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“Você é má. É por isso que eu te amo”.

Isso me parece como uma velha sina… Um papel ao qual eu me presto vez e outra – involuntariamente – e pelo qual me enxergam, efetivamente. E não vejo isso mudando de algum modo. Estou acostumada a ser mais gostada quando mostro o que eu considero que há de pior em mim. Ninguém nunca gostou de mim quando fui uma pessoa boa. Apaixonada. Entregue. Leal. Isso sempre foi sistematicamente desprezado e desvalorizado. Confesso até mesmo que, como amante, sendo assim e agindo dessa forma, tudo é bastante mediano, mesmo. Eu mesma sinto isso.

Sempre preferem a filha da puta. A que mente. A que é cheia de ódio e rancor. A que faz coisas erradas. Sempre gostam de tirar a minha máscara. De me dizer que eu não sou isso tudo. Eu preciso estar sempre sendo uma farsa pra alguém. Gostam de fazer coisas comigo e isso não significa, nem de longe, que gostem de mim. Me torno um espelho, só que eu sou mais fácil de quebrar. E também um bode expiatório que sempre acaba sendo sacrificado, pra expiar os pecados de todo mundo. O simples ato de me apaixonar e me entregar de fato se tornou sinônimo de me deitar na mesa ritual e aguardar pelo momento oportuno de sacrifício. Eu vejo essas coisas acontecendo comigo, repetidamente.

Essa forma idealizada, que eu tenho de sentir e demonstrar as coisas, ninguém gosta disso. Ninguém entende isso. Gostam da minha crueza. Gostam de quando sou fetiche. Quando provoco revoltas. Quando me distancio e me torno outras coisas, que, para mim, são completamente desprezíveis. Não gosto, nem desgosto disso: percebo como um tipo. É um tipinho que eu faço. Uma máscara qualquer que eu uso e que atrai, mas que para mim mesma não faz a menor diferença, sinceramente.

Acho que tenho sentimentos mistos em relação a isso tudo. Gosto e não gosto. Não gosto porque não é real, é atuado. E gosto porque estou atuando, encenando. Porque fazer parte de uma fantasia me é interessante. E em certa medida gosto porque mesmo sendo fantasia, eu acredito no que eu mesma falo, faço, ajo. É contraditório e complexo isso de eu perceber que preciso cometer atrocidades – ou ainda, de ser uma – para que gostem de mim.

Queria muito saber onde e como isso tudo começou. Mas não vou me dar ao trabalho de desvendar isso. Quero partir de onde estou.

E você não sabe o que é maldade, querido. E se depender de mim, nunca vai saber de verdade. Sabemos que sou mais fantasiosa e espirituosa que maldosa propriamente dito. E também sabemos que maldade é bem mais que isso. Caso contrário, já não mais nos reconheceríamos.

Fumar é um mau hábito. Mas quem disse que eu sou um bom hábito? Não habito em lugar algum e ao menos assumo isso, sem maiores constrangimentos. Habito no fluxo, desço do ônibus, ganho passos apressados, buzinas, esporros e eu penso, gosto de pensar, que eu amo muito tudo isso. Gosto de pensar que amo essa porra. Me apresso pra levar nãos na cara. Levo o não. Trago o não comigo. Trago. Está tudo errado e eu preciso me acalmar. Preciso viajar mais duas horas pra chegar onde preciso, pra chegar num lugar onde me sinto viva, pra chegar num lugar onde existe gente que fale a minha língua. Existem coisas para serem feitas e elas não terminam, o oposto disto, elas parecem não parar de se multiplicar e eu estou em todas elas, tenho que estar. E estou. Para cada não que me é dito, eu digo sim para todas essas coisas. Meu sim é mais forte, é sempre mais forte do que eu posso suportar. Mas se eu ainda suporto é por algum motivo. Suporto, quero, desejo. Preciso. É um grande tumulto mas eu entendo que no final vai valer a pena de um modo ou de outro. Não sei dar bom dia. Não sei me despedir. Eu fluxo. E na conversa do ônibus você surge. E eu falo e falo, falo como se não sentisse, falo de você como se você não fosse comigo. Simplifico, reduzo tudo o que foi tão grande um dia. Falo pra ela que eu sou uma problem solver e que você era um trouble maker. Tenho essa mania insuportável de querer leveza. Falei tudo em que acreditava, que você precisa de alguém assim, que não sou eu, que você precisa de alguém assado, que não sou eu. Que nunca fui eu, pois eu nunca fui nada. Há muito tempo eu simplesmente listei todas as características para você do exato tipo de pessoa que você precisava na sua vida (problem solver) e você, negou tudo o que eu disse e disse que não era isso, que eu era estúpida, reducionista, prática e que o que eu dizia era uma mentira (trouble maker). Mas cedo ou tarde, tarde, agora e já, tudo o que eu disse se tornou mais real do que aparentemente ninguém esperava. Ou esperavam, foda-se, nunca foi sobre eles, nunca foi sobre nós. E tudo bem. Achei ótimo. Achei melhor assim. Achava melhor assim até quando era dolorido demais achar que era melhor assim. E você sempre soube disso e jamais vai admitir. Falei isso tudo, como se nada fosse. Sempre foi algo. Sempre foi (e isso é uma declaração de alguma coisa). Segui um fluxo, abri um mapa, cheguei onde eu precisava chegar. Precisava esclarecer várias coisas e todas foram esclarecidas. Já me decidi sobre o que fazer comigo mesma. Um desvio, uma absorção menor e mais restrita. A mais restrita possível, foda-se. Algum tempo pra continuar existindo desse jeito, mas de outro – gosto de pensar que tudo vai continuar a mesma coisa apesar das mudanças. Enfim. Terei bengalas pro resto da vida, mais do que as que já tenho. Serei privada de alguns prazeres mas hey, não se pode ter tudo mesmo nessa vida. E eu quero que seja restrito. Eu escolho isso, conscientemente. No final da apresentação, algo potencialmente simbólico, um desenho de uma âncora que vai do peito ao baixo ventre. Entendi imediatamente que isso significaria que, em breve, vou navegar para onde eu tiver de navegar, sendo âncora pro resto da minha vida. Meio absurdo, muito real. É uma decisão. É a minha decisão. Quero isso. Escolho isso. Preciso disso. Ganho a rua, a noite está fria e chuvosa. Eu não queria estar em nenhum outro lugar que não aquele. Não queria cantarolar o que cantarolei passando por nenhuma outra rua. Naquele momento eu não tinha mais alma alguma. Tive que esperar e puxei um cigarro, inspirando o máximo que pude e soltando logo em seguida da forma mais consciente e esvaziada que a minha exaustão me permitiu fazer. Me senti completamente dopada logo em seguida. Me fundi na cidade. A companhia do cigarro fez com que a avenida inteira se esvaziasse e só sobrasse ali eu e a fumaça. Eu, a fumaça, o vento a minha falta de alma em toda a sua extensão. Sou um mau hábito. E fiquei pensando nos critérios que definem os hábitos como maus, entre luzes de carros, ônibus e conversas desanimadas de fim de dia. Coisas que não existem. Recostei minha cabeça no vidro e nada mais se passava por ali. Apenas meu cheiro de cigarro, suor de fim de dia e cansaço. Eu fedia à exaustão, você sabe bem como. Queria muito que me arranhassem dos pés à cabeça. Precisava de mais um cigarro. E a próxima coisa na qual pensei foi a de que, depois que eu passar pelo que eu tiver de passar, nunca mais nenhuma escolha minha será impune. E mentalmente tornei essa minha decisão uma oferenda à você. E à ela. Está decidido.

(…)

Essa cidade não é uma paixão.

Essa cidade é um vício.

E uma mentira.

“Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidencia ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.”

Já tinha ouvido falar que o Cisne Negro era “filme de estudante de psicologia” e que “a cena das meninas se pegando era muito quente” e coisas do tipo. Acho que vi uns 2 vídeos no youtube de gente deslumbrada com os efeitos, sonoplastias, etc. Achei a dublê de corpo da Portman (por que só pode né?) muito, muito, muito, extremamente, bizarramente magra. Ou seja, absolutamente perfeita pra uma bailarina profissional (sei bem como é isso). Mas acho que não combinou com o rosto dela, não sei, achei meio desproporcional. E o próprio rosto dela estava transformado, achei mais quadrado (ela deve ter emagrecido horrores pro papel). Enfim… No começo do filme também lembrei do quanto a peça do cisne negro tem músicas que eu gosto.. Preciso ouvir com mais atenção algum dia. Não gosto de tudo, mas tem coisas que me marcaram mesmo, da minha infância.

Da metade pro final, me pareceu que o filme foi ‘acelerado’, a loucura da coisa toda foi acelerando. Não acho ruim, mas é que vai me deixando agoniada, num bom sentido, rs. Acho que isso é um padrão do Aronofsky. Ele não nos convida a participar da doideira, quando a gente menos percebe, já está lá mesmo se não quiser (tem gente que se incomoda) e não tem mais como sair (vide Requiem for a Dream, Pi, The Fountain). Não sei. Posso estar errada, mas me parece que essa ‘aceleração’ que existe no final é um padrão, um traço dele pra criar melhor a tensão da coisa toda. O Cisne Negro me parece que tem uma aura mais noir mesmo, é um filme sinistrinho, consigo imaginá-lo muuuito bem numa história em quadrinhos (não sei por que pensei nisso, mas enfim). Também achei meio chatinho o filme ter que super-ficar-usando metáforas pra tipo, explicar o que já estava acontecendo ali (…?), mas tudo bem, isso tb não me insultou muito não.

A cena das garotas que todo mundo falou… Né, meio que caguei, só mais uma cena do filme. Achei legal, mas whatever. As cenas de dança… Foram ok, nada de extraordinário também não (soube que algumas bailarinas disseram que o filme era tecnicamente pobre… achei ridículo comentarem isso!).  A pior cena da porra do filme: a da Beth esfaqueando a própria cara com a lixa de unha. Porra. Vai se fuder. Tomar no cu Aronofsky. Não gostei. Tb não gostei muito da cena da Nina locona na buátchi com geral forçando a amizade “você precisa relaxar/curtir”, mas né, como a personagem dela é uma sonsa do cacete, curtiu mesmo sem ter se decidido por isso, algo tipo “fazer o quê, já tô aqui mesmo”, “já que abaixei pra pegar o que caiu, vou dar a bunda logo!”. Por aí. Acho escroto gente que diz que a gente “tem que curtir” (odeio muito isso),  a diferença é que a Nina não era pau-na-mesa pra dizer “eu curto se eu quiser, cacete!” e né, foi na ondinha da piriguete biscat tatuada lá. Enfim…

É difícil ‘pegar a malícia da vida’ depois que você passou a vida inteira sendo tratada como criança. É difícil saber dizer não, saber impôr limites, saber trancar a porta e, num sentido bem mais amplo, até saber o que VOCÊ quer (e não o que os outros querem por você – isso deixa sequelas pra vida toda, acreditem). É difícil aprender a desobedecer. É difícil e é ruim e é feio. Mas é muito necessário, senão a gente não cresce nunca. É difícil pra caralho desobedecer mas é mais difícil ainda obedecer e ter que aguentar MERDA dos nossos pais a vida inteira apenas para o bem de “honrar pai e mãe”. Daí a criatura cresce infantilizada né, lógico, com quartinho cor de rosa e bichinhos de pelúcia, e sua mãe/pai te castrando (cortando suas asinhas e suas GARRAS) por todos os lados e te obrigando a fazer coisas que você não quer. Cresce meio travadinha (eu que sei bem disso!)  por que não pode falar de X coisa, ou não quer ver Y coisa. Vamos nos fuder e “levar bronca” por fazer merda? Vamos, mas né, que lidem com isso!  Se fodam aí um pouquinho. Não fizeram filho? Agora aguentem! Depois é a gente que fica ferrado e perdemos uma série de coisas só pra ser “a boa menina”. Fiz esse papel na minha vida em vários níveis, mas depois  que eu aprontei várias e mais um pouco, passou e hoje eu sou mais ou menos normal, mas ainda com sequelas. E agora sim eu entendi por que minha mãe não gostou nada nada deste filme… rs

Cena absolutamente mais PHODA de todo o filme: é quando ela entra na coxia, faz alguns movimentos com o pescoço, e a gente não consegue fazer outra coisa senão olhar pra ela.. É quase como se ela sussurrasse algo, mas não tem fala nenhuma.. Não tem nada na verdade, só ela ali com o cisne negro encarnado. E ela dá um sorriso muito tímido, quase que de satisfação, quando se vê transformada, mas também não temos como ter muita certeza disso, essa passagem é meio ambígua. Esse é O momento do filme… As pessoas devem ter ignorado isso SOLENEMENTE, mesmo por que ela durou pouco, só alguns segundos, mas pra mim parece que durou mais tempo. Eu quase saboreei essa cena. É o tipo de cena que me fez pensar: fuck yea!! Achei totalmente entesante. Mas não é um simples “AEAE CONSEGUI atingi meu objetivo!”… É MUITO MAIS do que isso. Acho que foi um pouco antes dessa cena – não lembro bem quando – que me toquei que esse filme se tratava só de uma coisa: empowerment. O significado dessa palavra é de difícil tradução pro português, acho. “Empoderamento” parece bobo. É muito pequeno, é simples demais, direto demais, ao pé da letra demais. É algo que eu não saberia traduzir apropriadamente. Só sei que, pra mim, o filme se tratou disso, precisamente, se eu precisasse defini-lo com uma palavra.

Eu queria entender por que eu gostei dessa cena. Isso é meio difícil de responder, mas vou tentar. O processo de ela entrar em contato com o “lado mal” pode não ser muito bem visto pela audiência, acho. Pode não ser encarado como natural, necessário. Ou seja, acho que o Aronofsky não  se arriscou o suficiente a fazer uma cena em que ela estava claramente ‘curtindo’ – por assim dizer – ser o cisne negro… A galera que é “do bem” deve ter aquele pensamento imbecilizante do tipo “ai credo, por isso que ela ‘se matou’ no final, por que o cisne negro tomou conta, ai credo o mal venceu!“. Mas pensar isso é simplesmente IDIOTA e raso, é fazer um julgamento muito imbecil da coisa toda.. Não se trata de bem e mal cara, pára com isso, que merda.

A cena que eu gostei tanto na realidade nem sequer mostrou ela ‘curtindo’ nada, apenas mostrou a personagem SENDO o cisne negro – não teve julgamento de valor aí, acho. Então pra mim ficou aquela sensação meio de “a girl’s gotta do what a girl’s gotta do”, sabe? Parece  que esse tipo de transformação só acabou ocorrendo por que ela teve o azar – ou a sorte, you name it – de ter sido, de certa forma, obrigada a encarar esse tipo de situação na vida dela. Nem todo mundo precisa – ou deseja, ou acha necessário – encarar isso. Se acomodar e levar a vida mansa, sem conflitos, sem doidera, sem paixão com nada é bem mais tranquilo.

Ela era dedicada, foi dedicada, a vida inteira. Ela tinha a melhor técnica, mas  se deparou com um momento em que aquilo não fazia o requisito. Teve que abrir mão de uma porção de coisas – bastante cômodas e confortáveis talvez – pra ser tornar não quem ela queria em primeiro lugar, mas quem ela precisava ser (existem mais coisas em jogo aí do que um mero capricho de querer). Quando esse tipo de situação acontece, a tendência é a gente acreditar que as engrenagens da mente da pessoa se movem por paixão (competitividade, querer ser ‘a escolhida’, querer ser ‘perfeita’, a melhor, etc) OU POR ódio (de não conseguir se superar, de reconhecer as dificuldades e se frustrar por não saber lidar com elas, de ter de lidar com gente escrota pra caralho, etc). Mas a verdade é que o que move a engrenagem é um híbrido entre esses dois sentimentos (sim, aqueles tipos de sentimentos que nem tem nome) e que causa instabilidades das mais variáveis, continuamente, justamente por ser tão atípico.

E isso de “alcançar o objetivo” se torna um pouco mais simples quando você JÁ SABE qual é esse objetivo, essa meta. E isso se torna um pouco mais complexo quando você tem uma vida inteira dedicada a isso, e como se o seu próprio sentido de existir dependesse disso. Meio tenso.

Daí fica aquela sensação de que in order to be perfect you have to be flawed. E talvez seja isso mesmo, não sei. Também fica a sensação de que não se pode ter tudo e que a partir do momento em que você ASSUME isso (intimamente, de verdade), você JÁ TEM TUDO. E também fica aquela sensação, aquela amaaarga sensação, de que SE SACRIFICAR (pela beleza, por um amor, por arte, por uma CAUSA) não acontece com qualquer pessoa, talvez. Mesmo. Pra maioria das pessoas parece que o conceito de ‘sacrifício’ se esvaziou faz é tempo. Ninguém mais TÁ A FIM, não interessa pelo que for… rs

Vez e outra eu tenho crises de existência. Tá. Pode existir gente que nunca teve, mas eu tenho. Acho engraçado que as pessoas me achem (elas me dizem isso, não estou inventando) tão certa das coisas, tipo “nossa, você já sabe o que quer, já tem tudo encaminhado, eu queria tanto ser assim”. Não queira. Por mais que pareça, não sou tão segura quanto pensam e nem quanto eu penso. Não teria tanta certeza assim sobre mim mesma.

Ter foco não tem NADA a ver com saber o que quer. Foco e disciplina são só ferramentas (características) que potencializam algumas coisas pras quais eu já estou disponível, mas não tem nada a ver com saber, efetivamente, o que se quer. Eu não sei exatamente o que quero – nem o que eu sou ou vou ser – num sentido mais amplo. Mas no sentido prático, eu faço por onde e faço de acordo pra atingir meus objetivos, pura e simplesmente. Coisa que qualquer pessoa com o mínimo de decência e competência faz.

Não que ultimamente eu não esteja satisfeita com as coisas que tenho feito e estou fazendo. Acho que estou satisfeita com o que faço, sim. O problema agora é que geralmente quando eu páro em algum momento em que preciso me definir (“faço isso, faço aquilo mais, sou aquilo outro”) eu não consigo, e também não consigo entender se isso é bom ou ruim. Talvez seja bom e ruim e isso não tenha muita escapatória.

Eu deveria relaxar mais com essas coisas. Deveria aceitar algumas outras também, com mais facilidade. Mas né, quem disse que tudo seria simples? É fato que eu me preocupo demais com coisas que não deveria, mas isso agora tá pegando. Acho que o problema não é que eu não queira ser eu, mas que eu queira ser algo. Mas mais do que ser só algo, eu também queria ser muitas coisas. Talvez eu seja essas muitas coisas e esteja com dificuldade de lidar com isso (o’rly? ya rly.). Talvez o que eu quero ser não exista, o que seria pior ainda.  Ok, o problema não é tão complexo assim… O que eu quero existe e eu estou trabalhando pra isso.

A sensação que eu tenho é a de que preciso sair do armário, mas não estou sabendo bem como. Crise de identidade é uma coisa escrota. Mesmo.

É difícil perceber que as coisas tem um preço. Ainda mais quando esse preço é imaterial, é um preço de alma o que o torna ainda mais caro. É possível viver uma vida sem paixão. Essa frase deveria vir com um ponto de interrogação no final, pois tem gente que simplesmente não acredita que uma vida possa ser vivida sem paixões. Pois bem: pode. E perfeitamente. Sua vida inteira pode passar em branco e num piscar de olhos você pode ter passado anos a fio sem ter produzido absolutamente nada e sem ter se especializado ou ao menos gostado de fazer nada, que isso não fará a menor diferença para o mundo e para as outras pessoas.

Teve uma época da minha vida em que eu fui cercada por pessoas cheias de objetivos, motivadas, centradas em produzir algo de bom ou algo que gostassem. E, felizmente ou não, foi numa época em que eu estava completamente perdida em relação ao que fazer da vida. Observava aquelas pessoas e me sentia totalmente deslocada, triste mesmo. As invejava no fundo, mas dizia que não, que “nada a ver” e que “eu não queria levar minha vida daquele jeito”. As entendia como “bitoladas”. “Meu deus, sera que SÓ existe ISSO na vida delas? Será que não têm nenhum outro assunto?”. Isso era paixão. Esse “só” na verdade era o tudo, o todo, era o que formava o sentido na vida delas. Era uma paixão tão verdadeira que foi difícil até mesmo para eu identificar e reconhecer como tal, até hoje.

Uma vida sem paixões não seria insossa? Talvez. Não há nada em jogo. Ou ainda: há nada em jogo, o que pode ser alguma coisa, mas aí não vão querer discutir sobre isso por que é mais fácil não pensar sobre isso. Paixões são mesmo nocivas. Podem te fazer perder tempo e uma parte da vida. Podem fazer com que as pessoas percam sua cabeça, suas razões. Percam a si mesmas, percam pessoas próximas, queridas. E isso tudo é muito assustador, essa falta de razão, falta de controle. Então é mais fácil viver uma vida rotineira, previsível, desinteressada, do que apaixonada. O caminho mais fácil. O atalho. A negação.

Nisso habita a dificuldade de assumir posicionamentos e compromissos que, querendo a gente ou não, fazem parte de tudo o que nos cerca. A falta de paixões nos isola tanto quanto o excesso de paixões e podemos nos acomodar perfeitamente em ambas situações. Percebendo isso noto que a ausência de paixão, o desinteresse – que muitas vezes é descaradamente dissimulado – não tem mais espaço dentro das coisas que escolhi, apesar de não saber exatamente por onde devo (re)começar.  Acho que devo começar a partir das coisas as quais eu não tenho escolha, pois, na verdade, foram elas quem eu escolhi desde o início..

Lotus10

Sua simbologia é uma de suas virtudes mais apreciadas: é associada à pureza e ao renascimento. Uma das flores mais belas nasce em meio à lama, inspirando um caminho de purificação e de transcendência em relação a tudo que é considerado impuro no mundo. Na Wikipédia.

I love the lotus because while growing from mud, it is unstained.

(Zhou Dunyi)

From ancient times the lotus has been a divine symbol in Asian traditions representing sexual purity, a virtue. […] In Buddhist symbolism, the lotus represents purity of the body, speech, and mind as if floating above the muddy waters of attachment and desire. […] Via Wikipedia.

Tenho pensado sobre isso há alguns dias mas tenho tido medo de escrever sobre. Na verdade não é bem medo, me falta mesmo coragem. Nesse mês de julho que passou eu levei uma (entre várias) bronca da minha mãe, quando nos vimos. Minha mãe sempre me dá broncas imbecis, mas essa ficou na minha cabeça justamente por que eu não consegui discutir sobre isso com ela. Ficava quieta e, por dentro, dava razão a ela. Sei que dizer isso é idiota e infantil mas me sinto incomodada toda vez que dou razão à minha mãe, secretamente. Oh, well…

O motivo da discussão é normal, um dos mesmos motivos de sempre. Ela estranha o fato de eu não estar mais tão motivada (pra fazer exercícios e emagrecer, enfim, cuidar da minha aparência) quanto eu estava no final de 2007. Ok. Minha justificativa: “eu tenho meus motivos”. Ok, isso não é o bastante pra me convencer. Além do que, a grande verdade é que os meus motivos são fajutos até pra mim mesma. No final de 2007 eu tinha algo idealizado. Algo bobo, pequeno e infantil, mas que me movia de uma forma surpreendente.

Pois bem. Acho que isso durou pouco tempo. De novembro de 2007 a outubro de 2008, se não me engano. E então, ao final de 2008, tudo o que eu tinha idealizado tornou-se outra coisa. Não posso dizer que se tornou algo bom ou algo ruim. Simplesmente não era mais o que era de início e essas coisas acontecem, as coisas são assim. Isso não é conformismo, é um fato: todas as coisas são assim, todas as coisas se transformam ou até mesmo tem prazo de validade. O que me deixa chateada é o fato de eu me mover apenas por causa de algo idealizado e não simplesmente por que devo, gosto, ou por causa de mim mesma.

Não quero ser injusta: idealizar algo, ter na minha mente a fantasia de algo bom e perfeito mudou a minha vida de forma muito brusca e profunda. Foi muito bom pra mim, por um tempo. Sei que deveria ser mais delicada com as afirmações que faço pra mim mesma, mas a verdade é que essa “fantasia” me tirou da depressão. Tirou-me de uns oito anos de depressão. Depois disso comecei enxergar as coisas de outro modo, comecei de fato a gostar mais de mim mesma. Ainda não me valorizo tanto quanto devo, mas reconheço claramente que já fiz grandes avanços.

Cuidar da minha aparência foi superficial, mas fez parte da mudança como um todo. O que me fez perceber genuinamente o quanto mudei foi quando voltei a tomar meu remédio (hipotiroidismo) e comecei a ir a todos os especialistas necessários pra manter a minha saúde em dia. Nunca tinha feito isso na minha vida, nunca tinha me interessado, nunca havia cuidado de mim mesma desta forma. Sempre que ia a médicos, era uma chateação, uma obrigação. Não gostava de me preocupar comigo mesma, não me dava valor, por mim eu podia morrer a qualquer hora.

Entendo que hoje eu também posso morrer a qualquer hora, mas a diferença é que hoje eu quero morrer bem e saudável. Eu quero uma morte digna. Enfim… Voltando ao foco: motivações.

