arquivo

Arquivo da tag: Beleza

“Você me acha bonito? Por favor, diga que me acha bonito”. Essa foi uma das últimas coisas que eu ouvi e me choquei um pouco. Não esperava esse tipo de pedido. As coisas sempre me chocam mais quando saem da boca de conhecidos de longa data ou de pessoas por quem estou apaixonada. E eu estava apaixonada. Inclusive eu tinha dito, conscientemente, com todas as palavras: “eu estou apaixonada por você”, o que surtiu um certo pânico num primeiro momento. É sempre assim. Mas estava, meus olhos diziam e ele notou. Estou. É bobo, eu sei. Mas ainda não sei direito como isso acontece. Não sei bem como me apaixono. Os desdobramentos nunca são os mesmos. Mas essa frase ficou na minha memória por algum motivo.

Por que me apaixonei? O que me atraiu primeiro? Fico numa tentativa fútil de buscar palavra pra designar algo que não deve ser designado. A primeira sensação que eu tive era de que havia alguém ali. Depois senti um certo conforto com a situação de fantasia recorrente. E então, virou mitologia – algo inatingível. Pronto. Na verdade já havia se tornado mitologia antes de tudo aliás, antes de ter me sido dita essa frase, frente a frente, no restaurante, suas mãos nas minhas. Pra depois não estarem mais, pra depois ser esquecida, em pouco tempo, etc., mais uma, como todas as outras, como você não quis que eu acreditasse. Querendo ou não, eu sabia exatamente o que iria acontecer. E me preparei para isso. E assim se deu. Mas não é bem isso o que me importa.

Eu queria entender o que me inquietou nessa pergunta seguida dessa frase. Não costumo me apaixonar por beleza, mas por improbabilidades. A beleza, na verdade, é banal e me entedia um pouco. Quando ela não é construída, quando ela simplesmente é, ela não chega a ter um significado próprio, pra mim. Ela é o que é. O que pode ter me atraído, nesse caso em específico, foi a sedução que foi deliberada o tempo todo. E claro, a evidente impossibilidade. Eu caio de joelhos por coisas que eu jamais poderei ter. É paradoxal assim. É um desejo ardente de fusão completa e distanciamento, ao mesmo tempo. Essas coisas todas me fazem mal, mas sou uma pessoa que cultiva maus hábitos – nesse sentido, especificamente. Pensei em tentar mudar isso, mas já estou velha então o melhor que posso fazer é tentar conviver com isso de forma menos danosa possível – para mim e para os outros.

As pessoas precisam de coisas. O tempo todo. Nunca sei do que preciso. Ali havia uma necessidade de desejo, de sentir-se desejoso e ao mesmo tempo se sentir desejado. E aqui havia o desejo: mas ele era meu e eu sou egoísta. Ou talvez não demonstre tanto quanto deveria por incompetência, mesmo. Não sei o que falar, não demonstro com palavras, nem com gestos muito óbvios, essa não sou eu. Ao mesmo tempo em que sou prática nesse sentido, obedeço a uma certa lentidão, a um ritmo próprio de demonstrar afeto. Jamais te direi, genuinamente, “sim te acho bonito” simplesmente porque acho isso insuficiente. Fácil. Frágil. E também não sou de ficar me repetindo, dizendo isso todas as vezes, o tempo todo, sempre. A repetição faz com que eventualmente soe falso. Suponho que se eu já estou com você, é porque já te acho foda como um todo. O que me interessa, entre as suas qualidades e defeitos é você e nada mais. Precisar ficar reiterando o que quer que seja me broxa. Acredito sinceramente que as pessoas podiam precisar menos das coisas pra poder precisar das coisas melhor.

Viver pela espontaneidade tem um preço. E o preço é a solitude, mas eu pago de bom grado. Se alimentar de impossibilidades tem suas vantagens. Isso me faz retornar à pergunta do que é suficiente para mim. É uma pergunta difícil, que me fizeram semana passada. Ainda não tenho a resposta. Assim como não tive a resposta, desviei o olhar, gaguejei e respondi, positiva e timidamente à sua pergunta. Sim, é claro que eu te acho bonito. Eu te acho lindo. E foi isso. Achei pouco. Penso que, quando for possível e se assim acontecer, a minha intenção é fazer com que você se sinta a própria Beleza. Se eu te desejar. Se eu estiver apaixonada por você. Genuinamente. Profundamente. Desesperadamente. Um momento-monumento como este tem mais significado e importância pra mim, do que uma rotina banal que qualquer outro tipo de protocolo de vivência possa oferecer.

Desculpe por ser excessiva.
Mas eu prefiro quando as coisas são assim.

Acordo e está frio. Não quero acordar. Levanto. Faço o que tenho que fazer, espero quem não preciso esperar e me atraso. Engulo remédios e não faço desjejum. Saio de casa, é verão e a temperatura está fria. Estava a uma quadra do ponto de ônibus quando ele passa por mim. Não corro pra alcançá-lo, não ligo pro atraso, não sou daqui. Sou uma forasteira em todas as situações, desde que me decidi por ser assim. De qualquer modo, não deveria ter esperado quem esperei. Não tomei café. Caminho lentamente até o ponto de ônibus pensando em tudo o que vou e o que não vou fazer hoje. O ônibus não vai reaparecer tão cedo então acendo um cigarro pra me fazer companhia e me aquecer no frio. Acendo um cigarro pra esperar. Fumo meu café da manhã e de repente eu começo a cantarolar esta música, quase que como sem querer, nem perceber:

.

.

E as coisas ficam bonitas de novo, mesmo que por apenas um instante.

Foi uma bela manhã de segunda-feira.

.

p.s.: Odeio músicas com ritmo de reggae.

When you’re down, when you’ve been kicked down in the street and then kicked a few more times until you’re bleeding and your teeth are out, then you only have up to go. You get reborn again, and expectations aren’t so great because they’ve taken you away. It’s beautiful to be down there. It’s so beautiful.

Lembro de como foi desajeitado o nosso encontro. Ele tímido e eu não. Um micro-desencontro no primeiro encontro. Mas “tudo bem”, pensei. Sempre penso isso. “Que fique por isso mesmo.. Aproveitarei o que puder”. Não lembro de como aproveitei os primeiros minutos. Não lembro se olhei nos olhos dele, ou se olhei pra qualquer parte dele. Só lembro que depois que saímos do carro fomos até algum outro lugar que tinha uma arquitetura interessante. E depois eu vi o mar. E aqueles morros bonitos que só tem naquele lugar. E estava ventando, tinha algumas nuvens, um dia como outro qualquer. E ele ali, do lado, distante e próximo. As palavras dele, todas, iam meu ouvido adentro e eu ia assimilando devagar aquele sotaque, aquela voz.  Eu tentava respirar devagar pra ver se o tempo também corria mais devagar. Ia reconhecendo tudo aquilo e fazendo o meu cérebro gravar, muito cuidadosamente, em algum lugar bacana.

Ele não me completava, não era a metade, só estava ali, comigo, comentando sobre qualquer coisa que passasse na rua, sobre o cheiro ruim das coisas, sobre a decadência daquele lugar todo. E eu estava bem atenta e gostava de tudo. Acho que não estávamos apaixonados, mesmo por que aquilo não foi exatamente romântico, e na verdade nem era pra ser. Não foi nada muito planejado, mesmo por que isso não teria muita graça. Foi só um passeio breve mesmo. Um passeio por lugares que eram familiares pra ele, e pra mim nem tanto, minha memória era meio falha e tinha apagado boa parte daquilo tudo. Alguns lugares eram tão pacatos que nem pareciam naquela cidade. Acho que caminhamos até cansar. Na verdade, caminhamos até chegar o horário de eu ter que ir embora mesmo. A despedida do primeiro dia que a gente se viu foi bem atípica. Eu tinha um sentimento muito estranho comigo, que até hoje não consigo definir o que era. Eu não me sentia nem triste, nem agitada e nem com expectativa de nada. Eu só esperava o que não sabia que estava por vir.

A gente já tinha conversado tanto e de repente foram faltando palavras e os abraços se tornaram mais longos. Eu dizia que precisava ir, que estavam me esperando do outro lado, que a hora estava passando, e as pessoas também passavam por nós, 18h00, hora do rush, milhares de gentes passando, e a gente ficava ali, atrapalhando, olhando os outros, se olhando. Era fim de tarde, estava ficando escuro e eu não conseguia ver ele claramente. A pele dele devia estar daquela cor de azul bonito, que é quando o sol se põe. Aquele azul que só aquele lugar tem. E ele não queria que eu fosse embora. Eu parecia conseguir ouvir os batimentos cardíacos dele pelos poros. Ele suava de forma discreta. Eu sentia. Ele não sabia o que fazer e eu também não, e então aquele beijo aconteceu como era pra ser, meio que desproposital.  O que é esse beijo?  Por que esse beijo? Por que agora? Várias pessoas passando. Ele com as mãos na minha cabeça, aquele coração  todo disparado, os dois, me pedindo pra ficar mais um pouco, eu querendo ficar mais um pouco, mas preocupada com o horário. Aquele primeiro beijo foi tão diferente, tão despretensioso.. Tão despreocupado com todas as coisas.

