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Arquivo da tag: Angústia

Abro o calendário e verifico todos os compromissos que existirão em até três semanas. Faço as contas. Espero. Anseio. Faço as contas novamente. Olho outras coisas. Volto para o calendário. Ele aberto é uma ilusão, muito forte, de controle. Não sei o que vai acontecer e é isso o que me aflige. Não é o fato de o tempo passar muito rápido ou devagar demais. Essas coisas na verdade não importam tanto assim. É o desconhecido. É o fato de amanhã acontecer algo que possa mudar tudo de forma inesperada ou abrupta. É o fato de algo acontecer antes ou depois do previsto ou do esperado. É o fato de eu me ver tendo que exercitar, novamente, a minha frustração, a cada minuto, a cada segundo que observo aquela estrutura. Que é apenas isso: uma estrutura de controle. E todo tipo de controle é uma ilusão. Não é a vida, de verdade. Mas eu gosto de me enganar, gosto de um auto-engano. E continuo olhando. E esperando.

Eu queria desaprender a escrever. A falar. Às vezes penso que nada do que eu escrevo, falo ou penso vale a pena em nenhum sentido. Não irão mudar coisa alguma. As coisas continuarão a ser, independente do que acredito ser certo ou errado. E vou ter que lidar com todas as consequências de todas as coisas. Ontem conversando com amigos um deles perguntou “quem titereira os titereiros?”. Somos todos fantoches, que imaginam existir um fantochista mestre, que, por sua vez, também não passa de um outro fantoche. Um dos meus amigos, titereiro, diz que o que nos anima é a força da inércia, refletindo sobre a vis motrix. Isto é: põe na pinguela ou ribanceira que “nóis começa a vivê”. Todas as vezes que eu penso nos dramas desnecessários que acontecem na minha vida eu fico desse jeito. Mas esse assunto, o de guerras não declaradas, tem sido uma constante. Uma guerra não declarada, explicando, é quando alguém diz se importar com você mas te sabota de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É alguém que te quer muito bem, mas insere uma quantidade absurda de negatividade desnecessária na sua vida. Está no seu time, mas joga efetivamente contra. Essa pessoa inclusive pode até ser você mesmo/a. Tenho uma certa dificuldade em lidar não com coisas ambíguas, mas com sentimentos discrepantes, contraditórios, não assumidos. Com coisas que não tem coerência alguma e que simplesmente não fazem sentido. Principalmente com palavras que não são coerentes com ações e vice-versa. Por que não assumir que há a sabotagem? Mesmo que seja própria? Talvez este seja um assunto complexo demais pra eu tentar pensar sozinha e escrevendo. Talvez isso seja algo que eu deva explorar em análise. Queria eventualmente me sentir em paz quando detectasse isso, esse acontecimento na minha vida. Por hora, não acontece: eu detecto e é horrível, e eu chego a me sentir fisicamente mal com isso (náuseas, etc.). E é bastante angustiante.

Há trabalho a ser feito.

Uma das coisas mais difíceis de se fazer nessa vida é reconhecermos e assumirmos em definitivo quando não estamos a fim de alguma coisa. Isso parece simples mas a verdade é que é uma das coisas mais difíceis de serem feitas, ainda mais quando levamos em alta conta todo um histórico, entre outras coisas que nos fazem sentir seguras ou que sentimos que seja necessário, de algum modo, para nosso bem estar. Acho isso simplesmente surreal. Nos submetemos às piores situações e aos piores cenários possíveis por conta disso. Algumas pessoas colocam isso como se fosse a tal zona de conforto… Acho esse conceito raso e meio deslocado. Acredito que seja um pouco mais nefasto que isso. Não se trata de mero comodismo, é muito pior que isso. Para mim, particularmente, pelo que tenho observado até agora é praticamente um suplício eu reconhecer que definitivamente não estou a fim de algo porque tenho tendência a resistir e principalmente em persistir por meses… Às vezes anos até. E o complicado é que ao longo de todo o processo eu só padeço por isso. Sofro. Me dilacero. Tanto quanto se eu assumisse qualquer coisa, inclusive. É uma forçação de barra fodida na vida. E eu considero isso horrível, considero a pior coisa a ser feita. Isso definitivamente não faz parte dos meus valores. E é sempre essa briga do coração me dizendo “nossa, mas eu tô MUITO a fim, eu tô SUPERafim, eu tô a fim pra caralho!” e o cérebro dizendo: “Meh… nens”. E o coração é bacana, tem intuições e desígnios interessantes e faz coisas legais por mim até. Mas é o cérebro que manda no corpinho aqui e que de fato paga as contas dessa birosca. E eu percebo que não adianta nada eu entrar com todo o meu coração em determinada situação se a minha cabeça não acompanha. O resultado é claro: eu não vou. Não inteira. O corpo paga essa conta. Algo fica pela metade, se perde no limbo, em meio às situações, seja afeto, seja prazer, seja vontade, seja querer. E eu não gosto de perder, para mim não é só perda de tempo e recursos, mas perda da própria vida. É seríssimo. Nefasto. Bem mais do que eu gostaria que não fosse. Por que que é tão difícil abrir mão, arredar o pé e largar o osso no momento em que percebemos que simplesmente não vai rolar? E não é uma questão de não estar rolando agora: você, em seu íntimo, sabe que não vai rolar NUNCA. E se recusa a admitir isso. E aí não chega sequer a ser uma questão de obediência ou não a uma coisa ou outra… Apenas de reconhecimento. Mesmo. E é insanamente contraditório, mesmo e completamente: eu te quero muitíssimo, mas na verdade não estou tão a fim assim. Eu te amo e estou disposta a passar minha vida com você, mas é uma frase oca de sentido, que não se preenche verdadeiramente por nada dessa mundo. Uma frase repleta de lacunas e outros mistérios. Eu me entrego a você, repetidamente, mas a verdade é que eu não estou ali. Eu estou em outros lugares. Eu estou em todos os lugares. Menos onde talvez devesse estar. E eu resolvo assumir isso. Custe o que custar.

