arquivo

Arquivo da tag: Amor

Antes de ontem algumas coisas importantes foram ditas. Foi falado sobre pessoas que, estando em um relacionamento, não se completarem pois já estariam completas. Pessoas não completam uma parte faltante: são inteiras e se relacionam a partir disso, a partir de suas potencialidades e lacunas também. Eventualmente podem se complementar, mas isso é completamente diferente de preencher um vácuo, ou uma lacuna. Paradoxalmente em relacionamentos-simbiose, a conta, que aparentemente parece justa na verdade não fecha. Sempre sobra pra alguém, sempre falta pra alguém. E sempre é causa de sofrimento a longo prazo. O medo e a ânsia por intimidade são mais tênues do que se imagina. Falei que tinha dificuldade mesmo em conceber um relacionamento em que pessoas não se complementassem pois me foi ensinado o oposto disso desde que me conheço por gente. Enfim, é difícil, não disse que era impossível, não sou tão inflexível.

Foi falado também sobre como é importante se sentir bem sozinho e estar bem sozinho, pois isso é fundamental para poder estar com o outro. E também sobre os perigos de a solidão e o isolamento nos tornar pessoas completamente intolerantes, que criam critérios absurdos para se relacionar e afastam qualquer tipo de pessoa que tenha algum interesse. Em algum momento falei de solidão, mas foi em outro sentido… Foi num sentido que tem sido recorrente pra mim e tenho visto com frequência em pessoas que conheço. Uma pessoa que tem muitos amigos, é adorada por muitos, sai todos os finais de semana e tem pessoas que a paparicam 24/7: reclama de solidão, de medo que todas as pessoas a abandonem e de uma angústia que parece nunca cessar. Neste caso, a pessoa em questão é solteira. Pensei que o problema poderia ser a falta de um namorado ou coisa do tipo. Mas parece que não. Em outro momento, ouço coisas parecidas de outras 2 pessoas, que estão em relacionamentos estáveis (e felizes) há mais de 5 anos e sentem exatamente as mesmas coisas: solidão, angústia, abandono. Fico sem entender nada.

Em um primeiro momento, isso me deixava com raiva: como pode alguém estar num relacionamento estável e feliz sentir isso ao mesmo tempo? Sim, pois não tem nada a ver com o parceiro em questão (às vezes, pode ter. no caso, não tem), mas com a própria pessoa e com isso que ela sente. Mas não se trata apenas de uma questão técnica de depressão, sensação de inadequação ou baixa auto-estima. É mais que isso: o que essa pessoa busca não está fora dela, mas já está dentro dela. Todas as tentativas (muitas vezes desesperadas) de buscarmos por alguma confirmação externa só nos deixa exauridos e são sempre insuficientes, não nos preenchem de modo algum. Isso ocorre não só com relacionamentos, mas até mesmo com outras coisas na vida em geral. Alguém que almeja “chegar lá” algum dia, ter sucesso e aí quando a pessoa “chega lá”, simplesmente não há nenhum lá, lá. São miragens. O caminho, a fonte, são sempre internos, abertos, fluídos. Está aqui, em silêncio, o tempo todo. Basta que estejamos atentos à este silêncio ensurdecedor. E vem de nós mesmos. Isso é o que estou tentando buscar timidamente com meditação diária há alguns anos. Acho paz interior um conceito meio bobo, não sei qual termo usar. É uma busca, mas não sei pelo quê.

Talvez eu nunca descubra, mas de qualquer modo, vou continuar buscando. 

(…)

Finally, I must thank those who were able to support me even though we found ourselves an ocean apart (…) and Isadora Steimer, for her friendship and overwhelming love.

“The greatest thing you’ll ever learn, is just to love and be loved in return”

 

Um amigo, para mim: “Quando eu vi aquilo tudo pela primeira vez eu pensei, ‘Puta merda, o que é isso? Nunca vi isso… É barulhento, é confuso…. É sujo. O que que está acontecendo? Preciso que isso esteja na minha vida pelo máximo de tempo possível.’

Ontem mesmo pensava que tinha esquecido de você. Agora passei na frente da loja de livros de arte onde a gente se beijou pela primeira vez.

Ela foi fechada.

Fiz um minuto de silêncio em memória daquela lembrança e fui embora, pegar o metrô.

