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Arquivo da tag: Crises

Os anos vão passando e não consigo encontrar nenhum lugar onde me identifique plenamente. Nenhum lugar, nenhuma situação. Consigo querer as coisas, planejá-las e executá-las sem maiores problemas. Mas não me lembro a última vez que tive uma decisão e fiz uma escolha verdadeiramente genuína, sem ser por impulso, sem ser por rompante. Não me vejo tendo tempo, não me vejo tendo espaço. Preciso priorizar o que precisa ser priorizado, tudo o que faço por aqui é por sobrevivência, não por gosto. Não por luxo. Não tenho tempo pra essas coisas, elas não são para mim. Não nessa vida. Às vezes isso de identificação plena parece ser uma ilusão, mesmo. O difícil agora é tentar fazer com que isso, que mais parece um defeito, trabalhe ao meu favor e não mais contra mim. Não chego a estar perdida totalmente, no entanto, não me identifico plenamente com algumas escolhas que fiz. Pretendo mantê-las no entanto. Mas compreendo que não mais caibo aqui. Que não servimos, juntos. Essa busca por identidade já ultrapassa alguns anos e não houve, até então, uma vez sequer em que eu me sentisse plenamente satisfeita. Com nada. Houveram apenas vislumbres disso. Enfim… Não acho que isso um dia finalmente vá acontecer, ao menos não nessa vida. Não me identifico mais nem mesmo com as pessoas com quem tenho andado por tanto tempo, por tantos anos. Olho para pessoas novas, para novas pessoas velhas, e entendo que sobrevivam e que tenham seus nichos, dos quais não faço parte. Fico sempre como alguém dissidente, na margem – e sequer tenho vontade de fazer parte daquilo tudo também. Não faço parte do grupo de gente bonita, elegante & sincera. Eu vivo num mundo que é movediço, mutável. Num mundo de sombras e projeções. Nesse lugar liso demais e iluminado demais no qual pra sempre terei essa falta de aderência, a qual agora questiono se é mesmo necessária e até que ponto. Até que ponto ela me faz eu me perder completamente de mim mesma, perdendo meu auto-significado, meu storytelling. E até que ponto essa mesma falta de aderência me faz ter unicidade e singularidade em meio a todo esse telar de vida.

 

A maioria das mulheres entra em parafuso e começa a ter crises quando percebe que suas amigas estão casando e tendo filhos. E meio que de repente elas começam a desejar as mesmas coisas (Maria vai com as outras, efeito dominó, you name it). Fato é que minhas (poucas) amigas não estão casando e nem tendo filhos e eu continuo sem o mínimo de ambição em relação a essas coisas igualmente. Curiosamente, elas, como eu, também não estão entrando em parafuso com isso. Fico tentando imaginar o porquê (mas não muito).

Aí sempre tem uma ave de rapina pra me dizer que eu AINDA vou sentir isso, que QUANDO CHEGAR O MOMENTO (?) eu vou querer casar, ter filhos, vida estável, etc. Antes eu me irritava, há algum tempo tenho só achado engraçado. Na verdade talvez eu ache mais curioso que engraçado: estou certa de que esse meu momento nunca vai chegar. Não por eu ser muito azarada mesmo, nem porque ‘ninguém me ama, ninguém me quer’ e também não porque o destino quis assim, mas por uma opção consciente mesmo: acredito, sinceramente, que meus momentos serão outros.

Agora que tenho um sobrinho me sinto mais aliviada e sinto que tenho menos um fardo pra carregar. Algo assim. Mas sinto, meio que sorrateiramente, uma crise – que promete ser muito violenta – chegando. Percebi isso ao observar meus amigos homens. Claro que cada pessoa leva a vida como pode, mas eu começo então a notar aquela vibe de tiozão em alguns dos meus conhecidos. Existem vários níveis de tiozão e suas definições variam imensamente, mas observo que a essência está ali, pairando sobre todos. É claro que as coisas mudam ao longo da vida, mas às vezes, me parece que pra essas pessoas, não. Quase nunca. E elas também não fazem a mínima questão de que nada mude muito. É difícil explicar…

Ok. As coisas mudam até, mas sempre no sentido mais superficial possível. São namoradas após namoradas (todas parecidas), empregos após empregos, festas após festas e a vida meio que se resume a isso, basicamente. Sinto uma resignação intensa, que não me parece ter sido escolhida conscientemente, mas que é algo que as pessoas se sujeitam porque acreditam que ‘a vida é assim‘. Isso é quase que um tipo de fé. Eu realmente acho bem sedutor acreditar que “não temos opção”. Sedutor demais pra ser verdade. Sedutor o bastante pra ser confortável.

Mas o ‘a vida é assim’ parece ser o suficiente pra muita gente. Por que será? Fico tentando imaginar o que seria suficiente pra mim, se o suficiente é suficiente, se há um teto, uma linha de chegada me esperando em qualquer lugar… Será que eu quero que essas coisas existam pra mim, em definitivo? Por que tenho a sensação disso ser tão restritivo? Observo meus amigos bem sucedidos: “terei uma mulherzinha, trabalharei até morrer, me divertirei aos finais de semana, ficarei puto com política, sentarei a bunda no sofá e verei futebol”. Será que existe alguma forma de sair disso?

É um tanto quanto surpreendente ver que aquele metalhead alcoólatra e inteligente na adolescência hoje virou uma pessoa digna (?) e bem sucedida, que leva uma vida pacata e joga pelada no final de semana. Meio que ir vivendo um dia após o outro e dar-se por muito satisfeito com isso (ou, em algum nível, não dar-se por satisfeito com isso e descontar em quem está à sua volta). Trabalhar a semana inteira, comemorar muito a sexta-feira, enfiar o pé na jaca no happyhour da firma, jogar RPG no final de semana, reclamar da vida no meio da semana… É isso?

Isso tudo me deixa meio assustada. Fico me perguntando se é só isso mesmo. Talvez para mim seja isso, mas para outras pessoas seja tudo isso. É sempre bom avaliar (e reavaliar) até que ponto certos padrões são desejáveis nas nossas vidas e não adianta: isso é muito pessoal mesmo. Estou bem desconfiada de que existem outras coisas, existe um outro modo, um outro meio talvez. Só não sei qual ainda. Mas sei que vai ser doloroso descobrir. “Grandes escolhas, grandes renúncias”.

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