Minha mãe chegou pra mim e falou “pois em 2007 pelo menos você tinha uma motivação… E agora, o que você tem? Por que você não faz mais as mesmas coisas? Por que você mudou?”. Sinceramente eu não soube o que responder de imediato. Tudo o que eu respondesse pra ela soaria como uma desculpa fajuta e eu SEI disso. Então eu acho que fazia cara de Monalisa e esperava ela parar de me questionar sobre a minha (falta de) motivação. Mas a grande verdade é que eu broxei mesmo. A grande broxada interna, aquela que ninguém vê mas que eu sinto.

E eu sei também que é apenas uma broxada, não tem nada a ver com depressão. Não estou “de mal comigo mesma”, nem “de mal com a vida”. Não chego nem mesmo a estar desanimada com nada, pelo contrário. Mas a realidade dura e cruel é que: A FANTASIA ACABOU. E a pergunta que eu tenho é: e agora, o que eu faço? Bem, eu sei o que fazer. Sei como agir, como me comportar. Tenho o auxílio de médicos e de pessoas que gostam de mim, mas isso não é o suficiente: preciso do meu próprio auxílio. Eu só preciso FAZER ACONTECER, o que parece muito simples quando a gente lê, mas na prática não é tão fácil.

São muitas as perguntas (idiotas) que eu tenho a fazer pra mim mesma. O que fazer quando a fantasia acaba? O que fazer quando a idealização desaparece? O que fazer quando o tesão termina, ou ainda, é saciado? Esperar que apareça um novo? E se isso não acontece? O que eu devo fazer no meio tempo? O que sobrou de mim nesse processo? Sobrou muita coisa… E muita coisa boa. Eu ainda tenho vontade de viver bem. Ainda tenho planos, desejos e vontades, em vários setores da minha vida. Sinto-me bem comigo mesma (não tanto como gostaria, mas enfim… mulheres).

Sobraram todas essas coisas mas ainda assim, hoje, eu não tenho motivação nenhuma “pra continuar”. Entendam: não é depressão, não é desanimo, não é tristeza ou whatever… É que dessa vez eu simplesmente não terei “um prêmio no final”, me esperando. Não terei recompensa por qualquer coisa que eu faça. Aí fico pensando se a motivação que eu tive foi errada. Fico pensando em prováveis motivações escusas, inconscientes, que me levaram sim pra um caminho bom, por um tempo, mas que depois desapareceram como se nunca tivessem existido.

É bastante confuso, mas não adianta nada eu ficar buscando por “culpados” nessa história toda quando na verdade a única culpada sou eu mesma e minha cabeça. E ao mesmo tempo em que sei que sou “a culpada” disso tudo, paradoxalmente eu não SINTO a culpa. É como se fosse algo que não fosse meu, mas que eu apenas observasse de fora. É estranho, difícil explicar. Hoje eu observo essas coisas, mas não me revolto mais com elas. É preciso entender e compreender, antes de julgar. É preciso ter MUITA paciência e mais além: é preciso PERSISTIR nas coisas boas. O que é muito, muito, MUITO difícil de fazer.

É preciso sempre ver além das coisas boas e ruins. Enxergar as coisas com dualidade e pensar de forma maniqueísta nunca é muito saudável. Se as coisas estão “ruins” pra mim hoje, preciso modificá-las pra que tudo melhore, ou ao menos, pra que não me afetem tanto ou me afetem o mínimo possível. Reclamar apenas não resolve muito. Entendo que não tenho motivações pra me cuidar por esses dias. Me cuidar pra mim mesma não me parece uma recompensa boa o suficiente. Entendam: não é baixa auto estima, é preguiça de mim mesma. Mesmo.

Mas eu também preciso entender mais ainda é que talvez, apenas talvez, eu não precise de motivações, nem de recompensas, mas sim de HÁBITOS. E é claro que eu falo de bons hábitos. De virtudes. Isso pra mim, devido a minha personalidade não deveria ser algo tão difícil de entender, mesmo por que, no geral, eu nunca espero nada em troca de ninguém, observando os relacionamentos que tenho. Mas é.. Sempre me engano comigo mesma.

Enfim, preciso entender que preciso fazer bem, fazer o melhor pra mim mesma, por que eu mereço, “por que sim”, por que é assim que tem que ser, etc… E não ficar me apoiando em fantasias, em realizações, em recompensas ou motivações.

Também não estou falando que “nada disso é importante”. Claro que é. Mas em outros contextos. Neste, não funcionou direito comigo.

Agora é hora de tentar o plano B.

I. Irascível

A noite vi o beijo. Em novembro do ano passado era o nosso e agora mesmo já era aquele. Não lembro do que senti na hora. Lembro apenas que reconheci aquele momento. Não soube definir o que era aquilo. Acho que nunca saberei. Não sei se foi ciúme ou inveja. Talvez não tenha sido nada disso mesmo. Virei o rosto e segui andando. Ele sabia onde eu estava, sabia quem eu era e só veio me dar um beijo no rosto depois de uma lata de cerveja e meia. Fiquei constrangida, mas não muito. Sou observadora demais pro meu próprio gosto, às vezes.

Alguns dias depois, numa festa, assim que me viu, me abraçou apertado, colou aquele rosto com barba por fazer no meu e sussurrou “coisa gostosa” no meu ouvido. Eu ri. Ri alto. “Pode voltar pra sua namoradinha agora” pensei, mas não disse, óbvio. Essa frase, na verdade essa situação me encheu de um tesão irascível. E eu não fiz absolutamente nada, como sempre. Maldade gratuita não é o meu forte. Eu estava sóbria. E dançava. Eu só queria dançar. Na verdade, é tudo o que sempre quero. Faço jus ao meu nome.

II. Dos erros

Tenho uma convicção muito imbecil acerca das coisas. O perigo habita exatamente no lugar onde não digo não nem sim. Nessas horas não consigo dizer nada e ofereço apenas um olhar suntuoso pra quem estiver na minha frente, olhando pra minha cara. Queria me lamber. Eu disse que não. O primeiro erro foi pedir. O segundo, insistir. E quando lhe digo “não me tente, garoto” é por que você perdeu.

III. Do dançar

Me olham quando eu danço.

Danço.

Por que me olham?

Seria a música, as luzes o ritmo cadenciado? Seria eu mesma por trás de toda essa máscara noturna? Talvez não. Acho e penso que não. Tenho certeza absoluta que não.

Por que páram de me olhar quando não danço?

Movimento, curvas, sinuosidade. As pessoas se alimentam disso.

Também sei dançar inerte, sabiam?

Continuem me ignorando.

Continuarei dançando.

IV. Do isolamento

Enxergo as pessoas mas não as vejo. Enxergo por outros meios, nada ortodoxos, nada convencionais. Analiso. Muita gente, poucas pessoas sempre. Gosto de pessoas. De algumas. Não tanto quanto gostaria e bem menos do que deveria. Até simpatizo com algumas. Num amontoado de gente numa festa, ao mesmo tempo em que danço, me distancio e observo a todos. Dançar é socializar-se, mas na verdade, eu me isolo. E observo mais e melhor enquanto me movimento.

V. Da sociabilidade

Você já deu um “oi” sem querer ou talvez por engano alguma vez na vida? Eu já. É e não é agradável ao mesmo tempo (Fato: sou uma negação até quando não estou tentando ser sociável).

VI. Ela

Era pra ser um encontro marcado, com horário e local exatos. Mas foi um encontro espontâneo, no sentido mais certo que essa palavra pode ter. O cabelo dela tinha crescido e estava diferente. Eu estava tímida. Ganhamos as ruas, o metrô, a bagunça do comércio do centro. Ela tinha prometido uma surpresa, me levar num lugar em que eu iria gostar. Entramos em alguma ruazinha pra logo em seguida entrar no Real Gabinete Português de Leitura. Eu ouvi aquele ruído silencioso, um silêncio sinistro comparado a desordem sonora da rua.

Logo depois, um doce, um brownie quente com sorvete de creme. E um capuccino, no Bistrô do Paço. Foi a conversa mais longa e saudosa. Senti saudade de me sentir daquela forma: confortável, aconchegante. Senti carinho, grande, imensurável. Não soube explicar por que me faltou ar e meu coração bateu mais rápido quando lhe dei um beijo no rosto, agradecendo por um presente. Se eu fosse branca, certamente coraria. Tenho uma certa dificuldade em demonstrar afetuosidade, mas sempre faço do meu jeito, embora às vezes me ache um pouco desajeitada. Uma pena eu não ter dito o quanto eu sentia a falta dela. Mas de qualquer forma, acho que ela sentiu isso de um modo ou de outro.

VII. Aquele abraço

Sempre tenho a impressão de que o nosso abraço poderia ser mais longo. Nunca sei o tempo exato de “desabraçá-lo” pra então poder dizer ‘oi, como vai?’. Acho que o abraço poderia dizer várias coisas por mim, como “estou com saudades, que bom te ver de novo”. Por mim, nosso abraço duraria uma eternidade. Eu deveria ter vergonha de afirmar isso pra mim mesma, mas curiosamente não tenho. Não tenho por que não carrego culpa de nada e nem me sinto errada. Me sinto pequena dentro daquele abraço, mesmo que ele seja breve demais pra mim. Me sinto cuidada quando atravessamos a rua. Me sinto cuidada com vários olhares dele. Os olhos, os olhares entregam as pessoas. E o olhar dele nunca foi de malícia e nunca foi atuado. É um olhar de carinho e preocupação e eu entendo isso. Me sinto querida e bem vinda, todas as vezes.

VIII. Da emoção reprimida

Fazia alguns meses que não nos falávamos. E então ele me entregou meu presente de aniversário e, claro, fiquei constrangida como sempre fico quando recebo presentes, elogios, etc. Não por que ache que eu não mereça, mas.. Enfim, a situação toda agravou ainda mais esse meu jeito desajeitado de ser. Quando vi o que era meu presente, meu rosto se iluminou e eu me emocionei. Me emocionei, mas como percebi que ele ficou visivelmente constrangido, tratei logo de disfarçar a emoção com frieza.

Engoli o choro e devo ter dito algo como “Poxa, muito obrigada mesmo”, mas que não me pareceu como um agradecimento genuíno nem em mil anos luz.. Me senti falsa por que me contive. Fiquei triste por dentro, mas foi melhor assim.  Talvez até tenha sido melhor não perder a compostura. Nunca tinha feito isso,  nunca tinha me privado de me emocionar e confesso que  achei bastante difícil. Difícil, mas não doloroso. É só recuperar o fôlego e continuar. E no fim da noite, um pedido de desculpas quando, aparentemente, não fiz nada de errado. Carregava uma culpa que nem eu mesma sabia qual era. Só sabia que era pesada.

E pedir desculpas não me aliviou e nem me fez sentir melhor, só mais idiota. Mas ainda: foi melhor assim. Às vezes a minha imbecilidade e fragilidade com as coisas que acontecem é tanta que eu nem consigo acreditar que sou eu. Acho que “perdi a mão”, o jogo de cintura. Sei lá, quero pensar nisso não.

IX. Perguntas que não calam

Por que demonstrar afeto por alguém é tão simples mas tão difícil? Existem formas bem claras de se demonstrar afeto: dinheiro, presentes, carinho, abraços, beijos, sexo. Mas quanto as formas não tão objetivas de se demonstrar afeto? Um olhar, um sorriso, algumas palavras ou ainda, presentes que contenham palavras. Ou sentimentos muito bons que não conseguimos explicar, nem ver, apenas sentir. Não sei. Prefiro os afetos que parecem que não estão ali. Eles duram mais e por mais tempo.

O que faz com que as pessoas se apaixonem pela gente? Como a paixão acontece na nossa cabeça?

Não sei explicar, só sei que, ao que tudo indica, é essencialmente espontâneo. Não nos forçamos a nos apaixonar por ninguém, nem podemos forçar ninguém a se apaixonar pela gente, pois aí já não é algo legítimo, mas forjado. Minha experiência pessoal diz que nada que é induzido nesse sentido pode ser muito bom. Situações fabricadas serão, sempre, situações fabricadas. E não há nada que mude isso.

Por que algumas pessoas tem a necessidade de manterem-se apaixonadas pra sentirem-se vivas?

Não sei. Esse nunca foi o meu caso. E nunca será.

X. Do cuidado

Sou péssima com presentes pros outros. Apesar de ser boa observadora, se sou privada do convívio a coisa se torna um tanto quanto mais difícil. Ainda assim me senti que deveria retribuir a delicadeza, sem contar que em alguns dias seria o aniversário dela. Lembrei-me que no dia do meu aniversário este ano ela me enviou um e-mail carinhoso, com uma fotografia linda de orquídeas. Então nem fui muito criativa.

