arquivo

Arquivo da tag: Ateísmo

por Charlie Ambler, do Daily Zen.

Quando você digita “ateísmo” (atheism) no Google, você acha centenas de memes criados por adolescentes que não fazem nada para compreender as nuances de sua contradição. Não sou uma pessoa religiosa, mas sim, eu vou rezar por você.

Escrevo o Daily Zen desde os 14 anos. Quando estava no ensino médio, eu era viciado em várias introduções à novas ideias. Conheci o que poderia se chamar de obstinação intelectual. Seria algo ao qual eu seria repetidamente exposto durante a faculdade, em ambos os lados dos espectros político e religioso, e em comunicações com leitores do meu site. Resumindo, é uma satisfação do tipo emocionalmente imersa de usar a linguagem de modo artístico para elucidar conceitos crus. Ideias unidimensionais (até violentas) expressadas de forma bela. É um tanto quanto sedutor.

Quando eu era mais novo, passei por fases de obstinação intelectual. Recusei reconhecer qualquer ideia que não fosse provada cientificamente. Em dado momento, graças a minha prática de meditação, eu comecei a questionar a ciência da mesma forma que questionava a religião. O Zen nos ensina a questionar tudo e também a questionar nossos questionamentos. O lado reverso também tem um lado reverso.

A ciência trata de fenômenos observáveis. É, por definição, materialismo. Apenas faz sentido no século XXI que o capitalismo ame a ciência. A ciência nos trouxe a Internet! A ciência nos trouxe a viagem no tempo! A ciência dá grana pra caramba! Pessoas como Neil deGrasse Tyson e Richard Dawkins vendem milhões de livros porque eles reasseguram às pessoas que seus modos materialisticos de existência estão, na verdade, corretos. A ciência o dualismo definitivo. Ou você está certo, ou você está muito errado. Esses pensadores reconfortam as pessoas no sentido de que sim, eles estão certos, a forma que vocês enxergam o mundo é a forma correta. Parece bem religioso para mim.

Cientistas famosos do ocidente frequentemente simplesmente servem como pregadores unidimensionais para pessoas modernas espiritualmente falidas e adoradoras de tecnologia. Eles refletem o mundo em que vivemos, um mundo que prospera em complexidade desnecessária e estimulação constante, ao invés de paz ou contentamento.

Frequentemente me pergunto se um ateísmo convicto é diferente de qualquer fundamentalismo religioso. Sinceramente, não acredito que seja. Ambos baseiam-se em um grandioso apego à verdade objetiva. Ambos causam violência em oposição a dissidentes. Ambos tem descuidadamente uma visão de mundo singular. Qualquer coisa levada ao seu extremo se torna seu oposto. Anti-religião extrema se torna sua própria religião.

Zen é tão anti-científico quanto anti-religioso. Não meditamos porque existem benefícios neurológicos, ou porque isso nos coloca em contato com “Deus”. Meditamos para meditar, assim como comemos para comer, mijamos para mijar. Não acreditamos em conceitos; acreditamos em vivências diárias. Experiências pessoais. Se você passa pela experiência de Deus pessoalmente, bom pra você. Isso não é mais nem menos válido do que a experiência pessoal de gravidade ou termodinâmica. Quem pode te validar ou desvalidar?

“Prova” se torna algo obsoleto aos olhos do Zen. Simplesmente não importa.

A lição? Guarde suas crenças para si mesmo. Questione-as. Retrabalhe-as.Ateísmo pop se tornou a religião do consumismo capitalista. Ele nos encoraja a servir um sistema materialista com um sentido de falsa superioridade egóica. Não questiona. É similar ao libertarianismo. Reflete o humano enquanto objeto, uma entidade materialística. Não há preocupação alguma com o espírito ou com a não-materialidade. Não há preocupação alguma com a experiência pessoal, prática ou reflexão. Não fornece crédito a qualquer fenômeno não-observável e especialmente aqueles que não podem ser concebidos usando sistemas simbólicos. É extremamente básico.

Espero que a sua prática Zen o encoraje a permanecer com a mente aberta e a boca fechada. Venho de longe desde que comecei a meditar e espero que a sua jornada não pare na obstinação intelectual. Acredito que há um mundo aí fora que não precisamos ser capazes de ver para passarmos pela experiência. Não precisamos criar dogmas ao redor disso. Não precisamos criar guerras por isso. Não precisamos sequer mesmo acreditar nisso. Mas podemos passar pela experiência. Podemos sentar. Podemos observar. Ao invés de ficarmos obcecados com a materialidade, produtividade e metodologia, podemos simplesmente estarmos conscientes e termos compaixão. Podemos aprender o valor da paz, o valor de observar o nada.

%d blogueiros gostam disto: