motivo? Tá grávida, óbvio.” Olha só: a gente não é só parideira não tá? Não é assim que funciona a parada.

Às vezes um cachimbo é só um cachimbo? Sim, às vezes é. Mas eu meio que me recuso a ter esse tipo de visão de forma muito sistemática. Um útero é só um útero? O que o meu significa pra mim? O que significa carregá-lo, efetivamente? É só biologia?

Esse pensamento biológico e essa mentalidade Handmaid’s Tale se deve por eu viver numa sociedade completamente imersa em misoginia, machismo e opressão a tudo o que é feminino. Por eu viver numa sociedade onde me odiar e odiar um órgão que faz parte da minha natureza é o que é considerado “normal” e “adequado” para esse sistema de castração e invisibilidade sistematizada ao qual estamos inseridas, onde sequer enxergamos a nós mesmas.

Hoje eu digo que não tenho uma visão romantizada sobre a menstruação. Tenho uma visão realista. São coisas distintas. Eu costumava focar na dor e no sofrimento pois aquele era o meu mundo, o mundo que criei pra mim, no qual eu fazia questão de permanecer imersa, por anos a fio. Quando comecei a enxergar o todo, as coisas começaram a mudar sensivelmente pra mim e na minha vida.

Hoje me perguntaram no curious cat sobre a junção enlouquecedora da lua vermelha. Bom, o ciclo menstrual inteiro é enlouquecedor. E é enlouquecedor porque tratam-se de quatro mulheres, completamente diferentes, ao longo do período de um mês só, ou seja, as quatro fases do nosso ciclo: donzela, mãe, feiticeira e anciã. Cabe a nós otimizar cada um desses arquétipos de acordo com o ritmo de nossa própria vida.

É importante saber otimizar as características expansivas das fases de donzela e mãe e saber lidar com as energias e com a internalização de questões durante as fases feiticeira e anciã. Saber se respeitar e respeitar seus limites em casa uma das fases, ao meu ver, é essencial para extrair o que há de melhor nelas. O nosso ciclo é enlouquecedor sim, mas é fascinante. E inclusive pode ser nossa maior fonte de poder, se entendido com sabedoria.

E nenhum ciclo nosso é igual ao outro. Cabe a nós — e ninguém mais — saber “ler” essas sutis mudanças e observar nossos próprios padrões de vida. Carregamos um micro-cosmo dentro de nós e isso nos dá possibilidades imensas de criação… E isso não necessariamente tem a ver com engravidar ou fazer bebês, mas de criar nosso próprio caminho, nossa própria vida, mesmo.

Esta será minha primeira Bênção do Útero como Moon Mother. Antes de fazer a iniciação, em agosto deste ano, participei de Bençãos por um ano e meio. Fiz a iniciação porque me pareceu importante pra mim e para o meu caminho. Sempre pesquisei sobre o meu próprio ciclo e adoro conversar com outras mulheres sobre isso, porque acredito que isso é algo que nos une.

A quarta Benção do Útero deste ano é sobre a aceitação da nossa sexualidade e desde agosto eu tenho pensado nisso. Pensar na nossa sexualidade é muito importante, como nos relacionamos com ela, como nos sentimos e quais tipos de padrões gostaríamos de quebrar pra ter uma vida melhor e mais saudável nesse sentido. A Bênção, mais do que uma reunião de mulheres, nos proporciona um excelente espaço para este tipo de reflexão.

O modo pessoal que encontrei pra aceitar minha sexualidade foi parando de fazer sexo (sim, de qualquer tipo, até sozinha). E essa decisão não faz muito tempo na verdade, deve ter iniciado em agosto (não marquei data, nem nada). Acho interessante a ideia de dar um reboot no sistema pra ver o que emerge. E também não estou gostando muito das coisas que estão emergindo, e o que estou percebendo em mim mesma… Talvez porque pela primeira vez estou me forçando a olhar pra minha própria sombra.

E falando em sombras, essa minha primeira Bênção, além de falar sobre sexualidade, será na lua cheia em Áries… Então acho que essas questões do chakra base (sexo, agressividade, raiva, ação, energia) estão realmente em evidência pra mim.

Chakra Básico, né mores

A sincronicidade dos temas e questões desta Bênção estão tão claras pra mim que hoje apareceram duas expressões disso “por acaso” nas minhas timelines do twitter e facebook. No facebook, uma prima minha de segundo grau postou o seguinte trecho do Mulheres que Correm com Lobos, da Clarissa Pinkola Estés:

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.

Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.”

O segundo “aviso” foi via twitter, onde um conhecido postou uma música da incrível Diamanda Galás, cantora avant garde que eu desconhecia. Busquei mais informações sobre ela e fiquei absolutamente encantada, ela é completamente selvagem:

Nesse período abstêmio, percebi que sou absolutamente mesquinha sexualmente, de modos muito sutis que antes eu não percebia. Que a forma que sinto atração é completamente torta, que não respeito meu tempo, nem o do outro. E que, muitas vezes, eu não me deixo respeitar — o que é péssimo também. A forma que busco os relacionamentos no geral, que sinto atração, também não lá exatamente muito saudável. A forma que me sinto em relação ao que me é erótico, como me sinto em relação ao que é belo… As coisas que eu gosto e que deixo de gostar. Como lido com minhas infinitas carências.

A tentativa é de observar isso tudo lentamente, como testemunha de mim mesma. E o resultado não é muito bonito, nem nada iluminado. Bem o oposto disso. Parei de trepar e abriu o bueiro de tudo e agora tô vendo direitinho quem eu (penso que) sou. Não é bonito, nem agradável. It’s a dirty job, but someone has to do it. E eu ainda tenho uma série de perguntas não respondidas em relação a minha própria sexualidade. Preciso pensar bem mais em sexo. Bem mais. E não fazer me ajuda muito com isso.

Não lidar pode ser sim uma excelente forma de lidar com as coisas.

Ainda em questões de chakra base, vejo que rólam algumas coisas inclusive com a minha moto (sim, eu ando de moto). A maioria das vezes que me acidentei, foi por não acelerar o suficiente. Não por ter medo de acelerar mais, mas não o suficiente e aí a moto sempre morria e eu caía. Por não querer incomodar os carros do lado com o ronco e o barulho da minha moto (ele é bem alto). Então tem também algumas várias questões que estão interconectadas e nas quais devo pensar mais, tais como: imposição (aceleração), intimidade, simbiose, reivindicação de espaço, ser espaçosa, incomodar, ser inconveniente, fazer barulho… Enfim, basicamente existir. Enfim, basicamente tudo entrelaçado nessa grande teia da minha vida…

Essa Benção do Útero de outubro já foi maravilhosa. Ela nem aconteceu ainda e eu só tenho a agradecer.

Existir nos acomete de demandas. Demandas que não queremos nos apropriar, pois envolvem desconforto, dor, sofrimento. Deslocamentos. Nunca deslizamos efetivamente, a superfície é exposta sempre com granularidades indefiníveis e indefinidas. Pensar em e lembrar desta estrutura que me mantém viva é um difícil exercício que tento fazer com que seja recorrente. É uma prisão isso tudo, sim, seja em maior ou em menor escala. Por isso tenho mais medo do tédio que da morte. E não sei se minha aparente coragem — para o que quer que seja — é só mais uma máscara ou se é, na verdade, só mais um impulso de vida, alguns desses solavancos que acontecem às vezes e me acometem a destinos indeterminados.

Não temer a morte, não (buscar pelo, mas não) temer o enfrentamento, não ter absolutamente nada a perder, viver sem muito apego ao passado e sem obsessão com perspectivas, conseguir ressignificar os acontecimentos — bons e ruins — sem maiores transtornos… Como se eu fosse algo à parte disto aqui. A impressão que tenho é a de que: ou sigo esse impulso de vida e visto essas carapaças, ou me vejo extremamente fragilizada e impedida de continuar em qualquer caminho, não ando, me arrasto. Admito que não dou conta de carregar tudo isso comigo, o tempo todo, para todos os lugares. Não tenho espaço, não tenho como, não posso. E toda essa aparente leveza demanda um peso, uma dívida: tem um custo, que eu devo estar disposta a bancar (com a vida, mesmo).

