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Arquivo da tag: Campo Grande

Perguntei pra minha mãe sobre umas fotos que ela tinha recebido há uns dois anos atrás, em 2012. Fotos minhas. Fotos inclusive que ela não deveria ter recebido em primeiro lugar. Aquelas fotos foram fruto de uma covardia severa. Não, eu não estava nua, eu não estava em nenhum ato inapropriado ou considerado constrangedor pelos meus pais, tão conservadores. Se estivesse, talvez a coisa toda seria menos errada do que foi pois a imagem é minha, a vida é minha, etc. Frase bonita “a imagem é minha, a vida é minha”. Essa frase parece errada. Pensando nesse caso em específico, pra mim se assemelha a um quadro torto na parede. O fato é que houveram fotos e existia uma ausência. Neste ano, se completam 8 anos que não moro mais nessa cidade e nem mesmo habito essa casa. Em 2012, época em que as fotos foram recebidas pelos meus desavisados pais, eu não morava mais aqui há exatos 6 anos.

É bastante tempo, não? Convenhamos.

Mesmo sendo bastante tempo, isso não é desculpa alguma para alegar desconhecimento. Meu paradeiro nunca foi segredo para ninguém e me alcançar não é difícil. Nas redes, eu estou aqui, ali e acolá e todos sabem disso.

Não sei por quanto tempo pode durar um rancor. Também não sei quanto dura uma mágoa. Acho que pra cada pessoa o tempo é diferente. Pra algumas pessoas, parece durar pra sempre. O ressentimento, que fica embolado como fios enroscados sem sentido algum, parece algo difícil de se desvencilhar. O ato de devolver fotos minhas para terceiros (sim, meus pais são terceiros e NADA a ver com o ocorrido – nem jamais tiveram) é um ato de covardia, pois pra mim não existe outro nome. Na verdade tem dois nomes: covardia e submissão. Claro: porque a covardia provavelmente foi quem teve essa brilhante ideia e a submissão possivelmente resolveu que seria uma boa ideia corroborar com isso. Ou, como diria algum psiquiatra: é melhor não contrariar né? A vida já é muito difícil, as coisas já são insuportáveis por si sós…

Por que não permitir um breve e simbólico exorcismo, para ver se as coisas não melhoram um pouco, não é mesmo?

Na hora deve ter parecido uma ótima ideia.

Enfim.

Pois então, as minhas fotos. Fiquei sabendo da notícia da pior e mais atrapalhada forma possível e pelo pior tipo de pessoa possível. Meus pais, querendo me proteger (de mim mesma, dos outros) não iam me contar nada e deixariam passar batido. Eles são sábios. Mas eu soube. E achei totalmente desnecessário. E tive ódio, sim, por alguns dias. Provavelmente devo ter dito para minha mãe jogar tudo no lixo, que seria o lugar natural para onde essas fotos deveriam ir desde o início, caso estivéssemos tratando de pessoas sensatas. Mas é ingenuidade minha esperar sensatez ou qualquer tipo de coerência dos remetentes. Pois bem. Voltar pra cá é reviver toda a história, mesmo que homeopaticamente. Sempre. Toda porra de vez. Sempre alguém lembra, alguém pergunta, alguém traz de volta o que não existe mais há cerca de 10 anos. Dez fucking anos. Acho impressionante o modo como as pessoas páram no tempo totalmente por aqui.

E eu respondo, tentando inutilmente relembrar as pessoas, que tenho trinta anos. E que não, eu não tenho mais notícias destas pessoas. Que eu sequer sei quem são hoje em dia. E que eu não tenho interesse algum em saber. Que eu nem mesmo vou mais nos mesmos lugares porque “os mesmos lugares” sequer existem mais… Eu não deveria me admirar. Pelo contrário: devo na verdade esperar por isso. Na verdade as mesmas perguntas e mesmas insinuações e mesmas rememórias serão feitas provavelmente até o fim da vida dessas pessoas. Porque isso é tudo o que elas tem: a memória. Não resta mais nada por aqui. Não há presente, não há futuro: existe a memória. É um exercício de paciência, sempre e toda vez, trazê-las para o meu presente, para onde vivo, o que faço, pelo que me interesso, por todas as outras N coisas que existem na minha vida e são relegadas ao nada. Toda vez. É um tanto quanto cretino. É meio nocivo. E um tanto quanto enfadonho… Mas ao longo dos anos, acredito que aprendi a lidar. 

Me lembrei das fotos. Perguntei pra minha mãe onde estariam aquelas fotos. Ela respondeu, afobada, que não sabia onde estavam, que talvez até tivesse jogado no lixo e que não era pra eu revirar a casa nem as coisas dela em busca de nada. Ela tem seu papel, quer me proteger. Eu via no rosto dela o medo de que eu me machucasse, caso visse aquelas fotos novamente. A essa altura do campeonato seria mais provável que eu achasse fofo, risse ou sei lá, ficasse indiferente. Mas entendi e não procurei pelas fotos. Se me conheço bem, devo mesmo ter mandado jogar tudo no lixo – é a minha cara pedir pra fazer isso. De qualquer modo aquelas fotos, hoje, não significam absolutamente nada pra mim. Eu sei que vivo no presente e isso me basta. No entanto, acredito que devido a todo o mise-en-scène, a toda importância dispensada, a todo o papelzinho ridículo e simbólico da necessidade de devolução – ao invés de simples destruição – aquelas fotos devem significar a base de absolutamente tudo para seus remetentes.

E são mesmo.

Saibam.

Está frio aqui. Não imaginei que estaria tão frio. Na verdade a minha expectativa é que estivesse quente todos os dias que eu estivesse por aqui. Tudo bem, não está quente, trouxe um casaco, deve bastar. Os dias tem passado rápido até. Vi minha madrinha. Acho que vou sentir falta de quem ela era. Fico mal, mas a sensação é a mesma de sempre em relação a tudo: impotência. Não posso fazer nada a não ser continuar mal por isso. Saí com uma amiga que não via há anos. Foi bom perceber o quanto ela mudou, de verdade. É bom perceber um pouco de consciência nos outros. Comi tudo o que não deveria comer, na quantidade que não deveria comer. Me permiti ser totalmente mimada, nos três primeiros dias. Achei que ia conseguir renovar a minha CNH, mas parece que não. Não preciso dela de qualquer jeito, não tenho carro mesmo, nem penso em ter. O primeiro shopping da cidade foi reformado exatamente da mesma forma que eu tinha sonhado anos atrás. Não sei se pretendo conhecer os outros dois novos. Acho que não. Continuo com a certeza de que prefiro morrer a ter que voltar a morar aqui. E isso não é um exagero. Nunca foi. A variedade de sons de pássaros me agrada, no entanto. Eles só se calaram agora, que ficou frio de repente. Eu sentia mais saudades da minha irmã do que eu imaginava. Mesmo. Até dos defeitos dela. Foi bom rever as crianças que ainda são espertas porque são crianças. Rolou uma premiação, socialização forçada com gente que não gosto, teste de paciência. Percebo que insistem em transferir pra mim responsabilidades que não são minhas. Não sou gentil. Sou incivilizada com pessoas que não convivem comigo. Sempre fui, sempre vou ser. Sem problemas: ainda tenho muito mais a perder. Esqueço dessas responsabilidades que me transferem: não faço parte dessa rotina, então nem mesmo me culpo. Me exigem um comprometimento que não tenho há anos (que talvez nunca tenha tido, na realidade). Mas pelo menos desta vez a cobrança não existe. Revisitei lugares que não ia há anos. A sensação é sempre estranha, uma mistura de nostalgia com desgosto. Mais desgosto que nostalgia. Embrulho no estômago mesmo. Não assumo nunca minhas memórias afetivas. Mais fácil assumir que jamais houve afeto e truncar as memórias. Fui a um café com uma amiga da minha mãe. Ela me contou parte de uma história que eu já desconfiava, mas ainda não tinha ouvido da boca de ninguém. Todo mundo me subestima. Inclusive eu mesma. Mas tudo bem. Estava com saudade dos gritos da minha mãe em sala de aula. As coisas permanecem como sempre: leveza a partir do peso, grosseria, etc. Jamais vou entender essas pessoas que pensam que ensinam (e ensinam) sendo agressivas, impondo aos outros tudo o que sabem, o seu vasto conhecimento de forma completamente hostil. Acho que é uma forma de manter as pessoas distanciadas, na verdade, de não ter uma intimidade de verdade, essa necessidade infindável de querer poder colocar todos no seu devido lugar. Conheço esse tipo. Desde que nasci. Talvez conheça desde antes de eu ter nascido. Senti inveja da minha mãe. Sinto, ainda. Quero ter algumas das coisas que ela tem e não estou falando de bens, nem de dinheiro. Queria ter pessoas que quisessem ficar comigo, mesmo eu não sendo boa. Queria ter pessoas que acreditassem em mim, apesar dos meus defeitos. Nunca tive nada disso e talvez eu nunca tenha. Pra mim, isso nunca irá passar de um sonho, mesmo. Falei à amiga dela que gostaria de um dia poder ser generosa como a minha mãe. Não sou e acho que talvez eu jamais seja. Agora já era. Acho que não aprendi a tempo. E agora é que eu não quero aprender mesmo.

