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Às vezes fico com a impressão de que eu meio que nasci pra arruinar coisas em série. Ou pra me meter onde não sou chamada. Algo assim. Nunca foi tranquilo e não é algo pontual. É quase como se fosse um motivo, o meu motivo de existir. Fui e sou filha de uma mulher que, biologicamente, não podia (e não pode) ter filhos. Sou a incapacidade dela encarnada. Inclusive no núcleo familiar, do qual inclusive ela é a maior provedora, não sou eu quem dito as regras, mas sou eu quem terminantemente as recuso. E sempre recusei. No entanto, ao mesmo tempo que sou desprezível por isso, ela ouve o que eu tenho pra dizer pois sabe que jamais vou falar qualquer coisa ou fazer qualquer gesto com o intuito de bajulá-la. É um tipo estranho de confiança. Acredito que de certa forma eu transpus isso pra minha vida pessoal de modo inconsciente. Se existe algo bom e bonito, eu vou lá arruinar, mesmo que eu tente evitar isso a todo custo. É algo que acontece completamente à revelia das minhas vontades. E acontece, sempre, repetidamente. Eu sou esse limite. Essa limitação. O “daqui você não passa”, o “aqui você não pode”. Eu demarco coisas. Tudo isso sem querer, não intencionalmente, sem ter exatamente um propósito. Mas já se repetiu tantas e tantas vezes que acabei percebendo esse padrão. E em certa medida, esse padrão independe de mim e das minhas ações: ele apenas se desdobra de acordo com a minha realidade e os acontecimentos. Não sei se algum dia isso vai parar de acontecer. Ou diminuir. Não sei, mesmo, se tenho controle sobre ou se sou capaz de mudar isso. Tenho tentado nos últimos anos e isso tem me levado ao completo isolamento. Não reclamo, não tem sido ruim, muito pelo contrário. Me fez e me faz repensar uma série de comportamentos meus que não suporto mais e ver até onde posso tentar mudar. Mas só o fato de ser consciente dessa característica – minha? da minha existência? – já ajuda de um tanto.

Vejo muitas pessoas que conheço e que gosto muito sofrerem absurdamente pelo simples fato de serem completamente incapazes de ficarem sozinhas.

E existem várias formas de se estar sozinho.

Por exemplo: em uma sala de espera de uma clínica. Quando falo sozinho, falo sem nenhum tipo de “distração”: sem livros, sem música, sem nada, apenas você e seus pensamentos (ou a ausência deles). ISSO é estar sozinho. As pessoas buscam um entretenimento incessante para que não precisem entrar em contato com suas emoções, com seus pensamentos, com o que pode surgir a partir deles. Quase que para se anestesiarem da realidade. Não as culpo: a realidade é quase sempre uma merda. De qualquer modo, acho meio asfixiante, precisar estar bem o tempo todo, se manter entretida o tempo todo. Mas falo isso porque sou uma deprimida de primeira linha. E porque talvez eu não entenda as coisas como deveria. Enfim..

Sou uma deprimida de primeira linha não porque eu encare a realidade, mas porque encaro a mim mesma o que – às vezes – é bem pior e bem mais dolorido. Mas compensa. E vale a pena. Na maioria absoluta das vezes.

Algumas pessoas também não conseguem ficar sozinhas no sentido de precisarem ter um relacionamento com outra pessoa. Elas precisam desse tipo de validação. Precisa se tornar legítimo o fato de que elas são dignas de afeto, de amor. Ou precisam se sentir aceitos por algum determinado grupo. Precisam trepar, precisam namorar, precisam ter um afeto incondicional, essas coisas. Se aventuram, buscam coisas… Isso pode nem se tornar o objetivo central da vida delas, mas o fato é que elas estão sempre atrás disso. Pessoalmente, acho cansativo. Na verdade acho exaustivo, correr atrás, etc. Não faço isso, é muito desgastante e dolorido – lidar comigo mesma já me causa desgastes o suficiente. Não acho de todo errado, cada vida é diferente e algumas pessoas precisam disso. Às vezes simplesmente acho que eu não nasci pra amar nada nem ninguém. Que eu sou incapaz disso.

Às vezes me questiono um pouco se critico esse tipo de comportamento (o de procurar um alguém) porque falhei miseravelmente e fui extremamente infeliz em qualquer relacionamento que eu tenha levado à sério. Também é possível, sim. Talvez isso simplesmente não seja pra mim. O meu “problema” é que eu evito utilizar relacionamentos como muletas para qualquer coisa em mim. Acho nocivo, mesmo. Ou ainda: acho que enquanto eu não puder me sentir inteira, jamais vou poder bancar outra pessoa na minha vida. O meu gostar é, sempre foi e sempre vai ser, desinteressado.

Eu gosto das pessoas porque eu gosto. Não necessariamente pelo que elas tem a me oferecer.

Dito isso, sou sozinha. Simplemente porque o mundo não funciona desse jeito.

Não tenho muita gente na minha vida que tenha me influenciado absurdamente. As pessoas meio que passam por mim. As pessoas que gosto geralmente também são espelhos. Ou estão distantes de algum modo. Ou fico anos sem vê-las e quando as reencontro, é como se as tivesse visto ontem mesmo. Ninguém é uma ilha e eu também sei disso. As pessoas precisam uma das outras, precisam se relacionar para poder viver melhor. Para que coisas lhes sejam asseguradas. Para, muitas vezes, que a vida e as coisas tenham sentido. Eu acho isso tanto fascinante quanto limitante…

Estou lendo um livro de uma artista que gosto muito chamada Amanda Palmer, e o livro se chama The Art of Asking (A Arte de Pedir, que vai sair pela Intrínseca em março, ao que parece). Ela escreve de uma forma que faz parecer com o que ela faz seja extremamente fácil de se fazer – se comunicar, confiar, conceder, trocar. Para mim, não é tão fácil e nem tão natural. A Amanda tem uma vida bonita – que certamente tem seus altos e baixos – mas ainda assim, uma vida bonita. A forma que ela enxerga as coisas e as pessoas é incrível.. E a forma que ela traduz todas as coisas na vida dela também é fantástica. Não tenho isso de me comunicar e trocar com os outros mesmo porque não sou uma artista. Tenho sérias dificuldades em confiar nas pessoas por motivos meus e às vezes sinto que isso foi perdido, ou talvez não exista – o que é um exagero.

Há algumas semanas tenho me preocupado com isso um pouco. Com essa falta de confiança crônica nos outros. Com o fato de eu ser sozinha e absolutamente reclusa. Com o fato de eu não saber me relacionar com as pessoas. Com o próprio fato de, na maior parte do tempo, eu ter não cara de ‘muitos amigos’. Tenho vários motivos pra ser assim, mas a verdade é que sou assim já há bastante tempo. Fazem 8 anos que eu moro totalmente sozinha. É bastante tempo. Tenho uma penca de conhecidos, mas é isso: são conhecidos, não amigos. Eu não tenho muitas pessoas com quem eu definitivamente possa contar. Não tenho mesmo. Eu não me arrisco a dizer que tenho uma melhor amiga. Digo que existem certas pessoas que persistem em conviver comigo por tempos que considero recordes: 8 anos, 10 anos, etc.

Pessoas que me aturam. Que me toleram. Que me conhecem, por inteiro, as partes boas e as partes péssimas. Que sabem como eu sou, o que eu provavelmente vou pedir e o que pode ser oferecido em troca. Essas pessoas estão sempre por ali. E eu estou sempre por aqui e é isso.

Não sou, de todo, uma má companhia pra mim mesma. Tenho meus defeitos, me saboto e me maltrato algumas vezes, mas nada que com o tempo não vá melhorando, aos poucos. Algumas coisas são mais difíceis de curar que outras. Considero o fato de eu ser sozinha mais uma habilidade que um defeito. Claro que isso também traz coisas bem ruins como a total e completa falta de tato social e falta de habilidade com pessoas no geral – são preços, caros, que pago toda vez por essas deficiências. Mas acho positivo tendo em vista que a maioria das pessoas que eu conheço tem verdadeiro pavor de ficarem sozinhas: precisam de livros, música, festas, drogas, amantes, bichos de estimação, coisas que possam preenchê-las de algum modo que elas jamais poderiam… Não sei… Acho todas essas coisas importantes sim, muito, mas elas não me preenchem, nem me complementam em absoluto. Elas não passam por mim. Elas falam e tem vida através de mim. Me confundo com elas… E eu não sou um entretenimento.

Acho que é mais nesse sentido que me identifico com a Amanda Palmer. Tudo o que ela faz também não é entretenimento: é a vida dela. É uma forma de vida. E não há como ela ser de outro modo.

No geral, as pessoas gostam de mim. Mas ninguém se envolve comigo. Talvez porque eu não seja do tipo envolvente. Ao menos não por muito tempo. Talvez porque a ideia que as pessoas têm de mim seja mais interessante (e convincente) do que eu mesma. Não reclamo. Me acostumei a ficar sozinha. Algumas pessoas vão continuar convivendo comigo por pura persistência e teimosia. Outras, vão continuar indo e vindo, como já é o que acontece. Eu vou permanecer sempre aqui.

Tenho uma mania, muito feia, que é a de não fazer algo aos poucos, mas querer fazer tudo de uma vez. Querer “resolver tudo logo”. E isso é desde sempre. Pra mim, não existe o processo. Não existe a composição. Não existe o projeto. Existem as coisas, que são feitas de cabo a rabo. Numa tacada, numa sentada. E eu sempre vou até o fim de cada uma delas. Raramente largo pela metade, ou deixo meio feito. Não consigo. Eu não sou assim. Eu faço. O que for preciso. O quanto for preciso. Pelo tempo que for preciso. Por muito tempo achei isso uma grande qualidade. Não é… É um defeito na verdade. Noto agora pois estou trabalhando diretamente com projetos que envolvem planejamento de longo prazo. E isso, em mim, não é algo que só aparece no trabalho. Esse tipo de comportamento reverbera em várias partes da minha vida, em tudo: alimentação, paixões, coisas as quais estou a fim, decisões. Muitas, muitas coisas. Eu sou o excesso. Isso aparece mais e principalmente nas decisões que eu tomo, quase que impensadas às vezes. Não planejadas. Tomadas de impulso. Jogo com as cartas que tenho na mão. Se não tenho mão, jogo as cartas pro ar. Sinto que não tenho tempo a perder. Absolutamente não tenho paciência com coisas que me fazer perder o meu tempo, que me é tão caro e precioso. Me equilibro entre extremos, sempre. Ou tudo feito, ou nada feito. Raramente há negociação. Não tenho tempo de me arrepender porque a vida me atropela e logo em seguida preciso tomar mais decisões. É meio exasperante, meio sufocante, mas acredito que isso seja do meu gosto. Sempre foi. Me acostumei. Me acomodei ao excesso. Mas não precisa ser assim. Não precisa. O excesso é bom sim. Pode ser bom. E me trouxe coisas boas.

Mas não é tudo. E não deve ser tudo.

(O que é suficiente pra mim?)

Acho incrível que, como ficar 3 dias sem T3 e T4 já altera minha rotina, meu corpo e meu ânimo de forma estarrecedora. De ontem pra hoje passei em letargia quase que total. Sem ânimo para absolutamente nada. Dormir parecia a única solução possível para qualquer coisa. Dormi hoje o dia todo, praticamente. É como se eu quisesse morrer um pouquinho. Tenho coisas pra fazer e não consigo fazer nada e isso me frustra e me irrita profundamente. Não consigo concretizar nada do que quero, por conta dessa doença. Na verdade, a doença não é a culpada: eu que não tomei os remédios. Eu tenho uma mania, muito estranha e recorrente, de minimizar os problemas, ou ainda: de sequer considerar que eles existam. Isso é muito estranho em mim, mas é recorrente. E preocupante. Às vezes essas autosabotagens ocorrem de modo bastante inconsciente. Mas nesse caso, não. Eu, conscientemente, realmente acredito que, se eu ficar “só 3 diazinhos” sem tomar o remédio, isso não fará diferença alguma no meu organismo. Mas a verdade e a realidade é que faz. Faz diferença pra caralho. Faz bastante diferença, inclusive. Por que será que é tão difícil eu ser consciente disso? E hoje eu me toquei disso. Não me lembro exatamente em que momento eu me perguntei “mas por que diabos estou assim?”. E também não me lembro direito como me recordei que estou há alguns dias já sem tomar o remédio corretamente. Isso tem um impacto muito grande em outras áreas da minha vida também, tenho certeza disso. Na verdade, esta é só a ponta do iceberg. Existe uma série de outras coisas, talvez seríssimas, que eu provavelmente devo deixar “passar batido” na minha vida, pois eu acho que não terá nenhum problema. E o problema sempre vem. Sempre aparece, sorrateiro. Quase que despercebido. Quase.

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