Um beijo meio que sem história, sem passado. Aquele momento foi um quadro pra vida toda, emoldurei e guardei num canto da memória e toda vez que minha vida precisa de um pouco de cor, eu volto lá pra dar uma olhada e ver como foi, ao menos. Essas revisitações são meio deprimentes, me deprimem por um tempo, esse saudosismo todo. Não gosto, não tenho paciência, não tenho saúde pra isso mais. Fico querendo o novo sempre, o aqui e o agora, em detrimento das coisas que já aconteceram e eu sei que não precisa ser assim. Mas o fato é que naquele dia, aquele beijo me deixou a noite inteira pensando. E ainda me deixa pensando até hoje às vezes. Talvez eu seja mesmo uma romântica incurável, uma boba, ingênua  mesmo. Mas isso é algo que eu não tenho muito como evitar. Lembrando disso tudo percebo que sou uma pessoa que vive de mal com as coisas da minha memória. E percebo, também, que não preciso mais ser assim. Preciso lidar melhor com isso se quiser que as lembranças excelentes sobrevivam, se quiser ter histórias pra contar. Se quiser simplesmente ficar numa boa comigo mesma.

Tinha combinado com ele tal hora em tal lugar pra irmos juntos numa reunião. Ele é moreno, voz mansa, cara de paraguaio e cabelo de paraguaio. Pra quem não sabe, cabelo de paraguaio: preto, volumoso, semi-liso (mais pra ondulado mesmo) e comprido. Ele não era exatamente um cara bonito, mas o cabelo dele… Que cabelo! Reluzia. Lindo, brilhoso, sem caspa, parecia muito bem cuidado. Eu me cuidava ao máximo pra que ele não me flagrasse enquanto o admirava. Não gosto de passar a “impressão errada” pros outros. Não sei se isso chegou a acontecer alguma vez, mas acho que não. Enfim.. De qualquer forma, hoje, 14h30, sala de reuniões. Ok. Fui lá.

Cheguei lá, olhei rapidamente pra dentro da sala e não o vi. Fui na sala ao lado. “Alguém aí viu o Zé?”, resposta negativa. Ok. Passei na sala de reunião novamente e ele, cabelos curtos, curtíssimos, me chamou pra dentro. Fiquei meio chocada, não consegui conter o palavrão, mesmo com a reunião quase pra começar. “Porra Zé, assim não ia te reconhecer nunca!”. O cabelo dele que estava nos ombros hoje está tão curto que é possível enxergar as orelhas dele. FIquei estarrecida, mas aceitei de bom grado. Na verdade, depois que olhei duas vezes, percebi que ele ficou MELHOR de cabelo curto. Hoje eu percebi que os olhos dele são cor de mel. O rosto dele ficou mais iluminado, menos pesado. Ficou bom, mesmo por que ele tem o cabelo bom, etc.

Confesso sim que teve uma época na minha vida, que deve ter sido dos 13 aos 21, que eu achava absolutamente qualquer homem de cabelo comprido bonito. Hoje, felizmente, não acho mais isso. Na verdade, a maioria dos homens (mais velhos) que conheço que insistem (sim, insistem) em permanecer com os cabelos compridos (apesar da calvície muito mais do que evidente) não são exatamente bonitos. São sei lá,… Antiquados. A impressão que dá é que o cara não vai deixar de ser adolescente nunca, que ele não quer crescer, é isso. É claro que há casos e casos, existem contextos a ser observados e tudo o mais. Mas a verdade dolorida é que: nem todos os homens ficam bonitos de cabelo comprido.

De qualquer forma, eu acho atraente até hoje… Mas claro, depende do cara.. Nem todos são bonitos, mesmo. Em homens que não são calvos e que de fato cuidam, mesmo que minimamente, do cabelo, pode até ficar interessante. Mas não morro mais quando algum amigo diz que vai cortar as madeixas. Por mim que cortem, não tô nem aí, pra mim tanto faz. Acho que é por que hoje em dia já acho que a vaidade pode ser explorada de forma um pouco mais complexa do que simplesmente “deixar o cabelo crescer”. Aliás, deixar o cabelo crescer não chega exatamente a ser vaidade. A não ser pras mulheres, que cortam, pintam, fazem permanentes e o diabo. Com homens as possibilidades de vaidade são limitadas mas ainda acho que podem existir outras alternativas de vaidade que não tangem o metrossexualismo…

%d blogueiros gostam disto: