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Há alguns dias já uma frase tem me assombrado. Ela foi escrita por uma ex-colega de ensino médio no instagram, com quem nem tenho mais contato direito. Sabe aquelas pessoas que você nem lembra mais que existe e reaparecem do nada e você aceita por educação, mesmo porque vocês não tem mais NADA em comum hoje em dia? Então. Ela cresceu, casou, leva uma vida pacada, bancária, casinha, maridinho, vidinha, etc., um tédio, tudo como manda o figurino. No instagram dela, várias fotos de viagens pela Europa. Que bom, né? Sei lá. Aquelas fotos não me diziam muita coisa sobre ela. Em uma das fotos, que parecia mais simples, uma selfie em casa ou qualquer coisa do tipo, a frase: “todo mundo vê as foto que eu tiro na Europa, mas ninguém vê as marmita que eu como”. A frase me chocou um pouco e, a longo prazo, me deixou com raiva. Com muita raiva.

Achei que pudesse ser inveja – porque nunca estive na Europa e este é um dos meus sonhos mais antigos de todos – mas a verdade é que eu tenho vários amigos próximos que vivem viajando e vivem tirando fotos por lá e não sinto inveja deles, então descartei isso. O que me inquietava e continuava me incomodando era outra coisa. Pensei muito nessa frase até que me veio uma resposta: “filha, ninguém tá te impedindo de tirar foto das suas marmita… pode tirar foto delas também, sabe? tá liberado”. Tem aquela coisa também de dizerem que tudo o que te incomoda nos outros é o que te incomoda, na verdade, em você mesmo. E isso é verdade. Bem verdade. Quando eu era mais nova, com uma resposta como essa eu já daria “o problema como resolvido”. Mas a verdade é que não é bem assim que algumas coisas funcionam. Algumas coisas só se simplificam ficando ainda mais complexas, por mais contraditório que isso pareça.

Tudo bem dizer que é um fudido. Muita gente é. Mas porque que a gente não fala do quanto é fudido diariamente? Tipo: o tempo todo? Ok, na verdade existem pessoas que fazem isso de fato e suas vidas são verdadeiros e imponentes muros das lamentações… Algumas pessoas realmente gostam de se vangloriar do quanto são miseráveis (eu mesma inclusa, já fiz muito disso e hoje me esforço para não fazer mais). E eu tenho uma teoria de que isso se trata pura e simplesmente de vaidade, carência e um profundo egocentrismo. Sinceramente não sei como essas pessoas não enjoam de si mesmas em algum momento, porque né… Enfim. Mas nós não costumamos falar destas coisas porque não produz efeito algum ficar falando só de privações, de tudo o que é difícil. Ninguém quer falar muito disso, ninguém gosta de mensurar o tamanho da merda toda, de expôr suas limitações genuínas – e não só por vaidade e atenção.

Privação e sacrifício geralmente são facas de dois gumes: todo mundo acha FODA quem se priva e se sacrifica em prol de alguma coisa ou algo maior, mas absolutamente NINGUÉM quer falar sobre isso quando efetivamente faz isso – ou porque não o faz nunca e acha ok ser medíocre ou porque sente vergonha nisso. E a princípio não é muito claro o porquê disso ser uma vergonha, mas eu vou chegar lá nos próximos parágrafos. Privação e sacrifício são sempre um orgulho quando se tratam do outro (que obviamente está tomando no cu) e uma vergonha absurda quando é com a gente (porque, enfim, sabemos que estamos tomando muito no cu). E todo mundo passa por isso em algum momento da vida. Todo mundo. A diferença é que algumas pessoas escondem bem e outras não fazem tanta questão assim de esconder e não há julgamento moral aqui: ninguém é melhor ou pior por mostrar ou esconder qualquer coisa, todo mundo sabe onde aperta o próprio calo.

E toda a questão de mérito é uma palhaçada pois está necessariamente (perversamente, talvez) vinculado a privações e sacrifícios. A Patrulha da Virtude™ sempre se apressa pra me dizer “você é guerreira”, “você é foda”, “você é esforçada” como se essas coisas fossem elogios quando na verdade mesmo, não são. Isso tudo só corrobora com tudo de violento que eu sofro pra apenas ser. Claro: eu tenho mérito porque eu pago o preço de TUDO o que quero com SANGUE porque eu simplesmente não tenho outra alternativa. Eu não tenho opção. Eu não posso me dar ao luxo de escolher e isso é a minha vida. “Viu só? Você conseguiu!”. Consegui a que custo, cara-pálida? De quais coisas tive que abrir mão, mesmo que temporariamente? O quanto de energia tive que gastar, quantas noites não tive que dormir, o que que eu tive que sacrificar? Não se fala disso. Ninguém quer falar disso.

Eu sinto muita raiva pois eu frequentemente tenho a impressão de que a Patrulha da Virtude™: 1. acha que é fácil ou é vantagem quando totalmente não é; 2. quer me usar de exemplo pra outros “como eu” ou “parecidos comigo”; 3. quer, de forma bastante sutil, tirar uma da minha cara pois eles mesmos nunca ou jamais se prestaram a sacrifício real algum.

“Mas, Dora, as pessoas não falam isso por mal”. Não, não falam por mal. Porque o mal já está naturalizado, nesse sentido. A errada sou eu por questionar isso tudo. Claro.

É que até hoje eu nunca tinha experimentado a sensação de ser invejada por ser uma fudida. Mas ela existe e eu não sinto absolutamente orgulho nenhum disso. Eu me recuso, terminantemente, a honrar qualquer mérito. Estou numa cidade de proporções bizarras e não tenho como me deslocar por aqui sem depender completamente de transporte público. Semana que vem entrarei numa maratona de duas semanas acordando às 4 da manhã, passando 5 horas diárias no trânsito, trabalhando 10 horas por dia e tendo, todos os dias, 3 horas de aula à noite. Não sei quando, como e nem se vou dormir direito, vou tentar fazer isso nas horas que sobrarem. E aí está, se você acha que algum dia eu vou colher louros, ou que vou ter vantagem alguma sobre qualquer coisa: esta é a minha marmita.

E me fode a vida inteira vir gente falando “nossa, como vc é guerreira”… Meu foda-se eu ser guerreira, sabe? Essa não é a questão. Ou ao menos não deveria ser, mais. Eu só tomo no cu nessa porra pra conseguir sobreviver. Então enfia o mérito e os “elogios” no cu, com fritas. Não quero ele, não. Valeu. O meu nível de desgraçamento mental já tá bem alto por aqui. Grande bosta eu ter passado num mestrado se a minha estrutura pra realizar isso é completamente precária e absurda. Grande bosta eu conseguir coisas boas se pra desfrutá-las eu sou obrigada a viver em uma existência que é naturalmente violenta e abusiva – e, agora, cada vez mais. E eu me submeto a isso e resisto a isso por n motivos e n variáveis: por sobrevivência, por querer ver beleza, verdade e significado nas coisas, por construção de identidade, mas principalmente e infelizmente por afeto. Afeto, sim.

Eu sou uma fudida. Todos somos. E não é mérito algum ser uma fudida. Também não tenho orgulho nenhum em ser uma. E nem das coisas que aparentemente “ganho” no processo todo.

 

“Você é má. É por isso que eu te amo”.

Isso me parece como uma velha sina… Um papel ao qual eu me presto vez e outra – involuntariamente – e pelo qual me enxergam, efetivamente. E não vejo isso mudando de algum modo. Estou acostumada a ser mais gostada quando mostro o que eu considero que há de pior em mim. Ninguém nunca gostou de mim quando fui uma pessoa boa. Apaixonada. Entregue. Leal. Isso sempre foi sistematicamente desprezado e desvalorizado. Confesso até mesmo que, como amante, sendo assim e agindo dessa forma, tudo é bastante mediano, mesmo. Eu mesma sinto isso.

Sempre preferem a filha da puta. A que mente. A que é cheia de ódio e rancor. A que faz coisas erradas. Sempre gostam de tirar a minha máscara. De me dizer que eu não sou isso tudo. Eu preciso estar sempre sendo uma farsa pra alguém. Gostam de fazer coisas comigo e isso não significa, nem de longe, que gostem de mim. Me torno um espelho, só que eu sou mais fácil de quebrar. E também um bode expiatório que sempre acaba sendo sacrificado, pra expiar os pecados de todo mundo. O simples ato de me apaixonar e me entregar de fato se tornou sinônimo de me deitar na mesa ritual e aguardar pelo momento oportuno de sacrifício. Eu vejo essas coisas acontecendo comigo, repetidamente.

Essa forma idealizada, que eu tenho de sentir e demonstrar as coisas, ninguém gosta disso. Ninguém entende isso. Gostam da minha crueza. Gostam de quando sou fetiche. Quando provoco revoltas. Quando me distancio e me torno outras coisas, que, para mim, são completamente desprezíveis. Não gosto, nem desgosto disso: percebo como um tipo. É um tipinho que eu faço. Uma máscara qualquer que eu uso e que atrai, mas que para mim mesma não faz a menor diferença, sinceramente.

Acho que tenho sentimentos mistos em relação a isso tudo. Gosto e não gosto. Não gosto porque não é real, é atuado. E gosto porque estou atuando, encenando. Porque fazer parte de uma fantasia me é interessante. E em certa medida gosto porque mesmo sendo fantasia, eu acredito no que eu mesma falo, faço, ajo. É contraditório e complexo isso de eu perceber que preciso cometer atrocidades – ou ainda, de ser uma – para que gostem de mim.

Queria muito saber onde e como isso tudo começou. Mas não vou me dar ao trabalho de desvendar isso. Quero partir de onde estou.

E você não sabe o que é maldade, querido. E se depender de mim, nunca vai saber de verdade. Sabemos que sou mais fantasiosa e espirituosa que maldosa propriamente dito. E também sabemos que maldade é bem mais que isso. Caso contrário, já não mais nos reconheceríamos.

Não gosto de perceber quando as coisas terminam. Ok. Alguns me diriam que as coisas não “terminam”, mas “mudam”. Às vezes, não gosto de perceber a forma com que as coisas mudam. Fico chateada. Não admito, mas fico. É bem chato detectar desprezo no tom de voz de alguém (que um dia já foi) próximo. Ou desprezo num modo de dizer algo.  Também é chato perceber um sorriso de canto de boca quando percebem que você falhou de um modo ou outro. Essas são coisas indisfarçáveis. Na real, até podem ser disfarçáveis, mas esse não é um talento meu… Isso é pra quem pode, atrizes, atores, gente que vive outras vidas. Não tenho essa ‘competência’. Felizmente algumas pessoas ao meu redor também não. Não é a toa que eu percebo…

Tudo começa a ficar ainda mais chato quando as pessoas já ESPERAM pelos seus erros. Os antecipam, de uma certa forma. Querem ver você falhando, errando ou se dando mal. Dizem, ou melhor (pior!) ainda: insinuam, que as coisas não estão tão bem assim com você e que você “poderia ser melhor” e que “antes você não era assim”. “Viu só?”, “Olha aí…”, “Não disse?”. Já estive do lado de lá e agora estou do lado de cá. Essas coisas acontecem e não adianta lutar pra que elas continuem as mesmas. Resistir a essas mudanças é inútil. As pessoas enchem o saco uma das outras e chega uma hora que alguma das partes satura, que as engrenagens não giram mais e várias coisas emperram umas as outras e assim sucessivamente… E eu só quero sobreviver até o final do ano… Só isso.

 

Estou cada vez mais me encontrando nas coisas que estudo. Estava meio perdida até então, mas tenho tido alguns questionamentos que tem me mostrado o caminho. Sim, os questionamentos tem me mostrado o caminho, e não as respostas. As respostas aparecem quando o caminho já foi percorrido. É sempre assim. Tenho me divertido percebendo a diferença do significado das palavras e de como elas trabalham no mundo. E isso tem tido um impacto bem grande em mim. Não é ruim,  nem bom… É só curioso mesmo.

Sempre me senti muito burra. Acho que sempre me sentirei. Não sou a pessoa mais brilhante que conheço, bem longe disso… E nem nunca foi minha intenção ser. Não é. Eu só quero fazer o que gosto. Só isso. E descobrir isso é difícil, doloroso… Mas tem sido curioso, tenho me identificado com algumas coisas em específico. Fico pensando nessas coisas… Por exemplo, todas as vezes que me deparo com um texto difícil de ser compreendido. Leio e releio o parágrafo várias vezes e fico me sentindo meio burra e meio louca. E a compreensão daquele parágrafo geralmente ocorre num outro horário do dia, enquanto estou fazendo alguma outra coisa que em nada tem a ver com aquilo que eu lia. E eu deveria soltar um ‘Eureka!’ mas não solto. Não sou genial, nem nunca serei. Sou apenas lerda.

Esse tipo de baixa auto-estima que eu tenho não é de hoje. E também não sou a única que conheço a ser assim. Sempre vão existir pessoas pra te chamar de burra ou pra esfregar na sua cara que sabem mais sobre determinado assunto que você. Sempre vai ter alguém pra te subestimar. A opção de se afetar (com isso e/ou por isso) ou não é inteiramente sua. Se alguém mais inteligente que eu me subestima, acho bobagem. Perda de tempo. Nego vai ganhar o quê discutindo com gente mais idiota que ele? Se alguém mais burro que eu me subestima, acho engraçado. Só acho engraçado… Pra caralho.

Já estou acostumada com essa situação e não me sinto mais diminuída com isso, com o que as pessoas pensam ou não. Nunca fiz o tipo “vítima” por mais que fosse. Na verdade, acho que se sentir diminuída com isso é coisa de gente recalcada. Não sou recalcada, sou, de certa forma, acomodada. Não me importo em não saber. Não me angustio. Se me angustio, busco saber e faço algo acerca disso. Pra mim, as coisas precisam estar em constante mudança pra que eu me sinta motivada, de uma certa forma… E quando tenho curiosidade, vontade mesmo de saber, eu busco… Busco mesmo. E mudo. Mas geralmente se essa busca se torna muito metódica, por muito tempo, ela me ENTEDIA. Profundamente. Então fico meio relaxada mesmo.. E não tenho problemas com isso.

Mas eu deveria ter. Como diria mamãe “fui criada” pra ter, como se eu fosse sei lá, uma máquina a ser programada pra agir de tal forma, um ser completamente sem personalidade e vida própria que fosse uma réplica perfeita dos valores da minha mãe. Depois eu é quem sou louca… Minha mãe sempre me preocupou. Em algumas conversas que tínhamos, todas as vezes que eu desconstruía as coisas que ela dizia, ela tinha reações de ódio e claro, me chamava de maluca. Sempre interpretava minhas respostas como “cinismo” ou “malcriação”, quando na verdade não eram nada disso… E isso acontece também em vários outros campos da minha vida. Não vou fazer comparações aqui por que acho desnecessário, mas eu sei o que quero dizer e isso basta.

Quanto a “querer saber” ou “querer entender melhor”, vou até o meu limite… Não fico extrapolando por motivo x, y ou z. Não discuto, não arrumo argumentos, não brigo, não perco meu tempo, não me descabelo, não me desgasto por nada nesse mundo nem nessa vida.  Sempre dou um real pra não precisar participar ou engajar uma discussão que nunca dá em nada, por que sim, até hoje, eu NUNCA vi uma discussão dar em coisa nenhuma, MUDAR realmente algo. Não me meto em discussões por que sei que nunca vou mudar nada, seja o que for.  E o meu objetivo aqui não é competir com ninguém: é encontrar o meu lugar. Seja ele qual for. Forçar barra não é comigo não.

Descobri minha natureza “mediadora” há pouco tempo. E aprendi que isso é algo que preciso EXPLORAR e não lutar contra. Por muito tempo minha mãe quis encutir na minha cabeça que certas características da minha personalidade eram ERRADAS quando na verdade, eram APENAS características mesmo. E pra isso nem sempre há certo e errado. As coisas apenas são. Tomar partido nunca foi meu forte. Tenho aversão a militâncias de qualquer tipo. Se considero algo importante, tento enxergar algumas possibilidades praquilo, mas a minha tendência é não ser radical. Não ser muito preto no branco, mas tentar enxergar os vários tons de cinza. Ou se for radical, o ser premeditadamente pelo menos, sabendo disso, conscientemente. É difícil explicar. Mas está bom por hoje.

Um dos maiores medos que tenho na vida, antes mesmo que o medo primordial de morrer, é o medo de engravidar. Tenho muito medo mesmo, um verdadeiro pânico só de pensar na situação. Se o medo de morrer é (bem) menor do que o medo de dar a vida a alguém, vocês podem então imaginar o meu medo. Felizmente existe a pílula anti-concepcional e isso faz de mim uma mulher muito feliz e realizada. Com menos medo, com certeza.

Decidi definitivamente por não ter filhos há pouco tempo atrás. Sim, o definitivamente é pra irritar mesmo.. Sei que nada é definitivo, mas… Pra mim, por hora, é. A vida é feita de escolhas e essa é uma das minhas. Tenho vários motivos pra não querer engravidar e irei numerá-los por aqui.

Acho que não possuo o que chamam de “instinto materno”. Não o possuo e não pretendo desenvolvê-lo.

Um dia já me disseram com todas essas palavras “acho que você seria uma boa mãe”. Na verdade eu não sei o que ele quis dizer com aquilo. Quis concordar e acho que por dentro concordei, mas por fora me censurei. E continuo me censurando. Sim, talvez eu fosse uma boa mãe. Talvez.

Mas realmente eu percebo que a minha vida não está rumando pra isso. Já tenho 25 anos, percebo que não vou casar  tão cedo e que também não vou ter espaço na minha vida pra filhos. E mesmo que eu tenha espaço: não quero, não tenho essa vontade. Acho triste por um lado, mas por outro acredito que não se pode ter tudo. E a minha escolha já está feita. E quem quer que apareça terá de se adaptar à ela, se quiser conviver comigo.

“Acho que você seria uma boa mãe”. A frase martela pesadamente no fundo minha cabeça. Olha, sinceramente… Eu não tenho jeito nenhum com crianças. Nunca tive. Nunca soube lidar com elas e nem fiz e nem faço questão. Prefiro ignorá-las na maior parte das vezes. Eu não sei conversar com elas, não sei como tratá-las. Sou um verdadeiro fracasso nesse sentido. Não tenho paciência, nunca tive, nem com minha irmã menor, que sofreu muito nas minhas mãos.

Mas existem outros motivos sim… Motivos que tem a ver comigo.

Devo ter sido uma criança que não deu muitos problemas pra minha mãe, acho. Mas a partir dos meus 12 anos, fui uma  pré-adolescente/adolescente muito “problemática” e lembro muito bem o quanto a minha mãe sofreu por isso. Na minha concepção, e pelo que pude observar, ela mais sofreu do que teve alegrias comigo.

Minha mãe é uma pessoa muito, muito estranha. O objetivo de vida dela é conciliar uma carreira cheia de compromisssos, com uma vida familiar intensa. Duvido que alguma vez ela tenha falhado na primeira, mas quando ela sente que falha na segunda (mesmo que não tenha falhado), ela sofre imensamente. E claro, me culpava (direta e indiretamente) pelos sofrimentos dela. E eu, adolescente que não sabia das coisas, carreguei a culpa por todos os sofrimentos dela por muitos e muitos anos..

Hoje não faço mais isso. Os sofrimentos são dela, não meus. As culpas, idem. Hoje consigo identificar prontamente quando ela quer jogar algum sofrimento ou culpa pra mim.. Chega a ser infantil a forma como ela faz isso, mas na mesma hora eu faço com que ela note e reconheça esse erro de comportamento. E hoje em dia ela se irrita, porque eu detecto as intenções dela de me usar como bode expiatório dos problemas que ela não consegue resolver consigo mesma. Enfim… Histórias dentro de histórias.

De qualquer forma, a possibilidade de eu ter uma filha como eu mesma, me irrita bastante só de imaginar. Mesmo tendo me livrado de boa parte das culpas da minha mãe, ainda penso que dei “muito trabalho” pra ela porque vivenciei muitos dos seus sofrimentos, mas a bem da verdade é que eu fui uma adolescente como qualquer outra, com coisas boas e ruins. Não vou entrar no mérito de como foi a minha criação por que senão o post vai ficar mais longo do que já está e esse texto vai sair do foco mais do que já saiu.. Enfim.

Existe uma outra pergunta que me intriga bastante… Quem seria o pai da criança? O pai do meu filho/a?

Bem, atualmente estou solteira. E me vejo solteira por mais uns 5 anos, tranquilamente. A possibilidade de eu engravidar hoje é nula tanto porque estou tomando pílula, quanto por não ter vida sexual ativa. Previsão de estabilidade emocional? ZERO. Previsão de estabilidade financeira? IDEM. Se não tenho previsão dessas duas coisas, se nada nessa vida me dá o mínimo de segurança, porque diabos eu colocaria a vida de uma pessoa que nem existe em risco por isso? Não sei… Isso não me parece justo. Nem certo. Por isso me cuido tanto pra que isso não aconteça, mesmo que “sem querer”.

E aliás, pra mim, não existe isso de “sem querer”, de “acidente”. Existe camisinha, pílula anti-concepcional e pílula de emergência. Não existem “acidentes”. Existiam acidentes, há sei lá… 50 anos atrás. Hoje, não. Hoje a gente se cuida. Vou soar muito escrota no próximo post, mas enfim… “I don’t mean to sound bitter, cold, or cruel, but I am, so that’s how it comes out.”

Quem irá ficar com o corpo todo deformado, quem irá carregar, passar noites sem dormir e sofrer pra parir a criatura sou EU, então a culpa pelo “acidente” é sim toda minha. Homens são homens: irresponsáveis por natureza, ainda mais relativo à essas coisas. Não acho que os homens devam ser responsabilizados pelo que simplesmente não lhes diz respeito… Ainda mais quando eles nem mesmo tem noção de como é isso (estar grávida).

Soando completamente antifeminista mesmo, a responsabilidade é toda da mulher. Isso de “mas nós fizemos isso juntos” é conversa pra boi dormir. Toma pílula, caramba!!! A não ser que você realmente queira agir de má fé, o que eu acho uma cagada igualmente fenomenal.. Mas aí é outra história. Soei machista? Pois bem… Fazer o quê, né?

Mas voltando à questão de não querer ter filhos, pra mim não é tanto uma questão de “ser egoísta” mas acredito que na época que eu realmente começar a curtir minha vida como ela deve ser curtida (lá pelos 35~40 anos) não quero ter impedimento nenhum pra nada: viagens, compras, mudança de cidade, mudança de apartamento, o que for. Quero poder fazer o que quiser sem ter ninguém dependendo de mim pra isso.

Sendo muito otimista (e talvez ingênua, como sempre), a minha previsão é de até os 35 ter “terminado meus estudos” (como se isso fosse possível algum dia na vida…) e depois que atingir uma certa estabilidade, viajar pra lugares diferentes que eu não conheça. Ou ainda, viajar para os mesmos lugares, só que várias vezes seguidas. Afinal, a probabilidade é de que eu continue solteira pro resto da vida e só trabalhe mesmo. Eu sei que esse é o meu destino. Já aceitei isso. Pois bem. Paciência.

Esses dias conversando com um amigo ele me disse que tem gente que pergunta pra ele:  “e quem vai cuidar de você quando você estiver velho?”. Resposta dele: “Essa não cola. Tenho primos e alguns já tem filhos. Seja um ‘tio’ legal e também tá valendo. Na pior das hipóteses, vou pra uma casa de repouso da vida. Bem mais barato do que criar filho”. Pois é. Penso que a minha irmã terá muitos filhos por mim.. Então prefiro me preservar bem pra poder estragar todos os filhos dela.

Voltando a falar da minha mãe, a cobrança por parte dela para que eu tenha filhos é outra coisa que me irrita muito. Acho que se minha mãe quer tanto bebês assim, ela deveria adotar mais alguns e não ficar me importunando com isso.

Um dia eu peguei minha mãe na curva com essa história de “netos”. Ela veio cheia de graça pra mim, como sempre vem, com essa de  “E os meus netinhos? Mimimi… Queria tanto netinhos…” e eu comecei então uma discussão, falando que não quero ter filhos, que não é pra mim, não tenho o perfil, etc. E então ela começou a discutir comigo como se não houvesse amanhã e eu, bem… Eu fiquei quieta né? Fiz cara de Monalisa até ela encher o saco de ficar reclamando a toa…

Aí esperei ela se acalmar,  aquietar… PARAR de falar. Olhei pra ela com o meu olhar mais profundo e falei no tom mais sério que eu consegui fazer:

“Mãe: e se eu te dissesse que eu estou grávida, agora mesmo. Que eu estou esperando um filho, um neto, SEU neto, que vai nascer daqui uns 6 meses… Você iria gostar?”

Aí ela me olhou… olhou… pensou.. e respondeu: “Não”.

Aí eu falei “Ok, mãe. Obrigada”.

Mas é ÓBVIO que ela se borrou quando eu falei que podia estar grávida. Ficou pálida com a possibilidade de ser avó e com a possibilidade de o que eu tinha acabado de dizer ser verdade. Foi engraçado. Mas não, não era verdade… Eu nunca engravidei e nem pretendo. Não sou imbecil nem louca de jogar o que me resta de vida fora. Mas a pressão pra parir no meu caso é muito maior por eu ser mulher. Acho isso ridículo, mas já fiz minha decisão. E a minha decisão consiste em alguns fatos irrevogáveis que vou ter que carregar, pro resto da vida:

Serei a única mulher da minha família que irá “ficar pra titia”.

Meu pai não vai me levar em altar nenhum e eu não irei engravidar.

Minha existência enquanto mulher será seriamente e socialmente comprometida, pela minha decisão (Hahahah).

Eu serei MENOS mulher dentre todas as mulheres (Hahahahahahahahaha).

Não cumprirei meu propósito biológico para com a existência (AHAHAHAHAHAHAH).

Serei pra sempre uma solteirona e daqui alguns anos serei vista como uma leprosa pra sociedade. (Oh, well… :D)

Pois bem… Essas coisas acontecem.

Boa parte das pessoas acredita que as mulheres que não têm filhos são necessariamente amargas. Não diria amargas, mas sim, talvez elas não sejam lá muito amáveis.

E como eu já não sou amável de qualquer forma, não seria um filho que me faria ser.

A verdade é essa.

Por incrível que pareça, meu primeiro ímpeto de senso de responsabilidade iniciou-se quando eu comecei a assistir PORNOGRAFIA. Ok, não a ASSISTIR pornografia no sentido de ser periódica e constantemente, nem saber das atrizes mais conhecidas, etc. Falo dos primeiros contatos que tive com tudo o que é erótico e sexual, de entender e conceber o que é pornográfico. E eu tive esses contatos em idade muito jovem, algo entre 9 e 10 anos de idade. Não, eu não fiz sexo com essa idade, mas eu já entendia o que era (o que ia onde e porquê) e pra que servia (como engravidar, etc). Primeiro os livros de ciência, os órgãos por dentro, como funcionavam e pra que serviam (em teoria). Depois apareceram as famosas “revistas de mulher pelada”. Depois, revistinhas de contos eróticos.

Se bem que nunca precisei ir muito longe: as novelas e filmes sempre deixavam o meu imaginário sexual bem curioso e embora criança eu não era burra: sabia que a realidade não era daquela forma.

Quanto à pornografia mais chula (revistas com imagens e contos) eu via aquelas coisas (e também lia) e aquilo tudo me excitava muitíssimo, sem nem mesmo eu nunca ter encostado em uma pessoa do sexo oposto. Afinal, eu era uma criança. E sim, claro, por que no início a sexualidade é (comigo foi) homossexual.  Com certeza deve ter alguém que defende isso, eu não defendo nada, mas enfim isso foi um fato comigo, entre 10~12 anos. Tive criação católica e nem por isso me sentia culpada e também não achava o que fazia errado. Não conseguia explicar a mim mesma porque achava mulheres mais atraentes. Simplesmente achava. Na verdade eu me lembro que quando criança eu achava os meninos MUITO feios (sem graça) e os homens terrívelmente ASSUSTADORES por que eram grandes, nojentos e tinham pêlos.

Morria de medo de pau. Sempre tive medo. Mas era um medo VIRGINAL, não era nojo, falta de preferência ou pânico. Era um medo que eu não compreendia e que só fui superar depois do meu primeiro beijo num menino. Aí eu já tinha 13 anos. Eu não era uma menina muito brilhante, mas também nunca fui uma completa idiota que podia ser levada no papo. Poderia ter perdido minha virgindade com 13 anos se eu quisesse (como a maioria das minhas colegas de classe RETARDADAS mentais), mas não quis e foi uma ESCOLHA e uma OPÇÃO. Eu tinha um critério muito simples pra perder a minha virgindade: tinha que estar namorando e tinha que gostar do rapaz. Depois disso, tudo fluiria muito naturalmente e eu não ia ter que carregar lembranças ruins ou traumáticas PRO RESTO DA MINHA VIDA. Quando eu tinha 13 anos virgindade era um tabu e lembrar disso me faz rir TÃO ALTO hoje.. Mas enfim.

Perdi minha virgindade com 16 anos e foi exatamente do jeito que eu quis e planejei. Foi ótimo, sem traumas e não me arrependo até hoje. Esperar foi a melhor coisa que eu fiz. No entanto quando eu era mais nova, todas as vezes que neguei sexo e me justifiquei falando sobre a minha opção, vários guris me chamaram de BURRA. Aquilo me magoava, mas eu sabia que era uma tática pra me fazer fraquejar. Mas não funcionava. Como disse: eu não era brilhante, mas nunca fui uma completa idiota. Fui burra até quando quis. E depois quando consegui o que queria, deixei de ser “burra”, rs. Aliás, nem sei por que ainda tô falando de sexo, mas acho que tenho uma boa justificativa. Comecei o post falando de pornografia né? Então. Depois que perdi a virgindade e comecei a asssistir uns programas bobinhos que passavam de madrugada, algumas coisas me fizeram pensar em outras.

Teve um dia na minha vida (ou melhor, uma noite) em que eu estava assistindo sobre algum programa de sexo/sexualidade na TV que mostrava a rotina de umas mulheres que faziam fotos pornográficas pra revistas/internet, não me recordo muito bem. No entanto, eu me lembro muitíssimo bem da frase que uma dessas mulheres falou e não sei por que motivo essa frase me marcou tanto, mas marcou. Ela disse algo como “these pictures are forever“. Na época não entendi, mas guardei esse frame na minha memória e vez e outra essa frase volta quando faço (ou estou por fazer/falar/agir) algo: AND THIS IS FOREVER. Quando eu era mais nova não me importava muito não, me lixava pras coisas, achava que nada teria o mínimo de importância e gostava de tudo que era efêmero. Ainda gosto, mas não mais da mesma forma. O que a gente faz é pra sempre, mesmo que seja efêmero, mesmo que se transforme, mas ainda continua lá.

Acho imbecil e sempre acharei a maldita frase do Antoine de Saint-Exupèry “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativa”. Frase imbecil, pensamento imbecil, mentalidade IMBECIL. Essa frase carrega uma quantidade de BUNDAMOLICE quase que insuperável. E as pessoas sonhadoras que a apóiam deveriam trocar essa frase por outra tipo: “o homem é responsável por aquilo que é” ou ainda “estamos eternamente condenados a sermos livres”. ISSO é ter culhões e não ficar jogando a RESPONSABILIDADE por quem você é e pelo que você sente, a outras pessoas. Não respeito filhos da puta, mas RESPEITO quem se ASSUME filho da puta. Ter culhão também é dizer que sente medo, que não tem coragem e que não faria algo por que não quer, ou por que não acha justo ou certo. Ter culhões é dizer que não concorda com casamento homossexual e ainda assim SER MISS, independente de qualquer coisa.

Ter culhão é pedir desculpas e assumir um erro. É ser “metamorfose ambulante” e se assumir assim. É criar algo sabendo que esse algo vai ter fim. Ou ainda: destruindo esse algo por conta própria. E criando outros, talvez. É julgar e ser julgado por que O MUNDO e a EXISTÊNCIA é feita de julgamentos e você não tem como impedir isso. Ter culhão é saber dizer NÃO quando tudo o que você mais quer é dizer SIM (pros outros e pra si mesma). É ser promíscua e assumir a promíscuidade e suas conseqüências (SIM, EXISTEM consequencias apesar de ainda ter gente que pensa que não vive numa sociedade MACHISTA pra caralho). É assumir seus gostos, suas vontades e sua(s) personalidade(s), independente de certo ou errado, independente de tudo ou de todos. É simplesmente SER e SE DEIXAR SER. Sem amarras, sem constrangimentos, sem PIEDADE.

Falta muita gente com culhão nesse mundo viu?

Vou te contar..

Esses dias pensei em fazer esse post por que o Felipe tinha feito um post sobre banhos. Ou melhor, sobre “o banho”, o ato de banhar-se. Mas esse meu post seria sobre um outro hábito: o escovar de dentes. Mas pra falar disso eu tenho que lembrar de coisas que vieram antes. Ao que tudo indica, a saúde bucal da minha mãe não foi das melhores na juventude dela. Então, ao longo da vida dela ela tentou incutir a paranóia “escovar os dentes 3 vezes ao dia é muito importante” em mim.

Ao contrário dela talvez, desde que fui pra escolinha aprendi a escovar os dentes e desde pequena minha mãe me levava na dentista e eu gostava. Mas gostava normal, nunca fui obcecada pelos meus dentes e nem por manter eles limpos o tempo todo. Quando pequena eu devia comer doces normalmente, como qualquer criança come. Mas a minha vida inteira a encheção de saco da minha mãe por escovar os dentes 3 vezes ao dia meio que me  irritava. Não entendo essa convenção de ter de escovar os dentes 3 vezes ao dia até hoje.

Tive que usar aparelho uma vez, o móvel. Não lembro qual era a minha idade na época, mas tive que usar por uns 2 anos. Depois disso, a dentista disse que meus dentes estavam perfeitos e que tudo estava bem. Nunca tive uma cárie sequer e só quebrei (lasquei) um dente uma vez por causa do piercing na língua. Também tenho amígdalas porosas, mas morro de preguiça de fazer a cirurgia pra retirá-las, mesmo por que, acho que não vai adiantar nada. Nunca fui de escovar meus dentes doentemente durante 3 vezes ao dia, mas também nunca tive problema nenhum com a minha boca/dentes, a não ser umas eventuais aftas vez e outra.

Meus dentes não são exatamente brancos, são de cor de areia, acho. Sei lá, acredito que seria bizarro ter dentes muito muito brancos, que nem nas propagandas… Não me parece muito… humano. Também nunca mandei clarear meus dentes e nem mandaria. E meus dentes só não são “brancos” pq eu não os escovo direto e também por causa da quantidade de chás que tomo. Nunca tomei muito café (só tomo com leite) e nunca fumei o suficiente pra deixar os meus dentes amarelo-doente. E pra mim esse lance de dente branco, branquíssimo é meio que lenda.. E se eu ver alguém com dente realmente assim algum dia, acharei bizarro.

Enfim… Não escovo os dentes três vezes ao dia e nem por isso sou uma pessoa menos digna.

Não tenho mau hálito então, sei lá.. Whatever. Não como quilos de doces diariamente a ponto de deixar meus dentes podres de cariados, então não tem por quê eu ficar escovando direto a não ser que eu coma coisas que tenham muitos ‘fiapos’ (certos tipos de carne e frutas). E pra todos os casos, acho que escovar eles no fim do dia é o suficiente.

PIC_6333Em fevereiro do ano passado raspei a cabeça por que eu não aguentava mais a forma que eu tratava meu cabelo. Ele já tava todo fodido mesmo e começar do zero foi uma opção razoável, uma vez que não tinha outra que consertasse os estragos que fiz nele durante anos. Mas raspar a cabeça não foi uma decisão precipitada, foi tudo bem premeditado, eu queria aquilo, queria passar pela experiência e foi uma época boa pois eu estava muito segura de mim mesma. Hoje acho que não faria a mesma coisa. Mas nada/ninguém em específico me motivou a raspar a cabeça, apenas minha própria vontade. Não tive nenhuma motivação imediata pra isso, só uma a longo prazo (faz 1 ano e 4 meses que raspei a cabeça) que foi voltar a ter um cabelo bem cuidado, forte, natural e bonito. E isso eu consegui, sem esforço nenhum e sem gastar um puto com salão, nem nada. Só com shampoos bons.

Mas não adianta: só aprendemos a mudar alguma coisa (qualquer coisa) em nós mesmos quando nos constrangemos o suficiente. E essa é a única verdade que eu conheço até hoje.

Com as minhas unhas o caso foi diferente. Sempre roí unha desde que me conheço por gente e nunca houve nada, nem ninguém que me fizesse parar. Minha mãe sempre me levava na manicure, mas não tinha muito jeito.. Não passava uma semana sem roer as unhas. Sempre que ficava ansiosa com qualquer coisa, piorava: roía até a carne. Mas no começo desse ano dois acontecimentos me revoltaram bastante comigo mesma. Não adianta: raiva, ódio e constrangimento são os únicos sentimentos desse mundo que me movem. Mas só me movem quando eu os sinto por mim mesma, nunca pelos outros.

Se não me falha a memória esses acontecimentos ocorreram num espaço curtíssimo de tempo, com diferença de 1 ou 2 dias de um para outro.

O primeiro acontecimento:

Meus pais viajaram e deixaram eu e minha irmã em casa. Nós dividíamos os afazeres da casa, que era basicamente lavar e secar louça. Nunca tive problemas com isso (lavar louça, afazeres de casa em geral) mesmo por que, nunca tive unhas: fato. Não me importava com o fato de não ter unhas, sempre fui assim mesmo e sempre lavei louça sem maiores problemas… Enfim. O problema é que eu lavava a louça, minha irmã esperava elas secarem (e não as secava) e depois, quando e se ela quisesse, ela guardava as louças… Ou seja, ela não fazia porra nenhuma e o trabalho ficava todo pra mim, independente de qualquer coisa. Por dois dias eu não reclamei. No terceiro eu avisei a ela que não iria lavar a louça por que já tinha feito aquilo por dois dias e nós precisávamos dividir as tarefas. O argumento dela?

Eu não posso lavar louça por que tenho unhas compridas, vou no salão toda a semana e pago uma fortuna pra manter minhas unhas bonitas. Você rói unha e não se importa mesmo com isso, então lave louça você.

O que eu fiz? Lavei toda a louça. Todos os dias. Até o fim das férias, que foi quando ela e meus pais foram embora. E guardei aquelas palavras dela pra mim. E elas estão muito bem guardadas.

O segundo acontecimento:

Saí com um conhecido pra jogar sinuca com unhas horríveis. Acho que não preciso dizer mais nada, a frase por si só explica tudo. Sei que não deveria, mas me senti constrangida. Bastante constrangida.

Então a partir do dia 10 de fevereiro de 2009 eu DECIDI parar de roer unhas de uma vez por todas. E isso já dura 4 meses. Comprei creme para as mãos e unhas, uma base com vitaminas e vários esmaltes (vermelhos, escuros e só um clarinho) e agora vou na manicure mensalmente por que eu não sei fazer as unhas direito (gosto delas quadradinhas). Não foi fácil. Como no início minhas unhas estavam muito fracas (por que por toda vida eu as roí), elas quebraram várias vezes e foi difícil mantê-las bem e principalmente ficar sem roer. Mas eu lembrava da cara de ironia da minha irmã e da sinuca, passava uma lixa, uma base e não colocava a mão na boca. “Uma hora cresce de novo”, eu pensava. E elas cresceram mesmo.

Uma nota curiosa: mesmo com unhas compridas, continuo lavando louça e fazendo as coisas de casa sem problema nenhum. Uma coisa não impede a outra e eu sou a prova viva disso. Se acho que minhas unhas podem estragar, nada que uma luva amarela não resolva. E sim, claro, não vejo a hora de contar sobre essa minha experiência à minha irmã. Gostaria muito de ver a reação dela e de ouvir qual será a desculpa dela desta vez.

E eu nunca pedi isso pra leitor nenhum, mesmo por que não me importo com quem lê isso aqui, mas hoje eu vou pedir pra quem lê: por favor, não me levem a mal. Eu nunca me vingo. E também não guardo mágoa. Não me vingo por que sou incompetente demais pra isso e não sinto rancor por que percebi que não posso extrair nada de proveitoso disso. Mas com certeza eu sempre serei infinitamente curiosa acerca das reações das pessoas, de como elas lembram das coisas (por mais que eu não lembre) e lidam com as situações, por mais bobas que aparentemente sejam.

Hoje em dia o ato de roer unhas me parece muito nojento. Desacostumei de tal forma que não me imagino mais roendo unha. Já tava na hora né? Vinte cinco anos na cara e com mãos e unhas horríveis.. Mas nunca é tarde pra aprender nada nessa vida. Se não se aprende por bem, se aprende por mal. Ainda bem.

Boa parte da minha vida não decidi por nada do que aconteceu comigo, deixava que decidissem por mim. Analisava todos os pontos, todas as circunstâncias, delineava todas as situações e jogava pras mãos das outras pessoas, algumas vezes, inconscientemente, outras muitas vezes, de propósito mesmo. Talvez isso não seja errado e funcione com outras pessoas, mas hoje eu não considero esse tipo de comportamento adequado pra mim. Tomar decisões, sérias e desagradáveis, faz parte da vida adulta. Mas acho que não tinha me tocado disso até esse ano. Ou talvez eu até tenha me tocado disso há alguns anos, mas nunca fiz questão de tomar as rédeas das situações por que talvez eu não me achasse digna de minha própria confiança. Acho que morar num lugar deprimente e ter baixa auto-estima colaborava pra que eu fosse assim também. Mas com certeza existiam outras coisas que faziam de mim uma pessoa insegura.

Hoje acredito que tudo está melhorando aos poucos. Ano passado mesmo, quando perguntavam pra mim o que eu queria, não sabia o que responder. Dizia que era preguiça, mas na verdade era covardia, medo mesmo. Hoje tenho mais respostas sobre o que quero, mas ainda não está bom, sei que posso melhorar um pouquinho mais nesse sentido. Percebo que ainda sou muito, mas muito desonesta comigo mesma quanto ao que eu realmente quero, quanto à todas as coisas que quero. Existem muitos auto-enganos na minha vida e eu tenho uma grande dificuldade em identificá-los pra ao menos poder saber o que fazer com eles: aceitar ou rejeitar. Antigamente eu culpava as pessoas por que claro, é muito mais fácil culpar os outros por erros meus, óbvio. Mas agora presto muito mais atenção no meu suposto discurso, nas coisas que falo, que penso, que aparentemente desejo. Confronto eles diretamente com a realidade pra ver se é isso mesmo, se aguento o tranco, se posso bancar… E sempre perco. E sempre ganho. E isso é tudo muito bom… E completamente devastador e desgastante, emocionalmente falando.

Por isso muitas vezes prefiro calar. There are things that are better left unsaid.

Por isso nunca gostei de pensar nessas coisas: por que elas dão trabalho, cansam, dóem. E quanto mais eu tento  dar uma de “durona”, pra demonstrar que não tenho problema nenhum em lidar com sentimentos ruins, mais eles me aterrorizam e me devoram por dentro. Então é preciso ir com muita calma nesse território. Preciso saber lidar, ter controle, sempre. E me resguardar ao mesmo tempo. É difícil. Muito difícil. Mas não é impossível.

Felizmente percebi também que tenho cada vez mais parado pra pensar, analisar, julgar, escolher e decidir quando já estou com a cabeça completamente fria, quando aparentemente não existem mais sentimentos, ou pelo menos nenhuma agitação aparente causada por paixão, ódio, mágoa, raiva, etc. Na verdade quando esses sentimentos existem, estão atuantes e eu me sinto agitada, tudo o que faço é NÃO pensar em nada disso e me resguardar muito, me preservar. Até (e principalmente) de mim mesma. Notei que é sempre melhor assim, que os danos são bem mais modestos e os resultados são melhores. Bem, funciona pra mim.

Não sei se é a maturidade que me trouxe isso ou o quê, mas a verdade é que de certa forma me eduquei a NÃO PENSAR quando estou com qualquer sentimento que não sei dominar direito, ou que eu não consigo nomear por que “não existe”. E tem sido bem melhor assim. Outra coisa que tenho notado é que cada vez menos tenho PRESERVADO os sentimentos ruins, sejam eles muito intensos ou não. Não preservo mais coisas desagradáveis, não faz mais sentido pra mim isso hoje. Não sei exatamente porquê isso acontece, mas acontece e me sinto bem por isso. Antigamente esses sentimentos pareciam durar por uma eternidade. Hoje, não passam de uma semana.

Mas talvez isso aconteça por que existe uma dor que eu ainda não experimentei.

E ela aparecerá, mais cedo ou mais tarde.

The trick is to keep breathing.

Fazem dias que não canto. Não sinto nem ao menos vontade. Me sinto triste, meio vazia. Mas tudo bem, acho que é assim mesmo. Sempre é.

Na verdade não é que não sinta vontade. É que não consigo mesmo. Isso é ruim.. Mas acho que passa.

(…)

Hoje a tarde parei na janela, olhei lá pra fora. Lembrei de uma música que sabia cantar.

Uma música que aprendi. Decorei.

Comecei a cantá-la.

Logo nas primeiras frases os meus olhos encheram de água.

Na terceira frase eu já não conseguia mais.

Tem um nó na minha garganta.

O som da minha voz sai muito amargo.

Deixei as lágrimas caírem, como se não as notasse.

Como se não fosse comigo.

Tem sido sempre assim, nos últimos anos.

(…)

Não consigo mais cantar como, sei lá, um mês atrás. Não consigo mais cantar de jeito algum.

Não respiro direito, minha cabeça dói, minha voz sai esquisita.

Não sinto mais vontade e a espontaneidade de antes não existe mais.

É como se eu estivesse num limbo.

E nem o banho calmo e nem a louça suja me inspiram mais.

A voz não sai, ou teima em sair amarga.

Não consigo me ouvir, minha voz me irrita.

E tem um nó na minha garganta.

Me sinto desconfortável.

Me sinto constrangida, como se tivesse cantando nua pra uma platéia de milhões.

Mas a verdade é que estou sozinha e não consigo nem mesmo cantar pra minha solidão.

(…)

Nem mesmo entendo por que existe essa angústia.

Eu já não devia mais agir assim há muito, muito tempo.

Achei que isso nunca mais fosse acontecer, mas pra variar eu me enganei.

Mas as coisas são assim mesmo.. Hoje eu estou assim, mas isso também não vai durar pra sempre.

Nunca dura.

A questão, agora, é esperar passar.

E esperar o dia que isso acabe de vez.

(…)

Sinto saudades de mim e de me ouvir.

Mas agora mesmo, isso é impossível.

(…)

Ele: Isso tem que significar algo. Não sei o que, mas algo. Relaxa por enquanto.

Dora: Queria conseguir relaxar..

Ele: Faz o jogo e vê aonde vai.

Dora: Sim.. Mas acho que não quero fazer parte disso.

Ele: Eu ficaria calmo e veria qual é. Se não quisesse nada, me faria de idiota. Não sei se vc deveria tomar a ofensiva de primeira. Faz um reconhecimento primeiro e tenta entrever o que está acontecendo.

Dora: Mas eu me angustio. Odeio ser levada em banho maria. Que me digam as coisas na cara logo, é ruim no começo mas depois é sempre melhor.

Ele: Dora, a vida é o banho maria,  na maior parte do tempo.

Dora: Você também não me ajuda né?

[…]

Ele: Você tem que se acalmar,  mas mais uma vez: eu posso estar errado. Nesse sentido minha ajuda é pouca, é só de inspiração mesmo.

Dora: Penso que se eu me acalmar por demais isso possa virar comodismo… E do comodismo ir pra coisa pior.

Ele: Ué… O que pode ser pior? Se vc se acomodar, nada vai acontecer, mas ao menos havera uma CHANCE de acontecer. Se você chutar o balde, não vai acontecer mesmo, nem agora, nem después. Então equilibra esse balde.

Dora: Também penso nessa chance, mas também me preocupo. Não quero me ferrar com coisa que não sei que vou me ferrar.. Sei lá, prefiro me ferrar com coisas óbvias. Estou angustiada demais… Por que tudo isso é tão difícil, tão dolorido? Sinto raiva, queria resolver isso logo.

Ele: Você está apaixonada?

[2 minutos]

Dora: Não sei.

Ele: Hihihi.

Dora: Pára!

Ele: Hohoho.

Dora: Não estou, não é tão simples. Mas tem coisa acontecendo. Não gosto disso.. Me sinto uma idiota. E eu nem faço nada, deixo estar… Mas ainda assim… Chato.

Ele:  Não estou dizendo que é legal,  é chato. Mas tem que suportar, fazer o quê?

Dora:  Eu tava tão decidida sobre o que fazer até conversar com você..

[…]

Dora: Me sinto muito desconfortável. Isso tudo me incomoda muito.

Ele: Pode ser. A escolha é sua, mas os ganhos são maiores se você suportar o desconforto…. E a perda será que nada acontecerá. E se nada acontecer, dane-se, você fica na mesma.

Dora: Sim, mas nesse processo todo rola o desgaste… Eu poderia ficar na mesma agora mesmo, sem passar por desgaste nenhum.

Ele: Sim. Mas você precisa avaliar se você vai ficar tão pior caso não aconteça nada…

Dora: Eu só fico ruim mesmo quando é algo que eu não espero que aconteça.. Quando é algo que eu já imagino que aconteça, e aí acontece… eu fico mal, mas ainda tem aquele conforto do ‘eu já sabia’. A mania de ficar querendo prever as coisas é meio burra… mas eu funciono assim, fazer o quê..

Ele: Sim. E vc acha que vai se dececpionar muito se vc esperar mais um pouco pra ver o que acontece?

Dora: Não faço a mínima idéia.. Chato isso, não ter transparência.

[…]

Ele: O susto abre caminhos também. Essa seria uma opção heróica e arriscada. A outra é a opção segura. Mas a opção que você está pensando, é ruim diante dessas duas. Qualquer uma das minhas é logicamente melhor. Mas é claro que essa é minha opinião.

Dora: Eu já havia pensado em confronto direto, mas talvez eu fosse parecer muito agressiva.

Ele: Vai parecer, mas isso não é ruim.

Dora: Bom, pelo menos eu teria uma resposta… Mesmo que vaga.

Ele:  Sim. E mesmo que a resposta seja evasiva, isso indica algo. Pelo tom, você saberá.

[…]

Dora: Não estou a fim disso.

Ele: É um risco. Mas como eu disse, você fica na mesma, você tem duas opções melhores e, se não der certo, você fica na mesma. A sua opção seria uma opção baseada unicamente pelo medo. E não é bom ser guiada pelo medo.

Dora: Sim. Sempre suspeitei disso. Mas o que fode não é ser guiada pelo medo ou não, mas ter culhões pra persistir… Mesmo sabendo que vou sofrer.

Ele: Tente avaliar se o mau resultado seria muito ruim pra vc… E se for tranquilo, tente.

Dora: Bem.. muito, muito ruim não seria. Eu só me sentiria patética caso fosse descartada como ‘mais uma’.

Ele: Então você está pensando muuuuito adiante…

Dora: Não necessariamente… Esse “muuuuito adiante” pode estar logo ali, quando não há transparência.

Ele: Nem chegou perto disso ainda, Dora. Você não conhece a estrutura toda da coisa ainda.. Mesmo que funcionasse, talvez você achasse uma merda e não quisesse mais. Tudo é arriscado assim mesmo..

Dora: Eu gostaria tanto de ser desapegada.. mas quando menos percebo, lá estou eu.. Completamente envolvida.

Ele: Eu fujo de intimidade como o diabo foge da cruz… E é de medo mesmo, por que sei o risco que existe. E ao mesmo tempo, há a carência, o desejo. Mas no meu caso, está perfeitamente claro que não suporto nada agora e é isso que vc tem que avaliar em você. Você está na ativa, deve ser diferente..

Dora: Comigo, quando eu menos percebo as coisas já estão acontecendo.. E eu tenho dificuldade em dizer não.

Ele: Então avalie se você pode dizer sim e tome uma decisão.

Dora: Isso é o que pega… Pra mim, eu posso dizer não por que posso cuidar de mim e me sentir segura. E posso dizer sim pra me provar o que quer que seja e me fazer de raçuda. Qualquer uma das opções é válida… O lance do ‘eu aguento o tranco’ é o que me ferra sempre. Sempre escolho a dor que ainda não experimentei.

Ele: Você tem que aprender a avaliar sem querer ser heroína.

Dora: Não quero ser heroína… Mas se eu optasse pelo que é seguro, seria algo que eu deixaria de passar pela experiência. Eu penso nisso.. Penso mesmo, muito. Mas o fato é que EU é que sou muito encagaçada… É isso.

Ele: Todo mundo é. Todo mundo manifesta seus medos de inúmeras formas. Tenho um amigo que é um mulherengo inveterado,  radical mesmo, de pegar mulher no ônibus e levar pra cama, mas isso tudo é medo também. Medo de intimidade real,  medo de compromisso. Não tem como escapar do medo, eu acho. Mas acho que dá pra tomar uma distância e tentar ver se o medo é justificado. Se for, abra mão. Saiba perder também. Perder não é necessariamente ruim.

Dora: Não é, eu entendo. As vezes eu fico brava pois fico parecendo a minha mãe falando que todas as coisas que me acontecem são “provações”. Tão ridículo isso… Mas as vezes parece verdade…

Ele: O que acho é que vc não deve escolher aquilo que vai te fazer perder DE QUALQUER JEITO, mas escolher opções nas quais vc tenha uma chance de ganhar, mantendo em vista a possibilidade de perder. Então saiba perder e escolha poder ganhar.

Dora: Mas o que eu queria mesmo, no meio disso tudo, é aprender mais coisas no processo. Queria aprender a ser mais desprendida, desapegada, mais solta. Crio regras pra tudo e isso é muito ruim. Queria uma independencia maior dessas coisas que eu sinto. Às vezes queria viver a minha vida como se não fosse minha mas isso é sonho.. Não é possível.

Ele: Não tem como não sentir, anular seus sentimentos. O que você pode fazer é formatar os seus vínculos de uma maneira diferente, por que o vínculo vai existir pra sempre. Não raro, pessoas que resistem a vínculos são as mais apegadas a alguma memória, alguma coisa do passado, sei lá. Não acho que dê para se “desapegar” simplesmente… Mas dá pra ter uma relação diferente com as coisas, aceitando que você terá uma relação.. Qualquer que seja.

[5 minutos – um abismo, pra mim.]

Dora: Acho que é difícil pra eu entender isso por que já faz muito tempo que estou sozinha. Não só estou sozinha, como me sinto sozinha.

Ele: Entendo.

Dora: E sei que estou vulnerável, por isso quero me cuidar tanto. É… complicado.

Ele: Sim, é o meu caso… Não posso bancar nada. Outro dia uma mina me ligou que eu não via há muito tempo, me falando que tinha terminado com o namorado..  Já tive uma parada com essa menina. Era óbvio o lance..

Dora: Direta ela hein?

Ele: Ela é doida. Eu não fui, mas não por causa da abordagem dela..

Dora: Mas vc falou que não ia?

Ele: Sim. Eu falei que ficaria em casa e tal… e só. Depois me perguntei se eu não deveria ter ido mas no meu estado o estrago de ter uma experiencia ruim teria sido muito maior do que o ganho de uma experiencia boa. Depois achei minha decisão acertada, mas mantive isso na manga tb. Sei que posso ligar pra ela se eu me sentir melhor com tudo. É o que eu digo, não enterre algo que você sente. Tente fazer as coisas pra você ter uma chance e mesmo que não aconteça, e que você decida depois que nada vá acontecer… Deixa estar.

Dora: É. Eu preciso saber me comportar. Gosto quando as coisas são minimamente recíprocas.. Até sou generosa e tudo o mais.. Mas ficar inflando ego de quem se lixa pra vc.. É ruim.

Ele: Isso da falta de reciprocidade é medo de ficar em desvantagem, medo de perder. Se vc perceber que é isso, dane-se, dê as costas e vá embora.

Dora: É.. o problema é eu saber perceber quando. Puta merda.. Tô na merda.

Ele: Ah…. vc tem boas chances de sobrevivência.

Dora: Yeah right.. Ok.. posso sair mal.. mas não tão mal a ponto de ficar irrecuperável.

Ele: Irrecuperável é um pouco forte.

Dora: Ok.. não chegou a ser irrecuperável por que eu tô aqui. Parecia não ter fim.. demorou.. mas acabou. Hoje eu sou uma pessoa razoavelmente civilizada. Você sabe do que estou falando..

Ele: Acho que é o mesmo comigo.

[…]

Dora: O mais bizarro é eu falar a outras pessoas sobre a minha solidão.. E elas não acreditarem.

Ele: Eu acredito.

Dora: Mas você é diferente… Você me conhece.

Ele: Você acha que sim? pq eu mesmo não sei…. Gosto muito de vc, mas não sei se te conheço.

Dora: Conhece um bocado.

Ele: Às vezes parece que te entendo muito… Às vezes não entendo nada.. Mas é assim com todo mundo, eu acho.

Dora:  Não tem como saber tudo né? Você não lê mentes… ainda! Ha-ha.

Ele: Jamais. Nem quero.

Pra mim é muito difícil falar sobre elogios. Nunca lidei muito bem com eles. Há alguns anos atrás lembro até que cheguei a responder agressivamente a um elogio. Tinha sido elogiada por um professor, em forma de boa nota, e discordei daquilo pois eu sempre fui auto-crítica demais. Não achava que o meu texto estivesse tão bom e também não achava que merecia aquela nota. Mas isso foi faz tempo.

Hoje ainda me falaram “você deve estar acostumada a receber elogios, não é mesmo?”. Não, não estou. Elogios a minha pessoa são bem, bem raros. E eu ainda não sei o que dizer direito quando me elogiam. Geralmente fico sem graça, mas atualmente estou mais civilizada e digo apenas “obrigada”. Parece o suficiente. Acho modéstia algo muito constrangedor. Não tenho coragem de ser modesta.

Até hoje não entendo elogios (direcionados a minha pessoa) direito. E entendo menos ainda os homens que me elogiam. Um tanto quanto paradoxal isso.. Me elogiam, mas eu ainda continuo sozinha. Acho que o pior de tudo, DE TUDO MESMO, é ter que ouvir você merece uma pessoa muito legal. Sério: nenhum ser vivente deve ouvir isso e se sentir bem. Particularmente, me sinto horrível. Me xingue, me ofenda diretamente, mas não me diga isso.

Ok, entendo, em partes, o lance de eu continuar sozinha. Tenho padrões e tudo o mais, mas geralmente o que acontece é de eu gostar da pessoa e ela não se encantar por mim. É bem simples. E as pessoas com quem eu não me identifico em absolutamente NADA, acabam ‘gostando’ de mim. Ainda existe gente nesse mundo que fica com outras pessoas apenas pra não ficar sozinho/a? Não sou uma dessas pessoas, desculpe.

E eu ainda questiono as criaturas. Questiono mesmo, sou curiosa. “Mas me diga, o que você viu em mim? Eu acho que nem mesmo faço seu tipo..”. E as respostas são sempre as menos convincentes.. Eu sempre tenho a impressão de que os homens mentem e mentem deslavada e descaradamente. Mentem sempre com a intenção de não se queimarem e preservarem algo que é do seu interesse. O homem que diz que gosta da minha bunda por que ela é grande, ao menos não está querendo me enganar.. Mas não vou chegar aí.

Veja bem, elogio é diferente de bajulação. Detesto bajulação, mas nego que simplesmente me ignora também é uma merda.. Tenho dito.

Mas enfim… Sei lá. Suspeito que se eu fosse tão “fantástica, bonita, legal e maravilhosa” como dizem, eu provavelmente já estaria com “uma pessoa muito legal que eu mereço” e não estaria terminalmente solteira. Ou seja, existe algo de muito errado aí. Ok, tudo bem, existem mesmo “muitas pessoas que gostam de mim” e etc, mas isso não é o suficiente, hoje, pra mim. Digo que não é o suficiente por que na minha vida me falta um certo tipo de companheirismo, do qual confesso sentir falta.

Não é carência, não é falta de amigos, não é solidão extrema, não é nada disso. Se fosse, eu já estaria com o primeiro otário que não tivesse nada a ver comigo, só por que ele disse que gosta de mim. As coisas não funcionam assim. É alguém pra fazer coisas comigo, cozinhar, sair, ver filme, mas alguém que preste (é tão difícil assim, meu deus?). Alguém pra me contar seus problemas, pelo que anda passando ou simplesmente pra ficar comigo fazendo nada mesmo. Alguém ali.

Ou vai ver eu to sozinha mesmo por que além de ter padrões escrotos eu tenho muito, mas MUITO azar mesmo viu?

Só pode.

não gosto de observar pessoas. é algo que faço involuntariamente quase sempre. pior do que observar é reparar na pessoa. são coisas bem diferentes. acho que pior ainda que reparar é você se pegar “pensando mal” da pessoa. mas não mal no sentido de desejar maldade, mas mal no sentido de “ok isso não pode estar certo”, quase que como um tipo de CRÍTICA ao outro mesmo. e eu critico tudo na minha cabeça, desde comportamento, personalidade até mesmo o estilo da pessoa. fútil eu sei, mas acontece.

é uma tentativa imbecil de querer que todo mundo seja mais ou menos como eu queria que fosse.. enfim. na verdade até acho isso chato, quase errado, mas como eu já disse antes, é inevitável. quando eu vejo já estou pensando muita bobagem. e esses pensamentos me torram a paciência às vezes.  esses dias eu e um colega conversávamos sobre as “pessoas falsificadas” ou pessoas fabricadas, que existem por aí. estilos, tatuagens, cabelos coloridos, preferências… não chegamos a uma conclusão muito precisa mas enfim…

não tenho nada contra a FANTASIA em si. mesmo. acho bacana ela fazer parte da nossa vida. POR UM TEMPO. por um dia. num final de semana. etc. é legal você fazer parte de tribo X, Y, Z, mas acho que uma hora, eventualmente, no dia a dia, a gente ‘precisa crescer’. ou ao menos desvincular-se, um pouco, disso tudo. de alguma forma. você não vai poder SER X coisa 24/7 pro resto da sua vida, por que senão isso acaba se tornando muito estranho. mesmo. pérolas aos porcos. enfim…

vai ver mesmo sou eu quem sou muito idiota, mas ao menos prefiro fazer com que algumas coisas não façam TANTA parte da minha personalidade a ponto de eu não conseguir VIVER/SOBREVIVER sem elas, ao ponto de eu não conseguir me desvencilhar delas, nunca. eu sei que pode até ter uma pontinha de niilismo aí, mas enfim… essa sou eu. consigo fazer isso por que eu sempre me sinto preparada a perder tudo. acho que chega uma hora que é preciso ter um pouco que seja de maturidade ao menos.  não estou conseguindo me expressar direito… acho que não é bem maturidade a palavra. é outra, mas agora não está vindo.

sei lá, pra mim é uma questão de sobrevivência até isso tudo. pessoalmente acho muito feio perceber que alguém SE RECUSA a crescer. tá. tudo bem. uma coisa é a pessoa SE DECIDIR por isso e ser assim mesmo e não ter jeito. aí, é claro, a pessoa vai TRILHAR e BUSCAR por isso e ser assim mesmo e pronto. outra é ver que a vida da pessoa rumar pra um lado e a pessoa querendo ir pra outro nada a ver. é muito horrível. angustiante. ainda mais quando são pessoas muito próximas. não gosto nem de ficar sabendo.

e às vezes não é nem crescer a palavra. mudar apenas, talvez…? não sei.

eu sempre fui do tipo que gosta das coisas perenes, apesar de parecer que não. mas ora pois, estamos falando de superficialidades, de roupas, de estilo. ainda assim, me considero relativamente perene. não faço estilo clássico, nem nada, na verdade, não faço estilo algum e faço todos ao mesmo tempo. o que revela a minha suposta perenidade são as tatuagens, que não sairão dali nunca, a não ser que eu faça outros desenhos por cima.. mas ainda assim, serão tatuagens. pois bem. quando eu envelhecer vou ficar ok com isso por que já faz parte de mim. as coisas (e pessoas) que não faziam parte de mim foram embora e hoje só sobrou isso que sou.

posso dizer que, hoje, estou feliz até. nunca me senti tão bem, tão pura, tão eu mesma. o que me entristece e aborrece na maior parte do tempo são os outros mesmo. e o mais ridículo é que nem são pessoas do meu convívio. geralmente são aleatórios mesmo. ô povinho que gosta de forçar uma barra… sei lá… ao contrário deles, eu pelo menos não me sinto obrigada a nada.

obrigada a seguir um estilo de vida. obrigada a fazer cara feia pros outros, ou cara de indiferente ou qualquer cara que defina algum grupo em nome de qualquer coisa, sei lá. se não quiser não bebo, se não quiser não fumo. não faço coisas idiotas pra me enturmar (nunca entendi isso, sempre fiz, assumo). acho que a minha idade e as coisas que me aconteceram me fizeram ver a vida de uma forma diferente.

hoje simplesmente vejo que algumas pessoas “se estragam” por opção própria, e não há nada que impeça isso. são pessoas profundamente infelizes (ou, às vezes, até que não são), que buscam felicidade nas coisas rasas e erradas (às vezes até SABENDO disso) e tem o verdadeiro DOM de procrastinar uma vida inteira que poderia ter muito mais possibilidades se elas apenas cultivassem hábitos diferentes. ou se apenas fossem mais honestas consigo mesmas, ao menos.

não dá pra querer negociar, conversar com gente assim, fazer com que a pessoa entenda. ninguém que é assim quer ser ajudado. ou ainda, ninguém que é assim acha que precisa ser ajudado. ou são uns saudosistas nojentos ou futuristas sem noção, e não percebem que “o importante é o agora minha gente”. isso pode parecer insensível da minha parte, mas é verdade e ninguém enxerga.

a FEIÚRA é uma coisa que me deprime muito. mas não a feiúra física… mas aquela da alma, dos ciclos viciosos, das pessoas viciadas, das pessoas de uma tristeza profunda, que só existe por opção delas mesmas… odeio me deprimir por tabela por esses tipos. não mereço isso. tenho que me policiar com essas coisas.

a única coisa que me alegra são os meus sonhos sádicos internos de ver esse povo envelhecendo mal e APODRECENDO. pois hoje eles ainda contam vantagem das coisas que não fizeram, das promessas que não cumpriram. se acham velhos sendo jovens. ou acham que serão jovens pra sempre. ou associam ‘inteligência’ às coisas erradas. acham que terão cabelos coloridos/compridos pra sempre. acham que não enjoarão nunca das tatuagens que escolheram num catálogo qualquer por aí. e ignoram solenemente seus defeitos, como se eles não existissem apesar de, evidentemente, esses mesmos defeitos modificarem suas vidas como um todo. pra pior, é claro. é tudo muito triste, e tudo muito feio. me dão náuseas, NÁUSEAS!

preciso PARAR de observar gente assim. urgentemente.

e sim, eu realmente não pareço ser quem sou.

nasci pra subverter. só pode.

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