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Arquivo da tag: Desapego

Nunca passei por uma situação real de luto. Quando eu falo real, eu quero dizer sem volta, uma morte mesmo, de alguém muito próximo. Tudo o que eu passei que se assemelhou à um luto foi, antes de qualquer coisa, uma escolha, minha, do outro. Ninguém morreu, nada grave aconteceu, sempre há a nova chance e o novo retorno, mas mais que isso existem os limites. Enquanto pessoas, somos limitados. O mais próximo que eu senti de um luto foi a vontade de morrer. Senti isso duas vezes. Existirão outras, sei disso. Toda vez que eu digo isso saboreio um certo amargor diferente do qual eu já estou acostumada. Não gostaria que fosse assim, mas realmente a vida não é e nem nunca vai ser do jeito que eu gostaria. Isso tudo ocorrerá, independente da minha vontade. Não sei das vezes que fui forte até hoje. Não sei ser forte e acredito que não há como me preparar pra esse tipo de situação pois cada dor é diferente. Estar preparado ou se sentir preparado para algo do tipo é um tanto quanto ilusório. Nunca fui forte e acho que por isso ainda estou por aqui. Sempre sucumbi, de uma forma ou de outra, a uma série de comportamentos auto-destrutivos (é um padrão, no meu caso) e quando estou sentindo muita dor, levo a minha vida da pior maneira possível, sofrendo, reclamando, me punindo. Faço o possível para estender esse período ao máximo, até que eu perceba que ele não faz mais sentido algum. Cada pessoa tem sua forma, tem gente que prefere se dopar com remédios tarja preta e com a ajuda deles acreditar que está ‘tudo bem’. Cada um escolhe a ilusão que prefere pra suportar o que ocorre. Comecei a pensar nesse tema pois ontem o pai de alguns conhecidos faleceu. Fiquei um pouco impressionada com a quantidade de pessoas que falou “Força” pra eles. Força… O que essa palavra quer dizer, exatamente? Acredito que as pessoas usem esta palavra com a melhor das intenções, mas esse me parece um pedido tão insensível… Dizer “seja forte” num momento de total impotência me soa como chacota. Quando se é humano, é difícil ser forte. Mas isso me levou a pensar que existem diferentes formas de lidar com a morte. Essas formas geralmente estão condicionadas ao apego que se tem pelo que existe e não pela ideia do que existe. Ficamos tristes quando alguém morre, é fato, pois a ideia do que é aquela pessoa cessará de se repetir. Mas se essa ideia vive em nós, ainda permaneceremos tristes, somos humanos, claro – mas nos trataremos de forma muito mais amável, pois o que acontece será um pouco menos entendido como perda, como término e mais como uma passagem, um acontecimento. E isso pode parecer insensível pra maioria das pessoas e de difícil compreensão, porque a única linguagem compreendida entre as pessoas é o drama. E eu gosto do drama, mas sei que por trás dele existem outras coisas. Tenho verdadeiro fascínio pelo que é etéreo. Por ideias que não desaparecem, que apaziguam, que me tornam mais generosa, que me fazem querer amar mais. Ideias que não nos fazem sentir separados de todo o resto, que nos integram à tudo, que nos fazem acreditar que algumas coisas são possíveis. Pessoas, cidades, situações de vida são apenas veículos, fazem parte de todo o drama “bom dia”, “quero você”, “eu te amo”, “estou com saudade” e blablabla. A maior parte das pessoas vai querer te convencer de que tudo isso é real, mais saiba, lembre, relembre-se sempre: não é. O que permanece mesmo é o significado, é a conexão, é estar ali. É nos reconhecermos profundamente e podermos dizer “olá” pra alma do outro. “Se pudermos dançar, dançaremos, se não pudermos dançar, então não dançaremos e tudo bem”. E isso existe e isso pode ser feito e isso fez de mim uma pessoa melhor, pra mim mesma, pra outros. Pra sempre. Enquanto eu estiver por aqui.

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