Essa noite eu sonhei que eu sentava na sua cara. Foi um sonho estranho, eu olhava pra um lugar que era como se fosse um espelho. E não me enxergava. Era outra pessoa que estava ali, que me emulava. Além de existir essa pessoa que deveria ser eu e não era, existia uma outra. Uma outra pessoa, que conversava comigo, enquanto eu sentava na sua cara. O que acontece é que a conversa estava mais interessante. Com a outra. Não lembro de uma palavra sequer do que foi dito. Não me lembro mais de você.

Acordei.

Fiz três anos de São Paulo esses dias. A cidade tem me castigado. Bastante. Sou casca grossa. Encostei a cabeça na janela chuvosa do ônibus e fiquei pensando que não preciso ser forte o tempo todo. Que eu podia fraquejar, me cansar. Odeio pensar nisso. Até minhas lágrimas são resistentes. Lágrimas de impotência, de ódio, mas jamais de fraqueza. “Na cidade grande nada machuca”.  Amigas paulistanas se ressentem com a frieza da cidade. Se você chora em público, ninguém te vê. Acho é ótimo.

Não sufoco. Pego a máxima quantidade de ar que consigo. Não me deixo sufocar. Elas tem a ilusão de que em uma cidade pequena e provinciana as pessoas vão ser mais amáveis e se importar mais com você. Pelo contrário: saberão seu nome, sobrenome e terão ainda mais armas pra julgar o que quer que você sinta ou deixe de sentir. Não caio, nunca mais, mais nesse papo. Enquanto isso, permaneço aqui, encosto a cabeça na janela chorosa do ônibus e penso que preciso respirar. Apenas respirar.

Essa cidade, ela senta na minha cara.

E finge que não é com ela.

Enquanto me ignora e conversa com algum outro alguém.

Meu telefone tocou e eu já sabia que não ia atender. Cada vez que o telefone tocava eu morria por dentro, imaginava situações. Me sentia mal, por não atender, por entender que aquilo era impossível. E me sentia bem por finalmente acreditar que estava consciente disso. Dias se passaram e o telefone continuou tocando. Não só continuou tocando como passei a receber mensagens. “Não faça isso”. “Não seja boba”. “Não seja burra”. Ignorei o quanto pude. Ri, o quanto consegui, de cada mensagem desesperada. Entendia que o ponto daquilo tudo havia se perdido, se esgotado para mim, totalmente. A data passou. Não lembro o que fiz. Minha identidade ainda estava despedaçada. Lembro do domingo, eu deitada, tentando dormir, tentando pensar no outro dia e aquela tela brilhando do lado do meu travesseiro. Aquele era o único número que eu gostaria que me ligasse. Aquela era a única voz que eu gostaria de escutar, na verdade.  Aquela foi a única ligação que eu efetivamente esperava. E então, o telefone parou de tocar. E eu esperei. E não tocou mais. E eu esperei e aquela pequena angústia que eu tinha se tornou um abismo, finalmente. Eu tremia, inteira. Parecia que eu ia morrer. Com as mãos trêmulas, alcancei aquela tela que empalideceu ainda mais o meu rosto, já branco, de medo, de pavor, de amor. Liguei, enfim.

– Não vai atender essa porra não, sua filha da puta?

Tem coisas que, não tivessem acontecido comigo, eu jamais acreditaria.

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