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Quando Silvia me falou pela primeira vez em morbidez eu estranhei um pouco. Achei que soubesse o que significava, mas a verdade é que eu não fazia muita ideia não. Pra mim era algo com o qual já estava acostumada, já tinha naturalizado em mim e para mim. “Sou assim, gosto disso” pensava, sem jamais me questionar o porquê. Disse pra ela que me sentia atraída especificamente pela morbidez de algumas coisas, de algumas pessoas e até de algumas situações. Lembro que quando eu disse que o que me atraía nele era justamente a morbidez, ela se assustou e disse “puta merda!”. Tive uma sensação estranha de ter me arrependido um pouco do que disse, mas enfim, já estava dito.

Silvia tem batido em mesmas teclas pra mim já há algum tempo e tem confirmado pra mim algumas coisas sobre relacionamentos que, em meu íntimo eu já sabia, mas que precisavam vir à tona de algum modo. Ela ainda não sabe a importância que tem pra mim, por simplesmente ter entrado na minha vida. Depois de quase um ano e meio, eu ainda a ouço. Ou ainda: eu a ouço mais do que nunca. E isso é difícil. Mas a verdade é que tudo o que ela diz ressoa em várias coisas que vivencio e observo. A verdade que eu não gosto de admitir é que de certa forma eu glamourizei a morbidez, em vários sentidos. Isso funcionou pra mim por vários anos, pra lidar com uma série de questões minhas. Mas isso me serve ainda? É o que realmente quero? É o que cabe na minha vida nesse momento? É algo que desejo arrastar?

Superficialmente, estou pronta pra dizer que sim, que é. É minha resposta-espasmo, de bate-pronto. É a minha primeira resposta, imediata, não pensada. Eu sequer defini exatamente o que é essa morbidez, na verdade. Não entrei verdadeiramente em contato com ela, de forma mais consciente. E tenho uma ideia distorcida e extremamente romantizada do que ela pode ser. Mas eu não sabia disso, eu mesma me engano. Muito. Repetidamente. Enfim… Algumas coincidências que aconteceram no último final de semana me fizeram entender esse conceito de morbidez um pouco melhor. Tenho dificuldade em perceber quando isso acontece, porque é um vício nessa repetição de comportamento, que hoje acredito que não me serve mais.

Mas nos últimos dias eu percebi isso de forma um pouco drástica. Tenho a sorte de ter ao meu lado pessoas que estão ajudando a iluminar um pouco mais esse meu caminho de uma maior consciência. Algumas coisas eu preciso ter em mente: a morbidez é necessariamente sensual. E ela envolve geralmente instintos que são os mais primitivos possíveis: medo, fome, sexo. Eles nunca aparecem juntos, sempre alternadamente. Esses são os gatilhos para o estado de morbidez. Quando alguma dessas coisas acontece – muito comumente de forma excessiva e saturada, seja propositalmente ou não – o estado de morbidez se expande. Às vezes por dias, às vezes por semanas. Nunca parei pra tentar perceber. Só sei que é bastante real pois me lembro dessas coisas acontecerem comigo. E é foda, pois elas podem ser facilmente confundidas com qualquer outra coisa: depressão, ansiedade, amor. Quando não se trata de NADA disso.

O estado de morbidez faz com que a água fique parada. Com que as coisas apodreçam e adoeçam. Com que a casa fique permanentemente suja. É um tanto quanto literal: com que tudo fique sem vida. Nada de bom, funcional ou belo pode surgir de um estado de morbidez. Na verdade existe apenas uma sobrevida, que serve apenas pra retroalimentar este estado. E é pesado. É sempre pesado e arrastado. Algo que nos impede de viver, de tentar pensar melhor nas coisas, de dizer “chega, foi o suficiente”, de levantar da cama pra ir fazer outras coisas. Só consegui me ligar disso porque algumas pessoas me disseram. E porque neste fim de semana percebi os resultados imediatos disso tudo. Inclusive resultados sensoriais e corporais. Coisas que sempre achei que não eram “nada demais”, ou que não estavam ligadas a este estado, ficaram claras pra mim.