Vez e outra eu tenho crises de existência. Tá. Pode existir gente que nunca teve, mas eu tenho. Acho engraçado que as pessoas me achem (elas me dizem isso, não estou inventando) tão certa das coisas, tipo “nossa, você já sabe o que quer, já tem tudo encaminhado, eu queria tanto ser assim”. Não queira. Por mais que pareça, não sou tão segura quanto pensam e nem quanto eu penso. Não teria tanta certeza assim sobre mim mesma.

Ter foco não tem NADA a ver com saber o que quer. Foco e disciplina são só ferramentas (características) que potencializam algumas coisas pras quais eu já estou disponível, mas não tem nada a ver com saber, efetivamente, o que se quer. Eu não sei exatamente o que quero – nem o que eu sou ou vou ser – num sentido mais amplo. Mas no sentido prático, eu faço por onde e faço de acordo pra atingir meus objetivos, pura e simplesmente. Coisa que qualquer pessoa com o mínimo de decência e competência faz.

Não que ultimamente eu não esteja satisfeita com as coisas que tenho feito e estou fazendo. Acho que estou satisfeita com o que faço, sim. O problema agora é que geralmente quando eu páro em algum momento em que preciso me definir (“faço isso, faço aquilo mais, sou aquilo outro”) eu não consigo, e também não consigo entender se isso é bom ou ruim. Talvez seja bom e ruim e isso não tenha muita escapatória.

Eu deveria relaxar mais com essas coisas. Deveria aceitar algumas outras também, com mais facilidade. Mas né, quem disse que tudo seria simples? É fato que eu me preocupo demais com coisas que não deveria, mas isso agora tá pegando. Acho que o problema não é que eu não queira ser eu, mas que eu queira ser algo. Mas mais do que ser só algo, eu também queria ser muitas coisas. Talvez eu seja essas muitas coisas e esteja com dificuldade de lidar com isso (o’rly? ya rly.). Talvez o que eu quero ser não exista, o que seria pior ainda.  Ok, o problema não é tão complexo assim… O que eu quero existe e eu estou trabalhando pra isso.

A sensação que eu tenho é a de que preciso sair do armário, mas não estou sabendo bem como. Crise de identidade é uma coisa escrota. Mesmo.

Quinta-feira agora estarei viajando pra Campo Grande, novamente. Não digo isso com ânimo, mas com um certo tédio/indiferença mesmo. Mas dessa vez o motivo que me leva pra lá são algumas pedras que tenho na vesícula. Vou tirar a vesícula dia 31 pela manhã. Vou passar alguns dias lá e vejo se faço algumas coisas importantes nesse meio tempo, como rever meus padrinhos, rever uma ou duas pessoas com quem (ainda) me identifico, ir na feira, ir no China In Box (velha história). Cada vez menos eu culpo a cidade pelas coisas que me aconteceram… E isso é bom, acho. Não sei. A essa altura da minha vida isso não me importa mais. Mesmo. Não moro mais lá e não pretendo voltar.

Mas ainda assim, não me animo muito em ir pra lá não. Na verdade, não me animo nada. A perspectiva de rever algumas pessoas não me agrada muito. Por isso digo que não sei se vou querer sair, nem ir pra festa/bar/whatever nenhum. Quero cada vez menos festa e cada vez menos agitação. Chega. Não estou mais com saco, nem com idade pra isso.  Estou com preguiça das pessoas, de quase todas elas. Só se for algo muito divertido, sei lá.. O que acho difícil. Não estou mais bebendo.. Aliás, nem vou poder beber de qualquer forma, pois vou estar operada mesmo…  Mas enfim, preguiça de tudo, das pessoas, da maioria dos lugares, etc.

