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– G., eu queria aprender comer direito. O que eu faço?

– Escove os dentes imediatamente todas as vezes depois de comer, D.

Eu sempre meio que me orgulhei de fazer comida “no olho”. Algumas receitas eu sei de coração porque vi serem feitas umas mil vezes na vida e acabei aprendendo assim. Mas de alguns anos pra cá eu tenho tido uma tendência pro exagero e pra falta de medidas. Outra coisa que não tenho feito em absoluto é a gestão do meu tempo. Uma coisa é você fazer isso no seu trabalho, outra, na sua vida. Fazer na vida é bastante ruim, o arroz queima, tudo queima, etc. Fato é que tenho andado bem esquecida. Mas isso não justifica nada.

Eu sei fazer arroz e feijão, por exemplo. E eu achava isso bom o suficiente, até hoje. Na verdade isso é uma mentira: eu não sei fazer essas coisas, eu penso que sei. Mas volta e meia o feijão queimava, o arroz empapava, até que isso começou a se tornar uma constante de uns tempos pra cá. Tem me irritado. Aí percebi que uso medidas mal e porcamente e que simplesmente não tomo conta do tempo. Claro. Hoje me lembrei que eu tenho um copo com medidas, que raramente uso. E aí me perguntei por que tão raramente?

O chef falou que para cada medida de arroz ou feijão, 2 medidas e meia de água são necessárias para o cozimento. Para o feijão eu sei que são 40 minutos depois que a panela começa apitar a pressão. Para o arroz eu ainda não tive coragem de desligá-lo para cozinhar no bafo quando ele já está seco e meio úmido e eu sempre acabo queimando ele, como foi hoje.

Outra coisa que preciso aprender, mas que vou aprender aos poucos que é deixar a comida “assentar” antes de comer. Tem gente que come logo depois que a comida está pronta “pra não esfriar”. Mas eu acho – e isso é bem pessoal – que isso é um erro. A comida é melhor saboreada se não estiver tão quente assim. Não precisa ser muito tempo: dois ou três minutos já está bom. Esperar, esperar e esperar. É isso.

Neste mês: comprei um relógio exclusivo pra cozinha. Bem grande. Fica em cima da pia. E começarei a usar mais o copo com as medidas.

São Paulo é a cidade do exagero. Aqui tudo é grande, tudo é longe, tudo é demorado, tudo é muito caro. Não fosse, não seria São Paulo. Mas agora falo de comida. Aqui não tem só comida como em qualquer outro lugar do Brasil. Aqui tem MUITA comida. Tem comida PRA CARALHO. E tudo é um exagero. Sanduíche de mortadela com 10cm de mortadela gordurenta. Pratadas e pratadas de macarronada com molhos fartos. Beirutes do tamanho do universo. O curioso é que é nas lanchonetes ‘de pobre’, ou ‘de mortais’ ou de gente comum (as lanchonetes não-gourmet) é onde os lanches são ainda maiores para aplacar a fome do paulistano. Quanto mais gourmet é o lugar, menos comida vem no prato, mas isso não é exclusividade daqui, é no mundo todo. Hoje eu estava pensando sobre esse exagero, de tudo, mas principalmente de comida. Tem uma lanchonete perto do meu trabalho na Alameda Santos onde sempre vou, mesmo sabendo que o sanduíche é imenso e que não consigo dar conta. Sempre vou e sempre peço um com fritas. As fritas sempre sobram, em quantidade. O sanduíche, dependendo do meu dia, sobra a metade. Isso porque eu sou uma glutona que sempre come pra caramba. Mas simplesmente não consigo vencer. E nunca deixo a comida lá, acho meio criminoso mesmo (neura desenvolvida por anos a fio). Enfim, sempre levo a comida comigo, afinal, eu paguei, não quero que vá pro lixo simplesmente. O lance foi que eu aprendi que, mesmo levando a comida, eu jamais vou comê-la depois. Não tem como comer batata frita DEPOIS. Ninguém faz isso, é ruim, não gosto de coisas que não são frescas. Claro que São Paulo, por hora, me deixou mais gorda: é muita novidade, muitos restaurantes, muito de tudo. Mas ao mesmo tempo me deixou mais comedida também: não me obrigo mais a comer TUDO o que vem no prato. Sou mais seletiva nos pedidos. Tento ser menos exagerada em vários campos da minha vida: o exagero da cidade compensa o meu. E, principalmente, o que mais gostei até agora: o exagero da cidade agravou a minha generosidade. Apesar de sempre levar uma quentinha da comida comigo, o que acontece é que eu sempre dou essa comida pra mendigos ou trabalhadores de rua, jamais deixo pra mim mesma porque detesto deixar a comida “para depois”. O que está fresco deve ser comido no momento e acho este um imediatismo bem positivo. Já fiz isso de dar comida para pessoas na rua várias vezes esse ano. Ter o privilégio de doar comida fresca a desconhecidos que precisam e ver a expressão de gratidão deles alimenta a minha alma.

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