Vou ficar de olho nisso de hoje em diante. E algumas coisas vão mudar por aqui.

Comecei a fazer análise há um ano com um motivo e um objetivo bem claros. Para mim, aquele era o tema. O único tema. Todos os outros assuntos circulavam em torno daquele tema. Os outros assuntos seriam: trabalho, relacionamentos, família, afetividade, etc. Pensei que eventualmente fosse ficar monotemática, e que só falaria de um assunto por vez, só ficaria obcecada com uma pessoa por vez, com um tema por vez. Hoje pela primeira vez descobri o grande pano de fundo de todos os meus temas, que permeia absolutamente tudo o que eu falo, digo, penso e sinto. E me dei conta de que esse era o meu motivo. Não tem nada a ver com nenhuma uma pessoa em questão, nem um fato, nem nada que me aconteceu na infância, nem nada que me aconteceu em tempo algum. É simplesmente algo que acontece, sempre, independente da minha vontade, do que eu quero ou não. É basicamente a força motriz no mundo e do mundo, que esteve em seu começo e vai estar até o fim. Falo sobre violência mais do que jamais imaginaria. Falo sobre violência o tempo todo. É a única força sustentável nessa existência, a única capaz de retroalimentar-se continuamente. E ela não cessa. Não há paz propriamente dita, existe apenas uma ilusão do que ela pode ser. E não penso em violência apenas com os outros e dos outros, mas também da auto-violência. E da crueldade, também. E jamais tinha percebido isso, tinha sido consciente sobre isso. De hoje em diante pretendo pensar mais nisso de forma mais consciente, pra entender de que formas isso pode funcionar.

Me perguntaram se eu sentia saudades. Sempre reluto em dizer que sim, apesar do óbvio. Houve uma conversa sobre regras, disciplinas e quais seriam minhas preferências. Disse que tenho tendência a ser mais Caxias sim, que priorizo, que gosto de disciplina até certo ponto. Ter tudo muito bagunçado me desestabiliza e me deprime a longo prazo. Prefiro um ambiente não onde eu me sinta no controle (não é egóico e, mesmo que fosse, ser egóico não é ser egoísta), mas onde eu possa ter controle sobre as coisas, mesmo que elas mudem. Não sou inflexível. Mas existem algumas vezes que me permito – como agora – a não fazer as coisas que preciso fazer e fazer outras coisas – como escrever. Eu me canso das prioridades que existem na minha vida e escrevo. Às vezes eu jogo tudo pra cima e me largo em meus horários. Me torno indisciplinada até para o meu próprio bem. Me falaram que eu posso sentir saudades de outras formas. Que eu poderia ligar e dizer que sinto saudades, etc. Tive de dizer os porquês disso estar fora de cogitação.

(…)

– Acredito que no atual contexto, exista muito mais afinidade por ali…
– Lembre-se que as afinidades podem ser tanto para bem, quanto para mal. 

(…)

“Funciona da seguinte forma: me diga o que você quer, para que assim eu possa saber como machucá-la melhor”. Isso justifica todas as coisas, como acontecem, como aconteceram. E como provavelmente irão acontecer. Ao longo do tempo. Te dou o que você quer, para logo em seguida mudar de idéia – e fingir que não. Não soube o que fazer com aquilo. Me foi falado em aprendizagem, em um bom modelo e que foi extremamente funcional que isso tudo ocorresse. Não deixo de dar razão. Eu só meio que entendi que é isso o que não quero pra mim, efetivamente. E eu disse isso. Até que foi falado em morbidez. “Existe uma certa morbidez em tudo isso, não? Ele é mórbido…”. Me apressei em dizer que “Existe. Existe sim. E foi exatamente isso o que me atraiu nele”. Jamais acreditei que fosse ser capaz de admitir isso com tanta clareza, até para mim mesma. Quis engolir essas palavras logo após tê-las dito. Me toquei do que disse segundos depois de a frase ter terminado. Senti um certo constrangimento, um contrasenso.  Ali eu tinha me revelado. Mas é a verdade. E isso, a verdade, não dói não: só me faz me sentir meio mal e me coloca em lugares onde eu não mereço estar. Inclusive a morbidez nas pessoas é algo que ainda me atrai, fortemente. E isso deve fazer algum sentido. Eu só não sei bem qual. Ainda.