Além da extração da vesícula, vou ver também se consigo nesse período o sobrenome do meu pai. Aproveito a estadia e já renovo todos os documentos que eu tiver em mãos, etc. Acho que vai ser uma semana muito prática, apesar de eu ter que ficar “meio que” de repouso por causa dos 3 furos na barriga. Enfim… Vamos ver o que eu consigo resolver.

09/04/2009

Saí de casa e cheguei no aeroporto a tempo, fiz check-in e, ainda assim, quase perdi a hora de embarque por bobeira. Fazia quase 2 anos que eu não ia a Campo Grande/MS. E eu não queria ir dessa vez também. Ok, não que eu não quisesse ir… Mas definitivamente não estava muito animada em quebrar a minha rotina diária. É a tal da coisa, vou ter que socializar com algumas pessoas, ir em alguns lugares, enfim.. Meio exaustivo. Mas enfim…

Assim que cheguei na cidade recebi um sms da última pessoa que esperava receber qualquer coisa. Não lembro o que fiz a tarde. De noite combinamos de nos encontrarmos e irmos no posto do Parque dos Poderes. Tocaria uma banda que eu já conhecia e talvez alguns outros amigos também fossem. Ele quis me ver e demorei pra me tocar que faziam 7 anos que a gente não se via. Tivemos uma briga há uns mil anos atrás, eu até lembro bem o que era, mas finjo que não.. A verdade é que foi por um motivo idiota e a briga foi de criança.

Não sei se meus olhos brilharam como os dele, quando eu o vi de novo, mas foi bastante emocionante. O abracei sem ansiedade, nem nervosismo, mas foi um abraço demorado. Foi estranho… Ainda não conseguia acreditar muito na consideração que ele tinha por mim. Não tinha muitas, nem grandes expectativas em relação a ele ter mudado ou não. Pessoas próximas que eu conhecia me diziam que ele estava diferente, que tinha mudado. E eu, mesmo sem mais mágoa, nem ódio, estava bem cética quanto a tudo. Ele deixou a moto dele lá em casa e saímos de carro.

Não sei o que houve, mas naquela noite não conseguimos parar de conversar. Não consegui dar atenção pra mais ninguém pois parecia que eu não tinha exatamente o que conversar com ninguém mais.  Fui pro posto, mas não fui pelo posto. A conversa foi agradável. Alguns cigarros e duas heinekens muito geladas. Não quis beber mais pois quis voltar pra casa cedo, dirigindo, onde cedo foi 2h30 da manhã.

Voltamos pra minha casa e ficamos conversando um pouco mais, no portão. Aquelas conversas intermináveis sobre planos, futuros, desejos e vontades. Só coisas boas. E a lista parecia não terminar. E foi nessa conversa que eu percebi o quanto ele havia mudado, de verdade. E meu coração se encheu de felicidade com isso. Ouvi coisas realmente muito ótimas nessa noite. A identificação me impressionou um pouco, mas tudo bem… Estamos em fases parecidas da vida, não há nada mais comum que isso. Ele me surpreendeu de modo geral e acho que isso foi recíproco. Não nos comportamos mais como a 7 anos atrás, definitivamente.

E de repente eu percebi que o tempo começou mesmo a passar rápido demais, e é aí, exatamente aí que as coisas começam a se confundir. E então ele foi embora. Um bom timing, eu diria. Não existe a necessidade de pressa pra nada.. Fazia muito, mas muito tempo que eu não dormia tão feliz sem que alguém ao menos tivesse encostado em mim.

10/04/2009

Acordei e teve um festival gastronômico na minha casa. Arroz com brócolis e bacalhau da minha mãe, bacalhau de forno do meu pai, filé de peixe a parmeggiana da minha tia e uma muqueca da minha outra tia. Exagerei mas TIVE que experimentar de tudo um pouco. Acho que não fiz nada muito pertinente na parte da tarde a não ser planejar a noite.

Diziam que ia ter AC/DC cover no BarFly e eu até estava a fim de ir, mas não estava a fim de pagar vinte reais por isso. Não sou exatamente fã de AC/DC. Ligo pra ele perguntando o que seria de hoje e programamos alguma coisa. Dou risadinhas no telefone, provavelmente algo que ele me disse,  e então ele pergunta o porquê das risadas. Digo pra que ele descubra pessoalmente. Terminamos de combinar algo X e alguns minutos depois de terminar a ligação, recebo um sms combinando algo Y. Fazia tempo que eu não me constrangia. Seria aquilo um convite?

Sugestão,  convite, ele deixou que eu decidisse.

Fato é que aquela noite eu não saí pra bar nenhum. Tudo depois aconteceu de forma muito lenta, como se o tempo estivesse deslizando. Não houve pressa, apenas calma. As conversas, as palavras, lembranças, tudo se misturava com o presente, com muito vagar. Já nos conhecíamos, não houve surpresa, nem constrangimento. Apenas a vontade de ficar junto. Ainda pensei que eu pudesse me impedir de alguma forma, mas não pude. As coisas acontecem como e quando têm que acontecer e eu ainda prefiro deixar assim.

O que aconteceu não foi causa, foi consequencia.

11/04/2009

Almocei na casa da minha madrinha. Cheguei atrasada, como sempre. As netas dela cresceram muito e claro que ela tinha feito a comida que eu mais gosto: strogonoff. Foi bom, conversamos um pouco, revi algumas pessoas mas voltei logo pra casa. Me sentia cansada. Logo mais a noite também haveria janta na minha casa com os meus padrinhos. Meus pais e meus padrinhos não se falavam a anos por causa de uma briga que tiveram em 2003. Agora, aparentemente, as coisas parecem ter se resolvido entre eles.

Não preciso nem comentar nada, preciso?

Enfim… O jantar foi ótimo, mas depois resolvi sair de novo. Ia ter Bigornada no BarFly, com Dimitri Pellz, Fotovoltaicos, Parkers e Noradrenalina. Acho que essa foi a primeira noite que saí com meus amigos mesmo. Bebi algumas cervejas e cheguei a conclusão de que preciso parar com isso (cerveja, não com álcool em geral). Me deixa muito estufada e não é agradável. Também não quero mais beber pra ficar bêbada, mas pelo prazer de beber mesmo. O bar está bem diferente, fizeram uma reforma e eu, pessoalmente, gostei do resultado. Tudo bem, tem gente que gosta das coisas podres e undergrounds mesmo, mas… Sei lá.. Não gosto mais das coisas assim não. Gosto do jeito que está, reformado.

Só assisti o show de 2 bandas: Dimitri e Noradrenalina. Essa última eu não conhecia, e é post-rock, bastante interessante. Curti muito, as letras, etc. É bacana mesmo.  Acho que tudo acabou lá pelas 5 da manhã.. Levei todo mundo em casa e devo ter voltado lá pelas 6 horas.

É…

12/04/2009

Esse dia foi relativamente parado… Domingo de páscoa, na casa da minha vó. Muita comida, revi meus primos. De tarde pensei na vida. Pensei que de noite não fosse sair nem nada, mas acabaram me chamando pra um churrasco de última hora. Eu realmente estava muito exausta e fui por consideração mesmo.. Estava muito cansada e com sono, queria descansar e fazer algumas outras coisas pra minha mãe. Mas fui nesse churrasco e acho que fiquei umas 2 ou 3 horas.. Revi alguns amigos. Foi bom até. Mas 22h eu estava em casa. E só fui dormir às 2h da manhã, pois fiquei fazendo uma pesquisa muito importante pra minha mãe.

13/04/2009

Acordei cedo, apesar de ter ido dormir tarde. Fiz tudo o que tinha que fazer e depois fui me despedir. “Vamos pular essa parte?” ele me disse olhando pra TV. Concordei com um sorriso. Achei engraçadinha a forma que ele se lamentou por não ter mais 17 anos, como se fosse um idoso. Pessoalmente, não lamento a isso.. Bem pelo contrário. Olhei no relógio e já eram 10h50, e o tempo começava a correr rápido demais. Fui buscar a minha mãe pra almoçarmos em casa. Depois do almoço, um banho, organização da mala, gravação de alguns cds pra minha mãe. Às 17h eu e ela tomamos um chá e conversamos. A argumentação da minha mãe, pro que quer que seja está cada vez mais confusa e irritante.

Ela é minha mãe e eu a amo… Mas ela também me irrita.

Papai me levou no aeroporto. Disse que ia me largar lá e me deixar pra fazer o check in sozinha e beleza, por mim tudo bem. Mas na última hora desistiu e foi lá fazer o check in pra mim. Meu pai é maluco e eu o amo por isso. Na fila do check in, eis que ele aparece pra me ver indo embora. Sinceramente não acreditava que ele viesse, mas fiquei muito feliz quando o vi. Meu pai foi embora e terminamos de esperar a hora do meu embarque.  Nos abraçamos, nos beijamos e terminou assim. Depois de todas as palavras saudosas e carinhosas, ele me disse apenas uma coisa séria, me olhando no fundo dos olhos “por favor, se valorize”. Acho que ninguém (que não fosse a minha mãe) nunca havia me pedido isso. E eu ouvi. Ouvi bem. E guardei aquilo muito bem pra mim. Vindo dele foi importante, me marcou. Senti isso como se fosse ‘já que eu não vou estar por perto pra poder te cuidar, cuide-se’.

Algumas coisas a gente só aprende depois de um tempo, mesmo.

E eu ainda tenho muito o que aprender.

Nunca me dei bem com a minha irmã. Mesmo. Não vou entrar em detalhes. Que nunca me dei bem com ela é tudo o que vocês precisam saber. Voltei a falar com ela há pouco tempo. Ela tem 17 anos, acho. Não somos irmãs co-sanguineas mas isso também não vem ao caso. Somos filhas adotivas de pais (biológicos) diferentes e somos VISIVELMENTE diferentes e isso – ao menos pra mim – sempre vem ao caso. Eu não me importo em saber que sou filha adotiva, ela se importa. Ela não se considera, não quer nem saber, nem lembrar disso. Eu já penso diferente mas enfim, eu sou outra pessoa.

A coisa é que minha irmãzinha, de uns tempos pra cá, começou a ler. Ler livrinhos best-sellers, essas coisas, “O caçador de pipas”, etc. Isso foi entre dezembro do ano passado e janeiro desse ano. Lembro que cheguei a ler esse livro que citei por causa dela. Enfim… Lembro também que, na época, eu ria dela, fazia pouco caso, pensava “até parece que ela entende alguma coisa do que lê”, ou qualquer pensamento maldoso do tipo. De formas muito singelas, eu subestimava a minha irmã. Sempre subestimei, muito. Acho que faço isso até hoje, de certa forma. Mas não fico pegando no pé dela por causa disso mais. Acho que já estou velha demais pra isso.

Ontem ela veio conversar comigo, reclamar pra mim da vida. “Não aguento mais essa cidade, não vejo a hora de sair daqui!” disse ela. Tomei um primeiro susto. Eu sempre achei que ela gostasse de lá. “O povo daqui é muito ignorante, sem cultura, sem noção”. Aí sim que eu caí da cadeira. Nunca achei que ela fosse pensar isso algum dia e fosse querer sair de Campo Grande por esse motivos. Fiquei sem reação. Acho que essa foi a primeira vez que eu e minha irmã concordamos num assunto, em toda a minha vida. Ela pensa em ir embora ano que vem, em ir pra São Paulo. Eu gostaria de que ela viesse pra cá, mas enfim.. Não vou me empenhar muito em tentar convencê-la não.

Mas o que me surpreende é como a literatura de livros aparentemente bobos e inofensivos – como best sellers, por exemplo – pode mudar tanto uma pessoa. Na verdade não são nem os livros os grandes “culpados”… Mas a aquisição e ampliação de um vocabulário maior, pode sim transformar as idéias e os pensamentos de alguém. Isso é bastante impressionante. Já tinha lido sobre isso quando estudei teoria da comunicação… Alguma coisa sobre os chavões e de como eles funcionam. Mas isso não vem ao caso agora. O importante é que estou feliz por poder conversar com a minha irmã quase como converso com uma pessoa normal, agora.

