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Arquivo da tag: Cansaço

Tudo o que eu como, desde ontem, está insuportavelmente doce. Acho que todos os meus sentidos estão alterados, de algum modo. E isso não tem nada a ver com TPM, pelo meu calendário que acompanho de perto. É puramente emocional, mesmo. Quando estou emocionalmente mexida de alguma forma, meus sentidos se transformam. É como se eu estivesse me preparando para o que vai acontecer – e, de fato, estou mesmo, de forma cada vez mais consciente. Boto carne na boca e ela parece puro açúcar. É tudo muito horrível, tudo me dá um enjôo, uma náusea muito forte. Sinto vontade de vomitar o mundo. Às vezes tenho a impressão também de que meu corpo está levemente dormente. Meus dedos das mãos, meus braços. Meu rosto. Não consigo sentir mais as coisas, o mundo, direito. É como se eu estivesse temporariamente anulada, mesmo. Em câmera lenta, debaixo d’água, entardecendo. Não enxergo mais as pessoas, derrubo coisas, minha distração fica além do normal. Tudo o que ouço, todas as músicas, ficam como se equalizadas e é como se eu só conseguisse ouvir os sons mais graves, de tudo. Músicas que antes ouvia como se não fossem nada, agora soam completamente diferentes, mais encorpadas, mais profundas, muito, muito mais dramáticas. E isso tudo está na minha cabeça. Dentro da minha cabeça, eu sei. Estou muito cansada e detesto fim de ciclos, mas eles são necessários. Preciso crescer. E crescer sempre dói. Não tenho muita escolha. Vai passar.

Fumar é um mau hábito. Mas quem disse que eu sou um bom hábito? Não habito em lugar algum e ao menos assumo isso, sem maiores constrangimentos. Habito no fluxo, desço do ônibus, ganho passos apressados, buzinas, esporros e eu penso, gosto de pensar, que eu amo muito tudo isso. Gosto de pensar que amo essa porra. Me apresso pra levar nãos na cara. Levo o não. Trago o não comigo. Trago. Está tudo errado e eu preciso me acalmar. Preciso viajar mais duas horas pra chegar onde preciso, pra chegar num lugar onde me sinto viva, pra chegar num lugar onde existe gente que fale a minha língua. Existem coisas para serem feitas e elas não terminam, o oposto disto, elas parecem não parar de se multiplicar e eu estou em todas elas, tenho que estar. E estou. Para cada não que me é dito, eu digo sim para todas essas coisas. Meu sim é mais forte, é sempre mais forte do que eu posso suportar. Mas se eu ainda suporto é por algum motivo. Suporto, quero, desejo. Preciso. É um grande tumulto mas eu entendo que no final vai valer a pena de um modo ou de outro. Não sei dar bom dia. Não sei me despedir. Eu fluxo. E na conversa do ônibus você surge. E eu falo e falo, falo como se não sentisse, falo de você como se você não fosse comigo. Simplifico, reduzo tudo o que foi tão grande um dia. Falo pra ela que eu sou uma problem solver e que você era um trouble maker. Tenho essa mania insuportável de querer leveza. Falei tudo em que acreditava, que você precisa de alguém assim, que não sou eu, que você precisa de alguém assado, que não sou eu. Que nunca fui eu, pois eu nunca fui nada. Há muito tempo eu simplesmente listei todas as características para você do exato tipo de pessoa que você precisava na sua vida (problem solver) e você, negou tudo o que eu disse e disse que não era isso, que eu era estúpida, reducionista, prática e que o que eu dizia era uma mentira (trouble maker). Mas cedo ou tarde, tarde, agora e já, tudo o que eu disse se tornou mais real do que aparentemente ninguém esperava. Ou esperavam, foda-se, nunca foi sobre eles, nunca foi sobre nós. E tudo bem. Achei ótimo. Achei melhor assim. Achava melhor assim até quando era dolorido demais achar que era melhor assim. E você sempre soube disso e jamais vai admitir. Falei isso tudo, como se nada fosse. Sempre foi algo. Sempre foi (e isso é uma declaração de alguma coisa). Segui um fluxo, abri um mapa, cheguei onde eu precisava chegar. Precisava esclarecer várias coisas e todas foram esclarecidas. Já me decidi sobre o que fazer comigo mesma. Um desvio, uma absorção menor e mais restrita. A mais restrita possível, foda-se. Algum tempo pra continuar existindo desse jeito, mas de outro – gosto de pensar que tudo vai continuar a mesma coisa apesar das mudanças. Enfim. Terei bengalas pro resto da vida, mais do que as que já tenho. Serei privada de alguns prazeres mas hey, não se pode ter tudo mesmo nessa vida. E eu quero que seja restrito. Eu escolho isso, conscientemente. No final da apresentação, algo potencialmente simbólico, um desenho de uma âncora que vai do peito ao baixo ventre. Entendi imediatamente que isso significaria que, em breve, vou navegar para onde eu tiver de navegar, sendo âncora pro resto da minha vida. Meio absurdo, muito real. É uma decisão. É a minha decisão. Quero isso. Escolho isso. Preciso disso. Ganho a rua, a noite está fria e chuvosa. Eu não queria estar em nenhum outro lugar que não aquele. Não queria cantarolar o que cantarolei passando por nenhuma outra rua. Naquele momento eu não tinha mais alma alguma. Tive que esperar e puxei um cigarro, inspirando o máximo que pude e soltando logo em seguida da forma mais consciente e esvaziada que a minha exaustão me permitiu fazer. Me senti completamente dopada logo em seguida. Me fundi na cidade. A companhia do cigarro fez com que a avenida inteira se esvaziasse e só sobrasse ali eu e a fumaça. Eu, a fumaça, o vento a minha falta de alma em toda a sua extensão. Sou um mau hábito. E fiquei pensando nos critérios que definem os hábitos como maus, entre luzes de carros, ônibus e conversas desanimadas de fim de dia. Coisas que não existem. Recostei minha cabeça no vidro e nada mais se passava por ali. Apenas meu cheiro de cigarro, suor de fim de dia e cansaço. Eu fedia à exaustão, você sabe bem como. Queria muito que me arranhassem dos pés à cabeça. Precisava de mais um cigarro. E a próxima coisa na qual pensei foi a de que, depois que eu passar pelo que eu tiver de passar, nunca mais nenhuma escolha minha será impune. E mentalmente tornei essa minha decisão uma oferenda à você. E à ela. Está decidido.