“Bebe isso, filho da puta”. Ela levantou um pequeno cálice, ainda morno, e o ofereceu. Um líquido de cor escura. Era uma pequena dose, poderia ser tomada de uma só vez. Mas não seria. E ela não se cansava de observar e imaginar. Ela sabe que ninguém beberia nada que viesse de suas mãos. Despejou o líquido viscoso num recipiente e o observou por algum tempo. This is hardcore. Imaginar um enfrentamento que jamais houve e jamais existirá, completa – dentro dela – a parte que tanto faz falta. Se isso a satisfaz ou não, não é a questão. Pelo menos não por agora.

(…)

Mais um dia havia terminado como qualquer outro. Aparentemente. Ela estava no automático, de um transporte para outro e depois outro. Sabia o que faria, onde iria, do que precisava. Desceu do ônibus, andou até onde precisava ir, virou a esquina. E de repente se lembrou dela. Sentada à sua frente, as duas mãos magras estendidas na poltrona, dedos entreabertos, posição relaxada. Luiza a olhava como uma esfinge. Como sempre. Ela lhe disse o que sentia e então Luiza fechou os olhos lentamente como se o mundo tivesse acabado. Como se o mundo estivesse acabando, para ela. E o mundo, então e ali, acabava. Ela sabia que se tratava do fim, de um fim. Independentemente do que quer que fosse: algo ali havia morrido. E ela lembrava de Luiza, e de seus olhos fechando lenta e pesarosamente. Luiza observava. E ouvia.

“Ele me disse que, à esta altura, eu já devia tê-lo transformado num demônio por aqui, com você. Mas a verdade é, sabemos, eu sequei mencionei seu nome durante todos esses meses, Luiza. E você sabe disso”.

E Luiza sabia. Ela sabia que era verdade. Ela sabia de duas verdades e não me falou nada sobre nenhuma delas. Espelhamos nossos piores defeitos nos outros. Muito provavelmente ele me demonizava em suas análises. E o pior de tudo: para mim, para ela, ele, efetivamente já estava morto. Sim, desde aquela época. Por mais que todas as minhas ações à posteriori dissessem o oposto disso.

Luiza suspirou profundamente. Eu podia sentir seu perfume do outro lado da sala, notar o sobressalto da sua jugular. Terminado o ar do suspiro ela pressionou levemente os braços das poltronas com as mãos, como se pra se segurar de algo, de um abraço, talvez, uma aproximação. Afinal, ela testemunhava, diante de seus olhos e de seus ouvidos, um acontecimento não apenas de esquecimento, mas de negação, profundo e irreversível. Não restando nada mais a ser feito, Luiza então lentamente fechou seus olhos cor de mel e me apresentou seus cílios e suas pálpebras e ao fazer isso me disse muitas coisas, entre elas ‘eu reconheço a sua dor’, em silêncio.

Ela cuidou de mim e me tratou muito bem pelos meses seguintes.

(…)

Anos depois, essa cena me invade. Hoje foi um dia difícil. Um dia que notei que preciso de habilidade, que preciso ser ágil. Que preciso fazer e realizar certas coisas. E que quero realizar essas coisas e quero que todas essas coisas que penso e imagino se concretizem. O próprio fato de imaginar isso tudo me motiva. Aqui não há espaço para escolha: devo enfrentar isso tudo, em carne e osso. Virei a esquina, lembrei dos pequenos olhos de Luiza se fechando. Desde hoje cedo sinto que alguma coisa vai mudar. Tenho essa sensação de que algo está para acontecer. Essa cena que me lembrei tão forte e detalhadamente evocou isso novamente. Luiza fechando os olhos para algo. Algo está acabando. De novo. Estou deixando alguma coisa para trás. Só me resta descobrir o quê.

 

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Agora a pouco ele estava assistindo um filme, “Ghost in the shell”. Gosto desse filme, mas não quis assistir. Fui pra cozinha, cozinhar. Estava com fome. Sei que cozinhar com fome é ruim então antes de começar a cozinhar fiz um lanche rápido. Agora não estou mais com tanta fome e é possível que amanhã eu coma o que fiz no almoço ou na janta. Mas aí fiquei pensando que abri mão de rever um filme que gosto pra… Cozinhar. Por que? Porque sim. Por que eu gosto de cozinhar. Às vezes, mais do que ver um filme.

Nos dias de hoje – onde todo mundo come merda pronta da rua e nem liga pra nada – as pessoas muitas vezes não conseguem conceber que uma pessoa simplesmente GOSTE de cozinhar e não o faça por obrigação. Acho isso muito estranho. Pra mim sempre foi um prazer não só comer como também cozinhar – e cozinhar bem. Mas por algum motivo, o fato de eu deixar de ver um filme pra fazer algo que os outros acham “chato”, “trabalhoso” ou “desnecessário” me levou a considerar o que EU acho.

Quando eu era criança, me dava bem com cores. Gostava muito de pintar e até uma certa idade, gostava muito de desenhar. Eu inclusive ganhei prêmios por saber desenhar bem, enquanto, obviamente, ouvia de minha mãe que eu era “pé quente” demais pra ganhar todas as premiações. Talentosa? Jamais. Pé quente. Fato é que eu era uma menina muito criativa, mas isso foi assassinado hediondamente em algum momento. Em algum momento não: em vários momentos. Repetidamente.

Apesar desse abuso que aconteceu comigo (com a minha auto-estima, especificamente), fui capaz de me adaptar. Acho que parei de acreditar que podia ser uma artista criativa para não decepcionar meus pais e também pra “entrar no mercado de trabalho”. Algo assim. Hoje eu não sei desenhar mais, meio que desaprendi. Nem pintar sei direito também, perdi muito a noção de cores. Morro de preguiça de ter aulas disso e de ter que gastar uma grana que não tenho com um material caro e que tem vida curta.

Sim, enxergo como gasto, não como investimento porque afinal não vivo disso, então esse meu pensamento não é errado. Acho um erro escolher mal certos passatempos: tornam-se gastos desnecessários e buscas infrutíferas, frustrantes e pouco prazerosas de verdade. Enfim… Claro que quero continuar visitando exposições, ainda tenho muita curiosidade sobre história da arte e temas relacionados. Mas a verdade é que eu não gostaria de ter aulas de pintura, nem desenho. Não quero e não estou a fim. Mesmo.

Mas gosto de cozinhar. Era o que minha mãe sempre me permitiu fazer. E muito provavelmente é o que sempre foi permitido que ela fizesse, até certa idade. Felizmente ela jamais me enxotou da cozinha, pelo contrário: neste ambiente ela sempre me acolheu (e minha avó materna sempre me enxotou, só para que conste). E eu sempre gostei muito de comer, mas isso nunca foi suficiente. Eu precisava ficar por perto, olhando, entendendo como se faz, ajudando. E isso tudo aconteceu por muitos anos.

Aconteceu por tanto tempo que pude errar várias vezes e me treinar para cozinhar muito bem. Ou fui meio que treinada nesse sentido para fisgar algum pretendente pelo estômago, pois era assim que ‘se conseguia homem’ antigamente (ahaha). Enfim. Já cozinhei tantas e repetidas vezes que hoje consigo fazer receitas mais elaboradas e até consideradas difíceis, sozinha, com perfeição. O melhor elogio que já recebi nesse sentido foi quando um dia meu pai me falou “você está cozinhando igual a sua mãe”. Soou espontâneo, fiquei feliz.

Cozinhar é a minha arte. Foi a arte que me restou. Então tento ser realmente boa nisso.

Não que eu me contente com isso: eu realmente gosto de cozinhar e sempre espero que reconheçam isso em mim e lembrem de mim por isso (alguns amigos lembram). Digamos que isso seja o meu passatempo menos espontâneo e mais proveitoso de todos. É o equilíbrio mais próximo da perfeição que consegui chegar entre desejo e disciplina. Pude treinar essa minha habilidade por anos a fio, então hoje sei de muitas coisas. Não apenas sei, mas sou apaixonada por isso de fato, tenho curiosidade, quero aprender mais coisas, quero comprar coisas pra cozinha, etc.

Às vezes não sinto que gasto dinheiro com comida simplesmente porque não me importo de comprar ingredientes caros pra treinar uma receita nova. Não é um gasto, é um investimento pra mim, pra algo que me faz sentir bem. Gosto de sentar à mesa, às vezes com cansaço até e me surpreender com o que fiz de bom. É uma arte meio efêmera, mas até isso está ao meu gosto. Então fico aqui pensando: por que eu deveria investir meu tempo e dinheiro começando do zero, desenhando e pintando, quando eu praticamente já me sinto uma artista cozinhando?

Cozinhar não só envolve cores e sabores, mas também formas e texturas. Envolve a excelente administração do tempo. Posso me permitir fazer receitas de olho, se quiser. Posso improvisar. A forma com que certos alimentos são picados ou preparados faz toda a diferença. Nada é “tanto faz” quando se trata de comida. Há diferença entre fritar, cozinhar, escaldar, assar e existe uma série de outras pequenas técnicas dentro destas macro-técnicas. Às vezes há diferença entre colocar um tempero antes ou depois, entre colocar óleo ou azeite, em usar molho pronto e fazer seu próprio molho.

E cozinhar, de verdade, também não é só saber preparar uma receita, simplesmente. É bom também ter conhecimento sobre diferentes tipos de materiais pra cozinhar, sobre aquecimento, calor, fogo e principalmente, bom conhecimento sobre modos de conservação e modos de reaproveitamento. Tudo isso satisfaz em um nível bem alto meu desejo de produzir o que eu posso chamar de arte (comida). Estou satisfeita. No dia em que eu achar que preciso aprender alguma outra coisa que eu goste ou que eu queira de verdade, vejo como vou poder organizar isso. Por enquanto, não.

:)

– Eu só queria fazer com que fosse especial…

– E o que você pretende fazer para que seja especial?

– Nada.

Dia 2 de julho fará 3 meses. Uma efetivação está por acontecer. E esta, ao contrário de todas as outras, não é mais uma contagem imbecil.

Fato é que hoje sonhei que seria demitida. Mandada embora. Rejeitada, mais uma vez. Enfim…

Não há muita possibilidade de que isso aconteça. Não fiz nada, absolutamente, para que isso aconteça – pelo contrário, tenho feito e descoberto coisas incríveis. Tudo tem sido muito bom pra mim. Mas alguma parte minha quer me atormentar e me fazer acreditar que eu mereço que isso aconteça comigo, me deixando insegura..

E é esta parte de mim a quem eu tenho que mandar se foder.

Querida e terrível parte de mim que gosta de me foder enquanto eu durmo, aceite este fato: eu sou boa.

Não sou genial, não sou foda, nem nada disso… Mas eu sei que sou boa.

Indo um pouco mais além: eu confio, muito, em mim mesma, em todas as coisas às quais me presto e todas as coisas com as quais sonho que sou capaz de concretizar. As pessoas não apenas gostam de mim, mas me respeitam, me reconhecem e me ouvem. Faço tudo à que me entrego bem feito. Sou dedicada, gosto de aprender e amo o que faço.

E principalmente: eu não preciso provar nada disso pra você. E nem mesmo ter medo de você.

Lide com isso.

“Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.”

Se tudo vai bem é porque, na verdade, está tudo indo muito mal. Entendo hoje que, em algum momento, o mal chega. Mais que isso, entendo-o como necessário, como parte do todo. Todo e qualquer mal. Às vezes é preciso dizer não, é preciso frustrar e é preciso dizer “porra, nada a ver isso aí”. E eu não tenho dito (ainda), mas tenho pensado (muito). Tenho dito, mas escondida de mim mesma, em uma voz baixíssima, quase inaudível. Tenho tentado criar subterfúgios para não dizê-lo à mim mesma. Eu quero ter o poder de consertar coisas irrestauráveis. Mas cada vez mais entendo que nada (em absoluto) que eu faça realmente importa. E como não depende de mim, o que me resta realmente é lidar com o que tiver que lidar. Estava angustiada, criando subterfúgios, imaginando situações, possibilidades, tudo o que era possível e impossível para poder dizer “sim”. Faço isso: mundo cor de rosa, sempre querer agradar, nunca querer magoar, sempre pensar num todo que não controlo (e jamais irei controlar). Esse é o meu default. É cansativo. Não, é exaustivo. Nauseante. É loucura. Nada tem sido espontâneo, é sempre essa forçação de barra, este desespero, essa angústia. Não mereço essa merda. Tenho acreditado cada vez mais nisso. Tenho acreditado tanto que cheguei ao ponto, à ousadia extrema de pensar “mas e se eu disesse não?”. “Ah, então algo terrível irá acontecer”. Nada irá acontecer. Mesmo. E se acontecer, aconteceu, era pra ter sido assim. Esqueça. Eu jamais pude me dar ao luxo de poder dizer isso, de verdade. E então eu finalmente disse. E senti um alívio imediato e bastante profundo. A sensação era de abandono – desta vez não meu, mas de algo externo à mim. De largar a mão. De sair.

Ali residia todo o mal e tudo o que é mal.

Cabe à mim reforçá-lo.

– Com que roupa você saiu de casa hoje?

– Não sei, acho que com a primeira que vi na minha frente (O que era mentira, mas poderia ser verdade. Geralmente é).

– Você escolhe qualquer coisa assim desse jeito, qualquer coisa está bom pra você?

– Às vezes, sim. Esse meu descuido aparente e esse não me importar só faz demonstrar o quanto me importo na verdade, de um jeito muito pessoal. Tenho dificuldade e uma resistância enorme à elogios, bajulações e presentes, assim como tenho dificuldade em me apreciar. Certa vez viajaram e me perguntaram “o que você quer de presente?”. Respondi: você e eu realmente quis dizer isso. Mas não foi o suficiente para a pessoa, que me forçou a escolher alguma coisa. Escolhi então qualquer coisa, apenas para que a pessoa parasse de reclamar, mas aí a situação já estava estabelecida: eu era, sou, uma sonsa, que não tem nem bom, nem mau gosto, mas que simplesmente não tem gosto por nada, não gosta de nada, não quer nada, uma indiferença profunda que não se limita apenas a escolha de um presente, mas a outras escolhas na vida também. Ainda continuo não me importando com presentes e é sempre um incômodo quando dizem que querem me presentear e me fazem perguntas. Quando sou surpreendida com algo inesperado sempre me emociono, mas quando é premeditado, quando alguém precisa ou quer me agradar, a tendência é realmente fazer a pessoa desistir de me presentear. “Não precisa”, “não traga nada, não quero nada”, etc.

– Você não acha que um presente é importante? Que demarca o presente? É uma lembrança, uma delicadeza, um pedaço de história, a construção de um vínculo, de significado…

(ríspida) – Não gosto de presentes…

(silêncio longo)

[Tateando o que será dito com os olhos: primeiro o carpete, depois a parede, a cortina, e então a janela. Não, não há escapatória.]

… Presentes são promessas.

(silêncio)

(dito com muito cuidado) – Nem todas as promessas podem ser eternas.

– Sim. E eu lamento profundamente por isso. Todos os dias.

– Você se incomoda muito quando algo sai muito fora do que você planejou?

Eu: Não… (3 segundos) Mas é melhor que não saia do planejado.

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