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Perguntei pra minha mãe sobre umas fotos que ela tinha recebido há uns dois anos atrás, em 2012. Fotos minhas. Fotos inclusive que ela não deveria ter recebido em primeiro lugar. Aquelas fotos foram fruto de uma covardia severa. Não, eu não estava nua, eu não estava em nenhum ato inapropriado ou considerado constrangedor pelos meus pais, tão conservadores. Se estivesse, talvez a coisa toda seria menos errada do que foi pois a imagem é minha, a vida é minha, etc. Frase bonita “a imagem é minha, a vida é minha”. Essa frase parece errada. Pensando nesse caso em específico, pra mim se assemelha a um quadro torto na parede. O fato é que houveram fotos e existia uma ausência. Neste ano, se completam 8 anos que não moro mais nessa cidade e nem mesmo habito essa casa. Em 2012, época em que as fotos foram recebidas pelos meus desavisados pais, eu não morava mais aqui há exatos 6 anos.

É bastante tempo, não? Convenhamos.

Mesmo sendo bastante tempo, isso não é desculpa alguma para alegar desconhecimento. Meu paradeiro nunca foi segredo para ninguém e me alcançar não é difícil. Nas redes, eu estou aqui, ali e acolá e todos sabem disso.

Não sei por quanto tempo pode durar um rancor. Também não sei quanto dura uma mágoa. Acho que pra cada pessoa o tempo é diferente. Pra algumas pessoas, parece durar pra sempre. O ressentimento, que fica embolado como fios enroscados sem sentido algum, parece algo difícil de se desvencilhar. O ato de devolver fotos minhas para terceiros (sim, meus pais são terceiros e NADA a ver com o ocorrido – nem jamais tiveram) é um ato de covardia, pois pra mim não existe outro nome. Na verdade tem dois nomes: covardia e submissão. Claro: porque a covardia provavelmente foi quem teve essa brilhante ideia e a submissão possivelmente resolveu que seria uma boa ideia corroborar com isso. Ou, como diria algum psiquiatra: é melhor não contrariar né? A vida já é muito difícil, as coisas já são insuportáveis por si sós…

Por que não permitir um breve e simbólico exorcismo, para ver se as coisas não melhoram um pouco, não é mesmo?

Na hora deve ter parecido uma ótima ideia.

Enfim.

Pois então, as minhas fotos. Fiquei sabendo da notícia da pior e mais atrapalhada forma possível e pelo pior tipo de pessoa possível. Meus pais, querendo me proteger (de mim mesma, dos outros) não iam me contar nada e deixariam passar batido. Eles são sábios. Mas eu soube. E achei totalmente desnecessário. E tive ódio, sim, por alguns dias. Provavelmente devo ter dito para minha mãe jogar tudo no lixo, que seria o lugar natural para onde essas fotos deveriam ir desde o início, caso estivéssemos tratando de pessoas sensatas. Mas é ingenuidade minha esperar sensatez ou qualquer tipo de coerência dos remetentes. Pois bem. Voltar pra cá é reviver toda a história, mesmo que homeopaticamente. Sempre. Toda porra de vez. Sempre alguém lembra, alguém pergunta, alguém traz de volta o que não existe mais há cerca de 10 anos. Dez fucking anos. Acho impressionante o modo como as pessoas páram no tempo totalmente por aqui.

E eu respondo, tentando inutilmente relembrar as pessoas, que tenho trinta anos. E que não, eu não tenho mais notícias destas pessoas. Que eu sequer sei quem são hoje em dia. E que eu não tenho interesse algum em saber. Que eu nem mesmo vou mais nos mesmos lugares porque “os mesmos lugares” sequer existem mais… Eu não deveria me admirar. Pelo contrário: devo na verdade esperar por isso. Na verdade as mesmas perguntas e mesmas insinuações e mesmas rememórias serão feitas provavelmente até o fim da vida dessas pessoas. Porque isso é tudo o que elas tem: a memória. Não resta mais nada por aqui. Não há presente, não há futuro: existe a memória. É um exercício de paciência, sempre e toda vez, trazê-las para o meu presente, para onde vivo, o que faço, pelo que me interesso, por todas as outras N coisas que existem na minha vida e são relegadas ao nada. Toda vez. É um tanto quanto cretino. É meio nocivo. E um tanto quanto enfadonho… Mas ao longo dos anos, acredito que aprendi a lidar. 

Me lembrei das fotos. Perguntei pra minha mãe onde estariam aquelas fotos. Ela respondeu, afobada, que não sabia onde estavam, que talvez até tivesse jogado no lixo e que não era pra eu revirar a casa nem as coisas dela em busca de nada. Ela tem seu papel, quer me proteger. Eu via no rosto dela o medo de que eu me machucasse, caso visse aquelas fotos novamente. A essa altura do campeonato seria mais provável que eu achasse fofo, risse ou sei lá, ficasse indiferente. Mas entendi e não procurei pelas fotos. Se me conheço bem, devo mesmo ter mandado jogar tudo no lixo – é a minha cara pedir pra fazer isso. De qualquer modo aquelas fotos, hoje, não significam absolutamente nada pra mim. Eu sei que vivo no presente e isso me basta. No entanto, acredito que devido a todo o mise-en-scène, a toda importância dispensada, a todo o papelzinho ridículo e simbólico da necessidade de devolução – ao invés de simples destruição – aquelas fotos devem significar a base de absolutamente tudo para seus remetentes.

E são mesmo.

Saibam.

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