De qualquer modo, a vida sempre diz: sofrer é bom pra você. Não existe força sem resistência. Existir (resistir? re-existir?) exige uma superação contínua dos dias, de todos os dias, de tudo o que é vivido, sempre. Se não há superação, raramente há existência. E as pessoas adoram uma história de superação, mas sem jamais questionarem-se os porquês disso. Não compreendem que abrir os olhos, descobrir-se, colocar os pés no chão e decidir levantar, todos os dias, é uma superação por si só, de deixar um estado de descanso. Que um estado de descanso por um longo período de tempo, é, na verdade, patológico e que a partir disso muito se perde, muito sentido se perde. Que a superação muitas vezes requer na verdade uma transmutação — elas parecem andar juntas — e que isso auxilia em todo o processo de vivência.

Que, felizmente ou não, a inquietude, a angústia e o sofrimento são condições para que haja existência. E que isso é sim muito perturbador de compreender, mas extremamente necessário, pois é parte do todo. Guerras, sofrimento, violência, peste, preconceito… E o guru nos diz calmamente: “você não vê que tudo é perfeito?”. E do meu entendimento, humano, limitado, me indigno e não vejo e se vejo, é como se não quisesse enxergar. Mas o guru não diz somente isso: “há trabalho a ser feito”. Há a re-existência, a resistência, a superação e a transmutação… Estamos nesta condição. Precisamos abrir os olhos, nos descobrirmos, colocarmos os pés no chão, decidir levantar e decidir o que fazer a partir disso. E essa é uma decisão de vida, e essa é uma decisão diária. É um exercício pra uma vida inteira. E talvez de mais de uma.

Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

Antes de ontem algumas coisas importantes foram ditas. Foi falado sobre pessoas que, estando em um relacionamento, não se completarem pois já estariam completas. Pessoas não completam uma parte faltante: são inteiras e se relacionam a partir disso, a partir de suas potencialidades e lacunas também. Eventualmente podem se complementar, mas isso é completamente diferente de preencher um vácuo, ou uma lacuna. Paradoxalmente em relacionamentos-simbiose, a conta, que aparentemente parece justa na verdade não fecha. Sempre sobra pra alguém, sempre falta pra alguém. E sempre é causa de sofrimento a longo prazo. O medo e a ânsia por intimidade são mais tênues do que se imagina. Falei que tinha dificuldade mesmo em conceber um relacionamento em que pessoas não se complementassem pois me foi ensinado o oposto disso desde que me conheço por gente. Enfim, é difícil, não disse que era impossível, não sou tão inflexível.

Foi falado também sobre como é importante se sentir bem sozinho e estar bem sozinho, pois isso é fundamental para poder estar com o outro. E também sobre os perigos de a solidão e o isolamento nos tornar pessoas completamente intolerantes, que criam critérios absurdos para se relacionar e afastam qualquer tipo de pessoa que tenha algum interesse. Em algum momento falei de solidão, mas foi em outro sentido… Foi num sentido que tem sido recorrente pra mim e tenho visto com frequência em pessoas que conheço. Uma pessoa que tem muitos amigos, é adorada por muitos, sai todos os finais de semana e tem pessoas que a paparicam 24/7: reclama de solidão, de medo que todas as pessoas a abandonem e de uma angústia que parece nunca cessar. Neste caso, a pessoa em questão é solteira. Pensei que o problema poderia ser a falta de um namorado ou coisa do tipo. Mas parece que não. Em outro momento, ouço coisas parecidas de outras 2 pessoas, que estão em relacionamentos estáveis (e felizes) há mais de 5 anos e sentem exatamente as mesmas coisas: solidão, angústia, abandono. Fico sem entender nada.

Em um primeiro momento, isso me deixava com raiva: como pode alguém estar num relacionamento estável e feliz sentir isso ao mesmo tempo? Sim, pois não tem nada a ver com o parceiro em questão (às vezes, pode ter. no caso, não tem), mas com a própria pessoa e com isso que ela sente. Mas não se trata apenas de uma questão técnica de depressão, sensação de inadequação ou baixa auto-estima. É mais que isso: o que essa pessoa busca não está fora dela, mas já está dentro dela. Todas as tentativas (muitas vezes desesperadas) de buscarmos por alguma confirmação externa só nos deixa exauridos e são sempre insuficientes, não nos preenchem de modo algum. Isso ocorre não só com relacionamentos, mas até mesmo com outras coisas na vida em geral. Alguém que almeja “chegar lá” algum dia, ter sucesso e aí quando a pessoa “chega lá”, simplesmente não há nenhum lá, lá. São miragens. O caminho, a fonte, são sempre internos, abertos, fluídos. Está aqui, em silêncio, o tempo todo. Basta que estejamos atentos à este silêncio ensurdecedor. E vem de nós mesmos. Isso é o que estou tentando buscar timidamente com meditação diária há alguns anos. Acho paz interior um conceito meio bobo, não sei qual termo usar. É uma busca, mas não sei pelo quê.

