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Arquivo da tag: Baixarias

a.

Sou debochada.

Desagradável, sem cultura, sem crítica. Não gosto e nem nutro paixão por absolutamente nada. Eu não sou uma pessoa favorita (se é que isso existe). Não me relaciono com coisas e na verdade nem mesmo com pessoas, acho. Vez e outra emito opiniões babacas acerca de qualquer coisa ou me comporto de maneira “indevida”. Infelizmente não joguei no lixo uma promessa que deveria ter jogado antes que fosse tarde: “você é uma das minhas pessoas favoritas”. Não, não sou. E isso é totalmente relativo de acordo com o meu comportamento. “Sinto muito, não podemos conversar”. Então não podemos mesmo. Tentei não ficar triste e desta vez reagi: esta sou eu e eu vou rir. Meu riso foi reprimido: “a beleza deve ser apreciada deste modo que não outro, com este sentimento que não outro, com estas referências, que não outras”. Meio opressor. Incivilizada e ignorante que sou, discordei: dou a opinião babaca que quero e rio o quanto quero.

Há algum tempo atrás me lembrei, com um certo tipo de melancolia, que antigamente eu costumava ser uma pessoa mais bem humorada. Costumava viver mais leve e rir mais, com mais frequência. Notei o quanto me tornei desnecessariamente séria, amarga, retraída, talvez até com um pouco de medo de interação. Sei que fiquei assim ‘porque quis’ mas acreditem: tive meus motivos (foram bons e foram muitos). Hoje acho que aceito pagar o preço. Custa uma falta de interlocução? Tudo bem, eu banco. Não adianta, não vou forçar a barra: sou rasa, sou fútil e sou crua. Não sei escolher belas palavras, não tenho muita preocupação em machucar os outros com minhas colocações inapropriadas (penso que jamais terão misericórdia quando se dirigirem à mim) e também não sei fingir que tenho interesse somente pra atender todo o requisito que a etiqueta social e a diplomática devem indicar. Não sou nada disso, sou outra coisa.

b.

Em algum momento houve uma conversa sobre a diferença entre: 1. quem pensamos que somos; 2. quem somos; 3. quem parecemos ser; 4. como somos e 5. como nos observam. Geralmente nenhuma dessas coisas tem muito a ver com a outra, é tudo meio distante e bastante confuso. Não somos quem pensamos ser, nem quem parecemos aos outros e geralmente o modo que nos observam – e nos julgam – é muito distante de como nos enxergamos. Tudo tem sempre uma coerência um tanto quanto precária e o tempo e o espaço apenas intensificam e aprofundam essas discrepâncias que se modificam e se relativizam sempre. Prova maior disso foi ter de ler “gostei de você no princípio acreditando que você sempre desejaria outras pessoas” ao que prontamente respondi “e eu gostei de você no princípio acreditando que seria pra sempre”. Ah, minha ingenuidade… Bad, bad timing Cosmos.. No donut for you. Deboche não cura, mas ajuda.

c.

Tenho tido déjà-vus em série ultimamente. Às vezes tenho a impressão de que sei exatamente por onde estou passando, exatamente como as coisas vão ser e o que vai acontecer. Reconheço lugares em que nunca estive, ando pela cidade com a desenvoltura de uma forasteira bem aventurada (que sei que sou mesmo). Antes quase sempre me assustava com essas memórias que jamais existiram, mas agora por algum motivo não me assusto mais, estão se tornando comuns. Lugares e situações que sempre tive dentro de mim se materializam e são como se tivessem existido desde sempre. Não considero isto bom, nem ruim: apenas aceito. Às vezes curto chafurdar em pessimismo achando que está tudo errado, que vivo em um mundo completamente imerso em mentiras, minhas e dos outros. Mas algo me diz que é muito simples acreditar nisso: mentiras. Então talvez não sejam mentiras propriamente ditas, mas transformações que ocorrem como vibrações lentas dentro de mutações constantes, repentinas. Imprevisíveis. Incalculáveis.

Inimagináveis.

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