Infância – Praças

A lembrança mais remota que tenho de Campo Grande é de um dia, bem ensolarado (não lembro se meio dia ou 15h) onde eu estava na Praça do Rádio Clube, com a minha mãe. Lembro que também tinha outras crianças e elas também estavam fazendo desenhos e pinturas com tinta-guache de várias cores, numa folha enorme de um rolo de papel, que era dividido entre todo mundo. Devia ser um domingo, estava quente e eu só lembro que estava com a minha mãe. Nessa época em que visitei a Praça do Rádio, ela ainda não havia sido revitalizada, mas duas coisas me marcaram bastante nessa praça. Acho que por eu ser muito pequena (3~4 anos), lembrarei-me delas pra sempre para sempre como coisas gigantescas: o Monumento da Imigração Japonesa e A Árvore. Coisas que me lembram minha infância e me lembrarão de Campo Grande, sempre.

Nunca fui associada ao Rádio Clube, que fica ali logo em frente a essa praça. Nem meus pais. Demorei a entender que aquele era um dos clubes mais tradicionais da “sociedade campo-grandense”. Entre outros clubes eu só conhecia de nome o Círculo Militar e o Clube Estoril, que ficava perto de casa. Também existia a Praça Ari Coelho, mas eu nunca fui muito lá não. Nunca me levaram. E eu sempre confundia a praça do Rádio Clube com a Praça Ari Coelho. Lembro também que às vezes minha tia me levava no Horto Florestal e no Belmar Fidalgo, geralmente pra brincar com meus primos e caminhar, mas sempre fui muito pouco nesses lugares. Mais pro final da minha infância me lembro de, em alguma ocasião terem me levado no Museu Dom Bosco, pra ver as borboletas e outros bichos empalhados. Só visitei o lugar uma vez na vida, mas foi o suficiente para guardá-lo num canto da minha memória.

Pré-Adolescência – Lugares

Quando eu era pequena, não conheci a cidade direito. Na verdade, durante a minha pré adolescência que foi dos 13 aos 15, eu ia onde meus pais iam e não ousava sair de casa a pé, sozinha, pra lugar nenhum, por que não me era permitido. Dos lugares que mais gostava de ir com meus pas, era A Feira Central. “A feira japonesa” como também era chamada, era o lugar onde tinha basicamente 3 coisas que me agradavam muito: sobá, espetinho e camelôs com coisas do Paraguai. Mas na época que eu ia, ela ficava na Abraão Júlio Rahe, ocupando apenas a distância de uma quadra da rua, bem próximo a um terreno baldio enorme. Nunca entendi isso. De qualquer modo, sempre ia lá com meus pais e minha irmã menor e gostava muito, pois era tudo muito diferente do que eu gestava acostumada: desde a comida até mesmo o próprio ambiente da feira.

Também gostava muito quando meu pai me levava às vezes no Mercado Municipal, bem de manhãzinha e o nosso segredo era o café da manhã que a gente tomava lá: pastel de carne com guaraná. O mercado é muito característico da cidade e existem muitos produtos rústicos a venda, apesar de que, se eu bem me lembre, eu nunca ter comprado nada por lá. Meu pai comprava queijo caipira, pra minha mãe fazer Sopa Paraguaia entre outras coisas, mas disso eu não me lembro muito bem. Lembro-me de quando o Shopping Campo Grande começou a ser construído e hoje, não muito diferente da época em que foi inaugurado, pra muitos campo-grandenses o simples fato de “passear no shopping” já é uma garantia de status. Quando foi inaugurado o primeiro Mc Donalds lá, se não me engano em 95, foi um marco pra civilização campo-grandense. Comer no McDonalds é status até hoje.

Adolescência – Bares

Até os meus 15 anos mal saía de casa pra qualquer coisa e a primeira vez que decidi fugir de casa foi pra ir ao Parque das Nações Indígenas, ver um show. Esse dia foi um marco na minha vida, mesmo por que, foi nesse dia que eu percebi que eu podia pegar a chave de casa e andar com as minhas próprias até onde eu quisesse e bem entendesse, apesar dos meus pais terem dito “não”. Esse dia foi a primeira vez na vida que eu desobedeci meus pais e acredito que esse foi o primeiro comportamento transgressor que mudou a minha personalidade pro resto da minha vida. É claro que, nesse dia, minha mãe  – exagerada e patologicamente protetora, como sempre – quase chamou a polícia e me deu como desaparecida, pois eu saí de casa (escondida) por volta das às 17h, e eram quase 21h de um domingo e eu ainda não tinha voltado pra casa. Mas eu não me importei, mesmo. Depois desse dia (que me lembro bem, foi em outubro de 1999), eu não parei mais de sair de casa. Por bem, ou por mal.

