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Arquivo da tag: Desistências

Difícil notar, e assumir, que sempre fiz isso e nunca percebi como sendo uma falta grave. Sempre, a vida inteira, tive várias coisas como certas e definitivas, como se fossem parte da minha vida pra sempre e que não haveria nada que mudasse isso. Acho que isso na verdade é uma grande fantasia minha, que jamais vai se realizar. Eu tomo tudo como garantido, de fato, por achar que simplesmente mereço, independente de qualquer coisa. De qualquer coisa mesmo. Sempre achei que mereci tudo o que tive. Sempre tive o pensamento medíocre de que ‘me esforcei por isso’ ou porque ‘é pra ser assim’. Mas até hoje a vida só cuspiu na minha cara e me disse que, apesar de tudo, não mereço porra nenhuma e não vou ter o que quero, como quero, nem quando quero.

Essa fantasia existe porque, há algum tempo, me cansei de não esperar mais nada da vida. Mas agora volto a acreditar que é exatamente isso o que precisa ser feito. Hoje em dia não duvido mais de absolutamente nada.

Quando eu não esperava nada, vivia uma vida relativamente tranquila. Sofria, mas não muito. Não achava que merecia nada de bom, mas se coisas boas acontecessem, as aceitava. E vivia um dia após o outro apenas, um dia de cada vez. Nunca fiz nada acontecer na verdade, sempre deixava que as coisas acontecessem e depois lidava com elas, ou nem ao menos me dava a esse trabalho. Era simples, bastante solitário, mas eficaz. Era possível viver bem.

Não me recordo exatamente o momento em que comecei a acreditar que merecia certas coisas como se por direito. Acho que houve uma porção de ocasiões ao longo dos anos. Eu estava certa de que também podia ser bastante simples: bastava eu me esforçar o suficiente, fazer o que era certo, me comportar, talvez até fazer o que é esperado em certa medida. E eu realizei uma série de feitos, sem dúvidas, mas raramente era reconhecida e o que eu queria raramente durava. Às vezes nem esperava algo pra mim, simplesmente não me preparava para coisas imprevisíveis. Tinha por certo que determinada coisa nunca, jamais aconteceria. E todas aconteceram. Absolutamente todas, sem exagero algum por aqui. Minha amargura não é cultivada de graça. No entanto, ela me traz benefícios como reconhecer, finalmente, que agir desta forma é um defeito grave mesmo.

Pelo menos houve uma única pessoa quem me jogou esse defeito na cara, sem o mínimo de constrangimento ou embaraço. “Não me trate assim, você toma as coisas como garantidas demais e isso não funciona”. Na época, não entendi porque ele disse isso ou não quis entender. A mágoa e a raiva que eu sentia no momento faziam com que fosse difícil qualquer tipo de auto-crítica ou auto-avaliação. Mas esta frase teimou em permanecer espreitando algum canto da minha memória, para reaparecer novamente num momento mais apropriado, em um novo contexto, sob um novo significado, bem mais profundo. Hoje entendo que isso foi dito porque a pessoa gostava de mim, de fato, e queria me alertar pra este comportamento. E na verdade, o que tinha acontecido neste caso em particular, não tinha sido nem sequer o começo deste tipo de comportamento. Foi leve, foi quase nada. Hoje enxergo que sou capaz de coisas bem piores nesse sentido..

Não basta se esforçar, trabalhar, estudar. Fazer o que tem que ser feito, também não basta. Persistir… Talvez. Acho que nunca tive uma experiência de persistência pra dizer se é vantajoso ou não (ou talvez esteja tendo e, por isso, ainda não posso ter uma opinião concreta). Ter transparência, manter diálogo, tentar conviver já me foi provado que é insuficiente. Gostar, dedicar-se, amar também não é o bastante. Fica então me parecendo que tudo o que é planejado e cultivado tem tanto valor quanto o que é imprevisível, improvisado e que, na verdade mesmo, não há tanta diferença. É um tanto quanto tentador acreditar que é uma questão de sorte, apenas. A semente selecionada e cultivada metódicamente num campo limpo e nutrido brota e sobrevive tanto quanto a que caiu por acaso do bico de um pássaro no meio do lixo.

Preciso me preparar pra uma vida em que nada é suficiente. Preciso me preparar para não precisar me preparar, para não esperar. Work smart, not hard. Preciso me preocupar cada vez menos em ser tão dedicada e me preocupar mais com o que gosto, apenas. Preciso definitivamente relaxar com tudo o que eu gostaria muito que acontecesse (ou que não acontecesse) e prestar mais atenção no que efetivamente acontece (com uma certa urgência). Preciso não tomar mais absolutamente nada como garantido em toda e qualquer área da minha vida. Nada é garantido. Nada estará garantido não importa o quanto me esforce, não importa o quanto eu queira, não importa por quanto tempo eu tente. Para alguns, é um método de permanência, copo meio cheio. Para mim, copo meio vazio, é apenas mais uma forma um tanto quanto peculiar de desistência.

Persevera per severa, per se vera

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