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Ontem fui em um restaurante italiano tradicional, comemorar um aniversário. Não tinha dinheiro, não paguei nada (pago depois). Não reclamei. O prato: penne à parisiense. Ok. Primeiro que veio meio morno, o penne, caseiro, estava ok (nada além disso) e descobri que consigo enjoar brutalmente de molho à parisiense na terceira garfada (ainda bem que o garçom serviu pouco). Não gosto de molho branco, prefiro molho vermelho. Cobicei praticamente TODOS os pratos (com molho vermelho e não) que passaram em volta da minha mesa, principalmente as porpetas. Com molho vermelho. Com muito molho vermelho. Fantasiei, ao longo do dia, um molho vermelho. Cheguei em casa e estava com preguiça de cozinhar, mas fui. Espaguete integral pra cozinhar, depois óleo, massa cozida no óleo, alho, manjericão seco, sal e 1 lata inteira de molho de tomate (porque sim). Comi. Estava melhor do que qualquer restaurante tradicional. Estava melhor que qualquer companhia. Estava melhor do que qualquer coisa. Estava. Sou insuportável.

Yesterday I was there.

Today I am here.

The two are light years apart.

Julian Hibbard, Schematics: A Love Story

Certa vez, há alguns anos atrás, criei uma lista que eu considerava perfeita. Era uma lista bastante detalhada, enumerada, com todas as características que eu considerava apreciáveis. Tudo na lista se encaixava e o perfil parecia relativamente fácil de ser encontrado (embora eu soubesse que não era fácil, na verdade). Olhava pra lista, a organizava e editava inúmeras vezes, me dando por satisfeita sempre. Gostava de fantasiar e imaginar que aquela lista algum dia pudesse se tornar realidade. Pensava que se fosse exatamente da forma que estivesse na lista, eu atingiria meu objetivo, eu seria plena e a minha inquietação finalmente desapareceria.

Eis que um dia, como quem não quer nada, apercebo-me que a minha lista, que julgava complexa e detalhada, havia materializado-se pra mim. Não nego, fui feliz por algum tempo. Até que o que estava na lista tornou-se básico e outras características – as quais eu não previa – começaram a extrapolar os limites da lista, os limites do que jamais havia previsto que pudesse acontecer. Decepcionar-se não foi só inevitável, percebendo esse padrão, preferi considerar a decepção como natural. Toda lista é uma tentativa pífia, humana, malfeita, de exercer controle sobre o que jamais poderá ser controlado. É uma pretensão de racionalidade demarcada sob territórios inalcançáveis e irremediavelmente irracionais.

Todo desejo é fundamentalmente temporário.

Listas, em última análise, são uma mentira.

E em primeira análise, são essencialmente efêmeras.

Todas as escolhas que fizemos, por mais acertadas que pareçam em primeira instância, não passam de ilusões que se desfazem ao longo do tempo. Escolhas apenas nos provam, quase sempre dolorosamente, o quanto somos mais frágeis do que podemos imaginar. Não há como vencer.

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