Das lembranças do início da minha adolescência, o que mais me vem em mente eram os shows de punk rock que eu ia na extinta UCE, da Afonso Pena, que ficava praticamente em frente ao Obelisco. Também tinha alguns outros shows na Rock Show, mas nunca cheguei a ir em nenhum e também tive a infelicidade de pegar o início da decadência do Stones Blues Bar. Mas não muito depois disso veio o primeiro Bar Fly (na Bahia com a Av. Mato Grosso) e nesse lugar eu me diverti por boa parte da minha adolescência. Depois de um tempo o Bar Fly se mudou pra frente da Uniderp (faculdade onde me graduei em jornalismo) e lá está até hoje, mas depois de um tempo eu meio que enjoei do lugar. Por algum tempo só frequentei festas em casas de amigos. Depois veio o Chácara Bar e nos últimos meses em que morei por lá eu ia também ao Posto do Parque dos Poderes. Há uns 2 ou 3 anos atrás era divertido beber no estacionamento do Comper do Jardim dos Estados, mas hoje em dia não é mais tanto… Em novembro de 2007 estive por lá e vi que tudo já estava bem diferente.

Hoje

Apesar de ter passado boa parte da minha vida no bairro Jardim dos Estados, até hoje confundo as Avenidas Mato Grosso e Afonso Pena. Como já disse, também confundo a Praça do Rádio com a Praça Ari Coelho. Não entendo as ruas do centro: 13, 14, 15, Maracajú, 25, Calógeras. Não sei por que algumas ruas tem certos nomes. Não me apeguei à nada disso. Algumas pessoas já me disseram que acham interessante a idéia de “crescer” junto com a cidade. Não discordo delas, mas entendo que esse não é o meu caso. Minha madrinha vive me dizendo ao telefone que “é aqui que estão suas raízes” mas eu não sinto isso. Não me sinto com raízes, não me sinto campo-grandense. Nunca me senti. Na verdade acho que não me encaixarei em lugar nenhum do mundo, serei uma eterna desajustada. Ainda não decidi pra mim se isso é triste ou não, mas ao que tudo indica, não é não. O mundo não é meu, mas eu sou do mundo. Ao meu ver, eu não teria como “crescer” em Campo Grande, mas eu envelheceria com a cidade e estagnaria na mesmice até chegar o meu dia.

Confesso sim que fugi de lá, do meu passado, de pessoas, memórias e situações que quero esquecer e entendo que foi melhor assim. Não perdoei a cidade e acho que nunca vou perdoar apesar de ela, também, não ter culpa sobre nada o que aconteceu. O problema sou eu, que ainda vou demorar muito a conseguir paz de espírito. Campo Grande vai continuar crescendo, ao seu modo, com a sua gente, seus costumes, seus descendentes, mas entendo que tudo isso – apesar de ter feito parte da minha vida – não é pra mim. Não faço e não quero fazer parte dessa história “até o fim”. Campo Grande hoje pra mim é algo que já aconteceu, e passou. Gostaria que muitas coisas na minha vida fossem assim, efêmeras, pois isso é a essência de tudo e essa verdade me reconforta sempre. Hoje se me perguntam digo que sou campo-grandense, paulistana, gaúcha, carioca, baiana e manézinha da ilha. Estou e sou em todos lugares e em lugar nenhum. Talvez seja melhor assim. Talvez não. Talvez um dia eu descubra.

Depois do copiar e colar meio que desenfreado de alguns posts do blog da Marlany, eu vim pensar que na verdade o cltr+c e cltr+v nem sempre é tão mal assim. Desde que se cite a fonte, claro. Mas como no caso eu não sabia se a fonte em questão queria permanecer no anonimato ou não, eu não tinha feito nada.. rs

Na verdade eu ia colocar mais um post dela por aqui quando eu propus que escrevessemos a versão 2.0 do mesmo. O texto chama-se “Você sabe que é um campo-grandense quando…” e está ficando muito engraçada essa versão nova que estamos fazendo. Segundo Marlany, ela também está coletando mais informações pra escrever um “Você sabe que é paulistano quando…”

Bacana. Blogar é isso aí.

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