(…)

Essa cidade não é uma paixão.

Essa cidade é um vício.

E uma mentira.

Quando eu penso nas palavras e nas estruturas do que preciso dizer, tudo sai absolutamente perfeito. Quando tenho tempo para escrevê-las, elas já me escaparam, não sei mais o que fazer. No momento, estou com sono. E cansada. E tenho feito muita coisa. E esperado muitas coisas. Esperarei coisas pra sempre. É o que faço. Mas algumas coisas estão mudando, sensivelmente. Ainda não sei o quanto, nem em que passo, só sei que estão. Algo parece se transpôr, dentro de mim. Algumas coisas não combinam mais com o que eu sou, nem com o que eu quero. Com as coisas que quero. Sejamos objetivos, não? Reviro os olhos, não penso no futuro. Sei que tenho que parar qualquer dia desses pra pensar no longo prazo. Eu apenas queria que as coisas me deixassem fazer isso. É difícil, não dou conta do tempo. Não sei se quero dar conta do tempo. Acho que quero deixá-lo correr ao seu próprio passo. Algumas mudanças bastante bruscas estão pra acontecer e eu sinto isso daqui. Não sei se boas ou ruins, mas bastante bruscas. Comigo, com quem eu penso que sou, com quem penso que sempre fui. Algumas mudanças, grandes, vão acontecer. E eu quero mais é que aconteçam. Acho que já as adiei por muito tempo, já as adiei por tempo demais. Não estou com medo, não estou apreensiva. Sinto que eu esteja correndo em direção a elas, planejando-as por baixo dos panos de certa forma. É como se não fosse comigo. Como se eu fosse testemunha dessa transformação íntima. Não há absolutamente nada a ser assumido aqui. Não há mais tempo para se assumir nada, planejar nada, querer nada. Apenas há o tempo de as coisas serem. Acontecerem. Se tornarem. Não há mais tempo para introduções agora que metade do caminho já está andado. A diferença é que, mesmo que eu mude absurdamente de rumo, a impressão que eu tenho é que apesar de tudo, eu vou permanecer aqui. Apesar de tudo.

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