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– vc é de onde/
– eu sou do mato grosso do sul, já morei em floripa e estou em sp, capital há 6 anos. sou meio nômade.
– e tu prefere onde?
– ah, não prefiro nada. são só lugares.
– mesmo?
– eu prefiro o próximo.
– caramba AHAHAHA assim você me conquista.
– desculpe.

– Passarinhos são efêmeros..

– Espalharei alpiste em mim. Farei de meu corpo uma arapuca. 

– Todo corpo é arapuca.

– (Todo corpo é arapuca. Todo. Corpo. É. Arapuca. Armadilha… Ah… Isso é bom. Isso é bom…)

(…)

– Verbos denotam ações. Armadilhas denotam não ações.

– Armadilhas esperam. Aguardam. Confiam.

(…)

Me espere.

Me aguarde.

Confie em mim.

– Vim aqui te dizer que nem são 9:30 e já senti ciúmes de você. Sim. Ciúmes. E sim. De você.

– O que que eu fiz?

– You’re charming. E uma moça interessante me disse que eu perdi, playboy. E eu senti ciúmes. De você. Estou ficando possessivo. Veja bem.

– Isso também é uma maldição. Não se engane.

–  O que seria uma maldição?

– Por que ela te disse isso? Eu ser charming é uma maldição.  Porque isso é ilusório, isso passa. Eu sou feita de ilusões.  Somos, você sabe.

– É bastante óbvio para quem nos vê que eu gosto muito de você. Não se trata de algo que eu mantenha em segredo. Isso às vezes irrita as pessoas. E irrita exatamente porque percebem que você é fabulosa, aos meus olhos. Às vezes, porém, o oposto acontece. Ao olharem para você, percebem o que me encanta. E se encantam também. E aí está o motivo de meu ciúmes. Mas nada mais foi dito.

– Que pena que isso irrita as pessoas, não? Eu duvido um pouco, também, que as pessoas com quem você se relaciona não sejam fabulosas.

– Algumas são. Não fabulosas. Fabulosa é um adjetivo que eu uso com certa parcimônia. Enfim.

– Acho que o problema das pessoas é que elas precisam de coisas… E eu tenho voltado a ser niilista nesse aspecto… Eu não preciso de nada. Ou de quase nada. Como diria a música, I want you, but I don’t need you..

– Entenda meu ciúmes como uma declaração de algo cujo nome eu não darei. 

– Oh! Me apetecem muito, coisas sem nome. Muitíssimo. Fazem parte das minhas coisas favoritas.

– Coisas sem nome. Coisas lentas e silenciosas. Coisas que nem nome precisam ter. 

– E, até então, eu tenho gostado muito das pessoas que tenho conhecido por você. Mas é diferente. Não se aproxima do que se apresenta, conosco.

– Pois é. Eu não poderia ter resumido melhor.

– Eu me sinto satisfeita com a sua descrição.

– Você é foda, D.

– Eu gosto muito de você.

– Eu também. Mas há algo mais. E eis aí algo imenso. 

– (Minha estrutura, talvez. O espaço imenso que eu ofereço para a criação de qualquer coisa, qualquer ideia, qualquer fantasia. A potência de todo o meu vazio à espera de ser novamente, preenchido e posteriormente esvaziado, para se reconstruir novamente…). Vamos ver, com o tempo, do que se trata. Ontem eu tive uma longa discussão. Tenho uma cidade pra perdoar, você sabe disso.

– A gente ressignifica ela, juntos. 

– Estaria fazendo isso pelos motivos errados, se fosse agora. Então peço paciência.

– No seu tempo.

– Não gosto de fazer nada de qualquer jeito. Nem com pressa. Eu estou com saudades… Mas ir e fazer coisas “a todo custo”, it’s just not my style. Eu adoraria poder, agora. Mas existem algumas coisas por aqui ainda e eu não quero denegá-las.

– Eu te espero. Quanto for.

– Preciso ter uma conversa séria com ela. Sério.

