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Nunca gostei de fazer a cama. Ou melhor: nunca vi sentido em fazer a cama, o que tem um significado ainda mais profundo. Nunca tive casa de revista. Meus pais tentaram, ainda tentam, mas eles também não tem estilo. As pessoas também não têm: vivem procurando imitar umas às outras e mesmo até algo aparentemente original, no fundo, não passa de uma cópia de algo que já existiu. Minha casa não é de revista. Não há tentativa. No entanto tenho gostado de algumas coisas ultimamente. Gostar, de qualquer coisa, é sempre um desafio pra mim. Gostar implica em escolher e eu não costumo me dar muito bem com escolhas. Enfim… Nunca gostei de fazer a cama. Não via sentido nisso. Dormir uma noite inteira em um lençol, acordar no outro dia, estendê-lo. Organizá-lo. Deixar bonito. Pra quem? Pra quê? Nunca entendi. O trabalho da minha vida é organizar coisas para os outros, fazer com que fiquem bonitas e funcionais. Na minha casa eu sempre esperei o oposto disso, por isso: a cama sempre desfeita, a estante incompleta, a escrivaninha bagunçada. Em casa eu posso. O último jogo de cama que lembro de ter tido (que lembro de terem escolhido por mim), foi um azul, com flores rebuscadas. Era bastante tedioso. E eu odiava arrumá-lo. Eu devia ser adolescente. Depois de sair de casa efetivamente, há quase 10 anos atrás, ainda continuava não me importando muito com a cama. A cama. O cerne de toda casa. O lugar que você passa 8 horas por dia, no mínimo, pra tentar manter a sanidade. O lugar em que você é você e nada mais por 8 horas. O lugar dos sonhos. Das descobertas. Do alívio. Da melancolia e da angústia. Do descanso. Desses 10 anos, pelo menos 6 foram dormindo em cama de solteira, o que sempre achei um horror. Me viro, a noite inteira. Sou espaçosa. Preciso de espaço. Sim, seis anos. Depois ganhei um estrado e um colchão de casal de uma amiga. Comprei um edredom imenso para o frio. Em menos de um ano, joguei o estrado fora e dormia com o colchão de casal no chão. No chão. Eu não tinha muito apreço por nada, na verdade. Por mim tanto fazia. Costumava me colocar nesses tipos de lugares. As colchas eram sempre brancas, sempre encardidas, com furos de cigarros que esquecia que estavam ali pois estava bebendo. Foi assim por cerca de dois anos e meio. Minhas costas doíam. Era só mais um cômodo da casa. Não fazia diferença. Nunca fez. Sempre desfeita, sim. Até que na metade desse ano resolvi comprar uma cama. Do meu tamanho. Que me servisse. Algo que fosse bom. Não me lembro a última vez que efetivamente tinha me dado algo bom de verdade. E aí veio a cama. Alta. Bate quase no meio das minhas coxas. Imensa. Me viro o quanto quero. Me espalho e ainda há espaço de sobra. Meio vazia. Por hora. Não tenho pressa, nem interesse, nem esse é meu foco ultimamente. Não me ocorreu que eu precisaria vestir aquela cama. Só depois que ela chegou que percebi isso. Eu não queria um jogo de cama que apenas me agradasse. Eu queria um jogo de cama pelo qual eu ficasse completamente obcecada (porque funciono assim). E achei um, onde o atendimento da loja era péssimo e ele já tinha saído de linha. Onde restavam poucas unidades em diferentes lojas por aí. Minhas obcessões são sempre as mais difíceis, não podia ser diferente. Mas eu queria aquelas cores, queria aqueles padrões. E tinha que ser aquele, pois jamais aceitaria nenhum outro. E durante essa busca comecei a observar outras coisas. O próprio ambiente onde estava. As outras coisas ruins que existiam por ali e que eu definitivamente não merecia. Comecei a perceber que eu não precisava aceitar qualquer coisa. E depois tudo aconteceu de forma muito rápida. Mudei de casa. Abandonei o apartamento antigo em questão de semanas, sem o mínimo de apego. Não doei o colchão antigo do chão: o fiz em pedacinhos e joguei fora. Não gosto de mudanças, mas tudo isso não foi uma questão de gosto, mas de necessidade. Sobrevivência. Notei que tenho (tinha, pois doei muita coisa) muito mais coisa do que eu realmente preciso. Objetos, jogos de cama, de banho, utensílios de cozinha, iluminação, roupas. Uma coleção de coisas que jamais partiu de uma escolha minha, mas que escolheram por mim. Doei tudo. O jogo de cama que escolhi e que quis, obcessivamente, chegou ontem. Ele tem duas cores com alto contraste: azul bebê e vinho. Uma padronagem meio indiana, com corações. Nunca me importei muito com azul, mas aquele eu quis. Dormi duas vezes já, ontem de tarde e hoje de madrugada/manhã. Acordei e pensei em ir fazer minhas coisas. Olhei pra trás, a cama estava desfeita. E isso me pareceu profundamente inadequado. Aí acho que pela primeira vez  em toda a minha vida, eu arrumei a minha cama. Eu quis. Sem que ninguém me mandasse. Sem me sentir obrigada porque alguém vem na minha casa e vou me sentir constrangida caso não esteja arrumado. Por nenhum motivo especial, mesmo. E que sim, eu sei que vou dormir novamente e vou desorganizar novamente. Todos os dias. Mas eu só quero que fique bonito. E quero algo bom pra mim. E quero poder cuidar disso.

E tudo isso não precisa fazer absolutamente nenhum sentido.

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