Andar nas ruas com aquela planta foi um privilégio pra mim, e cuidei dela por alguns instantes. A protegia com as mãos quando um vento forte aparecia e segurava melhor o caule pra que não se partisse. As pessoas me olhavam, cada um de modo diferente. Não é muito comum encontrar uma pessoa com uma orquídea grande dentro do metrô. No caminho, quatro pessoas sorriram pra mim, afetuosamente.

Percebi nos olhares delas que se perguntavam “será que ela ganhou ou está levando de presente?”. Eu só as observava quieta, olhando por cima das orquídeas brancas. Acho que o meu presente agradou. Espero que sim, pois o entreguei com um carinho muito especial. E então, conversamos. Falei sobre algumas angústias e pedi conselhos. Não exigi nada, simplesmente compartilhei algumas coisas minhas. Senti então muito cuidado nas palavras dela, instigando minha proteção. Um cuidado que senti verdadeiro, genuíno.

E de fato depois da conversa a angústia passou e comecei a entender algumas coisas por uma outra perspectiva. E melhorei muito. Ao me abrir e confiar, só tive a ganhar. Soube como agir melhor, pra me proteger.

XI. Da proximidade acidental

O destino é muito irônico, ri com dentes podres na nossa cara.

Antes do último dia, adoeci. Com direito a baixar hospital, correr pra emergência e tomar qualquer coisa intravenal que fizesse aquela dor parar. Foi horrível. Foi um fiasco.

Foi 2006 redivivo, só que desta vez a vítima fui eu.

Apesar da situação ruim, houve a preocupação e aí sim o cuidado se tornou mais do que evidente. Foi uma proximidade acidental, mas que me agradou muitíssimo. Olhei pra ela e disse “você é a próxima vítima, pode acreditar”. E depois conversando com ele pensamos em várias coisas que poderiam ter causado aquela dor estomacal: tensão, ou sei lá, somatizei algo. “Qualquer coisa é gatilho quando há predisposição” ele me disse. Talvez. Não me preocupo em pensar muito nisso não. Só sei que aconteceu e sei que isso que vou dizer vai soar horrível mas “foi bom passar mal”.

XII. Da memória

Fiquei em Botafogo a maior parte do tempo, gostei de lá, mas andei pouco. Conheci uma parte da Urca que me marcou muito, Praia Vermelha, chinelo, vestido branco e colar de contas. No fim, tudo teve que ser resolvido às pressas, tive de sair correndo com malas, prazos, horários, pra então sair de novo, ir, vir e encontrar-se novamente. Acho que desde janeiro eu queria conhecer o Parque Lage. Acho que era fim de tarde. Chá de maracujá e maçã. Eu vi a piscina, lugar com o qual já tinha sonhado algumas vezes, mesmo sem nunca ter estado lá.

Fazia muito tempo que eu não andava pelo mato. Achei bonito aquela mistura de pedras, ruína e floresta. Gostaria que meus olhos fossem capazes de tirar fotos. Estava um tempo agradável. Nossos nomes foram escritos numa parede. E depois de andar mais um pouco, apareceu uma piscina natural, com carpas imensas. Tinha uma cachoeira também… Tudo parecia um sonho, mesmo. Lembrar disso agora me faz sentir esquisita, não sei o que acontece.. Um frio na barriga estranho. Acho que é por que ainda está muito recente na memória.

E depois, um mirante, onde era possível ver a lagoa Rodrigo de Freitas, parte de Ipanema e Leblon, se não me engano. Prometi pra mim mesma que guardaria aquele momento pra sempre na minha memória.. Mas sempre que prometo eventualmente esqueço. Promessas não são nada espontâneas. Lembranças são.

mirante-full

XIII. Do fim?

Um dos post mais acessados deste blog tem o título “Como esquecer alguém?”. Escrevi e não me arrependo, mas hoje sei que é bobagem. Hoje sei que não é possível esquecer ninguém, por mais que se tente. Na verdade é  o maior dos paradoxos: a gente sempre se lembra de esquecer. É uma ferida, um recalque que se torna aparentemente incurável. E é ridículo, não condiz mais com quem eu sou hoje em dia.

E a gente sente essa vontade de esquecer por ‘n’ motivos, geralmente relacionados a desentendimentos, brigas ou simplesmente por que o que havia acabou. Os motivos vão desde algo besta como ‘não gostei do que você disse/fez/insinuou’, algo mediano como hostilidade gratuita advinda de TPM até coisas “graves” como traição, etc (apesar de eu não acreditar em traição, mas aí é outro post).

A diferença é que, quando eu era mais nova, o custo de se adaptar às situações e às pessoas pra mim era muito alto, eu não conseguia, não tinha como. Eu era inflexível e de certa forma me orgulhava disso. Hoje em dia é diferente, penso em viver com leveza e pago caro por isso, mas pago com gosto. Às vezes esforçar-se pra esquecer não vale a pena, pois é um esforço em vão.. Ainda mais quando o motivo não é dos mais fortes. É tudo uma questão de saber se comportar.

A verdade é que as pessoas – de modo geral – farão o que puderem pra te machucar, às vezes conscientemente, às vezes não. Às vezes por sadismo, às vezes por defesa. É preciso saber reconhecer e fazer escolhas, entre continuar ou parar. E às vezes eu me machuco por pouco, por muito pouco e reconheço isso. E percebo que o motivo pelo qual me machuco é tão bobo, tão infantil, tão… pequeno, pobre.. Que realmente seria muito imaturo da minha parte manter isso em tão alta conta.

Me preocupar com pobreza e com pequenez de algumas coisas não combina com a minha personalidade generosa. Sou generosa e expansiva sim, e também cobro pouco, mas não deve se confundir esse meu comportamento com  um deslumbre sentimental, como se todas as pessoas devessem me amar  o tempo todo  (e provar que me amam o tempo todo também) ou se apaixonarem por mim indistintamente.

Isso não existe. Nem comigo, nem com ninguém.

Todo mundo é detestável em alguns aspectos. E só não se enxerga o que é  realmente detestável em alguém quando não se vai além do que é superficial e material.. O que é muito comum hoje em dia. Faz algum tempo que cansei de pessoas que se utilizam de afetos vulgares..

E então, saio de determinadas cenas.

E assim permaneço em outras. Pra sempre.

Por incrível que pareça, meu primeiro ímpeto de senso de responsabilidade iniciou-se quando eu comecei a assistir PORNOGRAFIA. Ok, não a ASSISTIR pornografia no sentido de ser periódica e constantemente, nem saber das atrizes mais conhecidas, etc. Falo dos primeiros contatos que tive com tudo o que é erótico e sexual, de entender e conceber o que é pornográfico. E eu tive esses contatos em idade muito jovem, algo entre 9 e 10 anos de idade. Não, eu não fiz sexo com essa idade, mas eu já entendia o que era (o que ia onde e porquê) e pra que servia (como engravidar, etc). Primeiro os livros de ciência, os órgãos por dentro, como funcionavam e pra que serviam (em teoria). Depois apareceram as famosas “revistas de mulher pelada”. Depois, revistinhas de contos eróticos.

Se bem que nunca precisei ir muito longe: as novelas e filmes sempre deixavam o meu imaginário sexual bem curioso e embora criança eu não era burra: sabia que a realidade não era daquela forma.

Quanto à pornografia mais chula (revistas com imagens e contos) eu via aquelas coisas (e também lia) e aquilo tudo me excitava muitíssimo, sem nem mesmo eu nunca ter encostado em uma pessoa do sexo oposto. Afinal, eu era uma criança. E sim, claro, por que no início a sexualidade é (comigo foi) homossexual.  Com certeza deve ter alguém que defende isso, eu não defendo nada, mas enfim isso foi um fato comigo, entre 10~12 anos. Tive criação católica e nem por isso me sentia culpada e também não achava o que fazia errado. Não conseguia explicar a mim mesma porque achava mulheres mais atraentes. Simplesmente achava. Na verdade eu me lembro que quando criança eu achava os meninos MUITO feios (sem graça) e os homens terrívelmente ASSUSTADORES por que eram grandes, nojentos e tinham pêlos.

Morria de medo de pau. Sempre tive medo. Mas era um medo VIRGINAL, não era nojo, falta de preferência ou pânico. Era um medo que eu não compreendia e que só fui superar depois do meu primeiro beijo num menino. Aí eu já tinha 13 anos. Eu não era uma menina muito brilhante, mas também nunca fui uma completa idiota que podia ser levada no papo. Poderia ter perdido minha virgindade com 13 anos se eu quisesse (como a maioria das minhas colegas de classe RETARDADAS mentais), mas não quis e foi uma ESCOLHA e uma OPÇÃO. Eu tinha um critério muito simples pra perder a minha virgindade: tinha que estar namorando e tinha que gostar do rapaz. Depois disso, tudo fluiria muito naturalmente e eu não ia ter que carregar lembranças ruins ou traumáticas PRO RESTO DA MINHA VIDA. Quando eu tinha 13 anos virgindade era um tabu e lembrar disso me faz rir TÃO ALTO hoje.. Mas enfim.

Perdi minha virgindade com 16 anos e foi exatamente do jeito que eu quis e planejei. Foi ótimo, sem traumas e não me arrependo até hoje. Esperar foi a melhor coisa que eu fiz. No entanto quando eu era mais nova, todas as vezes que neguei sexo e me justifiquei falando sobre a minha opção, vários guris me chamaram de BURRA. Aquilo me magoava, mas eu sabia que era uma tática pra me fazer fraquejar. Mas não funcionava. Como disse: eu não era brilhante, mas nunca fui uma completa idiota. Fui burra até quando quis. E depois quando consegui o que queria, deixei de ser “burra”, rs. Aliás, nem sei por que ainda tô falando de sexo, mas acho que tenho uma boa justificativa. Comecei o post falando de pornografia né? Então. Depois que perdi a virgindade e comecei a asssistir uns programas bobinhos que passavam de madrugada, algumas coisas me fizeram pensar em outras.

Teve um dia na minha vida (ou melhor, uma noite) em que eu estava assistindo sobre algum programa de sexo/sexualidade na TV que mostrava a rotina de umas mulheres que faziam fotos pornográficas pra revistas/internet, não me recordo muito bem. No entanto, eu me lembro muitíssimo bem da frase que uma dessas mulheres falou e não sei por que motivo essa frase me marcou tanto, mas marcou. Ela disse algo como “these pictures are forever“. Na época não entendi, mas guardei esse frame na minha memória e vez e outra essa frase volta quando faço (ou estou por fazer/falar/agir) algo: AND THIS IS FOREVER. Quando eu era mais nova não me importava muito não, me lixava pras coisas, achava que nada teria o mínimo de importância e gostava de tudo que era efêmero. Ainda gosto, mas não mais da mesma forma. O que a gente faz é pra sempre, mesmo que seja efêmero, mesmo que se transforme, mas ainda continua lá.

Acho imbecil e sempre acharei a maldita frase do Antoine de Saint-Exupèry “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativa”. Frase imbecil, pensamento imbecil, mentalidade IMBECIL. Essa frase carrega uma quantidade de BUNDAMOLICE quase que insuperável. E as pessoas sonhadoras que a apóiam deveriam trocar essa frase por outra tipo: “o homem é responsável por aquilo que é” ou ainda “estamos eternamente condenados a sermos livres”. ISSO é ter culhões e não ficar jogando a RESPONSABILIDADE por quem você é e pelo que você sente, a outras pessoas. Não respeito filhos da puta, mas RESPEITO quem se ASSUME filho da puta. Ter culhão também é dizer que sente medo, que não tem coragem e que não faria algo por que não quer, ou por que não acha justo ou certo. Ter culhões é dizer que não concorda com casamento homossexual e ainda assim SER MISS, independente de qualquer coisa.

Ter culhão é pedir desculpas e assumir um erro. É ser “metamorfose ambulante” e se assumir assim. É criar algo sabendo que esse algo vai ter fim. Ou ainda: destruindo esse algo por conta própria. E criando outros, talvez. É julgar e ser julgado por que O MUNDO e a EXISTÊNCIA é feita de julgamentos e você não tem como impedir isso. Ter culhão é saber dizer NÃO quando tudo o que você mais quer é dizer SIM (pros outros e pra si mesma). É ser promíscua e assumir a promíscuidade e suas conseqüências (SIM, EXISTEM consequencias apesar de ainda ter gente que pensa que não vive numa sociedade MACHISTA pra caralho). É assumir seus gostos, suas vontades e sua(s) personalidade(s), independente de certo ou errado, independente de tudo ou de todos. É simplesmente SER e SE DEIXAR SER. Sem amarras, sem constrangimentos, sem PIEDADE.

Falta muita gente com culhão nesse mundo viu?

Vou te contar..

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