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Arquivo da tag: Bêbada

Tomei uma cerveja preta. Vivo planejando minuciosamente tudo e pensando em como as coisas podem ser realizadas com o mínimo de esforço, mínimo de desgaste e o mínimo de tempo possível. Sou isso. Faço isso, diariamente. Penso em estratégias para tornar isso sempre possível. Hoje me peguei pensando em necessidades e vaidades e notando que, quase todas as minhas decisões são vaidades, caprichos mesmo. Nem por isso deixam de ser legítimas. Nem por isso deixo de sentir angústia por não concretizá-las, ou não concretizá-las como planejo. Tenho tentado me fazer a pergunta “você precisa mesmo disso?”, “precisa mesmo ser assim?”, mas é curioso constatar que são poucas as vezes que ouço essa pergunta e são menores ainda as vezes que a respondo genuinamente. Geralmente minha resposta se torna um processo, adquire forma física, essas coisas.

Concreta, concreta, concreta.

Comecei a subir a ponte da 23 de maio, eram 18h e o cansaço finalmente me abateu. Fui andando devagar até parar completamente no meio da ponte para observar o trânsito e o ocaso. O céu estava meio acinzentado, alaranjado e com um azul desbotado. Vi a infinidade de carros passando embaixo de mim. Pessoas voltando pras suas casas ou indo apressadamente ao encontro de alguma coisa sempre urgente. Era tão bonito. Uma corrente sanguínea, viva, pulsante. Quis pular dali. Quis pular da ponte, nos carros, na 23 de maio, no ocaso. Quis morrer. Mas esta foi a querência de morte do tipo bom. Quis morrer porque me encontrei, ali. O tempo parou e eu era o ruído da cidade. Quis, na verdade, me fundir ao ambiente inteiro, aos carros, à poluição, as pessoas que passavam, ao ocaso cinza, à toda maldade e tudo de ruim, tudo de pior que existe no mundo. Por um momento, um breve instante, eu quis me entregar, profundamente – definitivamente – à tudo isto.

Até que parei de ficar devaneando à toa e peguei aquela carteira em minhas mãos que dizia “identidade”. “Então esta é você, Dora”, eu pensava. Do início ao fim, sempre foi você. Uma identidade, construída, ao longo dos anos, ao longo de todo esse tempo. Finalmente algo que me acompanha e que persiste através do tempo. Algo que se… apesar de tudo. Uma escolha (NÃO uma opção: uma ESCOLHA), do início ao fim. Uma escolha visceral. Uma escolha, embora tudo e todos me dissessem que “não”, que era podre, que eu não devia, que eu não merecia. Minha escolha, minha realidade, minha concretização, sou isso, concreta, cinza, pouco lúcida, meio aritmética, bastante torta. Sou aquilo. Suspirei lenta e sonoramente como sempre faço. Olhei para o ocaso cinzento mais uma última vez, antes de decidir voltar pra casa.

Não estava frio, também não estava quente. O tempo estava agradável hoje. Desejei desaparecer. Desejei me transfigurar. Mas me solidifiquei, por hora. Este foi um dos fins. Haverão outros. E quem sou, persistirá.

 

 

 

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