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I

Por esses dias, depois da grande surpresa, comecei a tomar nota de algumas coisas. Imagino que se eu não fosse importante pra eles, nada disso teria acontecido. Mas houve o prestígio. Acredito que isso tenha acontecido por eu ser um tipo híbrido dos filhos deles, apesar da pouca convivência. Julgo ser cópia dos piores defeitos de seus primogênitos: a voz irritante e a insolência da garota e modo afiado e arrogante do garoto, como espíritos ruins que se bifurcaram sendo envasados em mim. Ainda assim, o carinho, a admiração, o respeito, etc. Mas não os poupo: tenho os mesmos trejeitos ruins, a mesma malcriação, as mesmas reclamações, os mesmos tiques irritantes, a mesma falta de paciência. Eles apontam as semelhanças: “nem se você nascesse irmã seria tão parecida”. Compreendem porque convivem há anos com isso tudo. Não compreendo o porquê de eu ainda ser assim: vai ver sou um espírito dividido, de fato. Sou uma Idiota, claramente. Me sinto uma Idiota, apesar de ninguém me julgar desta mesma forma.

II

Depois de ficar consciente sobre isso, resolvi ser um pouco menos disso. Não queria mostrar as semelhanças, mas as diferenças. A semelhança, em alguma medida, me perturbava. As comparações ininterruptas e os olhares também. Não queria que isso se repetisse, não queria pensar tanto nisso e ser eu mesma naquele convívio estava difícil. Logo, decidi fazer o exato oposto de quem sou e me retraí. Não fui mais incisiva, não dei risadinhas irônicas a cada comentário que me parecesse imbecil. Não os corrigia, não me expunha, não quis controlar mais nada, não quis parecer antipática. De certo modo, não quis ser adulta. De certo modo, quis ser criança de novo e acreditar que os adultos, mais responsáveis e sábios, poderiam ser infalíveis. Imagino que eu possa ter desejado, em algum nível muito obscuro, testá-los. Não quis confronto apesar de saber que em determinado horário haveria um vôo e que uma diferença de horário poderia ter alguma consequência árdua. Me fiz, de verdade, de Idiota. Fiz, na verdade, a todos de idiotas. Não sei se quero descobrir o porquê.

III

Penso que gostaria de ter tido a coragem de dizer, no momento apropriado: tenho plena consciência de que você está me fazendo de Idiota e eu permito isso, por quanto tempo você quiser. Isso é, também, uma forma de poder.

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