– Não vai adiantar. Mas enfim, ignore o que eu disser daqui em diante. Tenho uma profunda descrença nas pessoas em geral e nunca acho que elas tem boas intenções.

– Você não está pensando direito. 

– Não.. Eu não penso muito nisso, mesmo.

– A questão não é se as pessoas são confiáveis ou não. As pessoas são, em geral, fracas. A pergunta correta a se fazer é “o que foi que eu fiz para que essa pessoa achasse que podia me passar a perna?”. Pare de culpar os outros e evolua. 

– Bem, é o seguinte: às vezes, ocorre de você não fazer absolutamente nada de errado pra que resolvam te foder. A vida é assim. Acredite.

– A sua vida talvez. 

– Sim, a minha vida, precisamente.

– Mas existem pessoas que ninguém arriscaria foder. 

– Como eu te falei anteriormente, estou cansada. Não fico em uma situação desconfortável, tendo dor de cabeça a não ser que eu seja obrigada à isso. Se eu não for, lamento: não quero. Estou numa idade em que eu sei que não mereço mais me sentir mal por nada, nem ninguém.

– Então fuja, oras. 

– Tenho feito isso. Claro que existe um preço a ser pago. Mas prefiro bancar morrer sozinha do que ter gente me fodendo a vida gratuitamente.

– E se eu te dissesse que é culpa sua que as pessoas te fodem?

– Sim, é. Logo, me afasto e vivo como uma ermitã social.

– Você poderia mudar o seu comportamento também. Mas isso requer a humildade de tirar algo de si e substituir por outra coisa. 

– É. Eu não sou humilde e sou meio burra. E egoísta, mesquinha e humana. Para mim, está bom.

– Não, não está. Só está confortável. Por agora. 

– Eu não estou sofrendo.

– Se estivesse, seria melhor. 

– Acho que já sofri o suficiente.

– Exatamente porque você não está sofrendo que você não se mexe e não muda o ângulo da perspectiva com a qual você vê as coisas. 

– Estou cansada de mudar de perspectiva toda vez que me fodo. Isso não é pra mim, é pra gente inteligente, iluminada, sei lá.

– Sua auto-comiseração me entedia. 

– Ah… Acontece.

 

– Falando em sonhos, eu sempre sonho que estou correndo numa velocidade sobre-humana ou que estou fazendo coisas fisicamente impossíveis com o meu corpo.
– Para mim faz total sentido, Dora.
– Tipo pular em prédios ou em pontes, ou em árvores. Acho que é o meu corpo desesperado mandando sinais do tipo “faz alguma coisa desgraçada não aguento mais!!!”
– Não é apenas o seu corpo..
– Eu sei, é a vida, as coisas, eu sou muito lerda, mesmo. E enrolada… Mas eu não sei me apressar…
– E também não é uma questão apenas de velocidade, mas de transposição. De superação.
– Sim, também.
– Mas acima de tudo, é criatividade reprimida tentando se soltar.
– É um sonho recorrente, esse. Será isso mesmo? Acho que pode ser sim, não sei como me expressar nesse sentido.
– Arte é uma coisa estranha, você cria algo e expõe para o mundo. É algo esquisito. Realmente se expressar, colocar algo de si na obra, é como ficar nu. E a melhor parte, pra mim, é você conseguir alcançar o outro. Pois nesse momento você se torna mais do que apenas uma pessoa.
– Acho que isso é meio grande demais pra mim.. não nasci pra isso. E não sou egocêntrica o suficiente pra isso também.
– Se todo o seu ser acreditasse nisso, você não estaria tendo esses sonhos ainda. Apenas a parte que não quer mudar, que não quer tentar, que quer continuar no mesmo caminho é que acha que você não nasceu pra isso.
– De qualquer modo existem várias coisas em jogo. Ninguém me apoia e eu também não sei o que fazer, really. Nem por onde começar e principalmente nem o que quero. E a minha idade pra isso acredito que já passou… Deveria ter insistido na época certa. Agora meio que já era. Vou esperar um milagre mesmo.

– Eu quase falei de você na minha análise hoje…

– Mesmo? Por que não falou?

– Fiquei em dúvida. Vai saber o que podia sair.

‘Someone I loved once gave me a box full of darkness. It took me years to understand that this too, was a gift.’

– Eu andei lendo Ayn Rand. E apesar de eu discordar de 99% do que ela diz, tem uma coisa que eu concordo: “cague para a opinião alheia”. A versão dela é: foda-se o que os outros vão pensar, faz a tua parada que tudo vai ficar de boas pra geral. Isso obviamente não dá certo. A minha versão é: faça a coisa certa, mas cague para a opinião alheia. Ela pregava uma ética do egoísmo muito escrota mas os personagens dos livros dela tinham uma parada maneira: eles cagavam pros outros e principalmente para a opinião dos outros. Assim, nível monge budista. A melhor parte é quando o nêmesis do protagonista chega pra ele e diz “agora que estamos sós, diga o que você realmente pensa de mim?”. E o protagonista responde: “Eu não penso sobre você.”

– Sim. Isso é difícil mesmo de alcançar.

– E quando você alcança, todo mundo te admira. A ironia está no fato de você cagar pra isso. Uma versão moderna do herói Randeano é o Don Draper. Todo mundo acha ele foda porque ele não precisa da aprovação de ninguém pra nada.

– Não é de hoje que você me diz isso…Você me diz isso há tempos… Há muito tempo. Você me disse isso há 7 anos atrás. Uma das coisas que você me disse quando eu te conheci que mais me marcou, e provavelmente você nem ligou quando disse, foi a seguinte frase: “você não precisa de ninguém, Dora”. Não me lembro bem qual era o contexto onde você disse essa frase… Só sei que eu nunca mais me esqueci dela. E até hoje considero essa frase um presente seu, pra mim.

– …

– Ia fazer um comentário, mas lembrei que você leva tudo a sério e desisti. 

– Hm. Aparentemente, você está aprendendo…

– Sempre, não?

 

 

– Você continua com o espírito rebelde ou matou ele?

– Continuo rebelde, por assim dizer, para o desgosto dela.

– Se a conheço como penso que conheço, tudo que ela queria era que você continuasse com esse espírito rebelde.

“Naquela época, eu não entendi quando você me disse ‘eu te amo’. Fiquei com medo, sem ter necessidade nenhuma disso. Na verdade, estava tudo correndo bem, como o esperado e foi, realmente, tudo maravilhoso. No outro dia fui honesto com você pois eu estava em um momento da minha vida que me pedia essa honestidade. Eu só me assustei com o que foi dito porque na verdade pensei em outra coisa, pensei naquele amor que nos foi ensinado, naquele amor que devemos – quase que por uma obrigação – aceitar, respeitar e ter pra sempre. Hoje penso diferente, não acho que exista amor ágape, amor eros, nem nada disso: o meu amor é meu e é um só e eu o sinto por todas as pessoas que amo, igualmente. Aprendi que posso ser generoso com o meu amor e que não há problema nem vergonha alguma nisso. Isso que nos é ensinado nos intimida, nos tranca em nós mesmos e nos faz subaproveitar momentos que poderiam ser potencializados se esse amor simplesmente fosse aceito. Ao me dizer ‘eu te amo’ aquela noite, você realmente me amava e hoje felizmente eu posso entender e apreciar isso. E eu também te amei, mas não entendia isso na época. Aquilo, aquele momento, era realmente amor o que acontecia entre a gente. Mas existem os nossos egos… E tudo isso é tão bobo. Mas existiu o significado… E tudo isso é tão importante.”

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– Cara, eu vou te dizer algo que vai soar imensamente idiota mas, por favor, não me leve à mal: eu não acredito em maturidade.
– Você não acredita que a pessoa fique mais calejada depois de um tempo? Não te levo à mal, Dora.
– Calejada sim, madura não. Sempre vão existir erros novos.
– Mas o que você entende por maturidade?
– Maturidade é uma das ilusões preferidas de todo mundo.
– Acho que ninguém fica perfeito, mas alguns erros deixamos de cometer.
– Sim, os erros diminuem e alguns até param de se repetir. Mas não cessam totalmente. Tenho um problema pessoal com este termo, maturidade. As pessoas gostam de usá-lo num sentido positivo, mas a palavra em si, o significado que atribuem à ela, pressupõem uma série de coisas que não são verdade. Eu sou chata com palavras. A gente só envelhece, mesmo. A gente não é fruta pra amadurecer. Só aceito que amadurecemos no sentido biológico, fisiológico mesmo, etc.
– Hahahaha…
– Usam essa palavra como se ela obrigatoriamente significasse três coisas: 1. Estamos mais maduros quando obrigatoriamente estamos mais velhos; 2. Estamos mais maduros quando obrigatoriamente passamos por muita merda; 3. Estamos mais maduros quando obrigatoriamente somos mais sábios; E eu te digo algumas coisas: já vi muita criança mais ‘madura’ que marmanjo; já vi gente que passou por muita merda continuar a se resbaldar na mesma e ainda se considerar ‘maduro/a’ e já vi muito cara considerado ‘maduro’ e sábio por muitas pessoas ser completamente babaca e desrespeitoso. Toda vez que alguém te falar em maturidade, coloque seus dois pés bem atrás. Maturidade é uma ilusão. É só uma palavra bonita.
– Eu acredito na maturidade, mas também não acho que seja totalmente atrelado à idade. Tem gente que simplesmente não aprende…
– Eu já acho que ninguém aprende. Mas eu tenho uma visão bem pessimista de tudo..
– Eu aprendo, Dora!
– Ah, se você diz… ;)

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Study of Violets, Leonardo Da Vinci (Italian, 1452-1519) ~ Study of Violets

– É tão estranho depois de tanto tempo voltar a fazer auto-retrato. Tô tentando retomar isso, mas hoje eu me sinto bem ridícula. É como se eu tivesse bancando a idiota, sabe? É muito ruim ficar velha.

– Sim, sei como é. Eu também nunca mais tirei fotos de mim mesma.

– E não pode ser assim né? Não deveria ser assim, pelo menos. Tenho me forçado a fazer algumas. Agora a pouco fiz algumas, vou postar daqui a pouco.

– Sei lá. Eu tiro algumas fotos, mas eu fico com vergonha. Me sinto ridícula em todas. Tenho vergonha, ainda não me perdoei. Me acho uma imbecil.

– Sim, mas é um exercício.

– Parece que fica gritante, gritantemente óbvio, que algo se perdeu ali.

– Mas é o exercício que faz a gente achar um novo caminho.

– É verdade. Preciso voltar a tirar fotos. Eu tirava antes uma por mês.

– Depois que vim pra cá tem sido bem difícil.

– Eu não tiro auto-retratos desde 2011.

– É… Bastante tempo.

 

– E então? Está animada?

– Sim.

– Mas… Sei lá… Você tem certeza de que é isso mesmo que você quer pra você?

– Sim. Se não tivesse, porque o faria?

– Não sei.. É que é tudo tão recente.. Fico meio receosa por você, talvez você se arrependa, não sei.. Você acha mesmo que isso vai dar certo?

– Escute: não estou fazendo isso para dar certo. Estou fazendo isso porque quero que dê certo. Não estou fazendo isso pra conseguir a minha felicidade. Faço isso porque quero, muito, fazê-lo feliz.

 

Mesmo com nossos valores indo de encontro, emudeci. Como discordo frontalmente dela em quase tudo, a reação primeira foi achá-la burra, simplista. Achei as respostas quase que impensadas. Mas digeri a resposta dela ao longo dos dias e, aos poucos, outras respostas apareceram para mim. Invejei aquela sabedoria inconsciente dela por alguns segundos. Embora eu ainda resista, me parece que, finalmente, a compreendi. E achei belo. E me calei.

 

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