Talvez eu nunca descubra, mas de qualquer modo, vou continuar buscando. 

“Pessoas nunca podem ser felizes juntas”.

“Impossível ser feliz trabalhando”.

“Odeio crianças”.

“Eu nunca vou ser capaz de amar nada”.

A assim vida se encarrega, um passo de cada vez, de eliminar todas as minhas certezas.

Ainda bem.

[32:48] Most of us think we’re really free when we break out of forms, but as long as you’re in an incarnation there’s no way out of form. You are in form. The question is: can you be free in form? For a lot of us we thought freedom was being able to, not work, for example. Freedom had to do with external freedom. It had to do with political systems, it had to do with economics, it had to do with how do you spent your time. But if you’re around affluent people at all you begin to see that that kind of freedom is not free. That those people are as trapped in their minds as people who have very considerable economic hardships. And that when we’re talking about real freedom, we’re talking about the freedom of awareness from identification with thought. That’s the deepest kind of freedom that Buddha talks about. And so the exercise becomes “How do you live in form, how do you live your life and do everything you do every day without getting lost in it? So that you are in it but not of it?”, so that there is all the feelings, and emotions and the play but it has the quality of play, or is as like Herman Hesse talks about: as a game. Or a dance, as it is talked about in the world of Shiva. The dance of life. The play or the dance. And how do you live your life in such a way that it is dance or play or sweet life? Rather than its all so heavy and serious and “I’m so important” and “whether I live or die is very relevant”.

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Viver uma vida de atenção plena e gratidão requere que você pare de se comparar com os outros. O problema com essas comparações é que elas assumem um tipo de sobreposição de experiências de vida. É difícil incorporar verdadeiramente a perspectiva de outra pessoa. Cada vida é tão extraordinariamente diferente, até mesmo entre amigos próximos e familiares. As pessoas compartilham muitas motivações e experiências mas isso não faz com que se torne mais fácil compreender de forma precisa a vida de outra pessoa. Ter pena é ser paternalista. Idolatrar é desumanizar.

E você desumaniza quem quer que seja com quem você tenha se comparado. A idolatria funciona do mesmo modo. Quando as pessoas idealizam celebridades, pessoas ricas ou “de sucesso”, elas removem a humanidade delas. As colocam simplesmente dentro do reino do idealismo subjetivo. As pessoas sujeitam-se constantemente ao ridículo, à inveja e amargura baseadas em falsas ideias de prerrogativas quando elas nunca sabem de verdade o que se passa na cabeça do “outro”. É por isso que todas as ideologias políticas que escolhem um inimigo comum se tornam perigosas e desumanizam.

Um exemplo simples: você acredita que a sua felicidade seja causada por falta de recursos. Você vê uma imagem de uma pessoa rica na beira do mar, aproveitando um drink e pensa “Ah, se fosse eu. Eu seria tão feliz”. Mas você pode de verdade entrar na cabeça daquela pessoa? Você saberia dizer se eles curtem passear nessa praia o tanto quanto você curtiria passear em qualquer outro lugar? Na verdade você não sabe. Se existe uma verdade sobre os seres humanos é que nós nascemos para nos adaptar. Se você não é feliz sendo pobre, você não vai melhorar sendo rico. Se você não consegue ficar bem sozinho, você não vai conseguir ficar bem quando achar alguém. Entendeu a ideia? O poder está dentro de você, não no mundo externo. A vida espiritual é um grande nivelador. Está acessível a qualquer um que queira trabalhá-la. Não importa quem você é ou o que você tenha. A força que precisa está dentro de você.

O ponto mais importante disto tudo é que quando você se compara aos outros, você desumaniza a si mesmo. Você erra a sua interpretação dos outros, mas acima disso acredita que julgar a si mesmo contra esta interpretação incorreta seja uma boa ideia. Ambos são mentiras. O caminho em direção a atenção plena é reconhecer a si mesmo como você é e agir da forma mais diligente possível diariamente. Comparações sem sentido e ficar olhando “a grama verde do vizinho” apenas perpetuam o ciclo de apego ilusório à coisas e ideais externos.

Todas as noções de paraíso são nefastas porque elas pressupõem que o paraíso jamais poderia estar/ser aqui. O ponto da questão é que aqui e agora mesmo é tudo o que temos. O constante desdobramento do momento presente é tudo o que há. Fantasiar sobre o que “há por aí” só te trará dor de cabeça.

 

Texto por Charlie Ambler, do Daily Zen. 

“Nosso mundo está ferido, fraturado, quebrado e queimado. Nós somos produtos deste lugar e é nosso trabalho curar o mundo através da cura de nós mesmos. Às vezes, isso parece como um esforço sem fim. Às vezes parece demais para suportarmos.

E, no entanto, as feridas que circundam à nossa volta são, de certo modo, um território sagrado. Sagrado, porque tocam o núcleo de nossas vidas. São nossas. Fazem parte da nossa viagem. Eles são parte da grande história de amor que é nossa experiência aqui na Terra.

Nós não somos o nosso sofrimento, mas com o que sofremos nos informa da nossa capacidade de manter nossas vidas com grande ternura, em todas as suas pontas e complexidades. Nós não somos o que temos sofrido ao longo do tempo, mas por convivermos com isso, somos transformados.

Profanamos nossas almas quando nos recusamos esse rito de passagem. Abandonamos nosso próprio crescimento, quando nos abandonamos ao longo da estrada que a dor pavimenta através de nossas vidas. Transformamos nossas vidas em terrenos baldios quando fingimos que aprendemos as lições da vida.”

Publicado originalmente no site Chani Nicholas, 14/09/2016, título original: Sacred Territory: The Lunar Eclipse in Pisces.

Eu queria gostar mais de budismo, mas acho que não consigo. Semana passada fui num templo zazen que tem aqui do lado de casa, há uns 200m daqui. Foi interessante a experiência, gostei do ambiente, do ritual, da meditação. Mas de modo geral, não me identifico com aquilo. Acredito que não me adequaria totalmente na disciplina mega estrita deles. Além de ter medo de entrar numa paranóia ainda maior de controfreakness por conta da exatidão dos rituais, eu não me identifico com toda a austeridade que o ambiente impõe à quem se dispõe à prática. Mas embora eu não curta essa sensação, sou capaz de refleti-la perfeitamente (pois sou esponjosa). Depois da prática, quando voltei pra casa me toquei de algo que aconteceu que denuncia essa minha esponjosidade em tempo recorde.

Normalmente, na minha vida, toda vez que vejo alguém cair ou se acidentar na rua, eu fico rindo ao invés de ajudar a pessoa. Fico rindo, não ajudo, não consigo me controlar. Enfim, sou uma idiota. O ambiente para a meditação zazen é uma sala à meia luz, quase escura. Existe todo um ritual de reverência e posicionamento e no total são duas seções hardcore de meditação de 40 minutos. Durante a meditação, minha perna direita dormiu completamente. Me desconcentrei e enfim, foi uma empreitada. Mas teve um exercício entre as duas seções. Quando o monge falou para levantarmos para o exercício pensei “eu vou cair aqui, minha perna tá dormente, vou cair e estragar tudo”. Levantei o mais lentamente que pude, estiquei a minha perna direita para melhorar a dormência e felizmente não caí.

No entanto, uma mulher que estava na minha frente caiu e eu automaticamente estiquei o braço para ajudá-la a se levantar, em silêncio. Na hora não pensei no protocolo, nem no ritual, mas na verdade não foi bem isso o que me causou estranhamento. Horas depois, já em casa, me liguei que eu não ri da mulher na hora em que ela caiu. Nem em pensamento. Nem de modo algum. Só aí me dei conta do quão rapidamente consegui incorporar e refletir de volta um ambiente extremamente austero. Eu só consegui rir de tudo em casa, depois, quando me tornei consciente do que aconteceu. Acho que realmente não sirvo para o budismo, embora tudo me encante na ritualística deles e eu considere a meditação algo importante pra mim desde já. Mas posso voltar ali outras vezes né, por que não?

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