Sempre quis ter bichos de estimação, sempre me achei incapaz. Incapaz de receber amor e de proporcioná-lo. Nunca foi tanto questão de grana. Agora, tenho sentido um medo muito terrível. Um medo de tudo. Decidi há algumas horas que irei adotar três gatas. A ideia inicial era adotar apenas duas, para que uma fizesse companhia para outra. Serão três porque são irmãs, já brincam juntas e não quero separá-las por puro capricho meu. Elas são bebês, tem 2 meses e meio. Nasceram dia 10 de março. Não castradas. Não vacinadas. Não nada. As quero. As três. Já adiei isso por tempo o suficiente. Já esperei – pela hora certa – por tempo o suficiente. Estava começando a ficar triste com isso, de verdade. Isso estava começando a me deprimir. E agora estou com medo de absolutamente tudo, como se isso fosse o oposto de estar deprimida. Nunca tive animais. Não sei cuidar. Não sei dar carinho. Não sei brincar. Sou um pouco alérgica. Me apego à ideia de que serei uma péssima dona. Como vou conseguir levar todas ao veterinário ao mesmo tempo? Trabalho longe. Passo boa parte do tempo fora de casa. Não vou conseguir dar conta. E todos esses problemas. A verdade é que o papel de dona é o que menos me preocupa. Na verdade talvez eu precise aprender que não sou dona, de nada, mesmo. Acho que, acima de tudo, estou mesmo é com medo do que vou sentir. Do que já estou sentindo. Silvia me mostrou algumas coisas sobre isso. Ela diz que bichos não precisam fazer absolutamente nada para que nós os amemos. Acredito que esse seja o medo maior. E tenho medo justamente porque me identifico com isso bem mais do que gostaria. Soube que elas já me tinham assim que escolhi seus nomes. Soube que daria conta – não importando o quê – assim que me vi reservando e criando espaços para elas em meu próprio espaço, que já é pequeno. Acho que já estou preparada para me tornar hóspede da minha própria casa. Um pouco de medo, um pouco de assombro, um pouco de dor. Sempre. Parece que é assim mesmo.

Quando eu te abracei, eu nunca mais quis te soltar. E te apertei, com muita força. Queria exaurir todo o calor do seu abraço. Encostei minha cabeça no seu peito, pra ouvir as batidas do seu coração. Pra saber, entender, que você era vivo e estava ali, para mim. Não queria nunca mais te soltar. Não queria nunca mais sair daquele abraço. Fomos nos soltando aos poucos e você segurou meu rosto com suas mãos, dizendo “eu quero olhar pra você, quero olhar pra você, inteira”. E você olhou pra mim. “Você é perfeita”. Meus olhos brilhavam, não conseguia sequer respirar direito, você olhou nos meus olhos e sorriu, sem palavras. Não queria sair daquele momento e me entristeceu ter de fazê-lo.

(…)

A sensação que tenho é a de que tudo é uma corrida, meio que sem propósito. Estamos juntos, mas nunca estamos efetivamente juntos. Corremos, com a impressão de estarmos indo em direção um ao outro. Com a impressão de que, se corrermos o suficiente, em algum momento, em determinado momento estaremos próximos, estaremos juntos de verdade. Estaremos suficientemente juntos. Entendemos que nada disso é verdade. Não buscamos por um propósito ou propósitos, apenas seguida e repetidamente por significados tão efêmeros quanto essa linha de chegada imaginária, a qual pensamos ter vencido – e que sequer existe. Somos animais e sabemos disso. É uma corrida violenta por sobrevivência, por nutrição, por medo da morte, por medo da vida. E quanto maior for o medo da separação, da falta de conexão, mais violenta. E evidentemente, nos contraímos, nos afastamos. É involuntário. É natural. Bem como o que terminamos por sentir logo após a corrida termina.

(…)

Quando eu era mais nova, eu fugia de casa, dos meus pais, para me encontrar com o meu namorado na época. Até meus 15 anos, meus pais não me deixavam sair de casa e muito menos tomar ônibus sozinha. Era uma vida difícil, de prisão domiciliar mesmo. Com 16, quando comecei a namorar (escondido obviamente), eu fugia. Esperava eles dormirem, pegava a chave e saía andando à noite pela cidade, até chegar na casa do meu namorado que devia ficar cerca de 2,5km de distância da minha casa. Minha casa era, inteira, uma armadilha. Tudo precisava ser calculado e pensado. Meu quarto era em cima do quarto dos meus pais então eles ouviam cada passo meu. Quando eu me levantava da minha cama, a única coisa possível de ouvir em casa era a minha respiração. Tudo, do início ao fim, era um exercício de escuta do ambiente. Minha respiração era a primeira coisa que eu ouvia. A segunda, era o ronco do meu pai. Tirava o pijama, colocava uma roupa, pegava a mochila e o uniforme do colégio para o outro dia – estudávamos na mesma escola. Ía, pé ante pé, até a porta do meu quarto e girava a maçaneta de forma a não fazer barulho algum. Não sei como conseguia isso, mas conseguia. A escada da minha casa era de madeira e sempre, sempre rangia ao longo da noite. Descê-la era complicado, ela ficava próxima ao quarto dos meus pais e eles tinham o sono leve. Eu descia as escadas de meias, com os tênis na mão, para que eu fizesse o mínimo de ruído possível. Mal conseguia respirar ou ouvir minha respiração. Descer as escadas de dia era rápido, mas nas madrugadas durava uma eternidade, provavelmente era a parte mais difícil de tudo. Além disso eu ainda tinha que passar por mais uma porta, trancada, antes de ganhar a rua. Depois de ter descido, precisava girar um molho de chaves e uma maçaneta de forma a não haver ruído algum, o que era quase impossível. Quando eu fechava a última porta, sempre ficava com a impressão de que algum deles acordaria e não me encontraria no quarto. Ou me pegaria no flagra e me questionaria, fazendo algum escândalo. Isso nunca aconteceu. Talvez eles soubessem e percebessem, talvez não. Eu ganhava o portãozinho de casa e a rua, e aí andava com passos apressados até o centro da cidade. Corria, até. De noite. No frio. Em ruas escuras e mal iluminadas. Disso, eu não sentia medo. Nunca senti. Porque tudo fazia sentido assim que eu chegava.

(…)

Cada passo que dou, é como se o chão surgisse sob meus pés naquele exato momento. Como se a realidade fosse sendo criada a partir dos meus passos. Todos os dias, para onde quer que eu vá, uma nova realidade se faz.

A marcha é tudo o que há.

(…)

Não quero sair desse momento. Nunca mais.

Em 2013 eu fiquei na merda no segundo semestre. Muito na merda. Aconteceu tudo ao mesmo tempo: perdi o emprego, rompi com alguém e fiquei doente. A desgraça, quando ela vem, nunca é pouca. “Você precisa ter amor próprio”, falavam pra mim, a vida inteira. Grandes merda amor próprio, eu pensava. O ano acabou e eu acabei junto com ele, na merda. Mas sabia que podia ser diferente e queria sair daquela situação. Em 2014 foi o ano de me recompôr. De ficar de pé de novo. A única forma que ousei começar a andar um pouquinho foi fazendo uma especialização. Foi bom. Não andei muito, mas recuperei minha dignidade. Já estava de pé novamente. E o ano terminou com fim de ciclos e mudanças, boas e drásticas. Ainda não tinha amor próprio porque não tinha muito tempo pra pensar nisso. O ano de 2015 foi corrido. Não vi passar. Muita coisa pra fazer. Arrisco dizer que foi um ano muito bom sim, produtivo. Foi um ano que gostei, sim. Fiz um pouquinho mais de coisas por mim, virei especialista, foi foda – no bom e no mau sentido. No começo de 2016 pude enfim descansar da tormenta de 2015 e pensar um pouco mais em mim. No tal do ‘amor próprio’, essas coisas. Mas sou rasa, entendo tudo errado, não sei das coisas. Não sei o que é amor, não sei o que é amar, de verdade. Não sei como fazer essas coisas. O próprio conceito de amor é algo que me irrita. Pra mim, amor próprio até então se tratava de eu fazer tudo o que sempre quis, o que mais gostei, o que mais gosto e gostava, independente de qualquer outra coisa no mundo. Ter amor próprio significava não ter imposição de limites de nenhum tipo. Era ser livre à exaustão e eu nunca tinha experimentado isso antes. Tinha apenas um vislumbre de como poderia ser. E tinha medo, também. Mas não consigo passar por nenhuma experiência sem fazer com que ela seja exagerada, sem fazer com que ela proceda à exaustão. E então, neste ano, no mês de março, andando já com as minhas próprias pernas, eu virei a chave e me mimei o máximo que pude. Me dei tudo o que eu podia. Me dei tudo que nunca, jamais me deram. Me dei o que sempre me foi negado. Eu estive presente em todos os momentos em que me rejeitaram. Fiz o diabo e eu não me cansava de me agradar. Isso durou o mês do meu aniversário inteiro… E foi bom. Até que eu saísse pela outra ponta. Porque, obviamente, isso passa. Enjoa. Enche o saco. E aí nesse retorno, nessa volta da náusea, a gente acaba aprendendo alguma coisa ou outra. E parece que eu aprendi uma coisa ou duas sobre o tal do ‘amor próprio’, que é, na verdade, uma grande bobagem. Um termo imbecil, marketeiro, falso. Eu achava que amor próprio fosse um paraíso cor de rosa, onde eu viveria sendo mimada pela eternidade. Isso é só mais uma ilusão. Amor próprio sequer devia ter esse nome. Pois ele, de verdade, não é fácil. É complexo. E não se trata de mimar-se. De se dar o melhor sempre. De fazer sempre o que se quer. É um pouco mais dolorido que isso. Por incrível que pareça, saber amar-se envolve saber estabelecer limites à si própria. É ser um pouco seu próprio pai e sua própria mãe. É saber dizer que não, não vai rolar. Não, você não pode. Não, você não vai. É saber dizer: chega, basta pra si mesma. É saber quando, como e porquê você deve se desautorizar uma série de coisas. E isso não é ruim, em absoluto. Como alguém que já voltou a ficar de pé e agora anda com suas próprias perninhas, acredito que isso possa ser o que chamam de amadurecer. Ainda estou me acostumando com a ideia. Com as restrições. Com os limites. Mas eles não me imobilizam: muito pelo contrário, me imprimem a velocidade que eu preciso para o momento, pra seguir adiante. Grandes merda a forma que nomeiam as coisas. Grandes merda o amor próprio. Aprendi a levantar. Hoje ando, devagar. Num próximo momento, eu vou dançar… Descalça. Até eu virar música.

%d blogueiros gostam disto: